14 de março de 2017

“TUDO INDICA QUE…” a história de um desenho


Um dos desenhos adquiridos na «Feira da Vandoma» a 1-10-2016. Desenho a tinta-da-china sobre papel: assinado e datado de 1935 com um poema de Álvaro de Campos, assinado. Dimensões (papel): 32x20,9.


No dia 1 de Outubro de 2016 adquiri, na Feira da Vandoma do Porto, por 15 euros, o desenho acima reproduzido. O indivíduo que mo vendeu informou-me que estava a substituir, naquele momento, o proprietário do espólio, «um espanhol» que se tinha ausentado do local poucos minutos antes. Sobre a origem dos desenhos, expostos e dispersos pelo chão numa lona de plástico, nada sabia.

Embora não sendo especialista na obra de Almada Negreiros, o traço e a circunstância de a um dos desenhos se associar um poema de Álvaro de Campos, deixou-me curioso. O vendedor tinha outros trabalhos semelhantes, todos colados sobre cartolina ou sobre cartão. Adquiri o que exibia o poema de Álvaro de Campos e um outro, de menores dimensões, intitulado Sherazade - aquele datado e assinado de 1935 e este de 1917, compra que resultou num total de 25 euros.

Como disse, embora sendo desconhecedor do processo de criação de Almada, verifiquei imediatamente que o traço dos desenhos (executado a tinta da china, técnica reconhecida dos trabalhos preparatórios e finais de Almada) e as próprias assinaturas (cada uma associada a um período da vida do autor) aproximavam-no aos exemplares que conheço, quer por consulta em livro quer por observação directa em contexto de exposição. E ambos, através das temáticas representadas, enquadram-se no tempo e na forma de produção de Almada, que elaborava, como se sabe, vários estudos antes do trabalho final.

O mais estranho eram, contudo, os lacres, os carimbos e as colagens apostas na frente e verso da cartolina e no verso do cartão: um carimbo dos Serviços Aduaneiros da Província de Angola e no verso de ambas as «molduras» colagens com etiquetas de papel indicativas da Presidência do Conselho de Ministros e da Fundação Calouste Gulbenkian, e ainda um lacre com monograma. Estes elementos pareciam claramente apostos aos desenhos para acentuar a sua autenticidade. Mas o estado do papel, amarelecido e com deterioração pela luz e acidez da tinta, parecia evidenciar trabalho antigo. 

Frente e verso da cartolina onde está montado (colado) o desenho.


Através de um amigo, contactei a Fundação Calouste Gulbenkian, que por canais informais me indicou o desconhecimento sobre tais desenhos ou a sua relação com a instituição.

Desenho [original] de Fernando Pessoa, executado por Almada Negreiros e vendido em 2008 pela PCV. Dimensões: 49x34 cm. Disponível aqui.


Contactei a leiloeira Palácio do Correio Velho para obter informação sobre o avaliador ou perito encarregue pela análise do desenho. Não obtive, até hoje, qualquer resposta.

Não sendo conhecedor, nem da obra nem do tempo artístico de Almada, propus-me contactar quem de direito ocupava esse lugar na produção historiográfica portuguesa. Numa busca em-linha surgiu um nome e o contacto de uma reputada investigadora, responsável pela inventariação do espólio do artista e a quem enviei a reprodução digital do desenho maior, explicando o percurso do mesmo.

A 10 de Outubro recebi a seguinte resposta: «estou cheia de trabalho. Infelizmente, pelo que pude ver, o seu desenho não será um estudo do Almada». Sem mais.

Naturalmente que uma observação directa ao desenho não basta para proferir uma asserção destas, quanto mais uma análise através de reprodução digital.

As perguntas que a investigadora não me colocou, coloquei-as eu aos técnicos do Museu do Papel, em Santa Maria da Feira. Efectivamente, sem possibilidade de fazer peritagens técnicas que impliquem análises internas ao suporte uma observação mais atenta permite identificar a marca d’água do papel que constituiu, neste tipo de obras, um elemento essencial quanto à sua datação. 

Recorte e trabalho de contraste realizado em photoshop para leitura da marca d'água do papel.


O profissionalismo da directora, Dr.ª Maria José Santos (a quem muito agradeço) contrastou com a atitude dos «peritos» antes contactados. A sua resposta foi célere:

«Na minha opinião, é impossível, no caso deste papel, afirmar com rigor uma data rigorosa para a sua produção, dado que o motivo principal desta marca de água (escudo representando uma cruz latina, encimado por uma coroa) deverá ter sido usado, na Fábrica de Porto de Cavaleiros, desde o início do século XX até finais da década de setenta, com algumas pequenas variantes: uma marca de água muito semelhante aparece em papéis desta fábrica da década de 1910: o mesmo motivo principal, tendo por baixo a palavra "THOMAR".§ Ou seja, a sua hipótese de que este belíssimo desenho possa ter sido realizado na década de 30 é perfeitamente ajustada. Bem gostaria de ser mais precisa relativamente à data de produção do papel que o suporta, mas, com rigor, não é possível fazê-lo dada a longevidade desta marca de água [sublinhado meu]»


Embora inconclusiva, esta análise permitiu-me aferir sobre a autenticidade do suporte. Colocando-se a hipótese de ser uma falsificação, estava perante uma boa falsificação, pois o falsificador preocupara-se em utilizar papel produzido durante a vida de Almada Negreiros (1893-1970).

Tendo como base esta hipótese fiz um primeiro contacto com a Polícia Judiciária, no sentido de averiguar sobre casos semelhantes. Tinha previamente sido informado por uma amiga sobre casos de falsificações da obra de Almada em Lisboa e, como tal, procurei aferir do estado e alcance dos mesmos.

Da conversa telefónica com o sr. Inspector Chefe resultaram mais dúvidas. Não se conhece qualquer caso recente de falsificação de desenhos nem a polícia dispõe de peritos específicos para a avaliação da autenticidade deste género de obras, recorrendo a técnicos de museu portugueses ou a antiquários. Em último caso, cabe ao Ministério Público conferir o «carimbo» de autêntico ou falso à obra em questão.

Naturalmente que me propus entregar os desenhos nas mãos da Polícia Judiciária, no sentido de esclarecer, pelo menos, se a venda dos mesmos resultará de actividade criminosa.

Mas a questão aqui parece ser mais séria. Este mundo da peritagem é um mundo de aparências, como de resto confirma o recente caso das pinturas expostas no Museu Nacional de Arte Antiga. O modo como se usa e abusa da comparação ou de análises formais mais ou menos supérfluas deixa o universo da História da Arte entregue a uma espécie de adivinhos ou xamãs da datação e das atribuições.

(Este sistema de «data-atribucionismo», lembra-me aquele sacerdote que conheci numa paróquia da Beira Alta que datava as imagens religiosas pondo a mão sobre elas e, fechando os olhos, proferia uma data profética).

Mais, o mundo académico da História da Arte encontra-se ainda profundamente refém do anatiquarismo que a bel-prazer de alguns e com naturais razões económicas, dribla datas e atribuições no sentido de obter proveitos com obras falsas ou claramente inflacionadas.

Para terminar não posso deixar de narrar o contacto com uma jornalista a propósito deste caso.

No sentido de esclarecer ou adiantar pistas para o percurso dos desenhos (que é afinal o que me interessa no meio de toda a questão e não o seu valor autêntico) contactei uma jovem jornalista de um grande jornal electrónico de cuja autoria fora reportagem sobre recém inaugurada exposição na Fundação Calouste Gulbenkian. Aliás, desde Fevereiro que têm saído vários artigos e entrevistas (nomeadamente às netas de Almada) que aportam alguns dados interessentes sobre o modus faciendi do artista, nomeadamente a sua generosidade na distribuição de desenhos e trabalhos seus por amigos e conhecidos.

Contactei-a a 30 de Janeiro e até ontem, 13 de Março, desenrolou-se um diálogo composto por várias trocas de emeiles, onde lhe expus os dados e as minhas dúvidas. A jornalista mostrou-se interessada e disse que ia procurar informações que pudessem explicar ou desmontar esta história de desenhos de Almada Negreiros à venda na feira da Vandoma.

No último emeile que me remeteu, escreveu. «Tudo indica que o desenho que tem em sua posse é fácil [sic]. Lamento.» Naturalmente que a jornalista foi traída ou pelo corrector ortográfico ou pela distracção, querendo dizer que o meu desenho era falso. Não explicou, contudo, o que é quis dizer aquele tudo, nem como chegou a ele.

É esta veleidade que no meio da história me deixa, enquanto investigador, particularmente preocupado. Sobretudo porque, como docente responsável de disciplinas de metodologia de investigação e análise em História da Arte, acho inadmissível que não se procure associar a qualquer trabalho de investigação, a devida explanação e crítica dos métodos utilizados no percurso de averiguação, datação e atestado da autenticidade de qualquer obra de arte ou fonte histórica.

Ao que parece em Portugal há alguns peritos, mas poucos cientistas. Talvez isso explique, em parte, alguma da nossa pobreza e incultura académicas nas áreas da História e da História da Arte.


1 de março de 2017

A polémica das pinturas: a autenticidade ou a falsidade do discurso?

Pintura da «Society of Antiquaries of London». Via Expresso


Espero ter o tempo e o discernimento suficientes para abordar a questão das pinturas por esta altura expostas no MNAA intituladas «O chafariz d'El Rei» e a «Rua Nova dos Mercadores». Não a questão da sua autenticidade, sobre a qual não disponho de informações e conhecimentos necessários que mo permitam fazê-lo, mas sobre o caso em si, a discussão pública que se originou entre vários investigadores da História e da História da Arte.
É, aliás, o teor desta discussão que interessa  analisar e que se resume cronologicamente nos seguintes documentos:
- 18 de Fevereiro de 2017: Diogo Ramada Curto e João José Alves Dias, em artigo e entrevista ao Expresso, afirmam a possível não autenticidade dos quadros com base numa comparação entre os elementos da composição e a documentação / conhecimento social da época.
- 22 de Fevereiro (nas vésperas da inauguração da Exposição A Cidade Global: Lisboa no Renascimento) a direcção do MNAA - Museu Nacional de Arte Antiga reage à posição dos historiador lançando um comunicado escrito em que reitera a confiança nos estudos de  Annemarie Jordan e K. J. P. Lowe sobre a origem, percurso e autenticidade das pinturas, sublinhando os contributos de outros investigadores, como Henrique Leitão («Prémio Pessoa»), Fernando Baptista Pereira e Vítor Serrão.
-22 de Fevereiro: Diogo Ramada Curto escreve um novo texto para o Expresso,  debruçando-se agora mais sobre a questão da temática da exposição do que o conteúdo iconográfico e iconológico dos quadros, assinalando que «Há um Estado Cultural que quer por o MNAA a render no circuito turístico» (título do artigo, DRC, Expresso, 22-2-2017).
- 23 de Fevereiro: Fernando Baptista Pereira faz publicar nas páginas do Expresso um texto com o título «Os quadros não são falsos». Nos dias anteriores, Vitor Serrão, na rede social Facebook, afirma o mesmo. Ambos se escudam na leitura iconográfica, propondo, contudo, «novos exames materiais e técnicos« (F.B.P., Expresso, 23-2-2017) que não haviam sido pedidos, nem executados aos quadros em análise.
À parte o enquadramento político e institucional que poderá emoldurar esta polémica (e que apenas podemos entrever em algumas das linhas escritas de parte a parte), algumas questões se levantam, entre as quais esta:
- Dada a força imagética, histórica e até mediática de ambas as pinturas (uma dela, de resto já conhecida publicamente desde finais da década de 1990) não teria sido mais proveitoso investir em análises técnicas que permitissem corroborar a sua datação, antes de avançar para as conclusões que hoje se apresentam?
É óbvio pelas várias reproduções que circulam que, iconograficamente ambas as constituem um manancial de informações que os métodos à disposição da disciplina da História da Arte exploram avidamente. Mas estes não são garantes de verdade absolutas como a polémica/discussão veio demonstrar.
Para já, e mais do que assacar culpas, interessa analisar esta questão à luz do diálogo inter e multidisciplinar que o novo tempo das ciências sociais tem propugnado, mas que não acontece. Apesar de grande parte da polémica se desenrolar nas redes sociais, não há consciência de rede no trabalho científico e a oposição historiadores-historiadores de arte que se construiu ao longo desta questão veio revelar o desfasamento entre as disciplinas e os seus actores. O teor da polémica não deixa de ser, em parte semelhante ao das grandes polémicas do século XX, em que se discutiam coutadas temáticas e menos a importância do conhecimento enquanto bem público e material educativo.

P.S. Obviamente, não discuto aqui as frases soltas (e francamente dispensáveis) do Ministro da Cultura ou as posições alinhadas dos seguidores de facebook do director do MNAA. Não é útil que se ceda a unanimismos, nem servilismo, quando se trata de discutir ciência.

9 de setembro de 2012

Sexo, sangue e futebol.

A RTP nunca foi uma estação de televisão para serviço público. Pelo menos até à abertura do mercado a outros canais, SIC e TVI. A partir dessa data, a RTP começou a prestar o tal serviço público, procurando incluir na sua grelha o que agrada à maioria dos telespectadores: sexo, sangue  e futebol (embora neste último caso já o fizesse com algum brio). É engraçado como a maioria dos comentadores, de esquerda, que aprecia ópera, uns filmes franceses e dissertações literárias em horário nobre acha que de repente a privatização ou concessão da RTP significa o fim do serviço público. Essa irrealidade chamada serviço público é servir bifanas em vez de filet mignon. Só quem vive num aquário de idealismo e ideologia é que não o vê.

5 de setembro de 2012

O fanatismo das "boas" causas.

Já tenho comprado brigas que não eram minhas e jurei que não ia comprar mais esta, sobretudo por não ser aficcionado, nem ter qualquer tipo de afinidade com touradas, lutas de cães ou galos ou práticas do género. Mas não me identifico, minimamente, com a onda de loucura que se tem abatido sobre as cabecinhas do mundo burguês, ocidental, que dorme, come e bebe bem, sobretudo porque vive num universo falso e completamente irreal - aquele em que o animal é o centro do mundo. Para esta gente que, repito, não tem consciência nem da evolução humana, nem respeito por ela, os animais devem ser deixados à sua mercê, intocáveis e, claro, fora da cadeia de alimentação. Há graus de insanidade que vão desde a não-acção (o que implica viver deitado e mastigar ervas e raízes a vida inteira) até à glorificação de todas as espécies, como portadoras de sensibilidade, o que significa existir praticamente como um morto, buscando nutrientes no ar e no vento, para utilizar uma expressão popular. 
Devo dizer que a maior parte desta gente é completamente a-social. Os amigos são os bichos de que se rodeiam, na rua ou em casa sendo incapazes de levar até ao fim qualquer tipo de relacionamento saudável, pelo simples facto de que o animal está sempre em primeiro lugar. Conheço alguns casos e é por isso que falo com tanta certeza.
A ideia de que podemos viver um mundo de coexistência harmoniosa, homens e animais é, claro, absurda. Para quem conhece as noções darwinianas, só os fortes podem prosseguir. Ou seja, na evolução das espécies ou se come, ou se é comido. Se a espécie humana é a mais forte, com certeza todas as outras se lhe submetem. Eu sei que há milhões de estudos e "investigadores" interessados em provar a sensibilidade dos bichinhos e das plantas, o sofrimento, a tristeza, mas só esta ideia de humanizar os animais é profundamente assustadora. E claro, terrivelmente egoísta e etnocêntrica. Tentem convencer um povo faminto a não tocar num animal. Falem-lhe dos sentimentos e do sofrimento do bicho. O ouvinte, de barriga vazia, achará que está a ser desrespeitado. E está. Eu, que tenho animais e que não sou indiferente às suas necessidades, pergunto-me por vezes, quando compro latas de comida para o meu gato ou cão, se não estarei a ser injusto para o meu semelhante que, algures, nem água potável tem para beber.
Isto a propósito da triste cena que se passou recentemente na Murtosa, Ovar, à porta de um espectáculo tauromáquico. De um lado as habituais fantochadas: meia dúzia de neo-hippies com cartazes, do outro, a infeliz reacção de um cavaleiro com arremedos marialvistas.
O discurso de uns e outros foi ainda mais triste: desde as desculpas esfarrapadas do cavaleiro até ao discurso desconexo de um grupo de pessoas, uma parte delas do estrangeiro, que veio ali manifestar-se só porque sim. Este tipo de caso que alguns consideram fracturante é irresolúvel, porque nasce do fanatismo. Sim, faça-se um referendo para terminar com as touradas. Ganham os vegetarianos, os vegan, os "amigos" dos animais, mas isto não será a derradeira luta. No dia seguinte virá o fim dos aviários, dos circos, do consumo de carne e de peixe como foi recentemente abordado por uma teórica-da-vida-feliz-dos-animais que considera o oceano um imenso aquário que devemos admirar.
Confesso que estou farto destes discursos e temas fracturantes, fragmentos de uma minoria cujo pensamento medíocre não vai além da concepção de "fofinho". Da mesma forma que não gosto de touradas, não tenho o mínimo apreço por gente histérica que vai gritar para a porta de praças de touros. Chegamos a um tempo em que o abismo não é uma construção metafórica e perder tempo com este tipo de assuntos devia ser considerado crime.

4 de setembro de 2012

As pessoas decentes.

"As pessoas decentes, felizmente uma maioria, quando pegam em coisas tão sérias e graves sobre as quais não faz sentido assumir uma posição pessoal, e muito menos de "esquerda" ou "direita", fazem por ser objectivas – como Rui Ramos. E a objectividade choca e fere e nisto previne juízos e condenações categóricas sobre pessoas e episódios, da mesma forma que nos poupa ao ridículo e possibilita que, por exemplo, um António Barreto, insuspeito homem de esquerda, possa constatar, com alguma curiosidade, que o Estado Social é uma realidade que, andando frequentemente na boca de Marcelo Caetano, em Portugal nasceu, estatisticamente, de medidas tomadas entre 1970-1974. Já as outras pessoas, as que simplisticamente remetem a personagem de D. Miguel para a categoria de «os maiores facínoras da nossa história» visando, com isso, atingir na sua credibilidade um historiador que deu mais do que provas de independência e firmeza científicas, não se eximem de manipular a História e os outros, tentando fazer de todos nós e à custa de uma narrativa oficial leviana e falsa um país de gente estúpida. E gente estúpida devemos ser, de facto, pois permitimos que esta cambada continue impunemente a fazer o que faz."
 Jacinto Bettencourt, com mestria, no 31 da Armada.

2 de setembro de 2012

É a vida.

Enquanto via, ainda há pouco, uma reportagem sobre a submersão do santuário de Santo Antão da Barca, em Alfândega da Fé e ao mesmo tempo ouvia as opiniões dos fiéis lembrava-me da bonomia das gentes deste país. Bonomia? Talvez a palavra simplório se aplique melhor ao feitio daquela boa população que entre mudar o lugar do santuário e ter água à farta junto à porta, ficava como um tolinho no meio da ponte sem saber para onde ir. Um convicto romeiro optava pela água, segundo ele para regar - ainda que não haja braços para o fazer, nem campos cultivados que recebam o precioso líquido...
Depois sucediam-se as costumeiras expressões: "é a vida", "tem que ser", "o que se há-de fazer?"... e um riso ou sorriso selavam o contrato praticado entre o poder, longínquo e abstracto, e o povinho, simplório mas sempre alegre, não obstante o fado ou fardo, pesados, que sempre recebe.
É tão fácil governar um povo assim, macambúzio e inerte. Basta comunicar-lhes que em troca de água de que não precisam mudarão o pouso do santo, posto ali há séculos. Uma devota, tratando-o como um pedaço de madeira disse que ele não fala e outra acrescenta que vai para o onde o levarem, sem se dar conta que ela também vai para onde a mandarem e, como o taumaturgo, sem tugir nem mugir.
Há muitos séculos que o progresso de obras vistosas e grandes é ouro para este país. O tal povinho vem ver a construção, os festejos e a obra pronta. Descobre, depois, que foi enganado. 
Paciência, "é a vida".

27 de agosto de 2012

A era da anti-arte.



No meu trabalho tenho conhecido muitas donas Cecílias Gimenez, pessoas bem intencionadas, que entram livremente em igrejas e ermidas com a pretensão de restaurar o património o qual, porque afecto ao culto não integra a categoria de acervo musealizado e representa historica e artisticamente uma comunidade, uma fé e as aspirações dos homens, artífices e encomendadores. No início chocavam-me os altares totalmente despojados do ouro e da policromia original e repintados a tinta plástica, como o paradigmático exemplo acima, exposto numa capela da região do Paiva. Considerei sempre criminoso o trabalho dos santeiros e outros amadores que chamam restauro a reconstituições e alteração dos materiais e técnicas inicialmente utilizados nas realização de peças religiosas e devocionais. Mas, apesar de ainda hoje defender o uso e conservação litúrgica e cultual destes objectos, afastando da ideia dos mais puristas a transformação das igrejas em museus, não posso deixar de repudiar o caso do Ecce Homo de Borja, em Espanha, como tantos outros que conheço em território português.
Em primeiro lugar ninguém tem direito a transformar património público, detido por uma comunidade, a seu bel-prazer, ainda que as suas intenções sejam as melhores. A Igreja, como detentora deste património, deve pugnar para que o mesmo espólio persista, íntegro e respeitando as funções originais para que foi concebido, sejam elas estéticas, catequéticas, devocionais ou litúrgicas. Se a cada de um de nós fosse permitido pegar numa pintura ou escultura religiosa e expressar nela a nossa própria ideia do que lá está representado, deixariam de existir exemplos de estilos e escolas, e passaríamos a acumular igrejas e museus com rabiscos pessoais. Isso não é arte é vaidade.
Teóricos de bancada e oportunistas vieram em defesa de D. Cecília, elevando-a à condição de visionária. A pobre mulher, que nada desejava criar que não fosse aprimorar e refazer o traço do verdadeiro artista, justificou-se com a obra incompleta a qual, segundo ela, devolveria a imagem tal qual era e como, efectivamente, deveria ser.
Os tais teóricos, uma maioria barulhenta que, aposto, nunca põe ou pôs os pés numa igreja, considera o novo Ecce Homo a 8.ª maravilha do mundo, mesmo apesar das advertências da D. Cecília. Volto a repetir o que disse há poucos dias sobre o caso pussy riot: o mundo aplaude tudo o que faça ruído e tenha cor. Neste caso, aplaudiu o feio, o esquizófrenico, o tétrico.
Basta olhar para o restauro incompleto e para a reprodução ad nauseam que dele se tem feito para compreender parte deste fenómeno que os sociólogos, esses cartomantes da ciências, já estudam: não interessa o valor original, estético, simbólico, artístico e iconográfico daquele Ecce Homo. Tudo isso é suplantado pela vulgaridade de um engano, de uma nódoa. O mundo que tem acesso às redes sociais e à televisão adora cumular-se de vulgaridade. Não poderia ser de outra forma. Dificilmente entende ideias mais complexas do que a de um pitoresco borrão saído da paleta de uma velhinha beata.

18 de agosto de 2012

It's a kind of magic!


De vez em quando, num gabinete destas Comissões de Coordenação, alguém tem uma epifania. Num país pouco dado a rasgos de génio, porque os génios geralmente não têm cunha para lubrificar o acesso aos lugares de chefia, qualquer ideia é uma excelente ideia. E quando não é, não importa porque o comum dos comuns também não distingue uma ideia brilhante duma alface. Outras vezes, ajuda-se o cérebro com elementos estimulantes, como parece ter sido o caso do inventor das "Montanhas mágicas"  a que a ADRIMAG tem dado especial notícia como complemento à ideia de turismo sustentável. As montanhas mágicas de Montemuro, Arada e Gralheira. fazem parte de um pacote de promoção dentro desse conceito metafísico chamado turismo sustentável, que se assemelha um pouco à ideia de uma bomba nuclear, mas sem o barulho da explosão. Subir à serra de Montemuro, pejada de torres eólicas, estradões de terra batida, lixeiras clandestinas, aldeias sem saneamento e serviços, chamar-lhe montanha mágica e ainda supor que se está a promover um tipo de turismo denominado sustentável exige uma dose muito grande de concentração. Ou de erva, daquela que transforma aerogeradores em estrelas e paisagem destruída em magia.

17 de agosto de 2012

Free Mandela vs free pussy riot.

Quando os telejornais abrem com as pussy riot, o jornalista a repetir pussy vezes sem conta, pergunto-me se estarei a ouvir bem. Três palerminhas, lá longe, na grande mãe autocrática chamada Rússia, velha de séculos ditatoriais, com as cabeças metidas num gorro gritam alienadamente contra um dos seus governantes, eleito, re-eleito e prestes a sê-lo. Não, não é o protesto em si, que me espanta. Há centenas deles por mês, milhares por ano. Há quem se regue com gasolina, quem faça greve de fome, quem se atire da janela. Estas três tontinhas meteram-se numa igreja, frenéticas, loucas, furiosas, a pular e a grunhir. O mundo aplaude. Não, não é o mundo aplaudir, o que me espanta, o mundo aplaude tudo o que faça ruído e tenha cor. Eu acho que o que me espanta nisto tudo é quase obrigarem-me a ser compassivo com três idiotas que querem fama, apoiar três malucas que acham que o poder autocrático da Rússia muda com os seus grunhidos histéricos. Lá longe há lutas para travar? Imensas. E cá não há? mesmo à porta de casa, dentro das nossas casas, não há problemas? Incontáveis. O mundo não encolheu assim tato, ou pelo menos teria encolhido se tivesse um cérebro. Felizmente que tudo isto, como  qualquer coisa que os média glorificam, acaba em pouco tempo. Coitado é daquele que luta em silêncio, que trabalha para se libertar e libertar os mais próximos, que está preso ou no exílio por querer uma liberdade séria, honrada e com valor. De resto, manifestações apoiadas por artistas como Madonna só revelam o que são: exercícios de estilo, hipócritas porque vindos de quem vive o cómodo luxo da liberdade. Definitivamente os ideais desmancham-se dia após dia na mediocridade dos seus arautos. Basta ver como soa confrontar free Mandela, ou free Aung San Suu Kyi com free pussy riot.