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25 de janeiro de 2011

Voto, anonimato, abstenção e cidadania.

Rui Tavares saca dos seus dotes de contador de estórias para nos sensibilizar sobre a luta antifascista e o quanto sabe bem votar. O acto, em si, chega a soar uma liturgia, debaixo da caneta de RT. E ontem, durante o telejornal da SIC, Miguel Sousa Tavares afirmou veementemente que não tem respeito nenhum pelos abstencionistas crónicos. Ora, eu acho que estamos aqui a esquecer uma coisa muito importante: a democracia não se faz com a desresponsabilização pelo voto. Poder escolher os órgãos por votação é fundamental e tal acto caracteriza as sociedades livres. Mas poder escolher não votar, também. Poder escolher riscar o boletim, ou entregá-lo em branco, a mesma coisa. Porém, o mais importante do conceito de cidadania não é ir de vez em quando às urnas, rezar uma oração durante o acto e depois voltar para casa e esperar que os políticos de carreira como o Rui Tavares falem por nós, façam por nós, exijam por nós - até porque, como estamos fartos de saber, os partidos têm estado à frente dos cidadãos. Eu não votei nesta eleições. Não o fiz porque fui passear, ou porque uma obrigação social ou profissional mo não permitiu. Fi-lo conscientemente por uma questão ideológica e de protesto. Mas o resto do ano não fico calado, nem no sofá à espera que a democracia funcione, como uma máquina onde se coloca uma moeda (sendo a moeda o meu voto). Exerço o meu papel de cidadão. Exijo, reclamo, pergunto, intervenho. O mal da democracia não é quando os cidadãos no dia das eleições, não vão votar e preferem ir ao futebol, ou ao centro comercial. É quando durante toda a sua vida não se interessam pela política, não fazem política ou a abominam. Afinal de contas, em democracia, quanto a mim, o que conta não são actos praticados anonimamente, mas aqueles em que mostramos a cara e nos batemos por eles. Digo eu... mas comparado com os grande politógos e políticos da praça, pouco ou nada sei...

24 de janeiro de 2011

As presidenciais: todos os vencedores.

 A parábola de Portugal, adap. da Parábola dos Cegos, de Bruegel, o Velho.

Moral da história: na República Portuguesa "todos" ganham; ganha Cavaco Silva (mesmo com a pior votação de sempre, votação essa que não interessa minimamente para o que vai fazer nos próximos anos); Alegre ganha (talvez) juízo, e uma reforma dourada que utilizará para escrever éclogas contra o fascismo; Fernando Nobre ganha tenho para pensar na sua falta de carisma e sensatez; o Partido Comunista nunca perdeu e ganha mais confiança para as próximas eleições; José Manuel Coelho ganhou, efectivamente, na Madeira podendo vir a substituir na cadeira de poder do ilhéu o coronel Jardim. Ganharam meia dúzia de velhinhas info-excluídas a lição de atempadamente pedirem aos filhos e aos netos que preparem a ida à urnas, que já não estamos em 1933 e já é a quarta vez que se realizam eleições existindo o Cartão do Cidadão. Ganham os que perderam tempo a ir escrever tolices nos boletins, ou a deixá-los em branco para o Cavaco ganhar na mesma, como se sabia desde que ele anunciou a candidatura. E, apesar de o senhor Professor Doutor de Boliqueime, o senhor mais honesto de Portugal, filho de um gasolineiro e único sustento de uma família com 4 reformas (a menor delas abaixo dos 800 euros) ter obtido a pior votação de uma eleição presidencial, ganhou mais 5 anos de silencio intercalado com momentos espasmódicos de regabofe. Ganharam os  monárquicos a ilusão de uma abstenção fenomenal que julgam traduzida num súbito desejo de uma Restauração e, pelo mesmo motivo, ganharam aqueles velhos anarcas de boina preta que acham que o "povo" está a preparar uma revolução em silêncio. Ganhou a maçonaria que apoiou Alegre, mas também Nobre sob o jugo despótico de Soares e ganhou Soares que por pouco não tinha uma apoplexia, depois de rir desalmadamente com a votação dada a Alegre (mas, afinal, alguém do Partido Socialista votou nele?). Ganhou José Sócrates que desterrou Alegre da política, continua com um emplastro na chefia de Estado e prossegue à vontade com mais 5 anos de desgoverno. Ganhou a Igreja que, depois da aclamação na varanda, ungiu o reeleito presidente, pedindo-lhe que continue a opinar sobre as causas fracturantes como representante de 25 % dos eleitorado. Em suma, ganhou a república portuguesa e os seus homens que sempre disseram que o estado é para os republicanos (mesmo que fingidos). Talvez não tenha ganho uma minoria de 9 a 10 milhões de portugueses, mas isso não interessa. Há 100 anos que esta minoria é irrelevante.

17 de janeiro de 2011

I love you, you pay my rent: comentários sobre a banalidade.

Sabe Deus o que me custa comentar notícias em cima do joelho. Bem sei que o ferro deve malhar-se enquanto está quente, mas eu, apesar de descender desta ilustre cepa de oficiais mecânicos, não aspiro, hoje, às artes da ferragem. Por isso, dispenso correr para cronicar sobre factos que a comunicação social atira à cara dos leitores, à espera que o barro pegue e seque.

As presidenciais são assunto que não interessa. Já o disse aqui. De resto não há grande assunto para falar. Os candidatos podem prometer (e prometem) mundos e fundos. Mas a única coisa que farão será cortar fitas, fazer discursos bonitos e limitar-se a cumprir a constituição. Dissolver o Parlamento? Para quê? Isso são resquícios de um anti-parlamentarismo que não combina com a ideia constitucional. Ao contrário do que diz o senhor Cavaco Silva, que faz de homem do povo,  ele não é a aduela no arco institucional da república, nem a sua figura moderadora. O senhor Cavaco Silva é uma criação ideológica. Foi primeiro ministro, conhece muito bem o Estado e pertence ao aparelho partidário do PSD. É um hábil manipulador por detrás daquela imagem de wannabe-salazar, filho do gasolineiro de Boliqueime, pobre e honrado, como o de Santa Comba Dão que o país tanto amou, durante tanto tempo. Não é, nem nunca vai ser o presidente de todos os portugueses; não é minimamente imparcial, nem transmite confiança a uma grande parte dos eleitores. Em república, querer ser aquela figura congregante, paternal, independente, só pode resultar numa aberração, num Frankenstein ideológico. De resto, isto serve para qualquer um dos candidatos, desde o tristemente Alegre vago marxista reformado, até ao tresloucado José Manuel Coelho, que acha que a política é um circo (e, de todos, talvez seja o que está mais próximo da razão). Todos estão vinculados a partidos, a promessas que não podem cumprir e a uma figura que é uma espécie de gato Cheshire: aparece aqui e ali, de vez em quando, sorrindo e soltando proverbiais sentenças que a ninguém interessam.

Este pretenso sistema democrático só funcionaria se cada um de nós pudesse votar em cada um de nós. Se um processo electrónico qualquer permitisse que todos os cidadãos votantes portugueses fossem realmente elegíveis, ainda compreenderia a pertinência do acto. Mas chegar a presidente da república, desconfio, é mais difícil do que ir ao "Quem quer ser milionário".

Depois, não tenho jeito nenhum para comentar crimes. Sou um fã incondicional de Poirot e da sua criadora, mas sou inábil no que toca a deslindar enredos policiais. Como tal, a história de Carlos Castro e Renato Seabra, embora não me passe ao lado e, vá lá, nos coloque a um nível cosmopolita de L.A. ou Miami, não é assunto que me instigue a grandes comentários. Mas a histeria está incontrolável. Eduardo Pitta e Guilherme de Melo vieram logo gritar: a culpa é da Igreja, pelo uterior estado acolitável do moço Seabra, esquecendo-se, porém, que homicidas existem desde o início dos tempos (mesmo antes da invenção da túnica branca de acólito), ou que a JSD de Cantanhede, que já entrou na história pela mão nervosa e provavelmente imbecil de um daqueles cronistas, é completamente irrelevante para aquilatar deste axioma: amor e morte andam sempre de mãos dadas. A hipocrisia de ambos os lados não me surpreende (deve ser do ofício de Historiador, que quanto mais perscruta o Passado, menos se espanta com o Presente): que fosse uma relação desequilibrada, não é preciso ir muito longe e é certo, certinho que o oportunismo faz parte destas simbioses, como a música dos Pet Shop Boys: "I love you, you pay my rent (It's easy, it's so easy)". Mas, por favor, nem endeusem os que partem, nem elogiem os que ficam. Outro crime virá que não olha a sexo, nem idade, que morrer, felizmente e infelizmente, é acto mais democrático do que escolher um presidente para a república.

Dou comigo a pensar como este país é tão pequeno para grande comentários. Ao menos Bernardo Soares fez da banalidade uma obra de arte e Raúl Brandão, com o seu próprio livro desassossegado, o Humús, descreveu para Guimarães, como ninguém, o que podia ser descrito para Portugal -  uma enorme vila, onde mudam apenas os actores. Os diálogos de hoje, esses são iguaizinhos aos de ontem, repetidos, monocórdicos e mesquinhos.E isto não é problemas de uns. Em Portugal, o tal "povo" não tem formação e as elites são mal formadas. E isso é que é trágico...

Também publicado no Aventar.