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1 de junho de 2012

A merendola.

http://www.flickr.com/photos/mpjcoelho/5846367241/


A apetência de uma certa faixa etária de portugueses pela merendola é bem conhecida. A prova desse hábito, colhido ainda no tempo dos passeios de domingo do estado-novismo, é a quantidade de parques de merendas que juntas de freguesia e câmaras municipais distribuem generosamente pelas estradas nacionais. Aquele grande português que alguns novos e velhos ainda apreciam chamado Salazar costumava parar nas bermas para merendar com os seus ministros os produtos das hortinhas de Santa Comba, gentilmente amanhados pela D. Maria. Talvez por isso a Sonae-Continente tenha visto neste segmento um excelente nicho de mercado. Organizou uma piquenicada na Avenida da Liberdade o ano passado e agora, achando que a avenida era pouco gloriosa para o evento, desceu até ao Terreiro do Paço, a praça mais nobre da cidade. O Jonh Wolf do Ouriço acha bem e aplaude a iniciativa, sugerindo que na praça já se fez de tudo, desde autos de fé a negócios javardos e que um concerto do Tony Carreira não está longe de uns e outros. Bom, não contestando, sugiro que prossigamos então o uso lúdico do espaço com actividades semelhantes. Os autos de fé eram, ao que parece tão concorridos como um concerto de música pimba. 
Agora a sério. A culpa desta falta de sensibilidade e evidente mau gosto (sem conotações elitistas) não é dos marketeers da Sonae os quais, se soubessem que o "povo" apreciava carne humana, venderiam hambúrgueres da dita em promoções diárias. Não. Mais uma vez a culpa também não é do tal "povo" de que toda a gente fala, mas ninguém sabe muito bem onde começa e onde acaba. A culpa é, como não poderia deixar de ser dos políticos que vendem ou alugam o metro quadrado de qualquer espaço público sem que isso lhes pese na consciência ou suscite dúvidas cívicas. De resto, quem frequenta as cantinas da Assembleia ou o Tavares dificilmente será apanhado a comer uma sande coiratos regada por uma zurrapa do Dão. Os mais inocentes falam em defender os produtos nacionais, nomeadamente o toucinho cantador chamado Tony. Acho muito bem. Mas o país tem tantas colinas, chaparros e sombras. Não era melhor levar o tachinho com arroz e a chanfana de vitela até lá?

24 de maio de 2012

A sanha.



A dialogar, prefiro fazê-lo com direitistas laicos ou com esquerdistas ecuménicos. A direita religiosa, seja ela católica, muçulmana ou judaica é frequentemente proselitista e fanática. E a esquerda ateísta muito perigosa. Por isso desconfio do servilismo de uns e outros, ao serviço não se sabe muito bem do quê - talvez do desejo doentio de ambas as partes em esfregar na cara dos outros frustrações íntimas. É um pouco como aquele senhor, de cravo ao peito, sempre aguerrido, a citar a encíclíca ateísta contra a ICAR - acrónimo que os mais raivosos incréus fazem questão de chamar à Igreja Católica - que no seu curriculum exibe com um certo brio o ter sido denunciado à PIDE por um padre. Lembra alguns dos mais notáveis anticlericalistas dos séculos XIX e XX português, filhos de clérigos (como Aquilino Ribeiro), que tanto se empenharam em tentar resolver os fantasmas pessoais, obrigando os outros a lutar contra os seus próprios moinhos de vento. Todavia, do lado oposto há indivíduos tão ou mais complexados. Sem querer citar nomes, mas citando-os, lembro-me do João César das Neves (que ajuíza cinicamente sobre almoços pagos), o Carlos Santos (cuja memória vem a ser ressuscitada agora), o Orlando Braga ou o Alexandre Pinheiro Torres. E para que não se diga que este é um mundo de homens, a Isilda Pegado, que de vez em quando lá aparece para ser do contra. Eu até acredito em boas intenções, mas a maioria destes e de outros nomes defende coisas muito pouco cristãs. Desde logo contraria o ideal de Amor ao próximo. Refugia-se numa espécie de conservadorismo a coberto de questões como o Aborto e até mesmo o Divórcio (assunto que a Igreja Católica já resolveu desde o Vaticano II). Arrogam-se a falar em nome de uma certa Igreja (e acredito que alguns o façam na realidade) mas raiam o ultramontanismo e o anacronismo numa instituição tão plural que acolhe Franciscanos e Jesuítas. Eu não quero crer, embora já o tenha aventado, que a Igreja deseje estar de bem com Deus e o diabo, procurando receber as benesses a que julga ter direito da República Portuguesa e depois a ataque no concernente a questões do foro sexual. Se o faz, não devia. Sobretudo usando alguns leigos que fazem dos seus blogues autênticos púlpitos. 

16 de dezembro de 2011

Afinal

existem historiadores em Portugal. São quarenta, todos republicanos e de esquerda e acham que é um crime erradicar o feriado 5 de Outubro. Por uma questão de direito ao descanso. Está em causa o ataque ao lazer, antes da destruição da memória. Virá aí uma História do Lazer em Portugal? É que uma obra colectiva assinada por estes 40 historiadores podia resultar num best-seller. Estranho, estranho, é que estes doutos só saiam da pedra quando espicaçados por um líder - aquele velhinho poeta de Coimbra. Porque quando é preciso defender a classe, a disciplina ou a cidadania em geral nenhum deles deixa a catédra para vir falar à plebe que agora pretende defender.

13 de janeiro de 2011

Viva a república, abaixo a república!

Nunca, em Portugal, se falou tanto em república. Pelo menos desde Outubro de 1910. Fala-se no regime, porque o regime paga. É justo. A propaganda ideológica refinou-se ao longo do século XIX, definiu a ascensão dos grandes e mortíferos regimes do século XX e é usada no século XXI para distrair dos problemas económicos e sociais. Enquanto se alimenta o mito do regime igualitário e fraterno, mina-se a liberdade amordaçada entre acrisia e conformismo. Salazar e António Ferro sabiam-no bem e, nesse aspecto, as comemorações do Centenário da República são herdeiras directas dos grandes festejos de 1940 sobre a Nação e o novo regime.

Muito antes de Cromwell e da Revolução Francesa, muito antes do marxismo modelar a ideia de república como o melhor de todos os regimes, já república constituía a designação para a coisa pública. Não a coisa do povo, - essa entidade abstracta onde todos se incluem e onde ninguém deseja incluir-se-, mas a gestão do lugar público. Nas praças e nos caminhos, onde sempre se decidiram os desígnios comunais, fazia-se um tipo de política. Com a Revolução e o Liberalismo a política passou a fazer-se em casas parlamentares e as eleições que dantes se realizavam inter pares, hoje fazem-se intra grupos. A política deixou de ser para todos. Estava porém aberto o caminho para que a ideia de república se transformasse no ideal que é hoje: o de um suposto absoluto nivelamento e igualdade entre cidadãos (mas apenas entre os que fazem política).

O republicanismo português, que se aproveitou da ignorância e do analfabetismo grassante em 1910, construiu-se sobre a noção de que qualquer pessoa podia tornar-se chefe de estado, contrariando a ideia de que aquele lugar pertencia a uma família de privilegiados. Nunca conseguiu explicar, contudo, que  mudavam os privilegiados e não os privilégios.

31 de outubro de 2010

Santificada seja a vossa República!



No último ano temos sido bombardeados com propaganda massiva sobre as vantagens de termos uma República. De como o regime, neste centénio, levou o país ao progresso, elevando Portugal, entre todas as  nações, ao modelo paradigmático de supra-desenvolvimento. E, muito embora, todos os dias a comunicação social contradiga este paradigma, certo é que muitos milhões foram gastos para refundar a ideia e a própria República passando uma esponja sobre o conflituoso e quase anárquico período de 1910 a 1926, e obliterando a memória do Estado Novo, já não considerada II República (mesmo apesar da Constituição de 1933 assim a designar), mas um triste parêntesis ditatorial de apenas ...48 anos! Talvez, se vivêssemos numa monarquia, a mesma quantia fosse gasta em exaltações. Mas para um regime que se arroga a uma sobriedade que os reinos não possuem, tais comemorações não são apenas censuráveis, são um acto criminoso.
Por outro lado, uma certa historiografia e um certo jornalismo têm colaborado nesta exaltação republicana. A RTP não faz mais do que o seu serviço. Tem-no feito desde a sua existência, ou seja agradar a quem está no poder, mais ou menos controlada politicamente pelo regime e pelos governos que por ele vão passando. Os seus funcionários são marionetas dos governantes. Nesse aspecto, as séries romanceadas que a televisão pública lançou sobre a pretensa "História" da República foram bem o testemunho da manipulação dos factos e a exaltação de alguns actores dessa épocas, ou seja, em resumo: os monárquicos eram os maus e os republicanos, claro, os bons. Segundo guionistas e alguns historiadores é impossível de fugir a esta trama. Não contentes, depois da republicanice  viral aguda que contanimou a nossa historiografia, a nossa política e os media faltava convencer-nos que a Igreja Católica era, afinal, uma peça essencial desse enorme puzzle chamado república portuguesa. Com o documentário Republicanos, graças a Deus! a RTP desembaraçou-nos, finalmente, desse pesado preconceito ideológico que opunha republicanismo a clericalismo e ficamos a saber que a separação entre a Igreja e o Estado foi uma libertação e que nunca as relações entre a Santa Sé e Portugal foram tão cordiais como depois de 1910. E obreiros do regime libertador alguns padres, quais arautos da liberdade, que odiavam o trono e urdiam desejos para beijar o barrete frígio. Isto é uma boutade, claro, para quem conhece um mínimo de História Religiosa e História Contemporânea de Portugal. Mas ainda assim, a RTP e os Rosas &; C.ª Lda., vão fazendo dos portugueses burros e de alguns pobres, vendidos. A Igreja, claro, faz como sempre fez: mudam-se os regimes, mudam-se os amigos. E talvez compreendamos que à Igreja agradasse andar de mãos dadas com a República Portuguesa. Sobretudo com a Segunda. Afinal as confiscações de 1911 foram quase todas devolvidas pelo Estado Novo e o catolicismo continua a ser largamente apoiado pelo regime. Com tão cimentada amizade talvez até um dia destes, numa eventual reforma do catecismo, venha uma nova oração ao Padre Novo, dirigido não ao Seu Reino, mas à Sua República.

2 de agosto de 2010

Ultimatum e germanofilia (Portugal, 1941)


Adquiri recentemente este pequeno opúsculo, escrito sob um pseudónimo (Viriato d'Entremontes) datado de 1941, um ano depois de passarem 50 anos sobre o Ultimatum, episódio considerado por muitos como o turning point no percurso da monarquia constitucional representada na pessoa de D. Carlos, que se tornou o bode expiatório de um processo muito mais vasto no longo relacionamento entre Portugal e a Inglaterra. O opúsculo é particularmente enfático e crítico ao abordar as relações Luso-Britânicas, cumulando a «poderosa Albion» de epítetos como «hipócrita», «sobranceira», «arrogante», etc. O Ultimatum constituiu o aríete dos republicanos para abrir brechas irreparáveis na monarquia portuguesa, mas como todos os orgulhos nacionalistas que são transversais a partidarismos e ideologias, converteu-se, mais tarde, num sentimento abrangente em que o outro já não é o regime, mas qualquer inimigo que ousa afrontar. De resto os republicanos que a coberto do Ultimatum ou do 31 de Janeiro vociferaram contra o Reino Britânico, não hesitaram em pedir-lhe ajuda para estabelecer o novo regime ou aliar-se na inglória incursão pela I Grande Guerra. Em plena II Grande Guerra, apesar da neutralidade portuguesa, não podemos descurar a corrente germanófila, nacionalista e profundamente anti-britânica. Cremos que o autor deste opúsculo integraria as fileiras desses apoiantes, tendo aproveitado a efeméride cinquentenária do Ultimatum para manifestar uma um pensamento claro, sublinhada, aliás, pelas várias expressões anti-semitas associadas a posições de extremista repugnância em relação ao «jugo inglês». Um curioso documento sobre o Nacionalismo e da Propaganda Pró-germânica no Portugal diplomaticamente neutro de 1940.

22 de junho de 2010

A fotografia ao serviço da República.


A imagem mostra uma manifestação popular de apoio a D. Carlos frente ao Palácio das Necessidade, após a declaração de guerra ao Reino de Espanha. Trata-se, como é óbvio, de uma manifestação imaginária, que nunca chegou a acontecer e que serviu de exercício para a Ilustração Portuguesa, revista editada desde 1903, se impor como um dos periódicos portugueses que mais largamente utilizaram a fotografia. E, claro, a manipularam.
Nos primeiros anos do século XX o jornalismo começava a descobrir e a utilizar em média e larga escala os recursos fotográficos aplicados à tipografia. O seu uso não só conferia uma maior veracidade às reportagens, mas permitia divulgar muito rapidamente acontecimentos que por via da escrita ou do desenho demoravam muito mais tempo a expor. Mas ,como qualquer outro processo de impressão, desenho ou gravura, muito cedo a fotografia começou a ser manipulada, umas vezes apenas com sentido estético, como no caso das reproduções a preto e branco aguareladas, ou no caso da emergente foto-reportagem, com o intuito de veicular propaganda ideológica, através de montagens ou adulterações do cenário e das acções seus intervenientes.
Nesse sentido, o novo regime deitou mão deste valioso instrumento, como vimos já no caso do dia 5 de Outubro quando uma certa imprensa fez crer que o Largo do Município estava repleto de fervorosos republicanos para acolherem e dar vivas à República. Mas não só. As reportagens que se seguiram, relativamente a atentados, insurreições e revoltas, nomeadamente as incursões monárquicas que se sucederam entre 1911 e 1919 foram tratadas fotograficamente com vista a fazer passar uma mensagem. Mensagem favorável ao republicanos, obviamente.
Nesse sentido a Ilustração Portuguesa que, depois de 1910, se tornou um dos mais fervorosos órgãos pró-republicanos da comunicação social, tornou-se exímia escola da manipulação fotográfica.
Em ano de centenário, não basta evocar. É preciso conhecer, expôr, estudar. Para quando um estudo sério e profundo sobre esta questão?
Nota: a fotografia foi publicada em RELVAS, José – Memórias políticas, vol. 2. Lisboa: Terra Livre, 1978.

Publicado aqui.

12 de junho de 2010

Guerras & guerras.


I GG, postal não circulado, colecção de N.R.


Há dias fui convidado para representar o sistema de governo monárquico num debate a propósito do Centenário da República. Os interlocutores eram alunos de uma escola transmontana, cujas idades oscilavam entre os 11 e os 16 anos. Após uma apresentação de cada um dos regimes, o meu oponente, um político com uma vasta carreira parlamentar desde os anos 80, tirou da cartola um uma cartada que julgou muito inteligente, mas de mau gosto: insultar o carácter de certos monarcas. Deu o exemplo de D. Sebastião e D. Afonso VI, usando o termo loucos para caracterizar o génio de cada um. Sobre D. Sebastião não hesitou em esconder o ódio sobre aquele levou o país para a guerra. Uma loucura! um excesso! que, segundo o deputado, em República nunca aconteceria. Infelizmente, a maioria dos nossos políticos não fez carreira na História e no seu estudo. Que jeito daria para evitar cometer erros novos, mais do que julgar os antigos. Quando, em 1916, Afonso Costa nos levou a todos para uma das maiores crises sociais e económicas de que há memória e La Lys voltou a ser Alcácer Quibir, a memória recente foi bem mais branda com ele. Estátuas, homenagens, encómios, etc. Bem vistas as coisas Afonso Costa não foi menos incauto do que D. Sebastião. Ao menos este arriscou a própria vida e visionou um país maior do que aquele que o cobarde Afonso Costa sonhou para si e para os seus camaradas.

8 de maio de 2010

Um caso de saúde... política.

Eu não tenho medo de assumir o meu catolicismo, num tempo em que o terror começa a tomar conta de algumas opiniões e aqueles defendem a intolerância, a abolição dos racismos e das xenofobias, vêm pedir, contra os católicos e a Igreja, intolerância e xenofobia. Possuo a verticalidade necessária para assumir o que penso e fundamentá-lo, ao contrário da maior parte das opiniões que se escrevem em fóruns, comentários a notícias de jornais, etc. De resto, esses comentários valem o que valem. São, na maioria, frases proferidas a quente, sem substância que não seja a agressão gratuita - algo a que possibilidade da internet nos habitou desde cedo. Eu, como Católico tenho o direito de defender uma Igreja menos assente na discussão da sexualidade e mais na dignidade humana no seu todo. De facto, não posso deixar de citar as palavras do sr. Cardeal Patriarca de Lisboa que, numa entrevista recente, disse que se a Igreja cedesse às vontades destes grupos de pressão a Igreja deixava de existir. Ora a Igreja existe e ainda bem que existe. E a oposição à Igreja existiu e existirá sempre, e é salutar. Mas, quando um grupo vem dizer que tenciona distribuir preservativos durante a visita papal sabendo qual é a posição da Igreja sobre o assunto e, ao mesmo tempo, diz que nada tem contra a Igreja, isso não faz sentido. É óbvio que tem algo contra a Igreja e deve assumi-lo. Se pretendesse distribuir preservativos independentemente da visita Papal, ou até intitulasse a iniciativa com um nome que não o de «Preservativos "ao" Papa em Portugal», talvez houvesse lugar para essa razão, possivelmente inocente, que não o é, nem será por muitas voltas ou aspas com que se enrole o texto. Aqui, o preservativo não é um caso de saúde pública, se não um caso político. Ponto. Tudo bem. Como disse, haverá sempre oposição à Igreja. Mas até numa guerra há regras (partindo do princípio que não falamos com Ateus, Anarquistas ou Autistas - os 3 A's que infelizmente são incapazes de dialogar). Dizer que a Igreja propaga a sida, ou que é responsável por milhões de mortos por seropositividade não é sequer desinformação. É um golpe baixo, baixíssimo ,que resulta da necessidade de atear o fogo mais depressa, com mais combustível. (No âmago dos pretensos laicos de hoje em dia há um pequeno Nero). De resto, não percebo a obsessão com o preservativo, por parte de um grupo de pessoas que defende o Aborto e eventualmente a Eutanásia. Se defendem que cada mulher seja livre de abortar, porque raio hão-de impingir o preservativo a alguém? Em termos éticos, a lógica é muito semelhante. Um qualquer indivíduo, independentemente de ser católico, tem o direito a escolher se usa ou não o preservativo, havendo acordo mútuo com o seu parceiro/parceira. E, continuo, a insistir: preocupa-me que estejamos tão distraídos com o preservativo, enquanto a Indústria Farmacêutica ganha dinheiro com a sida. Para ela não interessa uma cura, nenhuma cura... e isso é que devia escandaloso.

14 de março de 2010

Quem quer mau jornalismo, suporta-o.



Eu não sei quem é o Tiago Salazar. E, sinceramente, não quero saber.
Provavelmente será mais um jornalista daqueles formados em universidades de bric-à-brac, onde tudo se aprende e nada se sabe.
Mas é pena que o Tiago Salazar para além da boa arte de repetir clichés, não tenha bebido da boa prática de confirmar as fontes, mesmo as históricas, que para muitos cada vez mais são adereços folclóricos de uma sociedade sumamente mais info-inclusiva e cada vez mais culto-excluída.
O certo é que numa reportagem ontem publicada na Revista Sábado do DN, a propósito do belíssimo comboio real que parte em breve para um exposição em Utreque, lembrou-se o Tiago Salazar de sacar ex nihilo uma suposta frase dita em contexto totalmente exterior ao do tema versado pelo artigo. Segundo o jornalista (sem citar a fonte), «diante deste espectáculo de ostentação – D. Maria Pia é autora de uma frase célebre dita ao ministro das Finanças que lhe implorava moderação nos gastos: «Quem quer rainhas paga-as!». Talvez o Tiago tenha ido à Wikipédia, ou simplesmente ao Google confirmar a veracidade deste facto, sítios mais do que suficientes para confirmar mediocridades, ou validar competências medíocres. Mas convinha esforçar-se um pouco mais e ir onde já ninguém vai: ao papel, a uma biblioteca, até a um arquivo, quem sabe, fazendo uso do discernimento com que nasceu. Digo eu.
Não acredito nestas frases feitas tão agrado dos oposicionistas e dos detractores do regime. Duvido que tanto D. Maria Pia como D. Carlos ou outro membro de uma Família Real acossada pela propaganda republicana alinhassem nesta guerrilha de boatos e maledicências tão ao gosto da comunicação social de ontem e de hoje. Mas mesmo que o tivesse dito, em nada desilustraria a concretização do comboio que, durante a Primeira e a Segunda República foi vilipendiado como forma de escárnio pelo regime deposto. So much for preserving the heritage...
E mais: embora se tenha referindo à ostentação e à riqueza dos interiores da real composição com um certo desdém, não esqueça o jornalista do DN que são os comboios régios que levarão com certeza milhares de visitantes ao Museu Ferroviário de Utreque.
Duvido que daqui a cem anos alguém faça fila para visitar um dos BMW 760Li onde o cidadão Cavaco Silva locomovia diariamente.

6 de fevereiro de 2010

O republicanismo em Portugal: uma análise.


Um dos factos que as actuais comemorações do Centenário permite esclarecer é que existem pouquíssimos republicanos, ou seja, portugueses que se identificam com o regime e nele acreditam, que sabem destrinçar entre os símbolos identitários nacionais e a iconografia da república portuguesa, por exemplo. Uma viagem pela internet oferece-nos uma leitura proveitosa, a que alguns chamariam sociológica.
Por um lado, um pequeno punhado de literatos, na maioria ligados ao ensino (universitário ou liceal) inauguraram blogues cujo objectivo é veicular informações sumárias de carácter histórico, biográfico e bibliográfico sobre o regime e a sua ideologia. São discretos. Exaltam, embora de forma velada, a maçonaria (a cuja instituição pertencem) e outros instrumentos do republicanismo português. O seu projecto é anónimo ou quase (assinam o trabalho com iniciais e, ou, pseudónimos) e constituem um movimento silencioso que conquista através da publicação de um conjunto de imagens fortes que aliam a iconografia nacionalista à ideia de república como entidade indissociável de pátria. É o caso do Almanaque Republicano e do "República 100 anos 1910-2010".
Por outro lado, destaca-se um conjunto mais activo e interventivo de blogues que, embora assumindo a sua posição republicana são, essencialmente, espaços de discussão política, onde se comentam os assuntos cadentes e onde a República é apenas símbolo, como a Esquerda Republicana. Dentro desta categoria podemos incluir, ainda, os blogues de opinião pessoal. Conhecemos poucos republicanos dispostos a lutar pela república no espaço da internet, mas devemos destacar o sítio do Prof. Carvalho Homem, defensor acérrimo dos valores republicanos que não se coíbe de promover em entrevistas, conferências e estudos históricos que executa ou dirige.
Finalmente os blogues ou sítios que apresentam conteúdos propedêuticos, para além de propaganda ideológica, são em maior número por força das circunstâncias comemorativas, mas ficam aquém do que se suporia. O facto é que o número de investigadores sobre a República Portuguesa é extremamente diminuto e está concentrado, sobretudo, na Universidade Nova de Lisboa (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas), tendo à cabeça o Dr. Fernando Rosas, cuja formação de base até é o Direito. É uma historiografia tendenciosa, herdeira do pensamento do falecido Prof. Doutor A. H. de Oliveira Marques, grande historiador que nunca se coibiu de manifestar a sua protecção e predilecção pela obra republicana. Como tal, cabe aquele grupo de investigação fazer as honras do regime, que se desdobra em iniciativas e apoios para acalentá-lo. Em Coimbra, um núcleo menor, constituído por alguns moderados, fica com a restante fatia de investigação e influência historiográfica que, ainda assim, não tem força para ultrapassar o forte lobby lisboeta. Basta percorrer os escaparates das livrarias para aquilatar da dimensão e força deste grupo: todas as semanas são publicadas luxuosas edições sobre temas (pró-)republicanos e História Contemporânea de Portugal.
Devemos assinalar, ainda que, recentemente, foi constituído na internet um grupo intitulado Republicanos Portugueses. A ele pertencem cerca de 500 pessoas. É um campo interessantíssimo de estudo. Constituído na sua maioria por emigrantes, são reveladoras as mensagens nacionalistas deixadas pelos seus elementos. Para eles, a ideia de republicanismo existe apenas na consagração de pátria, ou dos seus símbolos e ídolos (onde se destacam os futebolistas). Não há antítese possível a esta ideia, ou seja, a ideia de monarquia ou outro qualquer tipo de regime nem sequer é ali discutido. Apenas a anulação da pátria, pela supressão da nacionalidade. Neste sentido, a doutrinação republicana iniciada em 1910 falhou e mesmo que uma parte dos dez milhões de euros despendidos nestas comemorações se destinem à veiculação de “valores” republicanos pelas escolas do país (no fundo uma forma de catequese ideológica), julgamos que será necessário um orçamento semelhante, doravante anual, para criar alunos conscientes dos ideais de República.
Não há um movimento global de defesa da República, nem movimentos menores, que permitam identificar o apoio colectivo ao regime e à “ideologia”. Pontualmente, como no caso do 31 de Janeiro, pequenas colectividades, associam República e Resistência, confundido noções como democracia, fascismo, ditadura, etc. Mas essas associações não são republicanas: exaltam o espírito de liberdade e cidadania – uma análise do vocabulário utilizado na elaboração dos seus objectivos exclui a República e os seus “valores”. A “ética republicana”, expressão que nada significa e atenta contra a própria noção de ética, que se quer universal e plural, recusando ideologias e crenças, não tem raízes no republicanismo que herdámos da primeira república. É que apesar do período entre 1926 e 1974 constituir parte destas comemorações, contra a vontade de muitos dos seus corifeus, a doutrinação republicana foi suspensa nesse período, (a qual, em abono da verdade, resistiu em alguns indivíduos como forma de oposição, de resto elemento comum entre republicanos, monárquicos integralistas ou constitucionais, anarquistas, socialistas, marxistas, etc) para reintegrar-se, mais fraca, menos consistente, depois do 25 de Abril de 1974.
Por isso, e infelizmente, não pode a Comissão do Centenário senão ir beber nas fontes da Primeira República, profundamente exclusiva, nada moderada e fortemente autoritária. Mas, dado o tempo que atravessamos, tal colagem até pode fazer sentido…

30 de janeiro de 2010

Notícias da Mui nobre e sempre leal


Palácio do Conde de Vizela

O que Serralves tem a ver com o 31 de Janeiro?
Nada. Ligada à figura de dois aristocratas - Carlos Alberto Cabral e Delfim Ferreira, respectivamente Conde de Vizela e Conde de Riba d'Ave - o espaço de Serralves associa-se ex nihilo às Comemorações do Centenário da República. Lucra com isso, é óbvio e já percebemos que em Serralves o que interessa é fazer dinheiro, a qualquer custo.
Entretanto, 4 artistas querem comer da mesma malga: Rui Veloso, Pedro Abrunhosa, Rui Reininho e Sérgio Godinho. Vão cantar os gloriosos feitos republicanos. O primeiro vem dizer que «É o povo quem exerce a soberania». Se assim fosse não era o Rui a ser contratado, mas o Quim Barreiros.


O banqueiro portuense Artur Santos Silva é mais monárquico do que pensávamos, afinal. Filho e netos de republicanos, tem orgulho nas suas raízes burguesas e revolucionárias. Do avô chapeleiro, ao pai político até à banca de A. Santos Silva, vemos como a hereditariedade conta. Mas isso já o sabíamos por Mário Soares a quem sucederá no reino de influências e prestígio o filho João Soares, ou no casos das filha quer de Almeida Santos, quer do do acérrimo do historiador republicano Carvalho Homem, etc etc. Quem sai aos seus não degenera, e é verdade. Esta é a nossa república de pais e filhos, de pequenos reinos de influência e poder. Hoje, em vez de uma família para sustentarmos, temos muitas. E são bocas que se alimentam bem.


E os Tripeiros o que terão a dizer acerca disto?
Provavelmente nada. Não é com festejos e recriações históricas que esta república doutrinará. Na segunda-feira, ninguém se lembra do 31 de Janeiro de 1891, porque para quem tem que se levantar ás 6hs da manhã, e tem prestações para pagar ao fim do mês, o relambório propagandista, mesmo à custa de 10 milhões de euros, não conta para nada. Vão ser necessário muitos anos de celebrações, de lavagem cerebral dos nosso alunos para criar republicanos em Portugal.

27 de janeiro de 2010

Breve Sumário da História da «Piolheira».




Mas como isto aqui é a Piolheira, como chamam a Lisboa (...)
(Teófilo Braga, «Gomes Freire», 1908)

A história é uma destilação do boato.
(Thomas Carlyle)

Hoje em dia qualquer parvalhão pode fazer-se Historiador.
(Ego dixit)



D. Carlos foi morto de duas formas, por três «criminosos»: o primeiro foi a comunicação social e, consequentemente, pela opinião pública; o segundo e o terceiro, dois desgraçados que, espicaçados pelo oportunismo dos futuros paladinos da República de Outubro, o cravaram de balas julgando matar um monstro criado pelo primeiro facínora. A comunicação social de 1908, como a de hoje, é capaz de levar homens ao patíbulo, sem passar pelo tribunal. Para tal bastam duas ou três palavras bem colocadas; depois é só esperar por quem prima o gatilho.

Mas muito mais poderosas do que o gesto e as balas das armas dos pobres coitados do Costa e do Buiça, meros instrumentos, foram as palavras que continuam a circular. As mesmas que mataram D. Carlos antes do crime do Terreiro do Paço e as mesmas que conspurcam a memória do monarca. Uma delas foi e é a expressão «piolheira». Circulam muitas histórias, sobre quando e em que circunstâncias D. Carlos terá aplicado esta palavra, supostamente como qualificação do seu país. Mas nenhuma sabe, especificamente, aferir da veracidade de tal afirmação.

Piolheira (de piolho) foi uma expressão muito utilizada ao longo do século XIX. Eça de Queirós, Trindade Coelho e Fialho de Almeida usam-na amiúde, quer pela própria mão, quer pela boca das suas personagens para descrever alguns aspectos ora de Lisboa ora de Portugal. Já no longínquo ano de 1858 o poeta Faustino Xavier de Morais (em «Novas Poesias«) se referiu a Portugal como «esta piolheira» e Fialho de Almeida, nos seus Gatos, é particularmente expressivo quando descreve a forma como muitos portugueses deslumbrados pela Europa, se referiam próprio país (1):

Os governos mesmo teem lisongeado esta paixão dos naturaes pelo parisienismo de torna viagem, subsidiando viagens de funccionarios e vadios publicos, de pintores problematicos, e de jovens capacidades scientificas, détournées. Essas viagens d’instrucção, de que jamais se vêem pomos úteis, gastam ordinariamente em pandegas as bourses de travail que geralmente se recusam aos verdadeiros estudiosos, e dão em resultado enviar-se um ingenuo, e receber-se um monsiú de vidro no olho, com barbicha de bode, chupado e tanso, para quem Portugal nunca mais deixa de ser uma piolheira. — Paris, ha Paris! — Quando eu estive em Paris...— Uma noite, em Paris.-.— Mas meu caro, é que verdadeiramente, Paris...E a cada instante este true ritornella-lhes na bocca, para sublinhar a inferioridade manifesta de tudo quanto traz chancella nacional.

Ora, tivesse D. Carlos empregue a expressão para referir-se a Portugal, não seria o único, nem sequer original, a qualificar um país naqueles termos em que a Geração Coimbrã e uma vasta plêiade de escritores e pensadores de oitocentos o fazia, recusando-se a aceitar um país sem a força anímica da França.

Mas, terá efectivamente D. Carlos proferido aquelas palavras? E mais, tê-lo-á feito em público - ele que, como monarca culto e esclarecido, sabia o poder de uma palavra mal interpretada, ou de uma expressão distorcida?

Basta uma pequena pesquisa na internet para perceber o poder e a força da expressão. Ninguém sabe nem quando (uns falam no regresso de Paris) nem como (segundo uns em privados, segundo outros numa entrevista!) D. Carlos teria deixado escapar a referência insultuosa a Portugal. Verifiquei, uma por uma, as 663 referências fornecidas pelo motor de busca Google e em nenhuma delas, absolutamente nenhuma, o respectivo autor da acusação é capaz de citar, com o rigor exigido, onde colheu tal informação. Apenas um jornalista, Luís Miguel Queirós, no Público de 01-02-2008 refere: « Era o monarca [D. Carlos] que achava Portugal uma “piolheira”. Não há evidência segura de que tenha, de facto, proferido esse desabafo, mas quando o boato foi posto a correr, acreditou-se facilmente que era verdadeiro.»

Ora o boato foi lançado antes de 1903, por Bordalo Pinheiro. Passou-o a limpo, em forma de letra, Raúl Brandão, nas suas Memórias (Relógio d’Agua, 1998, p. 46): «Conta que [Brodalo Pinheiro] em Paris ouviu ao rei dizer – Isto aqui é uma terra, lá é uma piolheira.» - é o testemunho de um republicano, mas é, sobretudo, a frase de um dos principais responsáveis pela propaganda anti-monárquica que marcou o final do século XIX e preparou a chegada do golpe de 5 de Outubro. Rafael Bordalo Pinheiro devia compartir o ódio ao rei, com o desprezo ao Estado que lhe recusara uma bolsa de estudo para Roma, em 1868. De resto era um artista, como aqueles que Fialho de Almeida descreve, sempre afeitos às tais viagens de instrução e «bourses de travail». «Piolheira» faria, assim, parte do seu vocabulário quando se tratava de resumir o Portugal que conhecia. As suas caricaturas grotescas e picarescas que roçam a insulto gratuito e boçal são a versão gráfica do que ele teria ouvido dizer da boca do rei. Ele, para quem os reis eram a causa dos problemas do país.

É bem de ver que a história da piolheira se trata de um boato (2). Um boato de entre os muitos que se puseram a circular, e que advinham da proverbial inveja e do sempre actual oportunismo político. Poucos monarcas, como D. Carlos e D. Amélia sofreram tanto com o embate da opinião pública, acicatada por campanhas virulentíssimas de difamação. O escândalo era a melhor forma de propaganda republicana. Como uma franja elevada da população não sabia ler, a caricatura tomava o lugar da palavra, sem qualquer pejo ou respeito, como bem testemunham as ilustrações de Bordalo no António Maria ou na Paródia.

Obviamente que D. Carlos nunca proferiria publicamente um termo tão depreciativo como este. Mas se o tivesse feito, em privado, ou até nos seus pensamentos – algo que nunca saberemos – teria compartido com os homens da sua geração, mesmo aqueles que levantaram o dedo acusatório contra ele, do mesmo sentimento de impotência e desânimo que levou, com tanta facilidade, um pequeno grupo de indivíduos a tomar o poder a 5 de Outubro de 1910.

NOTAS
(1) – De resto a expressão veio a ser retomada, com alguma frequência, pelo neo-realismo literário, pela mão de Alves Redol, por exemplo, que a utilizava para descrever as condições precárias que a revolução burguesa da República de 1910 legara ao proletariado nacional…
(2) Miguel de Unamuno, no «Epitáfio» que «dedica» ao Rei, em 1908, escreve que D. Carlos: «Costumava dizer ao falar da pátria em que reinava: “isto aqui é uma piolheira”» (- Por terras de Portugal e de Espanha, 1989, p. 21). Ora esta afirmação deita por terra qualquer certeza em relação a quando e em que circunstância o monarca teria proferido o insulto. Fora afinal em Paris, aos ouvidos de Rafael Bordalo Pinheiro, ou frequentemente e para todos, como assevera Unamuno…?

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7 de janeiro de 2010

Quem conhece o estado da Cultura em Portugal, as dotações orçamentais para os Museus e para a salvaguarda do Património, as necessidades de milhares de licenciados desempregados ou com empregos precários, - mais ainda no tempo de crise em que nos encontramos -, a atribuição de dez milhões de euros para comemorar o regime chega a roçar os limites de um insulto atroz. Não digo que não se proporcionassem as devidas manifestações de júbilo pelo centenário da república - que muito aguentou, dados os tropeções que tem dado - mas a esta escala é coisa infame e pouco gloriosa. Basta olhar à nossa volta para perceber que há pouquíssimos motivos para justificar tamanhas festividades.