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3 de janeiro de 2010

A História segundo o Bloco de Esquerda: terroristas ou galinhas?

[...] Jornal I - Para todos os efeitos, a Carbonária era uma organização terrorista...
Fernando Rosas: Não lhe chamaria assim... A expressão terrorista tem hoje conotações que não se adaptam exactamente à Carbonária. Punha bombas, realment
e. [...]

Fernando Rosas consegue dar um novo significado à expressão «pôr bombas». Ora se quem põe bombas não é terrorista, ou quem é terrorista não põe bombas, há anos que andamos enganados. Não eram terroristas, afinal. Eram galinhas que punham granadas e explosivos, em vez de ovos.

28 de setembro de 2009

O Limbo de Sócrates.

A minha reacção inicial foi de espanto, face aos resultados quer do PS, quer do BE (quando ainda se pensava que este partido iria ser a 3ª força política no Parlamento), mas hoje, passado o rush da noite, o panorama é muito mais sereno. Com Sócrates absolutamente refém dos outros partidos, o Parlamento vai ser muito mais o verdadeiro centro de decisão do país. Menos autismo do Governo, porque obrigado a ouvir e a ceder, talvez (mas sublinho o talvez) Portugal deixe de ter um programa político autocrático. Mas ainda que o CDS seja, efectivamente, o vencedor desta eleições, não posso deixar de ficar preocupado com o alcance do BE. Enquanto toda a Europa vira à Direita, Portugal escolhe a esquerda radical, extremista, mísera e mesquinha que depois de morta (lembrem-se do ex-PSR) é hoje rainha, que diz repugnar o poder e viver, apenas, para a oposição. Só que Portugal não vive de oposição. O país devia regular-se por medidas englobantes e inclusivas e não por temas fracturantes. Não sou sociólogo, nem politólogo, mas julgo que uma estudo sobre o eleito-tipo do BE poderia explicar o cenário actual: do jovem rebelde, passando pelo universitário das causas, até aos intelectuais deslumbrados (e, nestas eleições, a maioria da classe docente), o voto atribuído ao Bloco de Esquerda é um voto inútil. Não serve ninguém em particular e constituiu uma espécie de enfeite da nossa Democracia pobre e diminuída que se encanta com a canção do bandido. O Louçã melífluo é como o arauto de um Evangelho que vem eliminar da face da Terra a pobreza, exclusão e a injustiça (mas Louçã, simples opositor, nada faz). É, porém, como sopa no mel para uma população iliterata, que mergulha num caldo de pobreza material e pobreza de espírito. Foi aliás outra franja desta população que respondeu ao chamamento do subsídio e ao medo de o perder, votando PS. Sócrates não perdeu, mas também não ganhou. Está no limbo. Resta saber se nos levará ao Paraíso ou ao Inferno.

P.S. No seguimento do que referi acima sobre o BE não posso deixar de destacar o facto de o PCP/CDU esvaziar-se em detrimento daquele partido. Reconheço no Partido Comunista (e embora esteja muito distante dos seus apoios ideológicos, do presente e do passado) a coerência, a firmeza e a sinceridade política que falta ao Bloco. O PC sempre se destacou na luta pela Democracia e pelos direitos dos trabalhadores, sem cair nos maniqueísmos fracturantes com que o Bloco acena à juventude rebelde e «bem». Ao erguer-se sobre um certo eleitorado de esquerda, o Bloco ocupa um lugar que não é o do PCP e que se deixar de existir não será certamente compensado pela mistura agri-doce que tem hoje como porta-voz o Dr. Francisco Louçã, projecto de Robespierre português.

6 de junho de 2009

Vamos todos votar. Todos os dias.

Imagem picada daqui.


Ultimamente alguns amigos e conhecidos aproveitam para me lembrar a necessidade de votar no próximo domingo. Não sei a que se deve esta necessidade eleitoralista súbita, se ao mau desempenho no actual governo, se a uma necessidade emergente de tomar consciência dos seus direitos como cidadãos. Bom, se a minha condição de cidadão se reduzir ao direito do voto, então não sou nada. Nunca poderei ser nada, como disse Fernando Pessoa. E mesmo que, eventualmente, tenha em mim todos os sonhos do mundo, o facto de ir votar não mudará o mundo. Não mudará o meu mundo, não mudará o mundo dos outros. Possivelmente mudará o mundo dos candidatos. Uns mudar-se-ão para Bruxelas, outros redecorarão a sua casa e o mundo pula e avança, com votos a menos ou a mais. § Um amigo disse-me: «é preciso é que as pessoas participem, o que me assusta é a passividade». E eu respondi que o voto é a passividade. Ir votar, voltar para casa, sentar-se no sofá e esperar que meia dúzia de políticos faça o trabalho que cada um de nós deve fazer é uma das maiores inutilidades dos tempos modernos. Vejamos o que a História nos diz: quando não havia democracia, ou quando a havia mas esta era limitada, homens e mulheres houve que do meio da massa anónima gritaram. Ousaram. Quiseram. E deixaram a sua marca de liberdade. Esse é o melhor voto, o participar exigindo, querendo, fazendo. Por isso, no próximo domingo muito embora vá votar, o meu voto será nulo. Porque a minha democracia se faz no dia a dia e não segundo um calendário eleitoral.

6 de abril de 2009

Há lugar para mais partidos políticos em Portugal?



A pergunta é pertinente se pensarmos que o binómio PS/PPD-PSD está esgotado. O sistema não é igual ao rotativismo dos últimos anos da monarquia constitucional, mas tem o mesmo efeito de desgaste. Já me questionei se uma recente multiplicação de partidos ajudará a mudar este panorama. É provável que não. A força tentacular instituída por 30 anos de repartição de poder dificilmente poderá ser esvaziada. Mas pode enfrentar-se. § Por conseguinte também não acredito da extremização ideológica. É perigoso que a balança penda demasiado para cada um dos lados, quer para uma direita tradicionalista e demasiado presa à Igreja, quer para uma esquerda trauliteira e de modas, como a que o BE quer trazer para a sociedade portuguesa. Infelizmente o Centro não me convence, sobretudo porque Tony Blair e a sua ideia de uma via para a frente, me faz lembrar o triste consulado Bush e a sua ideia imperialista para um mundo conflituoso. Não há um único partido, em Portugal, pelo qual pudesse militar, mas não posso deixar de sentir cada vez mais respeito pelo Partido Comunista. Estranho, para um monárquico? Não me parece. A ideia de uma sociedade onde as classes se diluam combina perfeitamente com a ideia de uma monarquia ao serviço da verdadeira res publica - a coisa pública. O problema das sociedade não é o chefe de estado, mas a forma como se organizam na pirâmide sobre a qual ele eleva. Talvez me aproxime, segundo este pensamento, ao Integralismo Lusitano, que procurava uma monarquia orgânica, sem preocupação pela existência de uma aristocracia (que quanto a mim pode bem dispensar-se) ou uma plutocracia. Apenas o rei, pai, titular, símbolo. Bom, mas não obstante julgar que a democracia deve premiar o mérito e não os partidos, que estes constituem, cada vez mais, grupelhos de redes de clientelismo e influência, degraus para a consagração de medíocres ou para a ocultação de crimes (caso Freeport?), não posso deixar de saudar o aparecimento do Movimento Esperança Portugal encabeçado pela Laurinda Alves, jornalista cujo trabalho, escrita e ideais prezo muito. Entre os vários pontos e tópicos do manifesto político do MEP (que pode ser consultado aqui) salientaria este (Ponto V): «a afirmação da subsidiariedade como base da governação da sociedade; das organizações da sociedade civil como actores principais; do reforço do poder e da responsabilidade do cidadão; da transparência dos processos e das decisões políticas; da cultura de participação e discussão política em todas as idades; da dignificação da política.» Este novo «partido» ou movimento, situa-se ideologicamente ao centro, resguardando valores cristãos. Não sei se singrará para cumprir o seu manifesto, mas desejo aos seus promotores e, sobretudo, à Laurinda Alves, o maior sucesso pela simples coragem de, num país de hábitos e «cunhas», lançar-se num projecto tão audacioso.

1 de janeiro de 2009

Sugestão de leitura para o início do novo Ano


Se, em monarquia, o rei se pode intitular rei de todos os portugueses, pois o é dum povo, em regime republicano o Presidente deve ser apenas o representante da República, como se afirma no art.° 123.° da Constituição, não ignorando nem perdendo de vista os que o elegeram.

Francisco Sá Carneiro, 1979

Ler a obra de Francisco Sá Carneiro
, disponível em Instituto Francisco Sá Carneiro. E fazer com que que, em 2009, este jardim à beira mar plantado possa valer, pelo menos, uma missa cantada.

27 de novembro de 2008

Nos tempos que correm...

"O Rei surge como a única força que no País ainda vive e opera."
Eça de Queirós, referindo-se a Dom Carlos I, um vencido da vida. Quem vive e opera, hoje?



...sabe bem recolhermo-nos na leitura dos pensamentos dos Vencidos da Vida. A razão estava e está do lado deles.


Combater apenas o analfabetismo do povo por meio de escolas primárias e de escolas infantis sem religião e sem Deus, não é salvar uma civilização, é derruí-la pela base por meio do pedantismo da incompetência, da materialização dos sentimentos e do envenenamento das ideias. Quem ignora hoje que foi a perseguição religiosa e o domínio mental da escola laica o que retalhou e fraccionou em França a alma da nação? Quem é que nesse tão amado, tão generoso e tão atribulado país não está vendo hoje objectivar-se praticamente o profético aforismo de Le Bon: «É sobretudo depois de destruídos os deuses que se reconhece a utilidade deles»!

12 de junho de 2008

A excessiva partidarização da democracia e o silêncio da verdade: ideias, não ideologias.

Já há algum tempo atrás que, em conversa com amigos, tem surgido a discussão sobre a necessidade de outro partido em Portugal. De todas as vezes tenho insistido no meu ponto de vista: a democracia, tal como está, repleta de clivagens ideológicas e em alguns casos à beira do abismo, pode ser salva pela entrega do poder ao povo. É óbvio que não digo isto numa perspectiva marxista. Digo-o com a necessidade de transferir a dominante cartelização em que se transformou o sistema democrático através dos partidos políticos, para o indivíduo comum. Talvez no caso de Portugal não estejamos suficientemente maduros para aceitar tal conversão. Mas de certeza que, se deixássemos este rotativismo miserável que traz este país no fio da navalha numa pluralidade consensual de opiniões, e de intervenção directa do cidadão - uma meritocracia em vez de uma mediocracia política - talvez o desinteresse da juventude nestas matérias não espantasse o Sr. Silva, filho do gasolineiro que nas horas livres come bolo-rei e diz disparates. Eu queria ver a coragem de um país que na sua assembleia de cidadãos efectivamente os ouvisse e deliberasse, não com base em orientações partidárias, mas em valores individuais e (ou) colectivos que exteriorizassem não ideologias, mas ideias. Deixo aos politólogos e a todos os teóricos da internet (a maioria dos blogues que eu leio todos os dias poderia dar uma ajuda) na concepção de uma sistema que admitisse esta distribuição do poder político unipessoal em detrimento do partidarismo obsoleto e condicionador. Eu, pela minha parte, gostava de poder lançar o desafio a quem pensa em agrupar-se para trabalhar por um país melhor: agrupem-se, sim, para pensarem por si e não pela cartilha de grupos ideológicos ou partidários. Se for para poder reconstruir este sistema de lóbis e cartéis, contem comigo. Caso contrário, um partido a mais ou a menos é só um partido.