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| Gravura publicada em G., A. P. D. - Sketches of portuguese life, manners, costume and character. Londres: [Printed for Geo. B. Whittaker], 1826. |
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31 de março de 2017
A Vida Portuguesa.
16 de agosto de 2012
O enjoo.
Nem a crise fez entender que há demasiados professores para cada vez menos alunos, que não há transportes públicos (ou os que existem prestam mau serviço) porque os últimos 20 anos foram de compra desmedida de automóveis, que os serviços públicos fecham e afastam-se dos cidadãos porque os cidadãos fecham-se em casa em frente ao computador, por onde tudo se faz. É impossível fritar um ovo sem parti-lo. E a culpa, insisto, não é apenas dos políticos, artistas camaleónicos, capazes de tirarem proveito das crises. É do cidadão que se deixou anestesiar pela abundância. Agora acabou, a viagem acabou. Continue-se a pé.
7 de julho de 2012
A guerra de Shiva.
Vandana Shiva O TEMPO E O MODO (RTP 2012) from santiago muhape on Vimeo.
De vez em quando os ambientalistas trazem à colação um guru da ecologia para questionar o modelo actual (fazendo-nos crer que o capitalismo e o neo-colonialismo são os eixos em que se alicerça todo o mal da humanidade). A senhora entrevistada e cuja entrevista passou no programa o Tempo e o Modo disserta sobre todos os assuntos, desde física quântica a História, alinhando aliás, na tese de que Vasco da Gama e todos os ocidentais (brancos europeus piratas) não trouxeram ao Oriente se não desgraça e exploração. Depois fala em sustentabilidade, natureza, criatividade e multiculturalismo - coisa que é muito bonita vista de um dos lados - prossegue nas acusações. Desliguei quanto começou a falar no projecto masculino que caracteriza o modelo social, político, económico, etc., actual. Engraçado que, dentro de todas estas generalizações (ao que parece servem um habitante de Vladivostok e ao mesmo tempo um aborígene australiano) a senhora Shiva não se lembre da biologia humana. Se há competição, exploração ou subserviência é porque há quem aceite competir, quem queira explorar e até ser explorado e não se importe de ser servil. A moda só existe porque o ser humano é naturalmente competitivo. O mundo é complexo porque cada um de nós é complexíssimo. Achar que se muda o mundo com processos judiciais sobre patentes de usos ancestrais não me parece o caminho. Aliás, o tom do discurso da interlocutora é tudo menos pacífico ou pacificador. O tom das acusações e da leviandade da culpa que imputa à tal comunidade global que ao mesmo tempo elogia não é sequer um saudável paradoxo. É uma triste constatação de que Vandana é só mais uma nesta engrenagem que só se muda por dentro.
15 de março de 2012
A maioria das nossas populações é feita desses tipos intermédios, expectantes, passivos, em que lhes falei no começo destas notas, os os fortes pisam e manietam ao seu carro, e para quem não há lugar na vida agitante nos nossos dias. O resultado é este: em cima, o País gozado por dez ou doze bandidos, o todo fazendo permutações de infâmias e jigas-jogas de negociatas, que lhe permitem aguentarem-se alguns meses mais no tombadilho; em baixo a massa avulsa, morrinhenta, sórdida, sem força, desiludida de tudo, irrespeitosa de tudo, insultando-se como os bêbados, sofrendo o azorrague como os cães, vendo passar as afrontas indiferente, e deixando-se cair assim no próprio vómito, onde a letargia a assovaca, té que uma chicotada nova a faça outra vez estrebuchar.
Fialho de Almeida, Os gatos, 1893 (mas podia ser em 2012).
Citado em O Tempo Contado
Citado em O Tempo Contado
23 de fevereiro de 2012
Tristezas não pagam dívidas.
Não deixa de ser curioso que, em tempo de crise, a principal discussão das últimas semana tenha sido sobre o Carnaval. O país nunca deixou de rir, mesmo quando o mais natural fosse estar a chorar. Portugal é um imenso alfobre de piadas, humoristas e artistas circenses. Os políticos são malabaristas, o cidadão aquele Zé Povinho boçal, anafado, risonho e borracho. De resto, um país que se identifica com tamanha criatura, que ri de tudo, mesmo quando está prestes a perder a casa, a perder o emprego e a ficar sem comer, só pode ser um povo escolhido. Ele não precisa de quem o guie, abomina os políticos e os governantes, mas adora assistir às manigâncias deles, entre uma talhada de melancia e um copo de vinho verde.
Na Grécia está tudo a ferro e fogo, lá onde a comédia foi inventada e vive lado a lado com a tragédia. Cá, os homens vestem-se de mulheres e mangam do primeiro-ministro, que lhes tirou o feriado. Um feriado de e para brincar. É assim este quadro, que de tão ridículo chega a ser grandioso. Às vezes aparece alguém a dizer-se o novo D. Sebastião (Afonso Costa, Salazar, Mário Soares, Cavaco Silva...), mas não é preciso. Em 500 anos a coisa até tem corrido bem, dadas as circunstâncias. É uma gestão curiosa que nunca resultará em tumultos: os políticos e as elites roubam as duas fatias maiores do bolo, o povo – conquanto o político não se roube mais de dois terços anui – e reparte entre si a última fatia. É um roubo absolutamente democrático e consentido: uma mão lava a outra e as duas lavam as dos outros.
A coisa nunca resultará como na Grécia, em incêndios, feridos e ódio. Quando muito, por cá, mataremos um ou outro político à gargalhada, com matrafonas, gigantones e carros alegóricos. As nossas pistolas são bisnagas com água.
Na Grécia está tudo a ferro e fogo, lá onde a comédia foi inventada e vive lado a lado com a tragédia. Cá, os homens vestem-se de mulheres e mangam do primeiro-ministro, que lhes tirou o feriado. Um feriado de e para brincar. É assim este quadro, que de tão ridículo chega a ser grandioso. Às vezes aparece alguém a dizer-se o novo D. Sebastião (Afonso Costa, Salazar, Mário Soares, Cavaco Silva...), mas não é preciso. Em 500 anos a coisa até tem corrido bem, dadas as circunstâncias. É uma gestão curiosa que nunca resultará em tumultos: os políticos e as elites roubam as duas fatias maiores do bolo, o povo – conquanto o político não se roube mais de dois terços anui – e reparte entre si a última fatia. É um roubo absolutamente democrático e consentido: uma mão lava a outra e as duas lavam as dos outros.
A coisa nunca resultará como na Grécia, em incêndios, feridos e ódio. Quando muito, por cá, mataremos um ou outro político à gargalhada, com matrafonas, gigantones e carros alegóricos. As nossas pistolas são bisnagas com água.
12 de outubro de 2011
O bailinho da Madeira.
A conversa habitual, em democracia é, depois de contados os votos, "ganhou A, perdeu B, C ou D". Ninguém se lembra porque é que votou ou quem não votou, as suas razões e as estratégias dos AA e dos BB para arrebanhar os papelinhos para a urna. Talvez por isso, ciclicamente, surjam uns indignados na praça que querem o regresso das ditaduras marxistas, como alternativa à democracia (a este propósito sugiro a leitura do artigo de Pedro Lomba, ontem, no Público). Mas é curioso que, uns e outros, têm sempre a palavra povo na boca. Já aqui referi esta falácia de considerar povo como algo de onde emana a salvação. Povo é, para os políticos, o Outro - prova de que a democracia só funciona à boca da urna e que política não combina com cidadania.
O que me espanta nesta balbúrdia toda é que, da Esquerda à Direita e, sobretudo os indignados da praça, todos, sem excepção, queiram salvar aquele povo que os repudia, que vota Alberto João Jardim, que venera Salazar, que vê e aplaude touradas, que pára em acidentes e que os provoca, que deseja ardentemente substituir cultura por futebol e viver em centros comerciais ao domingo. E que acha que o ponto mais alto do dia é saber o resumo da Casa dos Segredos. Ir para uma praça ou um parlamento falar por este "povo", defendê-lo e invocá-lo deve compensar muito o esforço, realmente. Deve ser muito terapêutico para uns e financeiramente vantajoso para outros. Eu precisaria de um estômago novo todos os dias.
25 de julho de 2011
28 de abril de 2011
O Historiador.
V. Magalhães Godinho (C) José Ventura / Expresso
O ofício de Historiador já foi respeitado em Portugal.
Alexandre Herculano era ouvido pelos políticos, Oliveira Martins constituiu uma espécie de decano da sabedoria oitocentista e, mais recentemente, a perda de A. H. de Oliveira Marques originou um irremediável vazio na cultura portuguesa. Bem sei que José Mattoso assume ainda o papel de uma mítica figura, a que se recorre, de quando a quando, para questionar sobre o esplendor do Passado e honrar a intelectualidade a partir da ideia do velho sábio, entretido entre alfarrábios, a compilar dados inúteis que ninguém lê ou lerá a não ser ele próprio. Mas os últimos anos têm levado o resto do valor da figura do Historiador. E agora mesmo desaparece Vitorino Magalhães Godinho, um homem inconformado, como todos o deveriam ser.
Vendo bem, o grande problema na forma como se olha para o ofício de Historiador é o de nunca o considerarmos como um inadaptado, como alguém que ousa falar contra. O Historiador, para o público comum, é um ser inerte, acomodado, bibelot decorativo de arquivos e bibliotecas. Em último caso, um animador de palestras ou de comemorações de centenários, às vezes agitador de intelectuais ou entretenimento ligeiro para telespectadores curiosos. E a culpa deste cliché acaba por ser dos próprios.
Primeiro, porque os Historiadores, aqueles que acreditam que fazem ciência, que escrevem para o desenvolvimento do conhecimento colectivo, admitem que a História seja mal tratada. Todos os dias as Câmaras Municipais publicam "monografias" redigidas a título gratuito por amadores. Desde logo, o Historiador passa a ser um estoriador, um carola que vive de ar e vento e escreve uns artiguelhos por simples diversão. Aliás, qualquer indivíduo minimamente instruído parece mais do que qualificado para escrever História, desde o comentador político ao jornalista. E para um Presidente de Câmara cujo objectivo maior é encher o seu município com rotundas, chafarizes e sinais de trânsito, e exaltar estas hediondas obras, qualquer livro com fotografias e alguns textos laudatórios é passível de constituir edição maior da História Local.
Alexandre Herculano era ouvido pelos políticos, Oliveira Martins constituiu uma espécie de decano da sabedoria oitocentista e, mais recentemente, a perda de A. H. de Oliveira Marques originou um irremediável vazio na cultura portuguesa. Bem sei que José Mattoso assume ainda o papel de uma mítica figura, a que se recorre, de quando a quando, para questionar sobre o esplendor do Passado e honrar a intelectualidade a partir da ideia do velho sábio, entretido entre alfarrábios, a compilar dados inúteis que ninguém lê ou lerá a não ser ele próprio. Mas os últimos anos têm levado o resto do valor da figura do Historiador. E agora mesmo desaparece Vitorino Magalhães Godinho, um homem inconformado, como todos o deveriam ser.
Vendo bem, o grande problema na forma como se olha para o ofício de Historiador é o de nunca o considerarmos como um inadaptado, como alguém que ousa falar contra. O Historiador, para o público comum, é um ser inerte, acomodado, bibelot decorativo de arquivos e bibliotecas. Em último caso, um animador de palestras ou de comemorações de centenários, às vezes agitador de intelectuais ou entretenimento ligeiro para telespectadores curiosos. E a culpa deste cliché acaba por ser dos próprios.
Primeiro, porque os Historiadores, aqueles que acreditam que fazem ciência, que escrevem para o desenvolvimento do conhecimento colectivo, admitem que a História seja mal tratada. Todos os dias as Câmaras Municipais publicam "monografias" redigidas a título gratuito por amadores. Desde logo, o Historiador passa a ser um estoriador, um carola que vive de ar e vento e escreve uns artiguelhos por simples diversão. Aliás, qualquer indivíduo minimamente instruído parece mais do que qualificado para escrever História, desde o comentador político ao jornalista. E para um Presidente de Câmara cujo objectivo maior é encher o seu município com rotundas, chafarizes e sinais de trânsito, e exaltar estas hediondas obras, qualquer livro com fotografias e alguns textos laudatórios é passível de constituir edição maior da História Local.
Pois nenhum historiador clama contra isto. Nem a Academia Portuguesa da História, cujo objectivo principal devia ser o de zelar pela preservação da Memória nacional é capaz de se insurgir contra esta "deseducação" massiva que alimenta bibliotecas escolares, como se fosse possível levar a sério a prosa de um médico ou de um operário só porque leram meia dúzia de verbetes no dicionários do Pinho Leal!
Depois, o Historiador escreve quase sempre de si para si.
Depois, o Historiador escreve quase sempre de si para si.
7 de abril de 2011
"Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
como cabeça ali da Europa toda,
em cujo senhorio e glória estranha
muitas voltas tem dado a fatal roda;
mas nunca poderá, com força ou manha,
a Fortuna inquieta pôr-lhe noda
que lha não tire o esforço e ousadia
dos belicosos peitos que em si cria."
Camões, Lusíadas.
Primeiro passo para sair desta embrulhada: gostar de Portugal, gostarmos de nós, acreditarmos em nós. Em épocas de crise, o colectivo é importante. Chega de "gerações à rasca", de lamúrias e maledicência. Não basta que agências de especulação e países estrangeiros nos tratem como subalternos, ou lixo, ainda queremos contribuir para denegrir a nossa própria imagem? Não. Se temos maus políticos é porque temos acreditado que não merecemos melhor. Mas merecemos. Temos um capital humano valioso, temos um Passado que nos honra e o necessário para singrar. Mas é importante que comecemos a fazer pelas nossas mãos o que os outros têm tomado por "procuração".
16 de março de 2011
Basta! Revolução ou renovação?
Circulam, na internet, vários textos que salientam o exemplo da Islândia como um caso de sucesso no turbilhão da crise económica. Porém, à parte de nos esclarecer sobre a redacção de uma nova Constituição ou, antes, sobre uma reescritura do documento constitucional ad fundamentis (por um grupo de cidadãos extra-partidários), os textos em causa pouco mais nos informam sobre a verdadeira situação social islandesa, rematando, contudo, que aquele país insular saiu da bancarrota pelo seu pé. Ora isto não é verdade: as contas estão por pagar, as ruínas bancárias por reedificar e o futuro não parece brilhante para os cidadãos da pequena república.
Porém, devo assinalar uma coisa que me parece sobremodo importante: a forma como os islandeses sacudiram o jugo partidário da sua governação é a pedra de toque desta renovação. Repare-se, não falo em revolução, pois não a houve, mas de uma transição pacífica de uma partidocracia, até aqui gerida por partidos de Direita e de Esquerda que deixaram a Islândia de rastos. Cansados do jogo e pressionados pela grave situação, os islandeses resolveram deixar de contribuir para o engrandecimento partidário e resolveram tomar nas mãos as rédeas da Democracia e participar no desenvolvimento nacional. Têm a seu favor o facto de serem uma ilha e de nela morarem pouco mais de 300 mil habitantes.
Conter uma crise e resolvê-la com recurso a uma administração directa neste caso, dirão, é mais fácil, e eu concordo. Mas num país como Portugal, em que tanto a Esquerda como a Direita têm, com voracidade, feitos os possíveis e os impossíveis para, sob a desculpa da ética republicana deglutir o Bem Comum sem ouvir os seus habitantes, existem muitas "ilhas" que facilmente poderiam ser geridas directamente pelos cidadãos, sem passar pelos partidos. Apenas um "senão": a nossa Constituição assenta numa perspectiva multipartidária da democracia; favorece o jogo partidocrático e transforma o cidadão num mero peão de xadrez.
É preciso mudá-la e, efectivamente, transformar a democracia num exercício de intervenção pessoal e colectiva directa. Alterar a lei eleitoral para que possam existir candidaturas individuais por círculo, limitar o número de deputados partidários e estimular a participação associativa municipal nas edilidades são alguns dos caminhos a seguir. Creio que Basta! sim, mas de partidos.
14 de março de 2011
Apontamentos de mercearia.
Faço um circuito pelo centro, dito histórico, da cidade do Porto, em busca da velha retrosaria na rua dos Caldeireiros e do encadernador da Vitória, à ilharga da rua de São Miguel. Ambos encerrados, provavelmente vergados pela ausência de clientela. Qualquer dia só temos lojas para venda de artigos académicos. Sobra em togas, neste país, o que falta em sovelas.
20 de outubro de 2010
Conversa de táxi.
Na viagem de táxi de estação até à vila, a conversa do costume: que as cunhas dominam no já escasso mercado local de emprego; que o executivo municipal, de uma forma ou de outra, premeia e pune os que são (ou fingem ser) da sua cor política ou os que, pelo contrário (poucos) teimam em remar contra a corrente. Por outro lado, que há quem não queira trabalhar, que se passeie ao domingo com a melhor roupinha da semana, que frequente sítios públicos para afirmar estatuto que não possui e gastar dinheiro que não tem. Vim o caminho todo a ouvir esta conversa politicamente incorrecta. O género de afirmações que, em Lisboa, os tecno-socratas negariam, benzendo-se três vezes. A bem ver, no interior a crise nunca deixou de existir, pelo simples facto de que, aqui, nunca deixou de haver crise. É um modo de vida, perfeitamente ajustado às comunidades que se habituaram a viver com pouco, fingindo muito.
14 de outubro de 2010
Tráfico.
Agora que estreia o novo filme de João Botelho (Lamego, 1949), "O Filme do Desassossego", convém recordar aquele que considero ser, juntamente com "Vai e vem", a mais completa descrição cinematográfica dos costumes portugueses: Tráfico. Um Presidente que ouve constantemente o som de balidos e a sua amante, dois padres alentejanos que vendem as imagens religiosas da igreja e partem de mochila às costas para Lisboa, um casal de um bairro social de Lisboa que encontra droga numa praia e enriquece, a high-society alimentada a sardinhas cocaínadas, a tonta mulher do general envolvido em negócios obscuros, uma vernissage no Centro Cultural de Belém com Bagão Félix, etc etc. Todo o filme é um delírio visual e os diálogos são pérolas deliciosas que se dissolvem na boca de um excelente naipe de actores, como Canto e Castro, Rosa Lobato Faria, Ria Blanco, Alexandra Lencastre, São José Lapa, etc etc. É certo que enferma de uma arritmia de que, quase endemicamente, caracteriza a realização e a produção cinematográfica portuguesa, mas supera-o a boa fotografia, os planos e o enredo. Foi apresentado em 1998, nas vésperas do último esgar imperialista deste país, mas é hoje tão actual como o será daqui a 20 anos.
Alguns momentos inesquecíveis:
"Antigamente, quando não tinham talento para exercer uma profissão iam para artistas plásticos. Hoje vão para deputados, comentadores políticos e jornalistas; e, segundo parece, ganham bastante bem."
"Tenho a cultura média de um europeu."
"Para mim isto é obra de um desempregado."
"- Pobreza não é crime.
- É incompetência."
1 de setembro de 2010
Teenage dream

"É uma certeza que o demónio apresenta-se por vezes na forma de pessoas não apenas inocentes, mas também muito virtuosas".
Rev. John Richards, século XVII
Eu tiro fotografias a pessoas. A conhecidos ou anónimos, o que inclui adultos e crianças. Faço-o, claro, sem implicar identificações não consentidas. E gosto, especialmente, de fotografar crianças pela sua espontaneidade, pela vivacidade, pelos sorrisos. É óbvio que a fotografia implica uma captação, a fixação daquele instante (parafraseando M. de Sá Carneiro) que é sempre tão íntimo e tão pessoal e por cuja razão o seu uso deve ser ponderado e correcto. Mas não posso deixar de ficar preocupado com as recentes notícias que dão conta de certas detenções ocorridas em Vilamoura e Moledo. Dois fotógrafos foram detidos após queixa de alguns pais. Segundo estes, os indivíduos actuavam de forma "estranha" e tinham na sua posse várias centenas de fotografias de crianças. Parece notório o crime, porém não posso deixar de considerar censurável que se actue perante este problema (o da exposição pública de crianças) com dois pesos e duas medidas. Todos os dias milhões de fotografias são despejadas na internet por crianças e adolescentes. A maioria delas apela para a exaltação da nudez e da sexualidade. Sites como o hi5, o netlog, o flickr e mesmo o facebook têm acessíveis fotografias francamente explícitas e não foram colocadas por terceiros, se não pelos menores nelas apresentados. E não sei se têm reparado como os videoclipes musicais sexualizam cada vez mais a criança/adolescente (um dos últimos vídeos de Katy Perry, intitulado Teenage Dream, é francamente paradigmático). Então, quem responsabilizamos? Doravante terei mais cuidado com as fotografias que executar. Talvez erradique a figura humana e volte ao abstraccionismo puro. Parece-me que neste novo tempo de caça às bruxas é cada vez mais complicado distinguir entre inocentes e virtuosos...
26 de janeiro de 2010
Da causa da decadência dos portugueses: o Riso.

"O que antigamente chamavaõ em Roma Aedicula Ridiculi, era a Ermida, ou Capella do Riso, dous mil passos de Roma pela porta Capena; foy edificada em memoria da fugida de Annibal, quando pelas grandes chuvas, e borrascas se vio obrigado a levantar o sitio, e os Romanos zombáraõ delle com grandes risadas. Naõ foraõ os Romanos os primeiros, que do Riso fizeraõ hum Deos. Na vida de Lycurgo escreve Plutarco, que este Legislador lhe levantára em Lacedemonia huma estatua, e os Hypaheos de Thessalia, todos os annos lhe offereciaõ sacrificios, como tambem os Romanos, na Primavera com grandes gargalhadas. Faz Pausanias mençaõ de hum Deos do Riso, a que os Gregos chamavaõ Theos Gelotos. "Exarado do Vocabulário, de R. Bluteau (1712-1728).
Nunca como nos últimos 5, 10 anos se riu tanto em Portugal. Todos os dias aparece um motivo de gracejo, ou um gracejo dito por qualquer motivo, declamado por um dos inúmeros comediantes que todos os dias desfilam nos meios de comunicação.
Mas o movimento não é novo. Em finais do século XIX, entre a instabilidade, a conspiração e a sensação de declínio, ria-se; ria-se muito. Todos riam, da ralé ao rei, do sacristão ao bispo, do radical ao conservador. A comédia sempre foi um dos nossos vícios. Juntamente com a sodomia, o laxismo, a beatitude. Antero de Quental, na sua obra maior sobre a causa da decadência dos povos peninsulares afirma que «Os romances picarescos espanhóis e as comédias populares portuguesas são irrefutáveis actos de acusação, que, contra si mesma, nos deixou essa sociedade, cuja profunda desmoralização tocava os limites da ingenuidade e da inocência no vício». Mas não avançou muito mais. Esqueceu-se de dizer que o vício maior era o rir. Qualquer português é um potencial comediante. Talvez mais os homens, do que as mulheres. Ao «vai-se andando» feminino segue-se o piropo masculino, rude, bestial, sexual. Qualquer feito nosso anula-se numa piada.
Aquele Zé Povinho barbudo, vermelhão, borracho e feio é, realmente o melhor ícone nacional. Revela o mais belo do carácter da maioria dos portugueses: está sempre a mostrar os dentes, embevecido num gracejo vulgar, quando não sórdido. A melhor comédia faz-se sempre com a desgraça, como sabemos e, bom, ainda que tal não seja exclusividade lusa, revela-se cá em infindáveis variações anedóticas sobre acidentes, desgraças, catástrofes. Não sei se alguém se riu logo a seguir ao Terramoto de 1755, mas com certeza muito se gargalhou à conta de tombos, amputações e desesperos que se tornaram lubricidades. O trágico e o cómico andaram sempre de mão dadas. Mesmo os mais propensos à sisudez, como certos intelectuais do decadentismo de oitocentos, inoculavam nos espíritos mais cultos, uns gracejos ou remoques. Alexandre Herculano, à cabeceira da morte terá dito que este país dava vontade de morrer. O povo, esse deliciava-se com o escabroso, com o mais leve desarranjo da rotina. O riso era e é o lenitivo, mas em excesso torna-se psicotrópico. Estamos cada vez mais entorpecidos e a risota é uma das causas da nossa queda - e olhem que não falo metafórica ou metafisicamente: o tempo que despendemos a rir (não conheço estatísticas mas seriam com certeza reveladoras) são minutos, horas, dias preciosos para dar um alento substancial à economia e à produtividade. Rimos em excesso e ainda assim não somos felizes. O que se passa então?
Parece que nos portugueses o riso é como um formigueiro que paralisa as pernas. Como ninguém leva nada a sério, não há empenho e como os sisudos são vistos com desconfiança, raramente são respeitados. Através da comédia tudo se banaliza e, como a maioria dos comentadores são, hoje em dia, comediantes, nada escapa ao véu desculpabilizador do gracejo: - AH! Vejam, aquele político é um corrupto!AHAH! bem haja quem é esperto!HAHA! - A sátira foi, noutros tempos, uma forma de combate político e ideológico, mas em Portugal é, nos últimos anos, uma forma de passividade. De resto a sátira portuguesa foi sempre passiva, quase nunca interventiva. É maliciosa apenas no seu sentido sexual, mas extremamente permissiva.
O jornalista russo Ilya Ehrenburg terá escrito que o anti-semitismo começou com piadas obscenas ditas nas cervejarias de Munique. Não poucos conflitos começaram com tiradas menos felizes que se converteram em tragédias. Dificilmente o nosso vasto alfobre de anedotas racistas, chauvinistas ocasionará uma ditadura feroz como a do nacional-socialismo alemão da década de 1930. Nem este breve ensaio é uma apologia à sisudez. Mas enquanto rimos, um mundo sério, arrumado e empreendedor vai desaparecendo.
Mas o movimento não é novo. Em finais do século XIX, entre a instabilidade, a conspiração e a sensação de declínio, ria-se; ria-se muito. Todos riam, da ralé ao rei, do sacristão ao bispo, do radical ao conservador. A comédia sempre foi um dos nossos vícios. Juntamente com a sodomia, o laxismo, a beatitude. Antero de Quental, na sua obra maior sobre a causa da decadência dos povos peninsulares afirma que «Os romances picarescos espanhóis e as comédias populares portuguesas são irrefutáveis actos de acusação, que, contra si mesma, nos deixou essa sociedade, cuja profunda desmoralização tocava os limites da ingenuidade e da inocência no vício». Mas não avançou muito mais. Esqueceu-se de dizer que o vício maior era o rir. Qualquer português é um potencial comediante. Talvez mais os homens, do que as mulheres. Ao «vai-se andando» feminino segue-se o piropo masculino, rude, bestial, sexual. Qualquer feito nosso anula-se numa piada.
Aquele Zé Povinho barbudo, vermelhão, borracho e feio é, realmente o melhor ícone nacional. Revela o mais belo do carácter da maioria dos portugueses: está sempre a mostrar os dentes, embevecido num gracejo vulgar, quando não sórdido. A melhor comédia faz-se sempre com a desgraça, como sabemos e, bom, ainda que tal não seja exclusividade lusa, revela-se cá em infindáveis variações anedóticas sobre acidentes, desgraças, catástrofes. Não sei se alguém se riu logo a seguir ao Terramoto de 1755, mas com certeza muito se gargalhou à conta de tombos, amputações e desesperos que se tornaram lubricidades. O trágico e o cómico andaram sempre de mão dadas. Mesmo os mais propensos à sisudez, como certos intelectuais do decadentismo de oitocentos, inoculavam nos espíritos mais cultos, uns gracejos ou remoques. Alexandre Herculano, à cabeceira da morte terá dito que este país dava vontade de morrer. O povo, esse deliciava-se com o escabroso, com o mais leve desarranjo da rotina. O riso era e é o lenitivo, mas em excesso torna-se psicotrópico. Estamos cada vez mais entorpecidos e a risota é uma das causas da nossa queda - e olhem que não falo metafórica ou metafisicamente: o tempo que despendemos a rir (não conheço estatísticas mas seriam com certeza reveladoras) são minutos, horas, dias preciosos para dar um alento substancial à economia e à produtividade. Rimos em excesso e ainda assim não somos felizes. O que se passa então?
Parece que nos portugueses o riso é como um formigueiro que paralisa as pernas. Como ninguém leva nada a sério, não há empenho e como os sisudos são vistos com desconfiança, raramente são respeitados. Através da comédia tudo se banaliza e, como a maioria dos comentadores são, hoje em dia, comediantes, nada escapa ao véu desculpabilizador do gracejo: - AH! Vejam, aquele político é um corrupto!AHAH! bem haja quem é esperto!HAHA! - A sátira foi, noutros tempos, uma forma de combate político e ideológico, mas em Portugal é, nos últimos anos, uma forma de passividade. De resto a sátira portuguesa foi sempre passiva, quase nunca interventiva. É maliciosa apenas no seu sentido sexual, mas extremamente permissiva.
O jornalista russo Ilya Ehrenburg terá escrito que o anti-semitismo começou com piadas obscenas ditas nas cervejarias de Munique. Não poucos conflitos começaram com tiradas menos felizes que se converteram em tragédias. Dificilmente o nosso vasto alfobre de anedotas racistas, chauvinistas ocasionará uma ditadura feroz como a do nacional-socialismo alemão da década de 1930. Nem este breve ensaio é uma apologia à sisudez. Mas enquanto rimos, um mundo sério, arrumado e empreendedor vai desaparecendo.
16 de novembro de 2009
A Arte de Gastar I.
Família que ganhou 600 mil euros no totoloto vive hoje de rendimento mínimo atribuído pelo Estado português.
«(...) três milhões. Esta quantia em 1799 era um colosso de ouro, uma fábula oriental, o sonho de um avarento, o mais que poderiam dar de si as fábricas de moeda que cabiam na imaginação de Lacalprenéde e Redacliffe.
(...)
Agora abramos a lista dos co-herdeiros dos três milhões de herança de Manuel e Eulália Vieira.
Determinaram ambos os testadores que a terça fosse distribuída pelos pobres de Rendufinho, onde Manuel havia nascido, e pelos de Vilar e Geraz, donde eram os pais de Eulália. (...)
Na cobrança dos legados contravieram estorvos e trapaças de toda a espécie, desde a justa precaução da lei até à ladroeira desbragada.
Por parte dos pobres, contemplados com a terça, saíram com procuração uns solicitadores que já se haviam enriquecido, mancomunados com as justiças inglesas, antes que os herdeiros pusessem as vistas nas pilhas nos soberanos. (...)
Na repartição da terça pelos pobres de Vilar e Rendufinho ressaltaram novos impedimentos. As outras freguesias do concelho destacaram moradores provisórios para as duas contempladas. Cada lavrador encheu as suas cortes de criados gratuitos, sob condição de os arrolar na lista dos pobres. (...) Lavradores remediados apresentaram certidão de pobreza com grande escândalo dos verdadeiros pobres que umas vezes espancavam os adventícios, e algumas vezes os seus próprios vizinhos, de quem haviam recebido mercês.
Na expectativa da herança, que em Lanhoso sofrera grossa sangria dos agentes emparceirados com a justiça, os jornaleiros recusavam pegar na enxada, e as mulheres olhavam para as rocas e sarilhos com entojo. Faltaram braços para as ceifas; a colheita de dois anos foi mesquinha; e, primeiro que se emborcasse a cornucópia das peças, houve fome. (...)»
Camilo Castelo Branco, O demónio de ouro, Vol. II.
«(...) três milhões. Esta quantia em 1799 era um colosso de ouro, uma fábula oriental, o sonho de um avarento, o mais que poderiam dar de si as fábricas de moeda que cabiam na imaginação de Lacalprenéde e Redacliffe.
(...)
Agora abramos a lista dos co-herdeiros dos três milhões de herança de Manuel e Eulália Vieira.
Determinaram ambos os testadores que a terça fosse distribuída pelos pobres de Rendufinho, onde Manuel havia nascido, e pelos de Vilar e Geraz, donde eram os pais de Eulália. (...)
Na cobrança dos legados contravieram estorvos e trapaças de toda a espécie, desde a justa precaução da lei até à ladroeira desbragada.
Por parte dos pobres, contemplados com a terça, saíram com procuração uns solicitadores que já se haviam enriquecido, mancomunados com as justiças inglesas, antes que os herdeiros pusessem as vistas nas pilhas nos soberanos. (...)
Na repartição da terça pelos pobres de Vilar e Rendufinho ressaltaram novos impedimentos. As outras freguesias do concelho destacaram moradores provisórios para as duas contempladas. Cada lavrador encheu as suas cortes de criados gratuitos, sob condição de os arrolar na lista dos pobres. (...) Lavradores remediados apresentaram certidão de pobreza com grande escândalo dos verdadeiros pobres que umas vezes espancavam os adventícios, e algumas vezes os seus próprios vizinhos, de quem haviam recebido mercês.
Na expectativa da herança, que em Lanhoso sofrera grossa sangria dos agentes emparceirados com a justiça, os jornaleiros recusavam pegar na enxada, e as mulheres olhavam para as rocas e sarilhos com entojo. Faltaram braços para as ceifas; a colheita de dois anos foi mesquinha; e, primeiro que se emborcasse a cornucópia das peças, houve fome. (...)»
Camilo Castelo Branco, O demónio de ouro, Vol. II.
11 de novembro de 2009
Coisas interessantes ou coisas que interessam?
Num país com uma longa tradição de corrupção, numa altura em que aumentam de dia para dia os escândalos descobertos nas esferas da alta finança, o Governo e a Igreja vêm discutir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Tanto o Estado, na sua faceta providencialista, (quando não simplesmente manipuladora), como a Igreja, enquanto instituição dotada de personalidade jurídica e com inegável importância na sociedade portuguesa (quer queiram os jacobinos, quer não) têm todo o direito a intervir nesta questão que ultrapassa aspectos meramente legalistas. § Mas se do lado do Estado, a questão se assume de um simples ponto de vista - cumprimento de uma agenda política (PS), dependente de outra (BE) - preocupa-me que a Igreja, enquanto instituição com preocupações assistenciais e sociais, alinhe nesta estratégia do atirar areia para os olhos dos portugueses. Um referendo esclareceria a questão: ganharia, muito provavelmente, a abstenção. Mas é desnecessário. § A quem interessa o assunto? Às minorias, a um Bloco de Esquerda que se esgota neste tipo de abordagens e a uma franja da Igreja acoitada que tenta fundamentar-se num modelo de família heterossexual, fiel e monogâmica, recusando a mudança social, rápida e indiferente ao casamento. Hoje mesmo uma notícia o confirma: os portugueses casam-se cada vez menos e os divórcios duplicam. Não seria melhor que a Igreja fizesse uma campanha a favor do casamento heterossexual em detrimento de uma política de agressão (que não quer, nem pode aguentar) contra o Governo? O que não deixa de ser paradoxal; ou seja, que as pessoas do mesmo sexo, queiram equiparar-se aos casais heterossexuais, constituindo uma família (ainda que sem laços consanguíneos), espelho daquela que a Igreja advoga como pedra basilar da sociedade. Em que ficamos então? Ficamos a olhar para uma desagregação da Sociedade em uniões de facto, outras momentâneas, poligâmicas, promiscuas em vez de apoiar as estruturas nucleares (que, como bem sabemos nunca foram o modelo apresentado pelo catolicismo) (*)? § A Igreja não pode aguentar esta batalha, nem quererá, dado que é refém da República Portuguesa. Esta dependência começou no Liberalismo e hoje é cada vez mais evidente, quer na forma como do Estado dependem em larga escala as IPSS's católicas, que a nível municipal onde os párocos locais são, tantas vezes, extensões das edilidades que, em alguns casos, não se poupam a esforços para agradar a fiéis e comissões fabriqueiras. § Que o Partido Socialista use destes truques para ludibriar as atenções sobre a corrupção, o desemprego, ou o défice, etc, compreende-se, sendo certo que colhe tais habilidades na cartilha para a boa arte da política. Mas que a Igreja embarque nesta perigosa aventura, preocupa-me. O assunto não se esgota ou no sim ou no não, nem é situação que obrigue a uma discussão urgente. Mais ainda quando todos os dias encontro um novo sem abrigo a dormir numa das ruas aqui do Porto.
(*) Basta percorrer os antigos Róis de Confessados para perceber que o modelo «heterossexual», patriarcal e fechado é uma construção meramente teórica...
(*) Basta percorrer os antigos Róis de Confessados para perceber que o modelo «heterossexual», patriarcal e fechado é uma construção meramente teórica...
4 de novembro de 2009
Castas Corruptíveis.
Nos grandes ninguém toca, porque os pequenos não deixam, ou não querem, respondo eu a Mário Crespo. Quem não vê com benevolência as pequenas maroscas portuguesas? O desenrasque-se quem puder? o chico-espertismo de que falava Eduardo Prado Coelho e todos os filósofos de ontem e de hoje? Enquanto houver uma cultura de facilitismo, os grandes roubam e ainda dão grandes lições de vida ao vulgar português: roubar compensa e é um modo de vida como qualquer outro. A mudança tem de começar de baixo para cima, porque o topo já está podre. Quando a copa de certa árvore está atacada da moléstia, não há se não esperar que seque para a arrancar e plantar outra. Devemos fazer os possíveis para que a próxima não venha contaminada.
1 de novembro de 2009
Na mouche.
É a golpadazeca do ordinareco que faz umas jogadas, umas burlas, umas corrupções, umas porcarias, umas porcarias, condenando o país e com uma ilusão: é que quando morrer acha que leva isso tudo."
Via 31 da Armada (obrigado Raquel)
Via 31 da Armada (obrigado Raquel)
É óbvio que quem assim sem fala é tomado como louco. Um expressivo e completo alienado que não só deveria ser exilado como é uma terrível ameaça à morrinhice portuguesa. Mas nunca ninguém definiu tão bem e com tão poucas palavras o funcionamento da nossa sociedade. É que o ordinareco não é só o de colarinhos brancos. As jogadas, as burlas, as corrupções são os patamares da hierarquia em Portugal. Passar à frente na fila de trânsito, cobiçar o emprego do amigo, roubar as ideias dos outros são tópicos comuns em qualquer parte do mundo, aqui são a cartilha. Aquela frase devia passar de meia em meia hora nas rádios e na televisão. Podia não adiantar de muito, mas sempre nos lembrava o que somos.
9 de setembro de 2009
O povo é sereno...
...e pouco ambicioso.
Numa altura em que se fala de caciquismo nas Câmaras Municipais, as quais são efectivamente e cada mais, pólos de concentração de poder ilimitado, esta lápide é o epítome de uma gestão municipal que pouco mudou desde o Estado Novo (embora o modelo seja anterior). Os caminhos rurais, os fontanários e lavadouros, representam o microcosmos das populações dos municípios rurais que aspiram a pouco mais do que um sítio público para lavar e, hoje, um empedrado ou um estradão de terra batida por onde possam levar o seu carro até à porta de casa. Tudo o resto é dispensável. Excepto o folclore, claro.
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