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2 de setembro de 2012

É a vida.

Enquanto via, ainda há pouco, uma reportagem sobre a submersão do santuário de Santo Antão da Barca, em Alfândega da Fé e ao mesmo tempo ouvia as opiniões dos fiéis lembrava-me da bonomia das gentes deste país. Bonomia? Talvez a palavra simplório se aplique melhor ao feitio daquela boa população que entre mudar o lugar do santuário e ter água à farta junto à porta, ficava como um tolinho no meio da ponte sem saber para onde ir. Um convicto romeiro optava pela água, segundo ele para regar - ainda que não haja braços para o fazer, nem campos cultivados que recebam o precioso líquido...
Depois sucediam-se as costumeiras expressões: "é a vida", "tem que ser", "o que se há-de fazer?"... e um riso ou sorriso selavam o contrato praticado entre o poder, longínquo e abstracto, e o povinho, simplório mas sempre alegre, não obstante o fado ou fardo, pesados, que sempre recebe.
É tão fácil governar um povo assim, macambúzio e inerte. Basta comunicar-lhes que em troca de água de que não precisam mudarão o pouso do santo, posto ali há séculos. Uma devota, tratando-o como um pedaço de madeira disse que ele não fala e outra acrescenta que vai para o onde o levarem, sem se dar conta que ela também vai para onde a mandarem e, como o taumaturgo, sem tugir nem mugir.
Há muitos séculos que o progresso de obras vistosas e grandes é ouro para este país. O tal povinho vem ver a construção, os festejos e a obra pronta. Descobre, depois, que foi enganado. 
Paciência, "é a vida".

15 de março de 2012



A maioria das nossas populações é feita desses tipos intermédios, expectantes, passivos, em que lhes falei no começo destas notas, os os fortes pisam e manietam ao seu carro, e para quem não há lugar na vida agitante nos nossos dias. O resultado é este: em cima, o País gozado por dez ou doze bandidos, o todo fazendo permutações de infâmias e jigas-jogas de negociatas, que lhe permitem aguentarem-se alguns meses mais no tombadilho; em baixo a massa avulsa, morrinhenta, sórdida, sem força, desiludida de tudo, irrespeitosa de tudo, insultando-se como os bêbados, sofrendo o azorrague como os cães, vendo passar as afrontas indiferente, e deixando-se cair assim no próprio vómito, onde a letargia a assovaca, té que uma chicotada nova a faça outra vez estrebuchar.
Fialho de Almeida, Os gatos, 1893 (mas podia ser em 2012).
Citado em O Tempo Contado