Mostrar mensagens com a etiqueta relações humanas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta relações humanas. Mostrar todas as mensagens

7 de julho de 2012

A guerra de Shiva.


Vandana Shiva O TEMPO E O MODO (RTP 2012) from santiago muhape on Vimeo.
De vez em quando os ambientalistas trazem à colação um guru da ecologia para questionar o modelo actual (fazendo-nos crer que o capitalismo e o neo-colonialismo são os eixos em que se alicerça todo o mal da humanidade). A senhora entrevistada e cuja entrevista passou no programa o Tempo e o Modo disserta sobre todos os assuntos, desde física quântica a História, alinhando aliás, na tese de que Vasco da Gama e todos os ocidentais (brancos europeus piratas) não trouxeram ao Oriente se não desgraça e exploração. Depois fala em sustentabilidade, natureza, criatividade e multiculturalismo - coisa que é muito bonita vista de um dos lados - prossegue nas acusações. Desliguei quanto começou a falar no projecto masculino que caracteriza o modelo social, político, económico, etc., actual. Engraçado que, dentro de todas estas generalizações (ao que parece servem um habitante de Vladivostok e ao mesmo tempo um aborígene australiano) a senhora Shiva não se lembre da biologia humana. Se há competição, exploração ou subserviência é porque há quem aceite competir, quem queira explorar e até ser explorado e não se importe de ser servil. A moda só existe porque o ser humano é naturalmente competitivo. O mundo é complexo porque cada um de nós é complexíssimo. Achar que se muda o mundo com processos judiciais sobre patentes de usos ancestrais não me parece o caminho. Aliás, o tom do discurso da interlocutora é tudo menos pacífico ou pacificador. O tom das acusações e da leviandade da culpa que imputa à tal comunidade global que ao mesmo tempo elogia não é sequer um saudável paradoxo. É uma triste constatação de que Vandana é só mais uma nesta engrenagem que só se muda por dentro.

16 de dezembro de 2011

O que me choca

 Foto de Massoud Hossaini sobre a matança em Cabul, Afeganistão, no dia 6-12-2011.

é que a nossa sociedade já não se choque com o sangue humano, tão vulgar em filmes, na televisão e nos jornais e se compadeça mais com os animais, as árvores e o seu próprio ego. Eu sou um pessimista inveterado e creio, sinceramente, que a humanidade acabará consigo própria. Mas, caramba, um pouco de arrependimento e de compaixão podiam atrasar esta hecatombe!

11 de junho de 2010

Complicadas ou complexas?



Há algum tempo atrás ouvia, involuntariamente, um diálogo de duas amigas sobre uma relação que acabara de terminar. O namorado de uma delas rompera o idílico nupcial por sms e bloqueara-a no facebook. Ao que parece tudo por uma questão de ciúmes, exacerbada pela presença de demasiadas flores e corações deixadas por terceiros no mural do desejado rapaz. E rematava a chorosa descrição com um: «porque é que as relações são tão complicadas»? Ressalvo o facto de não estar a falar de adolescentes, mas duas mulheres, com idades claramente superiores a 25 anos.

As relações são assim tão complicadas? Na era do relacionamento digital estaremos a ficar mais atreitos a complicações? Penso que não e considero, aliás, que aquilo a que se convencionou chamar Redes Sociais e que são apenas o desenho de algo que existe desde o princípio da humanidade, apenas permitem prestar mais atenção a um processo muito antigo. As redes sociais são a soma de ligações de elos. Da interacção entre indivíduos nascem as relações e da nossa capacidade para mapear ou avaliar o peso do diálogo nelas presente, criam-se gráficos. Se pudéssemos fotografar em processo de longa exposição, a vida de uma pessoa durante um mês, observada de uma distância considerável sobre a sua cabeça, poderíamos criar uma daquelas imagens semelhantes à de uma autoestrada pela noite, onde, dos carros que circulam, apenas distinguiríamos uma linha de luz laranja e outra de luz mais clara. Os nossos circuitos habituais seriam mais espessos, as pessoas com quem mais privamos seriam elos maiores e, dessa forma, criaríamos um mapa mensal da nossa existência.

Ora, consultado esse mapa de ligações e elos, ficaríamos com uma ideia muito clara da nossas vidas: ela é tudo menos linear. É complexa. E às vezes complicada.

Entre a complexidade e a capacidade para complicar, vai uma distância considerável. Existem pessoas menos organizadas, outras mais; umas para quem tudo, à partida, é um jogo perdido, outras para quem a vida flui serenamente mesmo por entre montes de escombros. Mas complicar não é algo de mau. Conheço pessoas complicadíssimas, que complicam tudo. Se lhes dão as direcções correctas para irem de A a B em linha recta, acabam em XYZ ,às voltas. Mas a vida delas é animadíssima, sempre cheia de peripécias, aventuras, paixões.

Depois há aquelas pessoas para quem complicado é sinónimo de relações. Flirts, namoros, casamentos acabam porque o outro é complicado, ou porque algo se complicou. Eu julgo que nenhuma relação é linear, do género, eu gosto de ti, tu gostas de mim. Isto pode ser o esqueleto de uma relação, mas às vezes não passa de um monte de ossadas desconexas. É preciso afinidade, lealdade, sinceridade, objectivos em comum, essas coisas teóricas. Para uma relação nem é preciso amor, desde que haja uma perspectiva uníssona, um projecto dual.

Isto tudo para chegar aos relacionamentos cibernéticos e à pobre rapariga que se viu abandonada via sms. Eu bem sei que muitos sociólogos (esses estranhos prospectores de coisa nenhuma) dirão que estamos perante uma mudança e o diabo a quatro. Mas eu, que já ando aqui há tempo suficiente para perceber algumas coisas acho, só e apenas, que o facebook, os telemóveis, a internet enfim, são extensões do nosso corpo - ou dos nossos braços, ou da nossa cabeça. Que a única possibilidade extraordinária da sua existência é possibilitarem um acelerado cumprimento dos nossos actos, e pouco mais. Hoje, aquele rapaz, acossado pelo excesso de ciúmes da sua obsessiva amada ou, quiçá, apanhado numa excessiva leviandade amorosa, quis fugir à responsabilidade das suas acções através de uma mensagem escrita. Mas no passado, uma carta ou um bilhete sumário teriam assegurado o mesmo efeito. E na ausência do facebook, muitos seriam os recursos para cortar um relacionamento. Quem nunca leu o livro ou viu o filme «Ligações perigosas»?

23 de maio de 2010

Derivações.

Não aprecio ser subestimado. Creio que ninguém apreciará. Não se trata de uma questão de sobranceria. O respeito pelo saber individual está devidamente consagrado na Declaração dos Direitos Humanos e nas Constituições. O marceneiro não gosta que lhe corrijam o aplainar ou teçam considerações teóricas sobre o ensamblamento, o cientista, com provas dadas em determinada pesquisa, não gosta de ser posto em causa na sua área, por quem é alheio à questão. Já utilizei e volto a utilizar esta expressão: "quem manda ao sapateiro tocar rabecão?"

Vivemos um tempo de certezas absolutas. Uns têm certeza de tudo, são os tudólogos, o país está cheio deles. Outros cheios de certezas de nada, que são os políticos. Entre uns e outros, temos uma sociedade marimbista e de cegos, onde quem tem um olho reina.

O facebook é o exemplo deste maniqueísmo. Neste espaço imaterial, onde se peca sempre por excesso, a razão não tem sentido, a ética não vale um chavo furado e a reciprocidade não existe. Voyeurs, predadores, personalidades nulas na vida real lançam sobre o facebook a personalização de desejos e traumas. Em público não diriam metade das coisas que expressam por ali, nem agiram segundo aquela conduta, ou melhor, o facebook é a ausência de conduta. Em suma, o FB é um jogo que se joga sem regras. Numa partida "regular", o jogador A espera algo do B e vice-versa. Para se avançar em direcção a um ponto (meta, objectivos finais ou intermédios), espera-se uma reciprocidade. No facebook desconhecem-se as regras elementares; é , na maior parte das vezes, um diálogo de cegos e surdos.

Ao ler a troca de correspondência entre Jorge de Sena e Sophia, entrei por alguns minutos num mundo totalmente diferente do actual. Para saber, deseja-se a correcção: Sena corrige e é corrigido, numa cordialidade difícil de ponderar actualmente. Naquele tempo de suaves cartas que demoravam, esperava-se, ponderava-se, analisava-se. O tempo é um bálsamo para o ódio. Hoje, com as sms, os emeiles, os chats, as redes sociais e os blogues, sabemos tudo de tudo, tudo de todos e o anseio por saber mais é como um excesso de líbido. Basta percorrer os "posts" para compreender este estado de situação: uns escrevem por absoluta necessidade de exibição, outros pelo desejo de confissão, outros pelo ataque. E depois os comentários, anónimos, destrutivos, despidos de qualquer fundamentação são a epítome deste percurso caótico.

É preciso mais honestidade intelectual. Mais humildade.

Nascemos e vivemos cheios de certezas. A arrogância é tal que sabemos onde está, ou não está, Deus, se é feito da matéria dos crentes ou dos cépticos. Perdão, onde se lê cépticos, deve ler-se crentes, onde se lê crentes, deve ler-se cépticos. Já não há, sequer, lugar para o chavão "só sei que nada sei". Só certezas absolutas.

5 de março de 2010

O Livro das Caras

O facebook é um lugar extraordinário. Um dos mais populosos países do mundo, segundo as estatísticas. Há gente para tudo, como em todos os países. Mas a coberto de um domínio do seu mundo, algumas pessoas soltam o seu mais pérfido desejo de ofender, de dominar pela acusação. Porque aqui não há polícia, nem prisão efectiva. Quando muito uma expulsão, logo substituída por um regresso anónimo ou heterónimo. Por isso o facebook é um dos melhores locais para se ser o alter ego, para se dizer o que se não diz em público, geralmente por forças das convenções e...por falta de coragem. Não me refiro apenas a ateus, anarquistas ou associais para quem os inimigos são todos os outros menos a sua consciência. Para esses autistas que apregoam a libertação da Razão com o aprisionamento do Homem, a verdade é apenas solidária enquanto rede de raiva e ódio - o cimento que cola provisoriamente uma rede de consciências solitárias. Refiro-me, acima de tudo, a pessoas que canalizam a sua angústia contra ideias, pessoas, causas que, ou conhecem mal, ou não conhecem de todo. Os fóruns do facebook estão repletos de momentos pouco edificantes da sinceridade humana. O mais preocupante nem são as mensagens vazias de desprezo sobre A ou B. São as invectivas repletas de sadismo e ódio que a ignorância destila em forma de intolerância. Há gente que grita contra a homofobia mas é profundamente heterofóbica, numa altura em que a orientação sexual e a sexualidade são, cada vez mais, um empastelado de emoções. Também há homofóbicos que gritam contra um ideal que não conseguem cumprir. Os não religiosos não coexistem em paz. Querem a destruição dos símbolos e a morte dos líderes. Talvez querendo a paz para eles à custa da violência para todos os outros, esquecendo-se que a culpa do que os homens fazem, ainda que sob a desculpa de um deus, não é de deus, mas dos homens. Os activistas pró-animais, pró-ambiente, não vivem, ao contrário do que dizem, num equilíbrio harmónico, mas numa luta constante para que o homem ceda em detrimento de um éden que nunca existiu nem nunca existirá. Pelo menos enquanto a humanidade existir. Em suma: quanto mais se apregoa a mensagem "todos diferentes, todos iguais", mais se acentuam as diferenças e a desigualdade. O facebook é um microcosmos onde se antevê o desejo final de destruição, o silêncio, a desolação. Não é um cenário apocalíptico, é apenas a biologia humana a funcionar. Melhor seria se o FB fosse o espelho de Alice, ou mesmo o da bruxa-má, onde cada um se entretivesse, só e apenas, a procurar-se a si mesmo e não a procurar o Outro...

3 de setembro de 2009

Carta aberta a um amigo leitor.

«A verdade é que já foram mais os que creram e muitos mais os que cumprindo mandamentos e doutrinas não ousavam pôr em causa uma ordem estabelecida pelas Instituições, que servindo-se de um deus qualquer amordaçava as consciências, tornando-as deprimidas, confusas e submissas».
«Tendais como muitas outras localidades plácidas de brandos costumes, embora de forma mais lenta, todas elas sofrerão as marcas de uma evolução que tem como epicentro a "Teoria do Conhecimento"».

Meu caro amigo prof. José Oliveira, muito obrigado pelas palavras que dirigiu ao post "apontamentos sobre uma aldeia da serra". Comecemos pelo princípio, passe a redundância.§ As doutrinas que não ousavam pôr em causa uma ordem estabelecida não morreram, estão aí, com ou sem Igreja Católica. Têm vários nomes: dinheiro, corruptibilidade, ausência de valores, em suma, a biologia humana. Ainda agora mesmo uma televisão nacional sofreu o embate da livre expressão com os ditames de um regime habituado a estratégias censórias. Sem que o Papa ou qualquer padre atirasse com indulgências ou a ameaça de anátemas. Anátema maior, nos dias de hoje, é a ignorância pois através dela se guia o Homem como marioneta presa pelos fios do medo. O caro amigo olhe à sua volta, acha que não há deprimidos, confusos e submissos, não obstante a evidente secularização dos Homens? De quem é a culpa? Da Religião que resta? Não há ateus submissos? Agnósticos deprimidos? A falta de um caminho de transcendência, de espiritualidade tem levado, pelo tal «percurso pesado, incompreendido, inquietante, mas também desafiador», à morte precoce. Lembro Antero de Quental. § Vou-lhe citar Chesterton, que leio presentemente, e cuja obra recomendo (em especial a «Ortodoxia», de onde vou transcrevendo os excertos): «O cristão admite que o universo é variado, admite mesmo que é uma miscelânea; e qualquer homem são sabe que ele próprio é um ser complexo. Eu diria mesmo que um qualquer homem sabe que tem uma parte de animal, uma parte de demónio, uma parte de santo, uma parte de cidadão; mais ainda, um homem que seja de facto são sabe que também tem uma parte de louco. Já o mundo do materialista é totalmente simples e sólido, tal como o louco tem a certeza absoluta de que está são. O materialista tem a certeza de que a história foi, pura e simplesmente, uma cadeia de causas e efeitos (...)». Ora eu nem iria tão longe. Para mim o tal determinismo de que me fala não é discutível, porque é absurdo. Se me disser que a ideia de um Deus é absurda, eu digo-lhe que a ideia de um Determinismo factual é absurda. Mas desejo-me na companhia do deus absurdo. Entre um mundo asséptico, racional - esquizofrénico - modelar, sem riscos nem dimensões ulteriores, quero-me cego e confuso pela imaginação divina. Ao menos morrerei com esperança. «Os materialistas e os loucos nunca têm dúvidas», diz Chesterton e com razão. Mas a pequena história que narrei sobre uma aldeia de Tendais, nada tem a ver com o Determinismo. Os indivíduos que rodopiaram aqui durante três dias seguidos, ouvindo e olhando embasbacados o estouro e o estrajelar do foguetório, têm tanto respeito, conhecimento ou entendimento sobre um Deus (seja ele bom ou autoritário), como sobre ou um certo Determinismo teórico. A sua teoria é a do vinho e da carne enquanto estimulantes físicos dos sentidos apurados pela música retumbante, repetitiva e lúbrica. Mais nada. E nem é esta ausência de cultura, evangelização ou conhecimento que é desoladora. O quadro maior, e triste, que eu constato, é que é uma vantagem, uma honra do hoje, o querer ser ignorante, estímulo dos novos pedagogos, frente a um quadro desvalorativo do empenho, do sacrifício e da recompensa - tudo coisas que o Determinismo dispensa pois está de mãos e pés atados pela corrente do Facto, que tudo inunda, não deixando espaço para a bóia salvífica. Antes existisse nesta aldeia uma seita de deterministas! Seria mais interessante debater com eles a ausência do divino, do que ser obrigado a fugir das suas sonoras teorias báquicas que se bebem aqui a sôfregos goles. § Sem querer cansar, vou terminar citando novamente G. Chesterton: «Ora, a acusação que fazemos contra as principais deduções do materialista - [e ao "nós", junto a minha convicção] - é a de que, bem ou mal, elas lhe destroem gradualmente a humanidade; não me refiro apenas à simpatia, refiro-me à esperança, à coragem, à poesia, ao espírito de iniciativa, a tudo aquilo que é humano. Por exemplo, se pensarmos que o materialismo arrasta os homens para um fatalismo absoluto (como geralmente acontece), é perfeitamente ocioso fingirmos que esta doutrina é, seja em que sentido for, uma força libertadora. É absurdo afirmar que se está a promover imensamente a liberdade, quando a liberdade de pensamento apenas serve para destruir a liberdade de acção (...) Assim, pois, considerado como personagem, o materialista tem os fantásticos contornos da figura do louco. Ambos assumem uma posição que é, simultaneamente, irresponsável e intolerável.»
P.S. A referência ao Prof. José Hermano Saraiva é, creio, uma jovial brincadeira do meu caro amigo, que me fez sorrir. Apesar de reconhecer que o gosto "popular" pelo "antigo" tenha sido espicaçado pelas referências, às vezes ingénuas mas na maioria tolas, daquele senhor Prof., nem a pouca simpatia que nutro pelo senhor (e toda a aura de "determinismo" que dele emana), nem a pouca qualidade científica do seu discurso me levariam a querer tentar um modelo semelhante ao que conduz na televisão. Os meus fracos dotes de oratória matariam de enfado qualquer pobre espectador. E a minúcia que uso como lema conduziria o programa ao fracasso. O dito "provincianismo do interior" só em existe em situações como a que narrei no post anterior. De resto - e tenho podido constatá-lo nas minhas recentes deambulações pela serra de Montemuro - não pode ser qualificado em relação a um cosmopolitismo (que nem sequer existe em Portugal), nem pesado segundo cânones de desenvolvimento que ultrapassem os limites da aldeia. Cada comunidade tem o seu grau de desenvolvimento. Ele não é bom, nem é mau, não é menor, nem maior. E quanto a mim, no meu espírito anti-determinista, o pior é querer avaliar esse grau, ou formatá-lo, que é o que tem acontecido por aqui, por esta pacata e agora (felizmente) serena aldeia da serra.
Aceite os cumprimentos e os agradecimentos pela leitura (sempre atenta) destes pensamentos possíveis,

Pelo autor d'O Obliviário

P.S2: Para além da sugestão supra referida (CHESTERTON, G.K., - Ortodoxia. Aletheia Editores: [Braga], 2008), sugiro ainda a leitura da Encíclica de SS. Bento XVI, Caritas in veritate, que foi recentemente editada em português pelas edições Paulinas.

16 de julho de 2009

"Tempo de morrer": Eclesiastes, 3:2.


Todas as revoluções têm os seus mártires e, como em todas as batalhas, há mártires vencidos e mártires vencedores. Os vencedores sobem ao panteão dos deuses, coroados de louros. Os outros apodrecem sob lápides lisas. Da Revolução do 5 de Outubro de 1910 saíram mártires gloriosos, homens que hoje seriam anónimos e que só subiram as escadas do Olimpo porque a conjuntura foi favorável aos seus pares. Lembro por exemplo Miguel Bombarda, um suicida que hoje é comemorado na toponímia nacional apenas por ter sido republicano. Ora para essa "gloriosa" revolução acontecer houve sangue derramado: mataram o chefe de estado e o seu filho e quem saiu glorificado? Os algozes deste acto - não só Costa e Buiça, autores efectivos do crime, mas Aquilino Ribeiro e outros cujas mãos estavam tão ou mais sujas de sangue do que as daqueles dois pobres coitados arrancados à ignorância bruta por fanatismos de certos mandantes, instruídos na arte de bem escalar a pirâmide social. § No dia 6 de Outubro de 1910 Lisboa era republicana e o país foi-o sendo por telégrafo, não por convicção. Aliás, uma pequena parte dos obreiros da República seria republicana por desejo intrínseco. Como muitos dos adesivos ou "vira-casacas" que surgiram na política pós-1910, ser republicano era mais uma obrigação, do que uma aspiração com desígnios cívicos. Algo semelhante aconteceu depois do 25 de Abril de 1974. Há uma tendência inata para uma adaptação camaleónica na política portuguesa. Quem é hoje pode não ser não ser amanhã e, lá diz o lugar comum, mas invertido (porque estamos em Portugal) em política o que parece não é. §  Por isso os "heróis", às vezes mudam, conforme os ventos e poucos têm a coragem, a verticalidade de manterem-se fiéis aos seus princípios, mesmo que isso lhes custe a dignidade. Foi o caso nacional de Henrique de Paiva Couceiro, entre outros. § Mas hoje venho recordar uma figura algo excêntrica. Excêntrica por ser uma mulher num meio que se poderia pensar essencialmente masculino (é uma fífia, contudo, em Portugal, por exemplo, está por fazer uma História da política e da ideologia no feminino) e "excêntrica" pela idade com que faleceu, depois de ter perpetrado uma acção que lhe valeria a imortalidade. Refiro-me a Charlotte Corday, uma aristocrata francesa que aos 25 anos matou o monstro demagogo e autoritário chamado Jean-Paul Marat. § Jean Paul Marat era um louco, (se não patologicamente louco, pelo menos ideologicamente insano) a quem foi oferecida a pena de morte como método pedagógico da revolução. Ele não era apenas um dos "amigos do povo", era o Leviatão construído com os membros gigantes do povo à frente de um cérebro desproporcionado para tamanha besta. No furor da Revolução de 14 de Julho de 1789 e dos anos que se lhe seguiram, o que interessava menos ao povo era igualdade, fraternidade e liberdade. Uma vez solta aquela Besta disforme, ela clamava por sangue e na igualdade da biologia dos actos, o Povo, - aquele pretenso Povo fraterno - não queria sentar-se no trono, nem governar em consciência. Queria os veludos de Versalhes. Não podendo tê-los, contentava-se com sangue, que é na sua cor e na consistência das golfadas muito idêntico ao toque suave do veludo. § Charlotte a quem muitos imputam um papel menor, talvez  admirados com a "fragilidade" do seu género, executou Maray e fê-lo consciente do seu papel, do dos seus antepassados e, com certeza dos valores que herdara. Não se tratava de vingar facções do momento, mas deixar a mensagem clara e simples que a Revolução tomara o caminho da Morte. Era a única saída. Então, a Serenidade mata a Demagogia. Marat, banhado para aliviar o mal que lhe corrompia a pele, sucumbe a uma punhalada da Vestal. Ela é a verdadeira Mariana, símbolo de uma execução taliónica mas nem por isso menos justa aos olhos de uma época. J'ai tué un homme pour en sauver cent mille, dissera frente a um julgamento exemplar montado contra a "inimiga do povo". Se salvar uma vida é salvar a humanidade, o acto (hediondo é certo), do homicídio de Marat não pode ser visto como um exercício de salvação histórica?

8 de abril de 2009

A díficil sustentabilidade da religião e do conhecimento.

(c) Blogillhas


"Vou mostrar-vos o meu Cristo. Não é verdade que é muito belo? Mas, claro, falta-lhe o braço direito, o esquerdo está mal seguro no ombro e a mão partida por ter sido arrancada violentamente do cravo. Também lhe falta a perna direita, cortada por meio da coxa. Conserva a esquerda, mas colada à pressa e sem cuidado. E, além do mais, está sem cara. Partiram-lha totalmente. Cristo sem rosto. Cristo anónimo. Cristo fantasma. É, porém, muito belo, não é? Ainda que muito triste. Não me restaures. Porque não queres que te restaure? Não compreendes, Senhor, que será para mim uma constante dor ver-te partido e mutilado, cada vez que te olhar? Não compreendes que sinto dó? É isso que quero: que vendo-me partido, te lembres de tantos irmãos que convivem contigo, ignorados e distantes, e que estão, como Eu, partidos, esmagados, indigentes, oprimidos, doentes, mutilados… Sem braços, porque não têm possibilidades nem meios de trabalho; sem pés, porque lhes bloquearam os caminhos e não podem dar um passo em frente na vida; sem cara, por que lhes roubaram a honra, o mérito, o prestígio. Todos os esquecem e lhes voltam as costas… Não me restaures! Talvez que, vendo-me assim, te sirva de lição para a dor dos demais (...)", extraído de "O meu Cristo Partido" de Ramón Cué.


O que sabem as crianças de hoje sobre o Natal e a Páscoa que vá além da generosidade de um velho barbudo que vive no Pólo Norte e de uma estranha raça de coelhos poedeiros? Pouco ou nada. Cada época vai perdendo o significado litúrgico e religioso. Laicização, dirão uns, efeito de uma publicidade contundente, segundo outros. Qualquer que seja a explicação nenhuma delas substitui a educação com valores éticos e morais. Entre a Boa Nova de um nascimento que augura salvação, ou um sofrimento redentor, prefere-se o consumismo, as prendas, o ócio, a fantasia etérea de cores garridas e excitantes. Em suma: à dor humana, contrapõe-se com a satisfação fácil e os bens perenes. Explicar às crianças o verdadeiro sentido do Natal, fazê-las ver, com os olhos da alma e do corpo, o significado da Quaresma não é uma conversão à força, nem sequer um abuso maior no percurso da sua descoberta individual. É cultura, é saber. Espanta-me que um jovem não saiba reconhecer no património que está próximo de si (uma igreja, por exemplo), uma importância superior ou leia, na polissemia da diversidade histórica, algo com que possa honrar a sua geração e a das gerações futuras. Por isso me espanta que a Associação Ateísta Portuguesa se preocupe tanto com a participação de membros do Estado Português na canonização do Beato Nuno Álvares Pereira, mas ignore por completo a importância dos panoramas cultural e social decorrentes do património religioso, qualquer que ele seja, de que religião ou credo emane. São as diferenças que nos unem, não a necessidade de encontrar semelhanças, ou forçar a sua existência. Os ateus, enquanto corpo institucional, devem criar para provar a sua grandeza, não exigir, como infelizmente exigem, a destruição dos outros, os não-ateus. O atavismo é tal que um dia chegaremos ao ponto de varrer da face da terra com todos os símbolos religiosos. As novas gerações já quase os desconhecem - substituíram-nos pelos novos símbolos e novos ídolos do mediatismo e da internet. Quando compreendermos que o ser humano tem necessidade de refugiar-se no desconhecido, no mistério que hoje saceia através de teclas e de ecrãs, e que os símbolos e os deuses são imortais e apenas se transmutam - poderá não ser tarde para acalentar a ideia de sagrado e de religiosidade - mas terá com certeza passado a era das grandes criações. É que os instrumentos e os canais de hoje não estimulam a criatividade nem o pensamento. Entre um Pai Natal criado por uma marca publicitária e a história de São Nicolau de Bari, ou entre a morte e ressurreição de Cristo e as histórias fáceis de gnomos, vampiros e fadas - temas glorificados ad nauseam pela indústria cinematográfica de Hollywood, vai um abismo de conhecimento. A religião tornou-se um problema porque obriga a pensar. É demasiado complexa para as mentes light dos nossos dias. § Uma Santa Páscoa a todos e até breve.

17 de novembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira ideológica.


Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso
que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
"Ensaio sobre a cegueira", José Saramago.

Saramago é um iconoclasta cínico, pedante, ideologicamente cego e cada vez mais velho. Felizmente que a idade vai vergando cada um daqueles defeitos do senhor e, confiamos nós, chegará ao túmulo já completamente redimido de todos os seus pecados que incluem, como bem sabemos, perseguições à boa maneira estalinista, mediocridade q.b. e conversa-ditatorial-em-potência/hipocrisia que esta gente, como Saramago, tem e cultiva com boa vontade para dar e vender. No entanto, mentiria se dissesse que detesto totalmente o que Saramago escreve. Comecei a ler Evangelho segundo Jesus Cristo e parei à décima página. Li Memorial sobre o Convento, mas irrito-me quando fazem propaganda com romances históricos (já ninguém lê Marguerite Yourcenar... ao menos a elogiarmos ou deturparmos, que se faça como ela, deturpe-se em nome de sentimentos e não de bandeiras). Parei aí. Retomei Saramago em Intermitências da Morte. Gostei. Gostei sinceramente. Mas digo-o e repito-o: não merecia o Nobel pelo que escreve, nem pelo que sabe. § Saramago tem boas ideias, quer dar lições de moral à humanidade; confrontá-la com o seu próprio cinismo (o dele e o da humanidade) e consegue-o em Ensaio sobre a Cegueira, mas é demasiado óbvio (não chega aos pés, em talento, mensagem e erudição a um Jorge Luís Borges). Além disso odeia demasiado a Igreja Católica; tanto que passa o tempo a prostrar-se-lhe aos pés. Ensaio sobre a cegueira (filme) é uma obra de arte, um esforço incomparável para retirar das simbolicamente medíocres frases de Saramago um mundo de temores (e se cegássemos todos? por infecção - uma metáfora? o caos! o mundo em ruína - já se vê, cegar não é o mesmo que emudecermos ou ensurdecermos... a imagem resulta francamente bem), mas no meio daquilo tudo (morte, desespero, imagens escatológicas de uma quarentena forçada em que impera a desordem, o nojo, a auto-destruição) sobressai a imagem de uma Julianne Moore, belíssima, alva e nobre. Depois, à força (como Saramago fizera com as palavras), Fernando Meirelles enfia-nos pelos olhos adentro (bonita imagem em contexto próprio) a violência que o texto não deixa sentir tão fortemente: violações em massa, mortes ocasionais e perfeitamente dispensáveis, fezes, gangrena, sangue, fome, etc - como se a própria epidemia de cegueira branca (branco = sufoco) não bastasse. De resto a filmagem com grão, os pretos e brancos contrastantes - cenários de sombra e penumbra - em alguns casos o ecrã quase quase negro (a nossa cegueira) conferem uma certa beleza invulgar ao filme. Se aconselharia a ver? Sim. Não obstante a imagem vendável de destruição de que alimenta a curiosidade mórbida humana vale sempre por deixar algumas consciências ocas a pensar. Não é nem um romance nem filme sobre a cegueira comum, logo nada apologético a quem não vê por patologia (como se pode ver por uma das personagens, cego «de verdade»). É um filme sobre quem não quer ver. Por isso resulta muito bem a imagem medieval associada ao romance "Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara", extraída do Livro de Conselhos de D. Duarte.

26 de junho de 2008

Quem quer bolota...

Farto-me de conhecer gente interesseira. Pessoas que fazem tudo para terem mais do que têm, desde vender a mãe até venderem-se a si próprias. Gente que faz enredos, tramas, que quando estamos no auge, estão sempre lá, na órbita de nós e, depois, quando sentem o colapso fogem das estrelas para formar buracos negros (não sei se é assim na lógica da física quântica, mas na vida real, das relações humanas, é). Depois partem para orbitarem em redor de C ou de D, até sugarem deles o necessário à sua prossecução. Nunca haverá sossego para elas. Nunca estão satisfeitas. Eu observo-as, desde o primeiro passo em falso, jogo-lhes o jogo, assisto de camarote ao seu percurso. Sinto uma curiosidade em saber para onde vão, o percurso que fazem, a imagem que dão de si ante os outros. Por mim, já passaram imensas pessoas assim e vão, com certeza, continuar a passar muitas mais. São cometas em rota de colisão com outros cometas. Gente muito triste, muito solitária e extremamente medíocre. Porque no constante burburinho em que se movem, não ouvem, ninguém os ouve e raramente são verdadeiramente notados. Mas eles estão lá, estão aí...