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24 de janeiro de 2012

O masoquismo republicano.

Gerou-se um grande ruído à volta das declarações do professor Aníbal Cavaco Silva a propósito da difícil vida de um aposentado que decidiu ser presidente da república. Um fardo e uma obrigação cívica, depois de uma tentativa falhada, um mandato presidencial e 10 anos como primeiro-ministro. Até parece que este caminho para o calvário de Belém deixou o senhor depauperado, como se o serviço à pátria, em Portugal, tenha alguma vez levado alguém à pobreza. Como dizem os ingleses: lets cut the crap*. Que o senhor em causa é um lobo, apesar do seu beiço descaído, discurso apagado e ar de cordeiro, não tenhamos dúvida: entre raposas é preciso alguém que morda mais e melhor para escalar a pirâmide dos predadores que constitui a política nacional.

Mas sendo a 5.ª vez que o elegem vêm agora fazer petições para lhe comprarem umas pantufas?
Chega a ser mais grave a reacção dos comentadores do que a tola resposta do senhor Aníbal, o tal, filho do gasolineiro de Boliqueime, prova provada de que república funciona. O Rui Rocha, do Delito de Opinião, acha que o republicanismo funciona tão bem, que "é sempre melhor incorrer no risco de escolher mal sabendo que mais tarde poderemos tentar corrigir uma má decisão". É pena que cidadãos republicanos tão honrados e probos escolham duas vezes o mesmo erro e só não escolham uma terceira por limitação da lei. Estes comentadores, como o João Gonçalves que para defender a honra de Cavaco cita Salazar (apropriado, mas de mau gosto), são a prova de que um significativo grupo de cidadãos deste país não tem capacidade nenhuma para eleger ou ser eleito. Porquê? Porque eleger implica responsabilidade e se há coisa que, desde 1910, a república nos demonstrou é que a estabilidade institucional ou respeito de quem ocupa os cargos não vale tanto como a repartição do poder pelos caciques.

E se como diz o João Gonçalves os nossos monárquicos são pobres ou se, segundo Vasco Pulido Valente, não existem, então deixem-me dizer-vos uma coisa: mais têm feito os poucos republicanos portugueses pela monarquia. E não incluo o pobre reformado, velho tecnocrata formado na escola do Estado Novo chamado Cavaco Silva. Este sim faz lembrar o velho Botas: "que, muito adequadamente, nunca quis saber da "polémica" República/Monarquia para nada". Apenas das finanças.
Ao que parece em república a História não é apenas assustadoramente cíclica. É chata. E repleta de masoquistas.
*Deixemo-nos de dizer coisas que não são importantes

16 de dezembro de 2011

Afinal

existem historiadores em Portugal. São quarenta, todos republicanos e de esquerda e acham que é um crime erradicar o feriado 5 de Outubro. Por uma questão de direito ao descanso. Está em causa o ataque ao lazer, antes da destruição da memória. Virá aí uma História do Lazer em Portugal? É que uma obra colectiva assinada por estes 40 historiadores podia resultar num best-seller. Estranho, estranho, é que estes doutos só saiam da pedra quando espicaçados por um líder - aquele velhinho poeta de Coimbra. Porque quando é preciso defender a classe, a disciplina ou a cidadania em geral nenhum deles deixa a catédra para vir falar à plebe que agora pretende defender.

9 de novembro de 2011

"Enfins"

Só quem não trabalha em História, quem não tem de se deparar com empregos precários, quem não sente o que é ser-se desprezado quando se apresenta a alguém com uma licenciatura que não em gestão, direito, engenharia ou medicina, enfim, só quem não vive no fio da navalha para ser reconhecido ou respeitado é que não fica indignado ou mesmo enjoado com o que foi gasto nos últimos 2 anos em propaganda ideológica a propósito do Centenário da República.
Quando, por um lado, se fecham os centros de investigação das Universidade, se reduzem bolsas de estudos e se cortam nos apoios às edições científicas e por outro se gastam somas incontáveis de dinheiro em sinecuras, edições de luxo, exposições, tudo acrescido de um design de primeira água, apresentações sumptuosas pontuadas por cocktails e brindes, é que percebemos o quanto este país se revolve em interesses de grupelhos que pretendem e atingem o poder, manejando a seu bel prazer o erário público.
Nunca fui contra as comemorações do regime, embora as considere provincianas e bacocas tal como as de 1940, quando Salazar mostrava à Europa um país pobre mas alegre e virtuoso no seu Império de pacotilha. Compreendo que Portugal de 2010 se queira por em bicos dos pés para mostrar mais do que é, pretendendo enganar as agências económicas com a ideia de uma república centenária, cheia de valores e ideais que nunca cumpriu, não cumpre, e dificilmente cumprirá. Mas não aceito que se gaste sem olhar a meios, desviando do absolutamente necessário para outra áreas o dispensável. Que se celebre o regime e que alguns se orgulhem dele, pois empregou mais gente nestes 100 anos do que empregará nos próximos. Mas que se lembre de que a História não começou em 1910 e que os historiadores são pagos para escrevê-la e torná-la inteligível e não para mascará-la. 
Quando pensava que este regabofe acabar, ei-lo em jorro diário de eventos pagos e patrocinados por organismos públicos ou se não por estes, por Fundações como a de Mário Soares, generosamente subsidiada pelo Estado.
Vamos ser sinceros: já chega. Acabou. Não há mais nada para exaltar, comemorar ou louvar. Este "enfim,a república", bem podia ser o suspiro de cansaço de um regime que, para além de falido, está perfeitamente esquecido.

13 de janeiro de 2011

Viva a república, abaixo a república!

Nunca, em Portugal, se falou tanto em república. Pelo menos desde Outubro de 1910. Fala-se no regime, porque o regime paga. É justo. A propaganda ideológica refinou-se ao longo do século XIX, definiu a ascensão dos grandes e mortíferos regimes do século XX e é usada no século XXI para distrair dos problemas económicos e sociais. Enquanto se alimenta o mito do regime igualitário e fraterno, mina-se a liberdade amordaçada entre acrisia e conformismo. Salazar e António Ferro sabiam-no bem e, nesse aspecto, as comemorações do Centenário da República são herdeiras directas dos grandes festejos de 1940 sobre a Nação e o novo regime.

Muito antes de Cromwell e da Revolução Francesa, muito antes do marxismo modelar a ideia de república como o melhor de todos os regimes, já república constituía a designação para a coisa pública. Não a coisa do povo, - essa entidade abstracta onde todos se incluem e onde ninguém deseja incluir-se-, mas a gestão do lugar público. Nas praças e nos caminhos, onde sempre se decidiram os desígnios comunais, fazia-se um tipo de política. Com a Revolução e o Liberalismo a política passou a fazer-se em casas parlamentares e as eleições que dantes se realizavam inter pares, hoje fazem-se intra grupos. A política deixou de ser para todos. Estava porém aberto o caminho para que a ideia de república se transformasse no ideal que é hoje: o de um suposto absoluto nivelamento e igualdade entre cidadãos (mas apenas entre os que fazem política).

O republicanismo português, que se aproveitou da ignorância e do analfabetismo grassante em 1910, construiu-se sobre a noção de que qualquer pessoa podia tornar-se chefe de estado, contrariando a ideia de que aquele lugar pertencia a uma família de privilegiados. Nunca conseguiu explicar, contudo, que  mudavam os privilegiados e não os privilégios.

22 de abril de 2010

Laços de família.



Uma das mais frequentes críticas à ideia de Monarquia é a questão da hereditariedade. «Se ele pode ser rei, porque é que eu também não posso sê-lo?», como se qualquer um de nós, anónimo cidadão pudesse, efectivamente, alcançar o lugar de presidente da república. É esta ilusão de igualdade, de acesso democrático e igual, que conserva a ideologia republicana naquele pedestal de superioridade onde se acolhe uma parte dos políticos. Mas quando se trata de consolidar o poder abaixo dessa alta ideia republicana, a hereditariedade dá muito jeito.
A República Portuguesa está cheia de exemplos de dinastias empresariais, políticas e profissionais. Desde os Santos Silva, e os Soares, republicanos, laicos e socialistas, até aos Azevedo ou Champalimaud, sem esquecer as pequenas clientelas familiares que preenchem as vagas das Câmaras Municipais, Secretarias de Estado, Empresas Públicas, etc, onde filhos e filhas sucedem a pais, sobrinhos a tios, etc, num nepotismo facílimo de aclarar pela leitura, ainda que fastidiosa, do Diário da República. É que a ética republicana - esse hipotético estado mental em construção - sabe que o voto é apenas uma das fases do processo de obtenção do poder. Segue-se-lhe o sangue e o dinheiro, dois factores que os políticos republicanos portugueses souberam manobrar muito bem desde o século XIX.

22 de março de 2010

A República e a regionalização (I)




“A Nação Portuguesa, organizada em Estado Unitário, adopta como forma de Governo a
República, nos termos desta Constituição”.

Artigo 1.º da Constituição Política da República Portuguesa, de 21 de Agosto de 1911

Os doutrinários da República Portuguesa nunca foram a favor de uma regionalização. A própria ideia de república, colhida nos ventos ideológicos provenientes da França revolucionária, não admitia a repartição do poder.

Cidadão, cidadania, são termos que apelam à cidade, ao espaço cívico por excelência, sem que tudo o resto seja digno de intervenção. Os não cidadãos são os pagãos, que habitam um espaço vazio, rural, esterilmente político. Não há lugar para a ruralidade na república.

A Lisboa pós 1910 é um vórtice. Proclama a república na cidade e comunica-a ao resto do país que era ruralidade. Nesse sentido a revolução do 5 de Outubro, com mais ou menos participação, conforme a interpretação e a reinterpretação dos documentos disponíveis, é exclusiva, ou seja não admitiu a participação de todo o país, porque o resto do país não era republicano – e isto não no sentido efectivo (o que não deixa de ser verdadeiro), mas simbólico do termo. A república fez-se a partir de liturgias cívicas muito particulares. Apelava para o mundo urbano, através dos seus agentes: advogados, caixeiros, proletários. Buiça e Costa, dois pagãos (um de Trás os Montes, outro do Alentejo), converteram-se em Lisboa à religião cívica.

O que fizeram os republicanos para regionalizar ou descentralizar? Muito pouco. A figura do Governador Civil que vinha do liberalismo passou a funcionar como uma forma de policiamento do avanço da republicanização no interior do país. O maior ataque foi ao controlo dos municípios rurais que, como se sabe, não dispunham em alguns casos de homens fiéis ao regime. O investimento da República na republicanização dos municípios foi gigantesca e nunca houve intenção de repartir o poder para governar.

Depois criou uma polícia rural para-militar, para garantir a manutenção do republicanismo: a GNR.

O poder, em Portugal, foi sempre volátil, dependendo mais de indivíduos, do que instituições.

Onde estava o rei estava a corte, existia centralidade. Onde estavam os bispos, sobretudo depois de Trento, arvoravam-se pequenos séquitos, burocratas – aí formou-se centralidade. À falta de um mapa com circunscrições intermédias, estes pólos de atracção criavam uma descentralização política e burocrática (permitiam o acesso a escrivães, notários, etc).

A grande obra da primeira República foi esvaziar a Igreja Católica da sua influência e substituí-la por comissões cívicas para evangelizar o país com a ideia de cidadania. Mas esse trabalho não pretendia descentralizar e muito menos regionalizar mas apenas substituir uma religião por outra, o Catolicismo pelo Laicismo.

Os republicanos sabiam que não podiam dividir para reinar…

Publicado aqui.

14 de março de 2010

Quem quer mau jornalismo, suporta-o.



Eu não sei quem é o Tiago Salazar. E, sinceramente, não quero saber.
Provavelmente será mais um jornalista daqueles formados em universidades de bric-à-brac, onde tudo se aprende e nada se sabe.
Mas é pena que o Tiago Salazar para além da boa arte de repetir clichés, não tenha bebido da boa prática de confirmar as fontes, mesmo as históricas, que para muitos cada vez mais são adereços folclóricos de uma sociedade sumamente mais info-inclusiva e cada vez mais culto-excluída.
O certo é que numa reportagem ontem publicada na Revista Sábado do DN, a propósito do belíssimo comboio real que parte em breve para um exposição em Utreque, lembrou-se o Tiago Salazar de sacar ex nihilo uma suposta frase dita em contexto totalmente exterior ao do tema versado pelo artigo. Segundo o jornalista (sem citar a fonte), «diante deste espectáculo de ostentação – D. Maria Pia é autora de uma frase célebre dita ao ministro das Finanças que lhe implorava moderação nos gastos: «Quem quer rainhas paga-as!». Talvez o Tiago tenha ido à Wikipédia, ou simplesmente ao Google confirmar a veracidade deste facto, sítios mais do que suficientes para confirmar mediocridades, ou validar competências medíocres. Mas convinha esforçar-se um pouco mais e ir onde já ninguém vai: ao papel, a uma biblioteca, até a um arquivo, quem sabe, fazendo uso do discernimento com que nasceu. Digo eu.
Não acredito nestas frases feitas tão agrado dos oposicionistas e dos detractores do regime. Duvido que tanto D. Maria Pia como D. Carlos ou outro membro de uma Família Real acossada pela propaganda republicana alinhassem nesta guerrilha de boatos e maledicências tão ao gosto da comunicação social de ontem e de hoje. Mas mesmo que o tivesse dito, em nada desilustraria a concretização do comboio que, durante a Primeira e a Segunda República foi vilipendiado como forma de escárnio pelo regime deposto. So much for preserving the heritage...
E mais: embora se tenha referindo à ostentação e à riqueza dos interiores da real composição com um certo desdém, não esqueça o jornalista do DN que são os comboios régios que levarão com certeza milhares de visitantes ao Museu Ferroviário de Utreque.
Duvido que daqui a cem anos alguém faça fila para visitar um dos BMW 760Li onde o cidadão Cavaco Silva locomovia diariamente.

6 de fevereiro de 2010

O republicanismo em Portugal: uma análise.


Um dos factos que as actuais comemorações do Centenário permite esclarecer é que existem pouquíssimos republicanos, ou seja, portugueses que se identificam com o regime e nele acreditam, que sabem destrinçar entre os símbolos identitários nacionais e a iconografia da república portuguesa, por exemplo. Uma viagem pela internet oferece-nos uma leitura proveitosa, a que alguns chamariam sociológica.
Por um lado, um pequeno punhado de literatos, na maioria ligados ao ensino (universitário ou liceal) inauguraram blogues cujo objectivo é veicular informações sumárias de carácter histórico, biográfico e bibliográfico sobre o regime e a sua ideologia. São discretos. Exaltam, embora de forma velada, a maçonaria (a cuja instituição pertencem) e outros instrumentos do republicanismo português. O seu projecto é anónimo ou quase (assinam o trabalho com iniciais e, ou, pseudónimos) e constituem um movimento silencioso que conquista através da publicação de um conjunto de imagens fortes que aliam a iconografia nacionalista à ideia de república como entidade indissociável de pátria. É o caso do Almanaque Republicano e do "República 100 anos 1910-2010".
Por outro lado, destaca-se um conjunto mais activo e interventivo de blogues que, embora assumindo a sua posição republicana são, essencialmente, espaços de discussão política, onde se comentam os assuntos cadentes e onde a República é apenas símbolo, como a Esquerda Republicana. Dentro desta categoria podemos incluir, ainda, os blogues de opinião pessoal. Conhecemos poucos republicanos dispostos a lutar pela república no espaço da internet, mas devemos destacar o sítio do Prof. Carvalho Homem, defensor acérrimo dos valores republicanos que não se coíbe de promover em entrevistas, conferências e estudos históricos que executa ou dirige.
Finalmente os blogues ou sítios que apresentam conteúdos propedêuticos, para além de propaganda ideológica, são em maior número por força das circunstâncias comemorativas, mas ficam aquém do que se suporia. O facto é que o número de investigadores sobre a República Portuguesa é extremamente diminuto e está concentrado, sobretudo, na Universidade Nova de Lisboa (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas), tendo à cabeça o Dr. Fernando Rosas, cuja formação de base até é o Direito. É uma historiografia tendenciosa, herdeira do pensamento do falecido Prof. Doutor A. H. de Oliveira Marques, grande historiador que nunca se coibiu de manifestar a sua protecção e predilecção pela obra republicana. Como tal, cabe aquele grupo de investigação fazer as honras do regime, que se desdobra em iniciativas e apoios para acalentá-lo. Em Coimbra, um núcleo menor, constituído por alguns moderados, fica com a restante fatia de investigação e influência historiográfica que, ainda assim, não tem força para ultrapassar o forte lobby lisboeta. Basta percorrer os escaparates das livrarias para aquilatar da dimensão e força deste grupo: todas as semanas são publicadas luxuosas edições sobre temas (pró-)republicanos e História Contemporânea de Portugal.
Devemos assinalar, ainda que, recentemente, foi constituído na internet um grupo intitulado Republicanos Portugueses. A ele pertencem cerca de 500 pessoas. É um campo interessantíssimo de estudo. Constituído na sua maioria por emigrantes, são reveladoras as mensagens nacionalistas deixadas pelos seus elementos. Para eles, a ideia de republicanismo existe apenas na consagração de pátria, ou dos seus símbolos e ídolos (onde se destacam os futebolistas). Não há antítese possível a esta ideia, ou seja, a ideia de monarquia ou outro qualquer tipo de regime nem sequer é ali discutido. Apenas a anulação da pátria, pela supressão da nacionalidade. Neste sentido, a doutrinação republicana iniciada em 1910 falhou e mesmo que uma parte dos dez milhões de euros despendidos nestas comemorações se destinem à veiculação de “valores” republicanos pelas escolas do país (no fundo uma forma de catequese ideológica), julgamos que será necessário um orçamento semelhante, doravante anual, para criar alunos conscientes dos ideais de República.
Não há um movimento global de defesa da República, nem movimentos menores, que permitam identificar o apoio colectivo ao regime e à “ideologia”. Pontualmente, como no caso do 31 de Janeiro, pequenas colectividades, associam República e Resistência, confundido noções como democracia, fascismo, ditadura, etc. Mas essas associações não são republicanas: exaltam o espírito de liberdade e cidadania – uma análise do vocabulário utilizado na elaboração dos seus objectivos exclui a República e os seus “valores”. A “ética republicana”, expressão que nada significa e atenta contra a própria noção de ética, que se quer universal e plural, recusando ideologias e crenças, não tem raízes no republicanismo que herdámos da primeira república. É que apesar do período entre 1926 e 1974 constituir parte destas comemorações, contra a vontade de muitos dos seus corifeus, a doutrinação republicana foi suspensa nesse período, (a qual, em abono da verdade, resistiu em alguns indivíduos como forma de oposição, de resto elemento comum entre republicanos, monárquicos integralistas ou constitucionais, anarquistas, socialistas, marxistas, etc) para reintegrar-se, mais fraca, menos consistente, depois do 25 de Abril de 1974.
Por isso, e infelizmente, não pode a Comissão do Centenário senão ir beber nas fontes da Primeira República, profundamente exclusiva, nada moderada e fortemente autoritária. Mas, dado o tempo que atravessamos, tal colagem até pode fazer sentido…

29 de janeiro de 2010

Que bonito 31!


A bandeira republicana, de vermelho sanguíneo, jazendo jus às suas convicções fundadas no ódio.


É preciso ter cuidado com a História que se escreve e que se lê. Às tantas estamos a aceitar dogmas e a repetir erros que se tornam instituições. O que se comemora a 31 de Janeiro? A maioria não sabe e confunde democracia com republicanismo, que as datas de 31 de Janeiro e de 5 de Outubro são antepassadas directas do 25 de Abril - o que é mentira. Que se celebre o regime, mas que ao mesmo tempo se formem cidadãos críticos e informados. Por isso, a propósito do aproveitamento do 31 de Janeiro como um movimento libertador, intrinsecamente "portuense" e que terá tido o apoio popular, sugiro a leitura da análise do historiador Rui Ramos, incluída na biografia de D. Carlos. Ao mesmo tempo, deixo um relato do jornalista do New York Times de então. Mostra uma cidade aflita, desejosa de se demarcar daquele movimento extemporâneo que misturava sentimentos patrióticos (xenófobos) com o desagrado de uma classe, e deixa perceber a influência nada local da intentona:

«Assim aconteceu o golpe de 31 de Janeiro de 1891 no Porto. Foi uma iniciativa em contracorrente. Deu-se quando o país, como reconheceram os Republicanos, estava outra vez na mais "completa tranquilidade, e numa cidade onde tinham pouca força. Teve sobretudo a ver com a história interna do Partido Republicano, sendo "mais dirigido contra o [directório] do que contra a própria monarquia". Em 1890, a agitação do ultimato não derrubou D. Carlos, mas José Elias Garcia. A 13 de Novembro, aparecera um manifesto em Coimbra, assinado por 120 estudantes revolucionários, a acusar os líderes do Partido Republicano de serem "velhos" acostumados à "tranquilidade". José Elias acabou por ser apeado do poder no congresso Republicano de Lisboa de 5 de Janeiro de 1891. O advogado Manuel Arriaga e o tenente Francisco Homem Cristo tomaram conta do partido. Era a vitória dos "revolucionários" sobre os "evolucionistas". José Elias resolveu então apanhar os revolucionários no seu próprio jogo. Para os embaraçar, animou uma conspiração no Porto, chefiada por um maçon, o advogado Augusto Manuel Alves da Veiga, e por um jornalista de escândalos, Henrique Santos Cardoso. O novo directório do partido foi mantido à margem. Mas se a conspiração progrediu, isso deveu-se menos "à iniciativa dos elementos civis Republicanos" do que ao "imprevisto concurso dos militares da guarnição do Porto", sobretudo os sargentos. O que os motivou? Segundo um deles, "um ódio fundo ao inglês - desde que me conheço", e a recusa em aceitar que o rei fosse "irresponsável", isto é, que a lei não fosse igual para ele. Para além deste patriotismo jacobino, no entanto, pesou mais uma lei de 17 de Janeiro de 1891, que dificultou a promoção dos sargentos a oficiais. Foi assim fácil de manobrar entre sargentos descontentes, levá-los para cafés cheios de fumo, onde se berrava abertamente contra a monarquia. […]

Nos dias seguintes, toda a gente tentou diminuir a importância do acontecimento. As mais destacadas figuras do republicanismo, incluindo o directório do partido, condenaram o golpe como uma aventura mais ou menos irresponsável. Até a maçonaria irradiou Alves da Veiga. […]

As manifestações de fidelidade dinástica também não foram óbvias. As ordens do exército censuraram sobretudo a violação da disciplina, a "luta fratricida" e o "crime de lesa-patriotismo". […] A Câmara Municipal do Porto, logo no dia 12 de Fevereiro , dirigiu uma mensagem ao rei a pôr as culpas na "doçura dos nossos costumes".»
RAMOS, Rui - D. Carlos. Lisboa: Temas & Debates, 2007, pp. 100-102

Oporto this evening is a city of rejoicing. The storekeepers have thrown down the barricades from the windows and doors of their houses, and everybody is congratulating everybody else that the insurgent outbreak was not so serious as people at first expected it would be.
New York Times, 1 de Feveiro de 1891

Severel proeminent men, named as being members of the insurgentes directorate, disavow any connection therewith Judge Soares and Banker Lute [Leite?] being among the number.
New York Times, 2 de Feveiro de 1891

As a result of the investigation into the recent revolt, the police officials report that they have obtained convincing proof that the insurgents were in league with spanish revolutionist. Among the proofs in the hands of the authorities are documents seized in the office of the Republica Portuguesa, wich include messages of congratulation received from spanish republican organizations, greeting the portuguese revolutionists as "brothers" who were on the eve of triumph.
New York Times, 5 de Feveiro de 1891

Sugiro, ainda, a leitura do ensaio de Nuno Castelo Branco: Porto 31 de Janeiro de 1891, ou o ensaio de uma constante portuguesa.

Aquela recriação histórica que se espera no dia 30 não passa, portanto, de uma enorme farsa que tenta impingir a ideia da participação cívica portuense que, como se vê pelas descrições acima, longe de ter acontecido. Pior, apresentará, ao olhos de quem assiste, os bons (republicanos revoltosos) contra os maus. O meu lamento vai para o triste papel do Ateneu Comercial do Porto, instituição respeitada da cidade, que alinhou nesta charada para agradar a meia dúzia de anciãos que confundem república e liberdade, esquecendo-se que este regime acolheu uma das mais longas ditaduras da História.

(Publicado n'A Baixa do Porto.)

27 de janeiro de 2010

Breve Sumário da História da «Piolheira».




Mas como isto aqui é a Piolheira, como chamam a Lisboa (...)
(Teófilo Braga, «Gomes Freire», 1908)

A história é uma destilação do boato.
(Thomas Carlyle)

Hoje em dia qualquer parvalhão pode fazer-se Historiador.
(Ego dixit)



D. Carlos foi morto de duas formas, por três «criminosos»: o primeiro foi a comunicação social e, consequentemente, pela opinião pública; o segundo e o terceiro, dois desgraçados que, espicaçados pelo oportunismo dos futuros paladinos da República de Outubro, o cravaram de balas julgando matar um monstro criado pelo primeiro facínora. A comunicação social de 1908, como a de hoje, é capaz de levar homens ao patíbulo, sem passar pelo tribunal. Para tal bastam duas ou três palavras bem colocadas; depois é só esperar por quem prima o gatilho.

Mas muito mais poderosas do que o gesto e as balas das armas dos pobres coitados do Costa e do Buiça, meros instrumentos, foram as palavras que continuam a circular. As mesmas que mataram D. Carlos antes do crime do Terreiro do Paço e as mesmas que conspurcam a memória do monarca. Uma delas foi e é a expressão «piolheira». Circulam muitas histórias, sobre quando e em que circunstâncias D. Carlos terá aplicado esta palavra, supostamente como qualificação do seu país. Mas nenhuma sabe, especificamente, aferir da veracidade de tal afirmação.

Piolheira (de piolho) foi uma expressão muito utilizada ao longo do século XIX. Eça de Queirós, Trindade Coelho e Fialho de Almeida usam-na amiúde, quer pela própria mão, quer pela boca das suas personagens para descrever alguns aspectos ora de Lisboa ora de Portugal. Já no longínquo ano de 1858 o poeta Faustino Xavier de Morais (em «Novas Poesias«) se referiu a Portugal como «esta piolheira» e Fialho de Almeida, nos seus Gatos, é particularmente expressivo quando descreve a forma como muitos portugueses deslumbrados pela Europa, se referiam próprio país (1):

Os governos mesmo teem lisongeado esta paixão dos naturaes pelo parisienismo de torna viagem, subsidiando viagens de funccionarios e vadios publicos, de pintores problematicos, e de jovens capacidades scientificas, détournées. Essas viagens d’instrucção, de que jamais se vêem pomos úteis, gastam ordinariamente em pandegas as bourses de travail que geralmente se recusam aos verdadeiros estudiosos, e dão em resultado enviar-se um ingenuo, e receber-se um monsiú de vidro no olho, com barbicha de bode, chupado e tanso, para quem Portugal nunca mais deixa de ser uma piolheira. — Paris, ha Paris! — Quando eu estive em Paris...— Uma noite, em Paris.-.— Mas meu caro, é que verdadeiramente, Paris...E a cada instante este true ritornella-lhes na bocca, para sublinhar a inferioridade manifesta de tudo quanto traz chancella nacional.

Ora, tivesse D. Carlos empregue a expressão para referir-se a Portugal, não seria o único, nem sequer original, a qualificar um país naqueles termos em que a Geração Coimbrã e uma vasta plêiade de escritores e pensadores de oitocentos o fazia, recusando-se a aceitar um país sem a força anímica da França.

Mas, terá efectivamente D. Carlos proferido aquelas palavras? E mais, tê-lo-á feito em público - ele que, como monarca culto e esclarecido, sabia o poder de uma palavra mal interpretada, ou de uma expressão distorcida?

Basta uma pequena pesquisa na internet para perceber o poder e a força da expressão. Ninguém sabe nem quando (uns falam no regresso de Paris) nem como (segundo uns em privados, segundo outros numa entrevista!) D. Carlos teria deixado escapar a referência insultuosa a Portugal. Verifiquei, uma por uma, as 663 referências fornecidas pelo motor de busca Google e em nenhuma delas, absolutamente nenhuma, o respectivo autor da acusação é capaz de citar, com o rigor exigido, onde colheu tal informação. Apenas um jornalista, Luís Miguel Queirós, no Público de 01-02-2008 refere: « Era o monarca [D. Carlos] que achava Portugal uma “piolheira”. Não há evidência segura de que tenha, de facto, proferido esse desabafo, mas quando o boato foi posto a correr, acreditou-se facilmente que era verdadeiro.»

Ora o boato foi lançado antes de 1903, por Bordalo Pinheiro. Passou-o a limpo, em forma de letra, Raúl Brandão, nas suas Memórias (Relógio d’Agua, 1998, p. 46): «Conta que [Brodalo Pinheiro] em Paris ouviu ao rei dizer – Isto aqui é uma terra, lá é uma piolheira.» - é o testemunho de um republicano, mas é, sobretudo, a frase de um dos principais responsáveis pela propaganda anti-monárquica que marcou o final do século XIX e preparou a chegada do golpe de 5 de Outubro. Rafael Bordalo Pinheiro devia compartir o ódio ao rei, com o desprezo ao Estado que lhe recusara uma bolsa de estudo para Roma, em 1868. De resto era um artista, como aqueles que Fialho de Almeida descreve, sempre afeitos às tais viagens de instrução e «bourses de travail». «Piolheira» faria, assim, parte do seu vocabulário quando se tratava de resumir o Portugal que conhecia. As suas caricaturas grotescas e picarescas que roçam a insulto gratuito e boçal são a versão gráfica do que ele teria ouvido dizer da boca do rei. Ele, para quem os reis eram a causa dos problemas do país.

É bem de ver que a história da piolheira se trata de um boato (2). Um boato de entre os muitos que se puseram a circular, e que advinham da proverbial inveja e do sempre actual oportunismo político. Poucos monarcas, como D. Carlos e D. Amélia sofreram tanto com o embate da opinião pública, acicatada por campanhas virulentíssimas de difamação. O escândalo era a melhor forma de propaganda republicana. Como uma franja elevada da população não sabia ler, a caricatura tomava o lugar da palavra, sem qualquer pejo ou respeito, como bem testemunham as ilustrações de Bordalo no António Maria ou na Paródia.

Obviamente que D. Carlos nunca proferiria publicamente um termo tão depreciativo como este. Mas se o tivesse feito, em privado, ou até nos seus pensamentos – algo que nunca saberemos – teria compartido com os homens da sua geração, mesmo aqueles que levantaram o dedo acusatório contra ele, do mesmo sentimento de impotência e desânimo que levou, com tanta facilidade, um pequeno grupo de indivíduos a tomar o poder a 5 de Outubro de 1910.

NOTAS
(1) – De resto a expressão veio a ser retomada, com alguma frequência, pelo neo-realismo literário, pela mão de Alves Redol, por exemplo, que a utilizava para descrever as condições precárias que a revolução burguesa da República de 1910 legara ao proletariado nacional…
(2) Miguel de Unamuno, no «Epitáfio» que «dedica» ao Rei, em 1908, escreve que D. Carlos: «Costumava dizer ao falar da pátria em que reinava: “isto aqui é uma piolheira”» (- Por terras de Portugal e de Espanha, 1989, p. 21). Ora esta afirmação deita por terra qualquer certeza em relação a quando e em que circunstância o monarca teria proferido o insulto. Fora afinal em Paris, aos ouvidos de Rafael Bordalo Pinheiro, ou frequentemente e para todos, como assevera Unamuno…?

Publicado aqui.


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17 de janeiro de 2010

O valor do sangue republicano.

«A República é a concretização política da cidadania plena.»

«Mesmo com a perda de conteúdo democrático da ditadura de Salazar não houve o atrevimento de eliminar essa quase que só aparência republicana (Presidente, bandeira, hino e papel timbrado)».
«Há quem tenha naturalmente boas razões para isso, quem prefira ser súbdito a ser cidadão, quem entenda que se deve preferir a desigualdade à igualdade. [...] Há quem goste disso: quer os que são vistos, quer os que vêem. Uma sociedade tem que englobar tudo: para que haja exibicionistas tem que haver quem goste de assistir a exibições. O importante é que em Portugal não haja uma questão de regime e que a República satisfaça plenamente a realização dos direitos do homem e do cidadão.


O Prof. Romero Magalhães que, pelo menos não comete o erro de dizer que o Estado Novo suspendeu a República, vive num pequeno mundo de faz-de-conta, onde que a democracia se pauta por uma aparência: a da igualdade. Para o historiador coimbrão, a cidadania cumpre-se no republicanismo, tentando, com justificações de ocasionais reinados meritórios, reduzir a monarquia a adereço folclórico. Irrita-se com o entrevistador, quando ele ousa apresentar uma europa monárquica. Apressa-se a qualificar os pretendentes portugueses a odiosos reaccionários, esquecendo que foi um rei - D. Pedro IV - a introduzir. a democracia em Portugal Obviamente, segundo ele, falta fazer a justiça à I República, com o que concordamos. Esse período que que o Prof. Romero se orgulha, o mesmo que preparou a chegada de uma confortável e longa ditadura (para a qual contribuíram os republicanos, pois se afinal monárquicos os não havia) ainda deve muitas explicações à História.
O medo do exercício da contra-factualidade é também revelador: o regícidio foi um mal necessário e nada mais há a acrescentar. Afinal de contas, a igualdade deve vergar-nos todos ao mesmo nível, nem que para isso partamos as pernas aos súbditos, ou seja, obriguemo-los a tornarem-se cidadãos.
O que me espanta é que dentro deste ódio à monarquia e desta obediência maçónica o Prof. Romero aceite esta república de clientelismos, em que a cidadania é título meramente hipotético. Entre doutores, comendas e ordens, continuamos a premiar a mediocridade, não a igualdade. E os filhos continuam a suceder aos pais, em cargos e honrarias, mesmo que aqueles os não mereçam. O Prof. Romero sabe-o melhor do que ninguém. É uma hipocrisia.
A mim, esta República não me satisfaz.

12 de janeiro de 2010

Sumário da ideia de República em Portugal.




Sejamos francos, todos nós, monárquicos, republicanos ou indiferentes: esta não é a melhor altura para gastar 10 milhões de euros em comemorações. Partindo da serenidade deste pensamento, vamos ao que interessa: Portugal deve, ou não deixar de ser a República que é desde 1910

Talvez não consideremos necessária a imediata alteração do regime, mas tal não pode dever-se a opiniões estapafúrdias do género “as monarquias não são democracias”, ou “a república é o melhor e o mais justo regime”. Basta olhar à nossa volta para perceber que nenhumas destas asserções é verdadeira. Se assim fosse, estaríamos a colocar a Suécia, a Holanda, a Noruega e tantas outras monarquias, ao nível de ditaduras ou regimes pouco honestos. 
Se algum mérito há a atribuir às comemorações do Centenário da República é o de que precisamos de debate. Podemos não precisar de um regime novo, como sustentam alguns, mas precisamos, com certeza, de eliminar preconceitos e estereótipos em relação, respectivamente, às noções de monarquia e república.
Desde logo a República Portuguesa funda-se em ideais muito pouco democráticos. Estafado o lema francês, jacobino e maçon da Liberdade, Igualdade e Fraternidade para qualificar momentos pouco edificantes do republicanismo em Portugal, de que é testemunho maior o período da Primeira República. 

Não interessava a qualquer um dos republicanos, ainda em monarquia, que o regime fosse derrotado com serenidade. Prova-o a forma como D. Carlos e o seu filho D. Luís Filipe foram sumariamente executados em plena praça pública. A República intelectual atacava na imprensa (sobretudo através da caricatura, poderosa arma num país de analfabetos), nos municípios e no Parlamento. E cabia aos sicários, - a ralé armada, braço terrorista dos intelectuais -, por em prática os desejos mais tenebrosos. Um plano de tomada do poder não podia, por isso, ser feito em pezinhos de lã. 
Primeiro, não havia condições para electrizar o eleitorado. Se há culpas a imputar aos políticos da Regeneração é o de que o plano da educação pecou por tardio. Um país de iliteratos, de analfabetos, é muito mais fácil de dominar do que um território de cérebros instruídos. A República sabia-o e aproveitou-se disso ao comunicar ao resto do país a mudança de regime por telégrafo. Por isso, devemos desconfiar da ideia de que república foi uma revolução do povo. Pode não ter tido a oposição dos monárquicos e estes serem, de facto, uma pequena percentagem da população do país, mas é muito difícil acreditarmos que, a 4 de Outubro de 1910, Portugal fosse um país de republicanos. Ontem, como hoje, a realidade não pode ser mascarada: somos um país de abstencionistas, de indiferentes.
Por outro lado, os republicanos sabiam bem que o Reis constitucionais eram amados, se não pela grande massa (a da indiferença), pelo menos por uma grande parte da intelectualidade portuguesa, mesmo a que se encontrava ligada a sectores da Esquerda, nomeadamente ao Socialismo. D. Carlos fazia parte dos Vencidos da Vida, unia-o aos desiludidos a incapacidade de renovar cultural e socialmente Portugal. Só havia um caminho: eliminá-lo. A morte de D. Carlos e do príncipe herdeiro nunca pesou na consciência revolucionária dos teóricos do regime. Para eles, fora algo necessário. Herdeiros legítimos do sangue da Revolução Francesa, pedia-se aos carbonários a cabeça régia, como fez o exacerbado Afonso Costa, aos berros, no Parlamento, e eles -força bruta e sanguinária- davam-lha.
A República é uma obra de minorias, por um lado, de um punhado de literatos inflamados e, por outro, de um conjunto de operários ressabiados e electrizados por uma mistura de ódio às humildes origens, ao cura e ao proprietário abastado (ver o caso de Aquilino Ribeiro). Lisboa fez a revolução, o Porto subscreveu-a e o resto do país, na sua proverbial indiferença, aceitou-a como fizera ao longo de todo o século XIX ao aceitar a dança das cadeiras no parlamento.

E eis-nos na questão essencial: a monarquia não caiu por culpa dos monárquicos. A monarquia vacilou, tremeu e sucumbiu ao golpe duríssimo de 1 de Fevereiro de 1908 (e não à escaramuça de 5 de Outubro de 1910). A monarquia desgastou-se no rotativismo, na voragem para a qual foram atirados D. Luís e D. Carlos, confundindo-se o monarca e o político. De notar que os republicanos eram, na sua maioria, emergentes das fileiras do regime. Cansados de todo o tipo de rejeições, deixaram Progressistas e Regeneradores para tentar uma terceira via, muito mais condicente com a sua própria ideia de mérito próprio, nem sempre concordante com a do serviço à Pátria. O projecto reflecte esta ideia: substituir o rei pelo presidente, alguém que pudessem manietar e que pudesse ser, não a face de uma dinastia, mas de um ideal, que vogou ao sabor dos insultos e das agressões ao longo da Primeira República.
Se há algum mérito a retirar destas comemorações, é o de que podemos lucrar, pelo menos, com a discussão e o debate. Eliminar da nossa mitografia muitos estereótipos como os que ainda se podem ver aqui e ali, onde a nossa juventude mistura república e noções de nação e pátria, fazendo tabula rasa de séculos de História.
A República implantou-se à força, mas sem dificuldades, em 5 de Outubro de 1910. Alterou a legislação, mas foram os símbolos – numa época em que se apelava às identidades nacionais – como a bandeira, que mais contribuíram para consolidar a ideia de uma nova nação, surgida das cinzas monárquicas. Não o escamoteemos, temos sido alvo de lavagem cerebral, ao dizerem-nos, desde as cadeiras da primária, que as cores verde e vermelha são o símbolo da esperança e do sangue. Absurdo. Tais cores são tudo menos esperançosas, são o testemunho da presença das ideologias-base dos mentores positivistas do novo regime. Mas, é claro, para haver um novo regime, com estabilidade e confiança, é preciso reinventar a nação, eliminando ou reinterpretando os velhos símbolos.
Poderá nem haver disponibilidade mental ou económica para mudarmos o regime, mas nada impede que o coloquemos à discussão. Afinal, esse deveria ser o verdadeiro sentido da democracia. Ou a ética republicana, essa expressão que nada diz, está acima de qualquer ética? E a república, que se arroga a guardiã de tantos valores, não aceita o valor maior, o da verdade afinal não contemplada na trilogia francófila?

7 de janeiro de 2010

Quem conhece o estado da Cultura em Portugal, as dotações orçamentais para os Museus e para a salvaguarda do Património, as necessidades de milhares de licenciados desempregados ou com empregos precários, - mais ainda no tempo de crise em que nos encontramos -, a atribuição de dez milhões de euros para comemorar o regime chega a roçar os limites de um insulto atroz. Não digo que não se proporcionassem as devidas manifestações de júbilo pelo centenário da república - que muito aguentou, dados os tropeções que tem dado - mas a esta escala é coisa infame e pouco gloriosa. Basta olhar à nossa volta para perceber que há pouquíssimos motivos para justificar tamanhas festividades.

17 de dezembro de 2009

A impotência do Regime: mastros & aventais.



"Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus (...)
Álvaro de Campos


Começamos já a entrever que as Comemorações Centenárias da República soam a incrível anedota. Pouca gente acredita no sistema político e ninguém leva a sério esta comemoração. Como poderiam, se atravessamos uma das piores crises do último século e um presidente de câmara resolve gastar um milhão de euros para recordar a decrepitude da República Portuguesa? Não sei se este caso deveria seguir para uma consulta de Psiquiatria, se para o domínio da disfunção sexual. Para alguns a República é um estado de espírito e eu diria que é uma patologia que une uma geração de velhos e impotentes homens, desde Afonso Costa, passando por Bernardino Machado, até Mário Soares e Almeida Santos. Se à necessidade de enaltecer mastros com cem metros de altura juntarmos o uso frequente de aventais, temos resolvida a charada. Sócrates está à vontade para estender a carpete vermelha aos senadores republicanos. Mais vale que casem e procriem juntos, ainda que o nascituro seja um cadáver adiado. Entretanto o país borrifa-se para eles e para a ideia de República. O mal é que o dinheiro da res publica continua a ser mal gasto.

5 de outubro de 2009

O idealismo da República Portuguesa!




«Em nome da ascendência branca, os governos republicanos chegaram mesmo a dar cobertura à prática das maiores atrocidades alguma vez cometidas pelos portugueses em África. São elucidativos a esse respeito os relatos recentemente revelados sobre a campanha militar no sul de Angola em 1915, durante a qual o exército português avançou com ordens superiores para exterminar toda a população local, incluindo velhos, mulheres e crianças. Ora, quando esta bárbara política de genocídio foi discutida numa sessão secreta do parlamento, em 1917, o chefe do governo e líder do PRP [Partido Republicano Português], Afonso Costa, teve estômago para a defender, argumentando que «não nos deixamos mover por idealismos nem esqueçamos os conceitos e impressão dos pretos perante respeitos humanitários que ele[s] considera[m] como fraqueza ou pusilinâmidade». [citação extraída de MIRA, Ana (ed.), Actas das sessões secretas da Câmara dos Deputados e do Senado da República sobre a participação de Portugal na I Grane Guerra, Porto: ed. Afrontamento, 2002, pp. 115 e 148-53].

Rui Ramos, «O dia dos equívocos», 2004.

8 de julho de 2009

Não discutimos a Nação!



... - dizia o Senhor Presidente do Conselho da II República Portuguesa, António de Oliveira Salazar. E dizem os organizadores das festividades que comemorarão, em 2010, os 100 anos sobre a instauração do regime republicano. Não discutem a Nação que lhes passou um cheque de 10 milhões de euros em tempo de crise, nem discutem o regime que os amamenta com o saudável leite da ideologia burguesa. Ou não fosse o cabecilha desta organização um banqueiro. Artur Santos Silva preparou, aliás, um programa muito interessante para estas lautas festas que fazem lembrar, em muitos aspectos, as comemorações do Estado Novo: República e Lusofonia, Arte e Espectáculos, Jogos do Centenário, República nos Media, Edições e Exposições do Centenário, Portal Centenário da República e Georeferenciação e Fluxos de Comunicação. Se substituirmos a Lusofonia por Império, o Portal pelas luxuosas publicações editadas pelo Secretariado Nacional de Propaganda, de resto tudo, ou quase, tudo é decalcado de cérebros muito semelhantes aos da Revolução Nacional. Aliás, a formatação ideológica a partir das escolas parece ser um ponto assente no programa desta Comissão: rever, revisitar e reformatar a imagem da República de forma a servir um Estado moderno é o objectivo principal. («As actividades previstas incluem exposições, encontros científicos, roteiros municipais, jogos e concursos e actividades nas escolas», Público, 08-07-09). Num país onde a Escola já quase não tem contacto com a História, onde os estudantes não sabem situar cronologicamente os acontecimentos e as figuras que os antecederam; num país onde os museus não têm orçamento para quase nada, nem para conteúdos educativos, gastar 10 milhões em propaganda republicana é imoral e muito pouco ético. Incorrendo no risco de parecer imparcial, diria que é um crime. Mas tais coisas, que vão sendo hábito numa sociedade pouco transparente e habituada à impunidade, não espantam saindo da boca, mãos e cabeça de banqueiros. Fico realmente admirado que uma pessoa de consciência, saber e intelectualidade como a Dr. Raquel Henriques da Silva (que, mais do que ninguém, conhece o Estado da Cultura em Portugal) assine por baixo desta fantochada.