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20 de agosto de 2010

Para quem é...

Quem me conhece sabe que amo incondicionalmente a minha terra. Que, a todo o lado que vou, encho a boca para dizer que sou natural de Cinfães. Nesse aspecto peco pelo tal bairrismo e por um regionalismo que "acuso" em outros... Outrossim quem me conhece também sabe que nunca recebi um único agradecimento dos meus conterrâneos pelo trabalho que tenho dedicado às gentes do meu concelho. E embora a mágoa de ser bem recebido em tantos lugares que não a terra que me viu nascer seja muito grande, é maior a vontade de abnegadamente dar sem receber. Faço-o com com o gosto poder honrar as minhas raízes, e louvar a terra onde estão os ossos dos meus antepassados. Cada um de nós devia empenhar-se em honrar o pai e a mãe e orgulhar-se do seu local de nascimento, esfroçar-se para contribuir para o seu engrandecimento. Num mundo tão desorientado, onde se cruzam e chocam tantas identidades, o lugar onde nascemos é a nossa âncora e, queiramos ou não, será sempre uma parte de nós... Mas, sempre que vejo algo como este vídeo, vem-me à lembrança que, às vezes, construímos na mente a ideia de uma terra excepcional, imaculada, perfeita e ímpar e, depois, lembramo-nos que os homens que nela moram não descansam que enquanto não a estragam.




Este vídeo é uma triste apologia ao vazio, aos clichés do costume: ao folclore, à comida, à pecuária. Lembram-se os "grandes" da terra: um bispo, um andebolista e um comentador desportivo abertamente ligado à extrema-direita portuguesa que há anos repudiou a sua própria terra ao ocultar publicamente de onde era natural. E, claro, Serpa Pinto, o cidadão do mundo que aqui foi baptizado e nunca mais cá voltou. A sofrível locutora lá respigou umas frases que eu escrevi no artigo da wikipédia sobre o património religioso e a padroeira Santa Cristina. Mistura Idade Média com Barroco e...o resto nem vale a pena falar referir. Aliás todo o "documentário" seria bem pior se não fosse tão mau. Mas isto não é apanágio desta pequena freguesia apelidada de "beleza natural". Repete-se às centenas pelo País. Portugal não quer ser melhor, acomodou-se à mediocridade. E basta.

19 de abril de 2010

Nobre povo. Nação valente.

Agora sim, damos a volta a isto!
Agora sim, há pernas para andar!
Agora sim, eu sinto o optimismo!
Vamos em frente, ninguém nos vais parar!

(resposta:)
Agora não, que é hora do almoço…
Agora não, que é hora do jantar…
Agora não, que eu acho que não posso…
Amanhã vou trabalhar…

Agora sim, temos a força toda!
Agora sim, há fé neste querer!
Agora sim, só vejo gente boa!
Vamos em frente e havemos de vencer!

(resposta:)
Agora não, que me dói a barriga…
Agora não, dizem que vai chover…
Agora não, que joga o Benfica…
e eu tenho mais que fazer…

Agora sim, cantamos com vontade!
Agora sim, eu sinto a união!
Agora sim, já ouço a liberdade!
Vamos em frente, é esta a direcção!

(resposta:)
Agora não, que falta um impresso…
Agora não, que o meu pai não quer…
Agora não, que há engarrafamentos…
Vão sem mim, que eu vou lá ter…


Letra da música Movimento Perpétuo Associativo, dos Deolinda.

22 de fevereiro de 2010

Eis a república portuguesa.

Ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX fomos sempre vistos com paternalismo, sobretudo pela cultura inglesa. Primeiro pelos britânicos que em troca de lã nos sorviam o vinho, olhando com desprezo quem lhes pisava o néctar divino. Depois, mais tarde, pelos norte-americanos que, num misto de curiosidade e desinteresse, respigavam estes apontamentos de folclorismo criado pela Segunda República de Portugal, ou Estado Novo de cujos resquícios nos não livramos tão cedo. Para eles seremos sempre típicos. Do Zé Povinho à Vianesa, passando pelo Galo de Barcelos fomos nós que nos criámos, que aceitámos que nos modelassem e que nos promovemos desta forma. Podemos julgá-los pelo olhar que têm de nós?

18 de fevereiro de 2010

"Portugal Enfermo", 1819

Eu vejo, nestes tempos desditosos
Povos empobrecidos, e chorosos ;
Pois quando vem hum mal, outros se seguem,
Que os Mortaes atenuão, e perseguem. '
Mas apezar da falta de dinheiro,
Apparece nos bairros o gaiteiro,

As bandeiras nas cordas penduradas
Por onde as festas sao annunciadas,'
Tudo feito com lustre , e com grandeza
Foi Juíza a Senhora Dona Andreza.
Os festeiros não tem nada de seu;
Mas a festa da rua tudo deu.
Anda o velho engraçado co' os Leilões
Dos cargos, que custarão bons tostões.
Temos fogo de vistas, vistas raras,
N'hum beco, que de Largo tem três varas

Que huma roda, que salta era fogo ardendo;
Vem desordens fazer nos que estão vendo;
E póde muito bem a propriedade
Com fogo reduzir-se em ametade.
Estes p'rigos não são muito pequenos,
E já tem succedido mais, ou menos.
Nunca vi de dinheiro tanta fome,
Nem tantas festas de despeza, e nome.
Eu louvo, e não crimino a devoção;
Haja festa de Igreja, e bom Sermão;
Tenha a festividade do arrayal
Cousas, que facão bera, e nunca mal.
O dinheiro de máscaras, e fogo
Vá gastar-se com outro desafogo
Mais útil, mais vistoso, mais louvável
Em acudir a tanto miserável.
Dem rações á pobreza dessa rua,
E a festa christãmente se conclua.
No lugar, era que o fogo armar se havia,
Haja comprida meza neste dia;
Hum, ou dois caldeirões de mantimento,
Que sirvão aos mendigos de sustento,
Ministrados por esses bons festeiros.
Que se facão da meza dispenseiros,
Sem tumulto, em socego, e com cuidado
No cégo, na criança, no aleijado.
Isto he que dá exemplo, he que edifica;
Deste modo a função completa fica [...]

Portugal Enfermo, José Luís Guerner, 1819

10 de janeiro de 2010

A renovação na continuidade.




António há-de morrer!
A Oliveira há-de secar!
O Sal há-de derreter!
E o azar há-de acabar!


O António já morreu!
A Oliveira já secou!
O Sal já se derreteu!
O azar não acabou!

(popular)

21 de março de 2009

A tal portugalidade (em verso).

Álbum "Companhia das Índias"
Música "Morremos a rir"
(Rui reininho/Slimmy) (c) 2008
À partida
num quarto escuro sem roupa dorme a miss Velha Europa
acorda na Grande Migalha da China
sonhava ter descoberto a América ao sair da tropa
a escrava africana soprava as velas à pequenina

Venham mais mouras e celtas vândalos poetas
marquises de alumínio romenas, ciganas mas mais indianas
florbelas, cancelas abertas sem condomínio

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá subir sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
morremos a rir

Alguém sabe onde é o Quinto Império
alguém sabe onde mora o terceiro mundo
Venham mais mouras e celtas vândalos poetas
marquises de alumínio romenas, ciganas mas mais indianas
florbelas, cancelas abertas sem condomínio

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá subir sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
vamos adorar o TGV chegar
vamos aterrar sem sair do hangar

Fomos todos parir se o esperma permitir
morremos a rir

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá voar sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
morremos a rir
morremos a rir
(a letra foi retirada daqui, com algumas correcções)

9 de janeiro de 2009

Aforismo # tal: Os estilos nascem dos contextos.

(cena do filme "¿Qué he hecho yo para merecer esto?!", Pedro Almodóvar. 1984)

(excerto do filme "Os Canibais", do realizador português Manoel de Oliveira, 1988)

Em 1980 vivia-se a movida madrilena, que só chegou a Portugal já os anos 90 envelheciam. Eu pedia a vossa atenção, para os textos e contextos de ambos os filmes, separados apenas por 4 anos. É evidente, pelo exposto, que Almodôvar nunca chegará aos 100 anos, nem poderia ter concebido a filmografia que concebeu tendo nascido no Porto e vivido a sua infância à sombra da imagem de crianças descalças a jogar aniki bóbó em plena marginal do Douro. Não, não estou a ser injusto para o "mestre" Manoel de Oliveira, arauto centenário do cinematógrafo luso - sou apreciador dos seus planos obsessivo-compulsivos e dos rasgos de cor. Mas é tão interessante como a representação mostra (seja a p&b, seja a cores) a luminosidade, o desembaraço (ou ausência dele) e o talento imagético de um povo.