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9 de novembro de 2011

"Enfins"

Só quem não trabalha em História, quem não tem de se deparar com empregos precários, quem não sente o que é ser-se desprezado quando se apresenta a alguém com uma licenciatura que não em gestão, direito, engenharia ou medicina, enfim, só quem não vive no fio da navalha para ser reconhecido ou respeitado é que não fica indignado ou mesmo enjoado com o que foi gasto nos últimos 2 anos em propaganda ideológica a propósito do Centenário da República.
Quando, por um lado, se fecham os centros de investigação das Universidade, se reduzem bolsas de estudos e se cortam nos apoios às edições científicas e por outro se gastam somas incontáveis de dinheiro em sinecuras, edições de luxo, exposições, tudo acrescido de um design de primeira água, apresentações sumptuosas pontuadas por cocktails e brindes, é que percebemos o quanto este país se revolve em interesses de grupelhos que pretendem e atingem o poder, manejando a seu bel prazer o erário público.
Nunca fui contra as comemorações do regime, embora as considere provincianas e bacocas tal como as de 1940, quando Salazar mostrava à Europa um país pobre mas alegre e virtuoso no seu Império de pacotilha. Compreendo que Portugal de 2010 se queira por em bicos dos pés para mostrar mais do que é, pretendendo enganar as agências económicas com a ideia de uma república centenária, cheia de valores e ideais que nunca cumpriu, não cumpre, e dificilmente cumprirá. Mas não aceito que se gaste sem olhar a meios, desviando do absolutamente necessário para outra áreas o dispensável. Que se celebre o regime e que alguns se orgulhem dele, pois empregou mais gente nestes 100 anos do que empregará nos próximos. Mas que se lembre de que a História não começou em 1910 e que os historiadores são pagos para escrevê-la e torná-la inteligível e não para mascará-la. 
Quando pensava que este regabofe acabar, ei-lo em jorro diário de eventos pagos e patrocinados por organismos públicos ou se não por estes, por Fundações como a de Mário Soares, generosamente subsidiada pelo Estado.
Vamos ser sinceros: já chega. Acabou. Não há mais nada para exaltar, comemorar ou louvar. Este "enfim,a república", bem podia ser o suspiro de cansaço de um regime que, para além de falido, está perfeitamente esquecido.

9 de fevereiro de 2011

CG_002

[S.a.] - Armazens Grandela. Catálogo Geral das Novidades para Inverno. Porto: [Emprêsa Gráfica "A Universal"], [1913?]; 97 páginas, impressão tipográfica sobre papel; 25,8 x 18,5 cm. Colecção de Nuno Resende.

Como prometido, já está disponível, via flickr, o Catálogo Geral das Novidades para o Inverno dos Armazéns Grandela para o inverno de 1913-1914. Escusado será desenvolver, com pormenor, as vantagens desta fonte histórica. Para os Historiadores da Arte do século XX é um repositório fundamental de termos e imagens, fornecendo dados sobre a moda, mobiliário, fotografia, etc; outrossim, para os linguistas e escritores, a própria denominação dos objectos, a influência dos galicismos e outros estrangeirismos, etc; e para os Historiadores, um manancial de dados económicos, sociais e mentais, na véspera da Grande Guerra. De resto, folhear este catálogo é uma delícia para os olhos. Esta é uma das minhas contribuições para compreender a vivência lisboeta durante a Primeira República, longe dos discursos laudatórios sobre figuras e ideologias. Porque a História também se escreve com imagens.

Para aceder às imagens em conjunto, clique aqui.
Para ver um slideshow das imagens, clique aqui.

13 de janeiro de 2011

Viva a república, abaixo a república!

Nunca, em Portugal, se falou tanto em república. Pelo menos desde Outubro de 1910. Fala-se no regime, porque o regime paga. É justo. A propaganda ideológica refinou-se ao longo do século XIX, definiu a ascensão dos grandes e mortíferos regimes do século XX e é usada no século XXI para distrair dos problemas económicos e sociais. Enquanto se alimenta o mito do regime igualitário e fraterno, mina-se a liberdade amordaçada entre acrisia e conformismo. Salazar e António Ferro sabiam-no bem e, nesse aspecto, as comemorações do Centenário da República são herdeiras directas dos grandes festejos de 1940 sobre a Nação e o novo regime.

Muito antes de Cromwell e da Revolução Francesa, muito antes do marxismo modelar a ideia de república como o melhor de todos os regimes, já república constituía a designação para a coisa pública. Não a coisa do povo, - essa entidade abstracta onde todos se incluem e onde ninguém deseja incluir-se-, mas a gestão do lugar público. Nas praças e nos caminhos, onde sempre se decidiram os desígnios comunais, fazia-se um tipo de política. Com a Revolução e o Liberalismo a política passou a fazer-se em casas parlamentares e as eleições que dantes se realizavam inter pares, hoje fazem-se intra grupos. A política deixou de ser para todos. Estava porém aberto o caminho para que a ideia de república se transformasse no ideal que é hoje: o de um suposto absoluto nivelamento e igualdade entre cidadãos (mas apenas entre os que fazem política).

O republicanismo português, que se aproveitou da ignorância e do analfabetismo grassante em 1910, construiu-se sobre a noção de que qualquer pessoa podia tornar-se chefe de estado, contrariando a ideia de que aquele lugar pertencia a uma família de privilegiados. Nunca conseguiu explicar, contudo, que  mudavam os privilegiados e não os privilégios.

12 de janeiro de 2010

Sumário da ideia de República em Portugal.




Sejamos francos, todos nós, monárquicos, republicanos ou indiferentes: esta não é a melhor altura para gastar 10 milhões de euros em comemorações. Partindo da serenidade deste pensamento, vamos ao que interessa: Portugal deve, ou não deixar de ser a República que é desde 1910

Talvez não consideremos necessária a imediata alteração do regime, mas tal não pode dever-se a opiniões estapafúrdias do género “as monarquias não são democracias”, ou “a república é o melhor e o mais justo regime”. Basta olhar à nossa volta para perceber que nenhumas destas asserções é verdadeira. Se assim fosse, estaríamos a colocar a Suécia, a Holanda, a Noruega e tantas outras monarquias, ao nível de ditaduras ou regimes pouco honestos. 
Se algum mérito há a atribuir às comemorações do Centenário da República é o de que precisamos de debate. Podemos não precisar de um regime novo, como sustentam alguns, mas precisamos, com certeza, de eliminar preconceitos e estereótipos em relação, respectivamente, às noções de monarquia e república.
Desde logo a República Portuguesa funda-se em ideais muito pouco democráticos. Estafado o lema francês, jacobino e maçon da Liberdade, Igualdade e Fraternidade para qualificar momentos pouco edificantes do republicanismo em Portugal, de que é testemunho maior o período da Primeira República. 

Não interessava a qualquer um dos republicanos, ainda em monarquia, que o regime fosse derrotado com serenidade. Prova-o a forma como D. Carlos e o seu filho D. Luís Filipe foram sumariamente executados em plena praça pública. A República intelectual atacava na imprensa (sobretudo através da caricatura, poderosa arma num país de analfabetos), nos municípios e no Parlamento. E cabia aos sicários, - a ralé armada, braço terrorista dos intelectuais -, por em prática os desejos mais tenebrosos. Um plano de tomada do poder não podia, por isso, ser feito em pezinhos de lã. 
Primeiro, não havia condições para electrizar o eleitorado. Se há culpas a imputar aos políticos da Regeneração é o de que o plano da educação pecou por tardio. Um país de iliteratos, de analfabetos, é muito mais fácil de dominar do que um território de cérebros instruídos. A República sabia-o e aproveitou-se disso ao comunicar ao resto do país a mudança de regime por telégrafo. Por isso, devemos desconfiar da ideia de que república foi uma revolução do povo. Pode não ter tido a oposição dos monárquicos e estes serem, de facto, uma pequena percentagem da população do país, mas é muito difícil acreditarmos que, a 4 de Outubro de 1910, Portugal fosse um país de republicanos. Ontem, como hoje, a realidade não pode ser mascarada: somos um país de abstencionistas, de indiferentes.
Por outro lado, os republicanos sabiam bem que o Reis constitucionais eram amados, se não pela grande massa (a da indiferença), pelo menos por uma grande parte da intelectualidade portuguesa, mesmo a que se encontrava ligada a sectores da Esquerda, nomeadamente ao Socialismo. D. Carlos fazia parte dos Vencidos da Vida, unia-o aos desiludidos a incapacidade de renovar cultural e socialmente Portugal. Só havia um caminho: eliminá-lo. A morte de D. Carlos e do príncipe herdeiro nunca pesou na consciência revolucionária dos teóricos do regime. Para eles, fora algo necessário. Herdeiros legítimos do sangue da Revolução Francesa, pedia-se aos carbonários a cabeça régia, como fez o exacerbado Afonso Costa, aos berros, no Parlamento, e eles -força bruta e sanguinária- davam-lha.
A República é uma obra de minorias, por um lado, de um punhado de literatos inflamados e, por outro, de um conjunto de operários ressabiados e electrizados por uma mistura de ódio às humildes origens, ao cura e ao proprietário abastado (ver o caso de Aquilino Ribeiro). Lisboa fez a revolução, o Porto subscreveu-a e o resto do país, na sua proverbial indiferença, aceitou-a como fizera ao longo de todo o século XIX ao aceitar a dança das cadeiras no parlamento.

E eis-nos na questão essencial: a monarquia não caiu por culpa dos monárquicos. A monarquia vacilou, tremeu e sucumbiu ao golpe duríssimo de 1 de Fevereiro de 1908 (e não à escaramuça de 5 de Outubro de 1910). A monarquia desgastou-se no rotativismo, na voragem para a qual foram atirados D. Luís e D. Carlos, confundindo-se o monarca e o político. De notar que os republicanos eram, na sua maioria, emergentes das fileiras do regime. Cansados de todo o tipo de rejeições, deixaram Progressistas e Regeneradores para tentar uma terceira via, muito mais condicente com a sua própria ideia de mérito próprio, nem sempre concordante com a do serviço à Pátria. O projecto reflecte esta ideia: substituir o rei pelo presidente, alguém que pudessem manietar e que pudesse ser, não a face de uma dinastia, mas de um ideal, que vogou ao sabor dos insultos e das agressões ao longo da Primeira República.
Se há algum mérito a retirar destas comemorações, é o de que podemos lucrar, pelo menos, com a discussão e o debate. Eliminar da nossa mitografia muitos estereótipos como os que ainda se podem ver aqui e ali, onde a nossa juventude mistura república e noções de nação e pátria, fazendo tabula rasa de séculos de História.
A República implantou-se à força, mas sem dificuldades, em 5 de Outubro de 1910. Alterou a legislação, mas foram os símbolos – numa época em que se apelava às identidades nacionais – como a bandeira, que mais contribuíram para consolidar a ideia de uma nova nação, surgida das cinzas monárquicas. Não o escamoteemos, temos sido alvo de lavagem cerebral, ao dizerem-nos, desde as cadeiras da primária, que as cores verde e vermelha são o símbolo da esperança e do sangue. Absurdo. Tais cores são tudo menos esperançosas, são o testemunho da presença das ideologias-base dos mentores positivistas do novo regime. Mas, é claro, para haver um novo regime, com estabilidade e confiança, é preciso reinventar a nação, eliminando ou reinterpretando os velhos símbolos.
Poderá nem haver disponibilidade mental ou económica para mudarmos o regime, mas nada impede que o coloquemos à discussão. Afinal, esse deveria ser o verdadeiro sentido da democracia. Ou a ética republicana, essa expressão que nada diz, está acima de qualquer ética? E a república, que se arroga a guardiã de tantos valores, não aceita o valor maior, o da verdade afinal não contemplada na trilogia francófila?

7 de janeiro de 2010

Quem conhece o estado da Cultura em Portugal, as dotações orçamentais para os Museus e para a salvaguarda do Património, as necessidades de milhares de licenciados desempregados ou com empregos precários, - mais ainda no tempo de crise em que nos encontramos -, a atribuição de dez milhões de euros para comemorar o regime chega a roçar os limites de um insulto atroz. Não digo que não se proporcionassem as devidas manifestações de júbilo pelo centenário da república - que muito aguentou, dados os tropeções que tem dado - mas a esta escala é coisa infame e pouco gloriosa. Basta olhar à nossa volta para perceber que há pouquíssimos motivos para justificar tamanhas festividades.

3 de janeiro de 2010

A História segundo o Bloco de Esquerda: terroristas ou galinhas?

[...] Jornal I - Para todos os efeitos, a Carbonária era uma organização terrorista...
Fernando Rosas: Não lhe chamaria assim... A expressão terrorista tem hoje conotações que não se adaptam exactamente à Carbonária. Punha bombas, realment
e. [...]

Fernando Rosas consegue dar um novo significado à expressão «pôr bombas». Ora se quem põe bombas não é terrorista, ou quem é terrorista não põe bombas, há anos que andamos enganados. Não eram terroristas, afinal. Eram galinhas que punham granadas e explosivos, em vez de ovos.

18 de dezembro de 2009

Citações #1

Numa Monarquia ainda temos a possibilidade de beijar um sapos e sair-nos uma princesa ou um príncipe. Em República apenas os engolimos.

In a monarchy still have a chance to kiss a frog and marry a princess or a prince. In a Republic we only
bite one's lips.

Dans une monarchie ont a encore une chance d'embrasser une grenouille et d'épouser une princesse ou un prince. Dans une Republique nous avale la grenouille.

2 de novembro de 2009

1#notas republicanas

Via Biblarte (Flickr)
Fotógrafo: Estúdio Horácio Novais


É Salazar. E a bandeira é a da República Portuguesa. Não, não há engano. Ao contrário do que algumas pessoas, como o sr. Mário Soares, querem fazer crer, não houve suspensão da República entre 1926 e 1974. Vamos mesmo comemorar o Centenário da dita no próximo ano.

5 de outubro de 2009

O idealismo da República Portuguesa!




«Em nome da ascendência branca, os governos republicanos chegaram mesmo a dar cobertura à prática das maiores atrocidades alguma vez cometidas pelos portugueses em África. São elucidativos a esse respeito os relatos recentemente revelados sobre a campanha militar no sul de Angola em 1915, durante a qual o exército português avançou com ordens superiores para exterminar toda a população local, incluindo velhos, mulheres e crianças. Ora, quando esta bárbara política de genocídio foi discutida numa sessão secreta do parlamento, em 1917, o chefe do governo e líder do PRP [Partido Republicano Português], Afonso Costa, teve estômago para a defender, argumentando que «não nos deixamos mover por idealismos nem esqueçamos os conceitos e impressão dos pretos perante respeitos humanitários que ele[s] considera[m] como fraqueza ou pusilinâmidade». [citação extraída de MIRA, Ana (ed.), Actas das sessões secretas da Câmara dos Deputados e do Senado da República sobre a participação de Portugal na I Grane Guerra, Porto: ed. Afrontamento, 2002, pp. 115 e 148-53].

Rui Ramos, «O dia dos equívocos», 2004.

14 de agosto de 2009

Avante, Camaradas!

Esta história da mudança da bandeira do município de Lisboa pela de Portugal pré-1910, içada no mesmo balcão onde a cinco de outubro daquele ano foi proclamada a República veio esclarecer duas coisas muito importantes. A primeira delas é que no one gives a damn for the portuguese republic. É o mesmo que dizer que os portugueses estão-se nas tintas para a República Portuguesa. Salvo meia dúzia de pseudo-patriotas que apareceram nas várias peças jornalísticas, daqueles para quem o patriotismo máximo é pôr a mão sobre o peito quando toca o Hino nos jogos de futebol, para esses, a República é a Nação e, como tal, deve ser respeitada. Esquecem-se, contudo, que a nação não se esgota em 100 anos. Compreendo, porém, a exaltação desses pobres cidadãos que de História apenas conhecem o primeiro rei de Portugal, a cronologia da carreira do Cristiano Ronaldo e um ou dois acontecimentos maiores dos últimos 20 anos, talvez a Expo, em 1998, e o Europeu, em 2004. De resto, o acto - quanto a mim genial - de remoção temporária da bandeira do município que alguns consideraram uma ofensa (no twitter havia dois ou três repúblico-onanistas que batiam contra o teclado como se estivesse em causa a honra da mãe deles) foi uma demonstração de como os símbolos nacionais andam pelas ruas da amargura e de como o fervor republicano morreu pouco depois de 1910. Nos blogues havia gente insuspeitadíssima, de todas as idades, a comentar o quão bela era a bandeira de Portugal antes de 1910 (detalhes, claro, quando em causa está o futuro de um país, mas...), outros, dado o inusitado da situação, foram "comparar" regimes e, claro, chegavam à conclusão de que uma Europa essencialmente "monárquica" não pode estar errada (muito embora alguns fanáticos continuem a dizer que monarquia não é democracia. Porque no se callan?). Em suma, toda a publicidade é boa publicidade. Aliás, o Bloco de Esquerda sabe-lo bem, é uma das suas estratégias, entrar aos pontapés e urros em celebrações ditas "patrióticas" ou "nacionalistas" com lenços na cara e palavras de ordem (ou antes palavrões de ordem). O mais engraçado é que ninguém espera que eles sejam presos. É normal. São rebeldes. Em segundo lugar, ficamos a saber que, com este acto, e outros com que a ala monárquica do 31 da Armada nos tem já presenteado, inaugura-se um novo período na luta pela discussão da República. É bom que todos percebam que nós, monárquicos, não somos elitistas nem queremos chás dançantes, nem garden partys com tiques aristocratas e restauração de privilégios que nem fazem sentido hoje em dia, nem são a essência de uma monarquia parlamentar, plural e moderna. Aliás, a restauração dos privilégios de uma certa monarquia nunca poderia ombrear com os desta República Portuguesa, tal o número de benesses, cargos políticos e honoríficos que as instituições republicanas distribuem anualmente segundo interesses individuais e corporativos (ordens, comendas, tachos, etc etc). Por isso, pode o movimento 31 da Armada, e todos os que lutem por um Portugal melhor e mais justo, contar sempre com o meu apoio e, neste momento, com a minha solidariedade.

31 de maio de 2009

Imagem picada daqui


Ocorreu, recentemente, em Lisboa, uma iniciativa que visava reflectir sobre Afonso Costa, o Robespierre português que a Comissão para as Comemorações para o Centénio da República não tardará em converter num santo cívico, modelado ao serviço de um regime puro e casto. § A propósito desta figura cimeira do republicanismo português, não posso deixar de recomendar a leitura de "Psicografia do Dr. Afonso Costa", escrita por Carlos Malheiro Dias na sua imparcialidade de homem livre (foi regenerador, monárquico liberal admirado pelos republicanos e simpatizante do salazarismo). Neste ensaio CMD disseca o temperamento do deputado que gizou a Lei da Separação, plano último para abate "do maior poder espiritual da terra: a Igreja Católica". Prossegue Malheiro Dias: "A grandeza do adversário engrandecia-o. De esta vez não era com pequenos magistrados intrigantes, com débeis e pálidos inimigos, com uma magistratura humilde ou com preconceitos pusilânimes que se batia. Na sua frente erguia-se o vulto branco, coroado pela teara pontifícia, do Papa, rodeado pela sumptuosidade escarlate dos príncipes cardinalícios do sacro Colégio. Era ao próprio sucessor de S. Pedro que ele, o jacobino saído das forças obscuras da plebe, lançava o repto da sua lei fulminatória, como um Anti-Cristo. Diante de essa colisão decorativa, espectaculosa, a sua ambição frenética deliciava-se, naquele lance espantoso, maior do que Pombal maior do que Cavour. Não podendo, como Napoleão, oferecer-se o embriagador triunfo de aprisionar um pontífice, ele dá-se ao luxo supremo de chamar a sua casa um bispo, depois de expô-lo à conspurcação da plebe demagógica, e em sua casa o interroga, o censura e o condena - não como um esbirro colérico e grosseiro, mas com a calculada gentileza, com a sardónica amabilidade dos tiranos inteligentes, no íntimo grato àquele prelado venerável por lhe haver prestado um ensejo com a sua rebeldia à representação teatral de aquela cena histórica, em que tanto se exaltava o seu orgulho e que tão sensacionalmente patenteava a sua omnipotência.". Nestas brilhantes linhas Carlos Malheiro Dias retrata o clima político da república, dos seus paladinos e das suas ambições - longe dos ideais de fraternidade e igualdade. Em primeiro estava a conquista do poder. Ninguém melhor do que um obscuro, mas ambicioso Afonso Costa para liderar este movimento de batalha e ódio. Um leão que não se satisfaz com as migalhas, como o descreve CMD. Vale a pena ler este texto, escrito em 1911. É uma janela para a República que se vai comemorar em 2010 - durante cem anos preparada, gerida e glorificada por notáveis homens sem escrúpulos como Afonso Costa. - DIAS, Carlos Malheiro - «Psicografia do Dr. Afonso Costa», in DIAS, Carlos Malheiro / Introd. de Mário Mesquita, Lisboa: Vega, 1982, pp. 84-88.

9 de maio de 2009

Viva a República Portuguesa! ...- Viva o quê?

Nesta imagem, a República, já maternal e composta, pede por um Estado Forte.


A Comissão para as Comemorações para o Centenário da República Portuguesa vai gastar milhões de euros (leram bem, milhões) para levar a cabo um programa de relançamento da imagem do regime. O mesmo é dizer, vai branquear a História. Soube agora, pelo Estado Sentido, que o Terreiro do Paço onde D. Carlos e o Princípe D. Luís Filipe foram assassinados por dois fervorosos republicanos será o epítome deste maravilhoso mundo novo que eclodirá do 5 de Outubro de 2010. Embora considere as comemorações, acima de tudo um roubo (mais um a que nos habitou o regime e os seus governos), não me deixam particularmente aborrecido. Porquê? Simplesmente porque tudo ficará na mesma. Ou talvez não e sirva mais ao movimento monárquico esta onda de súbito republicanismo patriótico pois afinal de contas o momento não é o melhor para comemorar o que quer que seja. Entre despedimentos, a recessão e todo o aparato económico tecido à sua volta quem é que vai querer saber da República? De mais a mais já ninguém comemora o 5 de Outubro - é só sair à rua nesse dia e ver quem é que anda com bandeiras na mão, a celebrar o heróico feito de meia dúzia de oportunistas. A D. Maria que mora num apartamento nos subúrbios de Lisboa com 4 filhos para criar e com um marido doente, que sai de casa todos os dias às seis horas da manhã para apanhar 3 autocarros e o metro - isto tudo para ganhar menos de 500 euros - quer lá saber do centenário da República. Neste país sem rei nem roque aquela senhora meia despida há quase cem anos depois está quase pútrida e não vale um tusto furado. É preciso cobri-la de ouro - ouro que os seus contribuintes e cidadãos nem podem pagar - para exibi-la ante uma plateia de desinteressados.

29 de março de 2009

D. Luís Filipe (1887-1908)

Um excelente vídeo a que já nos habituou o amigo Zé (Blog de leste) sobre o Príncipe Real D. Luís Filipe que, com apenas 21 anos, foi abatido a tiro, como um animal, no terreiro do Paço. Não gosto de fazer história contrafactual, mas não posso de deixar de conjecturar como teria sido se D. Carlos e D. Luís Filipe não fossem assassinados em nome da República que agora se comemora. Luís Filipe de Orleães e Bragança tinha sido criado para reinar. Fora educado pelos melhores, viajara, instruíra-se politicamente e era já um garboso chefe de estado (assumira já a regência na ausência do pai) de quem se esperava o melhor. De facto, ele era a sublimação da monarquia constiticional representativa, de um país que caminhava a passos largos para um notável crescimento em termos económicos, sociais e culturais. Como refere Rui Ramos, após a morte natural de D. Carlos (diabético em grau avançado) a subida ao trono de D. Luís Filipe teria significado uma acalmação natural, talvez até um entendimento com os republicanos - o que poderia ter evitado a ruinosa 1.ª república e a longa ditadura salazarista. Podia o príncipe ter-se deixado seduzir pelo clima autocrático? É possível. Mas enquanto que entre 1910 e 1926 (apenas 16 anos) sucederam, numa autêntica bandalheira, 11 presidentes, com a sua presença à frente do reino de Portugal teríamos usufruído da vantagem de uma estabilidade governativa e talvez a anulação de uma ditadura pessoal como a de Salazar, debaixo de uma figura coroada - que sempre obscura, como sabemos pela experiência franquista, a imagem de regimes constituídos sobre um a propaganda a um homem só. D. Luís Filipe podia até ter sido arrastado pela onda de ódio que varreu a Europa entre 1914 e 1945, mas não podemos deixar de conjecturar que pudesse ter sido um opositor a ela, sendo ele filho e descendente de democratas (não esqueçamos que foi o seu trisavô D. Pedro IV quem abriu o país à liberdade). Por isso, não só lamento a morte de D. Carlos, que foi um bom homem e um excelente chefe de estado, ao contrário do que propaganda republicana sempre nos fez crer sobre ele, mas mais ainda de um jovem esperançoso - num país que nunca acreditou nos seus jovens e sempre se entregou nas mãos de velhos medíocres, bur(r)cratas e pretensamente sábios, como esse grande português chamado António de Oliveira Salazar, que soube honrar a república portuguesa e o seu país, durante uma chefatura de meio século.

23 de março de 2009

Da devassidão dos tronos e da moralidade republicana.

(Centenário da República)

Um dos argumentos de muitos republicanos que conheço é o de que as monarquias foram, ou são, antros de devassidão. Não usam esta expressão mas a ideia soa ao mesmo, ou seja, pela sua ordem de ideias, a uma devassidão monárquica equivale a uma certa "moralidade republicana", uma espécie de heterossexualidade monogâmica. Logo aqui há uma incongruência, pois é à monarquia que se reputam valores tradicionalistas de família e não à república que tanto pode ser entregue nas mãos de um solteiro ou de um casado. E a devassidão, como nós sabemos, não é apanágio da realeza, se não dos homens e das mulheres, comuns mortais. Depois, vem a questão da representatividade. Segundo os republicanos (ou não-monárquicos) um rei não representa o conjunto total dos cidadãos. É verdade. Haverá sempre uma franja de insatisfeitos. Num estado presidencialista a coisa piora. Além dos sempre insatisfeitos, há os não votantes e os que não votaram num dos candidatos propostos, cada um deles representando ou um partido político, ou uma facção ideológica ou um grupo económico. Cinco ou seis candidatos servem os interesses da maioria de uma nação? É óbvio que não. O ideal seria que um comum cidadão pudesse ser eleito apenas pelas suas ideias e não pelos lobbies ou por fundos monetários conseguidos de forma pouco clara. Depois segue-se a questão histórica. A História, segundo os republicanos, é uma sucessão de erros monárquicos: batalhas, amantes, guerras fraticidas. Só em Portugal, dizem, tivemos um rei que bateu na mãe, um que levou o país à ruína e à perda da independência e outros dois que puseram os seus súbditos uns contra os outros. Os mitos são perigosos, sobretudo quando usados por ideologias e políticas. Embora não goste de julgar a História, é verdade que, em todos os tempos, em todos os regimes e estados houve necessidade para tomar o poder - e só ao poder se deve apontar a causa de todos os males dos bons e maus governos, dos bons e maus governantes. As estratégias são comuns a monarquias e repúblicas. Devo lembrar, aliás, que o período republicano de Roma, em que se lançavam as bases para os regimes presidencialistas actuais os golpes sucediam-se vertiginosamente. Portugal do século XX é a prova de que uma república não foi, de modo algum, a solução para o país. A instabilidade que se conhece entre 1910-1926 deu origem à mais longa ditadura de todos os tempos: quarenta e oito anos de uma odiosa e perniciosa noite de governação que teve à frente dois homens: um "moralmente devasso", beato e atávico que incutiu na já melancólica personalidade dos portugueses, a máxima do pobre e alegre, do incapaz mas honesto, do frugal e atreito às coisas simples; e outro, mais culto e aberto, mas nem por isso capaz de democracia. É possível comemorar uma república de 100 anos, em 2010, quando metade deles foram debaixo de uma ditadura? Tenho a certeza que não. Há efemérides que não se devem comemorar. A república portuguesa que continue, discretamente o seu papel para o qual se talhou, e não faça grandes ondas - que a vergonha e o saber reconhecer os erros são apanágio dos sábios, não dos tolos. E não devemos continuar a julgar a História. Devemos pesar na balança da contemporaneidade as vantagens entre monarquia e república. E para isso basta olhar à nossa volta. Afinal que desvantagens encontram os outros nas suas monarquias? Não me parece que a Espanha, a Noruega, a Suécia, a Dinamarca, e mesmo o Reino Unido (Canadá e Austrália incluídos) estejam insatisfeitos com o regime que têm. Mil vezes uma monarquia excessiva como a Inglesa, a uma república de paz podre como a portuguesa.

27 de novembro de 2008

Nos tempos que correm...

"O Rei surge como a única força que no País ainda vive e opera."
Eça de Queirós, referindo-se a Dom Carlos I, um vencido da vida. Quem vive e opera, hoje?



...sabe bem recolhermo-nos na leitura dos pensamentos dos Vencidos da Vida. A razão estava e está do lado deles.


Combater apenas o analfabetismo do povo por meio de escolas primárias e de escolas infantis sem religião e sem Deus, não é salvar uma civilização, é derruí-la pela base por meio do pedantismo da incompetência, da materialização dos sentimentos e do envenenamento das ideias. Quem ignora hoje que foi a perseguição religiosa e o domínio mental da escola laica o que retalhou e fraccionou em França a alma da nação? Quem é que nesse tão amado, tão generoso e tão atribulado país não está vendo hoje objectivar-se praticamente o profético aforismo de Le Bon: «É sobretudo depois de destruídos os deuses que se reconhece a utilidade deles»!

25 de novembro de 2008

Quem ler até acredita que é verdade.

Ver em APH.


No site da Associação de Professores de História há um link que nos remete para um sumário da História de Portugal, em inglês. A ideia, tanto quanto percebo, é permitir a um estrangeiro que visite o espaço da APH conhecer a História do nosso país em 10 minutos. Uma espécie de tudo-o-que-você-quis-saber-sobre-Portugal ou Portugal-for-dummies. Interessante é quando chegamos à parte em que cabe explicar o significado das lindas cores da bandeira republicana.


The green is the colour for hope in the future.

The red is the symbol of the courage and blood spilled by Portuguese soldiers on the battle field.

(O verde é cor da esperança no futuro. O vermelho o símbolo da coragem e do sangue derramado pelos portugueses no campo de batalha).


Eu já não acredito neste relambório Estado novista desde os bancos da primária. E pergunto: é isto que a maioria dos professores de História ensina aos seus alunos? Se é, não há dúvida que as comemoração do centenário da república levam já um grande avanço. É que as cores absolutamente díspares e aberrantes que constituem a bandeira pós-1910 têm a sua origem nas correntes socialista (vermelho) e positivista (verde) que maravilhavam a trupe republicana implicada no golpe de estado de 5 de Outubro. Não há cá esperança alguma, nem sangue dos heróis portugueses. Ou melhor, talvez o vermelho da bandeira seja a parcela branca da bandeira nacional tingida de rubro com o sangue derramado pelo D. Carlos e pelo Princípe D. Luís Filipe, quando estes foram assassinados à queima-roupa, pelas costas por dois carbonários republicanos. Nesse caso sim, poderíamos dizer que a bandeira vermelha e verde tem alguma nobreza na sua existência.

5 de novembro de 2008

We can be heroes, just for one day (um post sobre as eleições americanas)





David Bowie, Heroes, 1977

Não sou dado a manifestações esquizofrénicas de teor eleitoralista, muito menos as de carácter institucionalmente republicano. As eleições nos E.U.A. são deles, não são nossas, por muito que a eleição do presidente norte-americano influa nos gráficos bolsistas do resto do universo. Contudo, assim que liguei a t.v., ainda há pouco, fui bombardeado com festejos efusivos de vitória, como se hoje tivesse nascido um mundo novo. A única grande e verdadeira conclusão que se podia tirar dos tais festejos televisivos era a de que, pelo facto de ter sido eleito um presidente de cor, tudo ia mudar,  inclusivé o próprio sentido de liberdade. Acredito que, para a América seja um grande passo, dada a sua História conturbada, mas chega a ser de uma inocência tola pensar que podemos antecipar os actos ou julgar as pessoas pela cor da pele (não é o que as campanhas anti-racistas nos dizem?). Eu, quando muito posso dividir o mundo segundo o carácter das pessoas. A cor da pele, dos olhos, as diferenças físicas, a orientação sexual, política, ideológica, a religião nada disso me interessa. Se não houver humanidade, no sentido de sermos capaz de amar o seu semelhante, qualquer Homem é potencialmente mau - e eu acredito, cada vez mais, que o Homem é biológica e culturalmente mau, infelizmente. Por isso, apenas posso esperar que o sr. Obama, independentemente de ser o primeiro presidente negro da História americana seja mais um pai, do que um estratega. É de um pai que as nações precisam. E é por isso que eu sou monárquico.

12 de junho de 2008

Raça & república ou de como Pascoaes seria apedrejado.

«Neste momento genesíaco e caótico da nossa Pátria, é necessário que todas as forças reconstrutivas se organizem e trabalhem, para que ela atinja rapidamente a sonhada e desejada harmonia.
«O fim desta Revista [Águia], como orgão da "Renascença Portuguesa", será portanto, dar um sentido às energias intelectuais que a nossa Raça possui; isto é, colocá-las em condições de se tornarem fecundas, de poderem realizar o ideal que, neste momento histórico, abrasa todas as almas sinceramente portuguesas: - Criar um novo Portugal, ou melhor ressuscitar a Pátria Portuguesa, arrancá-la do túmulo onde a sepultaram alguns séculos de escuridade física e moral, em que os corpos definharam e as almas amorteceram. (...)
«É preciso, portanto, chamar a nossa Raça desperta à sua própria realidade essencial, ao sentido da sua própria vida, para que ela saiba quem é e o que deseja. (...)
«Ora, esta obra sagrada compete ao espírito português, a todos os portugueses que encerrem no seu ser uma parcela viva da alma da nossa Pátria. (...)
«Se não existisse uma alma portuguesa, teríamos de evolucionar conforme as almas estranhas, teríamos que nos fundir nessa massa amorfa da Europa; mas a alma portuguesa existe, vem desde a origem da Nacionalidade: de mais longe, da confusão de povos heterógeneos que, em tempos remotos, disputaram a posse da Ibéria. Houve um momento em que, no meio dessa confusão rumurosa e guerreira, se destacou uma voz proclamando um Povo, gritando a Alma de uma Raça: foi a Voz de Viriato; foi o verbo criador que encarnou em Afonso Henriques e se tornou acção e vitória.

Teixeira de Pascoaes, Revista A Águia, n.º 1, 1912.