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3 de janeiro de 2010

A História segundo o Bloco de Esquerda: terroristas ou galinhas?

[...] Jornal I - Para todos os efeitos, a Carbonária era uma organização terrorista...
Fernando Rosas: Não lhe chamaria assim... A expressão terrorista tem hoje conotações que não se adaptam exactamente à Carbonária. Punha bombas, realment
e. [...]

Fernando Rosas consegue dar um novo significado à expressão «pôr bombas». Ora se quem põe bombas não é terrorista, ou quem é terrorista não põe bombas, há anos que andamos enganados. Não eram terroristas, afinal. Eram galinhas que punham granadas e explosivos, em vez de ovos.

28 de setembro de 2009

O Limbo de Sócrates.

A minha reacção inicial foi de espanto, face aos resultados quer do PS, quer do BE (quando ainda se pensava que este partido iria ser a 3ª força política no Parlamento), mas hoje, passado o rush da noite, o panorama é muito mais sereno. Com Sócrates absolutamente refém dos outros partidos, o Parlamento vai ser muito mais o verdadeiro centro de decisão do país. Menos autismo do Governo, porque obrigado a ouvir e a ceder, talvez (mas sublinho o talvez) Portugal deixe de ter um programa político autocrático. Mas ainda que o CDS seja, efectivamente, o vencedor desta eleições, não posso deixar de ficar preocupado com o alcance do BE. Enquanto toda a Europa vira à Direita, Portugal escolhe a esquerda radical, extremista, mísera e mesquinha que depois de morta (lembrem-se do ex-PSR) é hoje rainha, que diz repugnar o poder e viver, apenas, para a oposição. Só que Portugal não vive de oposição. O país devia regular-se por medidas englobantes e inclusivas e não por temas fracturantes. Não sou sociólogo, nem politólogo, mas julgo que uma estudo sobre o eleito-tipo do BE poderia explicar o cenário actual: do jovem rebelde, passando pelo universitário das causas, até aos intelectuais deslumbrados (e, nestas eleições, a maioria da classe docente), o voto atribuído ao Bloco de Esquerda é um voto inútil. Não serve ninguém em particular e constituiu uma espécie de enfeite da nossa Democracia pobre e diminuída que se encanta com a canção do bandido. O Louçã melífluo é como o arauto de um Evangelho que vem eliminar da face da Terra a pobreza, exclusão e a injustiça (mas Louçã, simples opositor, nada faz). É, porém, como sopa no mel para uma população iliterata, que mergulha num caldo de pobreza material e pobreza de espírito. Foi aliás outra franja desta população que respondeu ao chamamento do subsídio e ao medo de o perder, votando PS. Sócrates não perdeu, mas também não ganhou. Está no limbo. Resta saber se nos levará ao Paraíso ou ao Inferno.

P.S. No seguimento do que referi acima sobre o BE não posso deixar de destacar o facto de o PCP/CDU esvaziar-se em detrimento daquele partido. Reconheço no Partido Comunista (e embora esteja muito distante dos seus apoios ideológicos, do presente e do passado) a coerência, a firmeza e a sinceridade política que falta ao Bloco. O PC sempre se destacou na luta pela Democracia e pelos direitos dos trabalhadores, sem cair nos maniqueísmos fracturantes com que o Bloco acena à juventude rebelde e «bem». Ao erguer-se sobre um certo eleitorado de esquerda, o Bloco ocupa um lugar que não é o do PCP e que se deixar de existir não será certamente compensado pela mistura agri-doce que tem hoje como porta-voz o Dr. Francisco Louçã, projecto de Robespierre português.

25 de julho de 2009

O Ministro da Cultura e as energias renováveis: uma ligação improvável?




Assisti, ontem, na RTP2, ao programa "Diga lá Excelência", em que o convidado foi o Ministro da Cultura, indíviduo pouco conhecido, governamentalmente discreto e cuja imagem de marca são os óculos "fundo de garrafa". Não sei se por miopia ideológica, por ignorância ou por lealdade ao grande líder, o Dr. Pinto Ribeiro vinha armado até aos dentes com gráficos montados sobre k-line. Vinha justificar o injustificável, ou seja, porque razão ocupava aquele cargo. Desconheço a formação de base do Ministro (dizem-me que é direito) mas o pouco que percebe de cultura compensa em teoria económica. As jornalistas, visivelmente pouco preparadas para o ataque contabilístico do "senhor 1%" (a mítica meta da percentagem do orçamento de estado dedicado à cultura que foi uma dos principais temas de conversa), viram-se confrontadas com  um propagandista. Tudo foi relativizado: a falta de planificação do ministério, a ausência de visão, o desnorte em casos como o Museu dos Coches, etc. Até os manifestos e as opiniões críticas de sectores e indivíduos ligados à cultura nacional foram reduzidos a pó pelo senhor ministro. Para ele tudo se resume a dinheiro e património. O dinheiro consegue-se com recurso a parcerias. O património, bom, esse continua a cair aos bocados, não obstante o esforço do Dr. Pinto Ribeiro em apresentar listas, números e uma carta de recomendação da Unesco. Mas o discurso ideológico, aquele que parece bebido em longas horas de lavagem cerebral frente a um vídeo com conselhos do Grande Líder, atingiu o pico quando o Ministro da Cultura começou a dissertar sobre o futuro Museu da Viagem ("da Globalização", "das Descobertas", "dos 1.ºs descobrimentos", "chamem-lhe o que quiserem"). Segundo ele, essa obra extraordinária que está para surgir vem confirmar a longa vocação dos portugueses para a utilização das energias renováveis. Sim! Isso mesmo, energias renováveis! Num rasgo de genial bestialidade o dr. Pinto Ribeiro afirmou que os Descobrimentos tinham sido realizados utilizando a água e o vento - uma "viagem democrática" que se contrapõe às viagens modernas que necessitam das energias fósseis (ao que parece, e segundo ele, "não democráticas"). Eu fiquei algum tempo a divagar sobre esta conversa absurda. Depois dei comigo a relembrar a História nacional e internacional e pensar que, talvez, me tivesse escapado algo. Não. De facto os Descobrimentos foram feitos pelo mar afora, à custa dos ventos e das marés. Se os marinheiros de então achavam este sistema ecológico e democrático, isso não sei. Afinal de contas era o único que conheciam. O senhor Ministro da Cultura, contudo, está visivelmente perturbado. Sofre de despersonalização. Talvez devesse ser Ministro do Ambiente. Todos sabemos que os ministros apenas cumprem o papel de representantes do Grande Líder, não interessa a formação que têm. É por isso que tanto podem ser ministros da saúde, presidentes de um conselho de administração, ou professores catedráticos. Chama-se a isto flexibilidade ou versatilidade e qualquer uma destas coisas os nossos políticos têm para dar e vender.

8 de junho de 2009

Eleições Europeias em Portugal: uma síntese.




Há vários pontos a sublinhar que decorrem dos resultados eleitorais de ontem: a derrota do PS português e europeu, a pulverização dos votos e da tradicional binomia PSD/PS, e o aumento dos votos brancos ou nulos. A abstenção em que refugiam, sobretudo, os vencidos, nada diz. As eleições fazem-se com os que votam. E quem vai às urnas, ainda que não escolha nenhum dos partidos, está a enviar uma mensagem. Sócrates parece não ter percebido o cartão vermelho - o discurso da derrota foi como o são todos os seus: traçados seguindo uma filosofia de invencibilidade e de irredutibilidade preparados por assessores de imagem com PhD em marketing político. Certo é que não se trata de uma derrota nacional: se Portugal virou à direita a Europa também. Mas não deixa de ser expressiva a subida dos "independentes" ou não filiados. A Europa está a humanizar-se, e ainda bem. Voltando a Portugal o Distrito de Viseu, por exemplo, voltou a ser "laranja". Em Cinfães, um dos três bastiões socialistas daquele distrito os resultados são expressivos: PSD - 38.18%; PS - 34.93%; CDS - 8.58%; BE - 5.57%; CDU - 3.92%; PCTP/MRPP - 1.01%. De resto estão de parabéns, para além do PPD/PSD, o CDS/PP e o BE, embora não compreenda bem a festa deste partido populista: ao arruinar o PCP (retirando-lhe eleitorado vital), arrasta toda a Esquerda com eles e (bom, felizmente), impedirá o PS de conseguir a maioria absoluta. A confirmarem-se resultados semelhantes nas legislativas, uma coligação PSD/CDS poderá levar a Direita ao poder. E o BE continuará a reinar como até hoje: entre as franjas alternativas da sociedade que votam para nada mudar, apenas para serem do contra.

6 de junho de 2009

Vamos todos votar. Todos os dias.

Imagem picada daqui.


Ultimamente alguns amigos e conhecidos aproveitam para me lembrar a necessidade de votar no próximo domingo. Não sei a que se deve esta necessidade eleitoralista súbita, se ao mau desempenho no actual governo, se a uma necessidade emergente de tomar consciência dos seus direitos como cidadãos. Bom, se a minha condição de cidadão se reduzir ao direito do voto, então não sou nada. Nunca poderei ser nada, como disse Fernando Pessoa. E mesmo que, eventualmente, tenha em mim todos os sonhos do mundo, o facto de ir votar não mudará o mundo. Não mudará o meu mundo, não mudará o mundo dos outros. Possivelmente mudará o mundo dos candidatos. Uns mudar-se-ão para Bruxelas, outros redecorarão a sua casa e o mundo pula e avança, com votos a menos ou a mais. § Um amigo disse-me: «é preciso é que as pessoas participem, o que me assusta é a passividade». E eu respondi que o voto é a passividade. Ir votar, voltar para casa, sentar-se no sofá e esperar que meia dúzia de políticos faça o trabalho que cada um de nós deve fazer é uma das maiores inutilidades dos tempos modernos. Vejamos o que a História nos diz: quando não havia democracia, ou quando a havia mas esta era limitada, homens e mulheres houve que do meio da massa anónima gritaram. Ousaram. Quiseram. E deixaram a sua marca de liberdade. Esse é o melhor voto, o participar exigindo, querendo, fazendo. Por isso, no próximo domingo muito embora vá votar, o meu voto será nulo. Porque a minha democracia se faz no dia a dia e não segundo um calendário eleitoral.

9 de maio de 2009

Viva a República Portuguesa! ...- Viva o quê?

Nesta imagem, a República, já maternal e composta, pede por um Estado Forte.


A Comissão para as Comemorações para o Centenário da República Portuguesa vai gastar milhões de euros (leram bem, milhões) para levar a cabo um programa de relançamento da imagem do regime. O mesmo é dizer, vai branquear a História. Soube agora, pelo Estado Sentido, que o Terreiro do Paço onde D. Carlos e o Princípe D. Luís Filipe foram assassinados por dois fervorosos republicanos será o epítome deste maravilhoso mundo novo que eclodirá do 5 de Outubro de 2010. Embora considere as comemorações, acima de tudo um roubo (mais um a que nos habitou o regime e os seus governos), não me deixam particularmente aborrecido. Porquê? Simplesmente porque tudo ficará na mesma. Ou talvez não e sirva mais ao movimento monárquico esta onda de súbito republicanismo patriótico pois afinal de contas o momento não é o melhor para comemorar o que quer que seja. Entre despedimentos, a recessão e todo o aparato económico tecido à sua volta quem é que vai querer saber da República? De mais a mais já ninguém comemora o 5 de Outubro - é só sair à rua nesse dia e ver quem é que anda com bandeiras na mão, a celebrar o heróico feito de meia dúzia de oportunistas. A D. Maria que mora num apartamento nos subúrbios de Lisboa com 4 filhos para criar e com um marido doente, que sai de casa todos os dias às seis horas da manhã para apanhar 3 autocarros e o metro - isto tudo para ganhar menos de 500 euros - quer lá saber do centenário da República. Neste país sem rei nem roque aquela senhora meia despida há quase cem anos depois está quase pútrida e não vale um tusto furado. É preciso cobri-la de ouro - ouro que os seus contribuintes e cidadãos nem podem pagar - para exibi-la ante uma plateia de desinteressados.

29 de abril de 2009

Pouca-terra, pouco-juízo.

IMGP1075

Douro, 2009 (c) N.R.

Depois de um périplo pelos restaurantes do Douro, chego mais balofo à invicta para constatar (após cinco dias sem notícias) que tudo na mesma, mais do mesmo neste país de homens de abril. Ainda agora lia uma citação de José Gil: "Em Portugal não há drama, tudo é intriga e trama!". É verdade. Desde a triste urdidura em redor da (nenhuma) representação oficial da república portuguesa ante a canonização de Nuno de Santa Maria, até à campanha pidesca da Ministra da Educação que tem já por hábito montar tribunais inquisitórios pelas escolas do país, pouca coisa espanta. Aliás, espanta tudo tão pouco, desde que de soubemos de porcos a espirrarem no México e, quem sabe, ocasionarem tremores de terra no outro lado do mundo. O efeito borboleta foi inventado em Portugal como fait-divers. Haja alegria no meio de tudo isto: as farmacêuticas já esfregam as mãos de contentes e sempre se poupa algum dinheiro por cá, em férias adiadas ou canceladas a Cancun - por todos os que contrairam empréstimos para as pagar. Tenham juízo! § Voltando ao Douro: a montanha pariu um rato. Fui ao Museu, o das parangonas da Pires de Lima e do Sócrates himself. Muito dinheiro para tão pouca uva. Salva-se a loja de recuerdos que sustém em consolo de vista o que a saleta de exposições não enche. Mas está bem, foi bem visto, começar pelo inglês basófias a quem o Camilo aplicou um daqueles insultos que mereciam o prémio nobel como defesa pela honra de uma cidade e região que o dito britânico chamava de mixórdia. Sempre se dá aos ingleses a contínua sensação de que ainda são nossos donos. E não serão? § Entretanto, ao lado do "Museu de um milhão de contos", está a linha do Douro, reduzida agora a uma espinha entre o Porto e Pocinho - mas, por quanto tempo? Valha-nos São Nuno que apesar de nos ter salvo dos espanhóis, tem menos importância e significado nacional do que um cão de água. Mas talvez seja isso que mereçamos: sermos conhecidos mundialmente por um quadrúpede, do que por um santo.
P.S. Não obstante a farta comilaina da qual me penitencio ainda para mais por ser perpetrada em época de tanta carestia, foi um agradável fim de semana na companhia de um grupo de pessoas com extraordinárias virtudes. A todos, um abraço. Contem comigo para outras andanças - menos fartas em vinhos e pitanças mas (ainda) mais ricas em cultura!

20 de abril de 2009



Ontem, num programa sobre a monarquia inglesa, o ex-chefe de governo Tony Blair sublinhava a experiência e o conhecimento político da rainha Isabel II. De facto por ela passaram 11 primeiros ministros, o primeiro deles Winston Churchill. Desde que enverga a coroa britânica, a rainha já assistiu e participou na recuperação de uma Europa devastada pela Segunda Grande Guerra, a períodos de prosperidade e recessão, ao declínio e ao crescimento. Com Margaret Tatcher assumiu o controle de uma maiores potências mundiais, lidando com questões tão graves e sensíveis como a Guerra das Malvinas ou a crise do carvão. § Que valor tem a experiência de meio século contra o oportunismo perene do método republicano? Os presidentes da república, içados, na sua maioria, de grupelhos facciosos, lobbies partidários e económicos, servem o instante, o momento, num jogo perigoso e incerto de contrabalançar o papel de chefe de estado com o do chefe governo. É uma balança que pende perigosamente ora para um lado ora para outro - quando não está, aliás, viciada... § O rei é criado para reinar, acima dos políticos. A sua experiência pode ditar a interferência, mas o seu papel de conselheiro diz-lhe que a sua maior função é a de representante máximo da nação, regulador permanente das instituições e garante da estabilidade governativa da res publica. Em Portugal, há arrepios e pruridos quando se fala em reis pois ainda não ultrapassamos a barreira dos privilégios. Curiosamente a sociedade portuguesa assenta toda ela no desrespeito constante do princípio de igualdade: as cunhas, a corrupção, oligarquias de banqueiros, políticos e famosos desfilam impunemente pela passadeira dos desmandos. Podemos pois dizer que a República Portuguesa é um pouco como aquele governo descrito por Agostinho da Silva: "não passa de uma vaca. Devemos dar-lhe palmadas no rabo e tentar tirar-lhe o leite, é para isso que ela serve".

6 de abril de 2009

Há lugar para mais partidos políticos em Portugal?



A pergunta é pertinente se pensarmos que o binómio PS/PPD-PSD está esgotado. O sistema não é igual ao rotativismo dos últimos anos da monarquia constitucional, mas tem o mesmo efeito de desgaste. Já me questionei se uma recente multiplicação de partidos ajudará a mudar este panorama. É provável que não. A força tentacular instituída por 30 anos de repartição de poder dificilmente poderá ser esvaziada. Mas pode enfrentar-se. § Por conseguinte também não acredito da extremização ideológica. É perigoso que a balança penda demasiado para cada um dos lados, quer para uma direita tradicionalista e demasiado presa à Igreja, quer para uma esquerda trauliteira e de modas, como a que o BE quer trazer para a sociedade portuguesa. Infelizmente o Centro não me convence, sobretudo porque Tony Blair e a sua ideia de uma via para a frente, me faz lembrar o triste consulado Bush e a sua ideia imperialista para um mundo conflituoso. Não há um único partido, em Portugal, pelo qual pudesse militar, mas não posso deixar de sentir cada vez mais respeito pelo Partido Comunista. Estranho, para um monárquico? Não me parece. A ideia de uma sociedade onde as classes se diluam combina perfeitamente com a ideia de uma monarquia ao serviço da verdadeira res publica - a coisa pública. O problema das sociedade não é o chefe de estado, mas a forma como se organizam na pirâmide sobre a qual ele eleva. Talvez me aproxime, segundo este pensamento, ao Integralismo Lusitano, que procurava uma monarquia orgânica, sem preocupação pela existência de uma aristocracia (que quanto a mim pode bem dispensar-se) ou uma plutocracia. Apenas o rei, pai, titular, símbolo. Bom, mas não obstante julgar que a democracia deve premiar o mérito e não os partidos, que estes constituem, cada vez mais, grupelhos de redes de clientelismo e influência, degraus para a consagração de medíocres ou para a ocultação de crimes (caso Freeport?), não posso deixar de saudar o aparecimento do Movimento Esperança Portugal encabeçado pela Laurinda Alves, jornalista cujo trabalho, escrita e ideais prezo muito. Entre os vários pontos e tópicos do manifesto político do MEP (que pode ser consultado aqui) salientaria este (Ponto V): «a afirmação da subsidiariedade como base da governação da sociedade; das organizações da sociedade civil como actores principais; do reforço do poder e da responsabilidade do cidadão; da transparência dos processos e das decisões políticas; da cultura de participação e discussão política em todas as idades; da dignificação da política.» Este novo «partido» ou movimento, situa-se ideologicamente ao centro, resguardando valores cristãos. Não sei se singrará para cumprir o seu manifesto, mas desejo aos seus promotores e, sobretudo, à Laurinda Alves, o maior sucesso pela simples coragem de, num país de hábitos e «cunhas», lançar-se num projecto tão audacioso.

27 de janeiro de 2009

Obviamente, concordo.

Cada vez será menor a «elite» que os possui [valores], perante o desvairo do nosso tempo em que a sede dos prazeres materiais e a dissolução dos costumes, apoiadas por uma organização industrial ad hoc, corromperam a riqueza e as suas fontes, o trabalho e as suas aplicações, a família e o seu valor social. Há no Mundo uma grande crise do idealismo, do espiritualismo de virtudes cívicas e morais, e não parece que sem eles possamos vencer as dificuldades do nosso tempo. Sem rectificarmos a série de valores com que lidamos - valores económicos e morais - , sem outro conceito diverso da civilização e do progresso humano, sem ao espírito ser dada primazia sobre a matéria e à moral sobre os instintos, a humanidade não curará os seus males e nem sequer tirará lucro do seu sofrimento.

1 de janeiro de 2009

Sugestão de leitura para o início do novo Ano


Se, em monarquia, o rei se pode intitular rei de todos os portugueses, pois o é dum povo, em regime republicano o Presidente deve ser apenas o representante da República, como se afirma no art.° 123.° da Constituição, não ignorando nem perdendo de vista os que o elegeram.

Francisco Sá Carneiro, 1979

Ler a obra de Francisco Sá Carneiro
, disponível em Instituto Francisco Sá Carneiro. E fazer com que que, em 2009, este jardim à beira mar plantado possa valer, pelo menos, uma missa cantada.

27 de novembro de 2008

Nos tempos que correm...

"O Rei surge como a única força que no País ainda vive e opera."
Eça de Queirós, referindo-se a Dom Carlos I, um vencido da vida. Quem vive e opera, hoje?



...sabe bem recolhermo-nos na leitura dos pensamentos dos Vencidos da Vida. A razão estava e está do lado deles.


Combater apenas o analfabetismo do povo por meio de escolas primárias e de escolas infantis sem religião e sem Deus, não é salvar uma civilização, é derruí-la pela base por meio do pedantismo da incompetência, da materialização dos sentimentos e do envenenamento das ideias. Quem ignora hoje que foi a perseguição religiosa e o domínio mental da escola laica o que retalhou e fraccionou em França a alma da nação? Quem é que nesse tão amado, tão generoso e tão atribulado país não está vendo hoje objectivar-se praticamente o profético aforismo de Le Bon: «É sobretudo depois de destruídos os deuses que se reconhece a utilidade deles»!

19 de novembro de 2008

Comentários a dois comentários.

Um
Relativamente ao comentário (gaffe, qual gaffe?) da Dr.ª Manuela Ferreira Leite, não vejo qual seja o espanto. Se repararem estamos em ditadura há bem mais do que seis meses.
Dois
Mais graves parecem-me as declarações do governador do Banco de Portugal sobre o carácter «generoso» (e cito) do subsídio de desemprego, - que, segundo o mesmo, propicia o desemprego de longa duração. Vindo de alguém que tem um salário pornograficamente elevado - eu diria mesmo uma quantia vergonhosamente alta para o comum dos portugueses - , fica mal fazer comentários daquele género. Continua a verificar-se uma discrepência entre o ficcional dos gabinetes de Lisboa e o que de real se verifica no quotidiano do País. A dotação atríbuída a mordomias, salários principescos e gastos excessivos e supérfluos dos altos cargos da função pública deve influir bem mais no desiquilíbrio das contas do erário nacional do que os subsídios de desempregos atribuídos por não mais que 2 ou 3 anos a quem ainda tem quem vive o drama de não conseguir emprego. Declarações destas valeriam, em países civilizados, um despedimento e um pedido de desculpas. Aqui, valerão uma promoção, com certeza.

19 de junho de 2008

¡Mira Mario!

Era confrangedor. Mário Soares afundado numa cadeira entre as pregas dos seu 83 anos e em frente o bem falante Hugo Chávez a debitar oratória pseudo-franciscana acerca da desigualdade dos povos, a aconselhar a Europa e a ameaçar o Bushismo. A conversa de Mário Soares ontem, em horário nobre da RTp1 tornou-se afinal um monólogo, a que o entrevistador anuia e sorria, num sinal ora de beatitude laica ("- sou um agnóstico, mas espiritual", ficamos a saber de Mário, depois de Chávez lhe ter atirado à cara com um "presidente cristão-social") ora de pré-demência a que os últimos anos do Soarismo nos habitou. Quando pensávamos que a intervenção de Mário Soares se limitava a meia dúzia de declarações infelizes nos jornais e, ocasionalmente, na televisão, eis que o senhor atravessa o Atlântico para dar tempo de antena ao nada demagógico Hugo Chávez e começar uma série de entrevistas com os Grandes do Mundo. Quem se seguirá? Fidel numa cadeira de rodas? Soares e uma médium a entrevistarem Che? O que mais me aborrece é que as romagens do sr. Dr. Mário Soares - que outrora se resumiam a visitar lugares onde pudesse montar tartarugas e elefantes - continuem a ser pagas pelo contribuinte, ou seja por nós. Viva o socialismo. Hurray.

12 de junho de 2008

A excessiva partidarização da democracia e o silêncio da verdade: ideias, não ideologias.

Já há algum tempo atrás que, em conversa com amigos, tem surgido a discussão sobre a necessidade de outro partido em Portugal. De todas as vezes tenho insistido no meu ponto de vista: a democracia, tal como está, repleta de clivagens ideológicas e em alguns casos à beira do abismo, pode ser salva pela entrega do poder ao povo. É óbvio que não digo isto numa perspectiva marxista. Digo-o com a necessidade de transferir a dominante cartelização em que se transformou o sistema democrático através dos partidos políticos, para o indivíduo comum. Talvez no caso de Portugal não estejamos suficientemente maduros para aceitar tal conversão. Mas de certeza que, se deixássemos este rotativismo miserável que traz este país no fio da navalha numa pluralidade consensual de opiniões, e de intervenção directa do cidadão - uma meritocracia em vez de uma mediocracia política - talvez o desinteresse da juventude nestas matérias não espantasse o Sr. Silva, filho do gasolineiro que nas horas livres come bolo-rei e diz disparates. Eu queria ver a coragem de um país que na sua assembleia de cidadãos efectivamente os ouvisse e deliberasse, não com base em orientações partidárias, mas em valores individuais e (ou) colectivos que exteriorizassem não ideologias, mas ideias. Deixo aos politólogos e a todos os teóricos da internet (a maioria dos blogues que eu leio todos os dias poderia dar uma ajuda) na concepção de uma sistema que admitisse esta distribuição do poder político unipessoal em detrimento do partidarismo obsoleto e condicionador. Eu, pela minha parte, gostava de poder lançar o desafio a quem pensa em agrupar-se para trabalhar por um país melhor: agrupem-se, sim, para pensarem por si e não pela cartilha de grupos ideológicos ou partidários. Se for para poder reconstruir este sistema de lóbis e cartéis, contem comigo. Caso contrário, um partido a mais ou a menos é só um partido.

28 de maio de 2008

"Só sei que não vou por aí..."

Algumas das minhas opiniões, ou mesmo alguns dos meus posts têm sido transcritos e citados em sites e blogues cuja matriz política e ideológica não coincide com o meu pensamento. Respeito as opiniões de todos e por isso não me pronuncio, nem me oponho à referida transcrição ou comentários. Porém, gostaria de deixar claro que abomino os extremismos. Já o disse e repito-o aqui: qualquer posição extremada, a roçar o obsessivo, é um atavismo ideológico grave que inibe a discussão e impede o progresso. § Sim, nesse aspecto sou progressista se o progresso significar, só e apenas, uma evolução que não implique a destruição. Por isso, no espectro político português, tenho tanta consideração pelo Partido Nacional Renovador, como pelo Bloco de Esquerda, ou seja nenhuma. São partidos cujo fim último é fundação ou refundação de novos sistemas, nada trazem de novo e vivem à sombra da ocasião, de programas maniqueístas, num pêndulo que divide o mundo entre bem e mal, entre bons e maus. Sou monárquico, mas não sou nacionalista. Defendo a manutenção das fronteiras (e sim, confesso, pendo para o euroceptismo) mas cá dentro fermenta um iberismo utópico (também tenho direito a estas «inutilidades» idealistas). Sou conservador, mas não de direita - não admiro nem simpatizo com a direita tradicional portuguesa, que pende entre a beatitude histérica e o provincianismo salazarista. Menos ainda me enquadro na esquerda, mas depressa advogaria certas causas do Partido Comunista, em detrimento das posições do Partido Socialista, ou do B.E. Abomino a partidocracia (o grande mal da democracia ocidental). Não tenho posição definida quanto ao aborto - penso, contudo, que não é tanto uma questão teológica, nem feminista, mas mais uma questão de bom senso - de casos, portanto, e não de causas. Por outro lado, não hesitarei em apoiar certos aspectos da eutanásia. Tanto me faz que os homossexuais queiram casar de véu e grinalda e não vejo neste assunto interesse algum - com a velocidade que as pessoas se «casam» e «descasam» nos dias de hoje e com as constantes críticas à Igreja, acho mesmo ridículo que adultos, gente culta e civilizada, se entretenha nestas discussões estéreis e vãs (por exemplo aqui, e aqui). As uniões acontecem todos dias atrás de portas. E basta (como aliás bastava na Idade Média) o consentimento de ambos. Bem sei que há implicações jurídicas por detrás das uniões de facto, mas são essas que devem ser discutidas, contratualmente, e pouco mais - o casamento simbólico está a morrer - os mesmos que advogam o casamento homossexual assim o exigem, ainda que indirectamente. E como nota devo dizer que temo pela destruição da família nuclear ocidental, por via de uma certa formatação ideológica que BE's e movimentos afins advogam. § Aliás, o ataque à Igreja e à religião, esteio moral e cimento de valores da sociedade vai custar caro - mas infelizmente a civilização só compreenderá quando os esteios ruirem... § Sou católico, mas não sou moralista - abomino a intromissão da religião em questões sexuais com fins estritamente repressivos, ou puramente teológicos. Mudarei, talvez, de posição quando a Igreja ponderar a abolição do celibato. Para já não admito esta pequena hipocrisia. Pelo exposto, não sei bem em que lado da mesa me devo sentar. Talvez me guie um pouco pela máxima do Agostinho da Silva: «não sou do ortodoxo, nem do heterodoxo, cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total». Por isso, definitivamente, não me obriguem a escolher...

30 de março de 2008

"Não vim trazer paz, mas espada." Mt 10, 34

Se não é a Igreja é a Bíblia. Se não é a Bíblia, é Deus, e se Deus não existe, é a interrogação. E a interrogação nunca somos nós, é a metafísica. Se, por exemplo, há fome, guerras e iniquidade no Mundo, a culpa é das religiões. Se há pessoas mortas, violadas ou vítimas de injustiça, a culpa é da Bíblia, do Corão ou da Tora. E em Portugal a culpa do atraso económico, social e cultural é sempre, e sem dúvida alguma, da Igreja. Ainda agora, ao ler uma notícia no público sobre a reacção da Conferência episcopal ao fim do divórcio litigioso, voltei a constatar do atavismo ideológico ou pseudo-ideológico de alguns cidadãos portugueses. Para eles a igreja é «rica», «que não se devia imiscuir em assuntos laicos», que «prática religiosa são os templos, não são nem hospitais nem escolas nem quarteis», que a Igreja apenas serve para «lavagem de dinheiro das grandes negociatas de droga e armamento»! Quereis a verdade? Aí a tendes, nua e crua. A Igreja Católica é a fonte de todos os males. Está feito, nada mais há a dizer: descobrimos a raíz do mal, agora é só extirpar a planta. § Não fossem os milhões de pessoas que dependem da caridade, da missionação, e do dinheiro sujo em a Igreja é obrigada a meter as mãos para dar de comer e eu diria: acabem já com isso tudo, abandonem à sorte dos estados laicos a solidariedade e a protecção social, já que os estados laicos se importam assim tanto, não com o número de contribuinte, mas com o humano na sua plenitude, não é verdade? Estas pessoas que confudem laicidade com liberdade devem pensar que o mundo obedece ao asseptismo das constituições, que tudo se rege por leis a favor ou contra. Propunha-lhes um exercício: comecem por pensar o que o Homem criou fora das religiões. E depois numa lista de duas colunas pesassem o que de bom (A) e mau (B) as religiões trouxeram. Já está? Pois, a coluna A ficou vazia. Era o que se esperava, não era? Agora sim, podemos pegar em armas e matar todos os crentes do planeta. Depois passaremos às igrejas, à arte dos museus, e às criações imateriais. Destruiremos o Vaticano e os milhões de templos por todo o mundo, reduziremos a pó a Pietá de Miguel Ângelo, a Kaaba e Jerusalém. Secaremos as fontes do Ganges e arrasaremos o Potala do Tibete, rasgaremos as pautas e Bach e Mozart que exaltem Deus; trucidaremos os nomes de santos, divindades e deuses, eliminando qualquer prova de transcendência; aboliremos os rituais, todos os rituais, para que não haja memória de evocações ou de evolução não biológica. Faremos uma limpeza ideológica, cultural e selectiva para que, do nosso mundo, resulte só e apenas um homem novo, centro do universo, dimensão de todas as coisas, sem reverências, só e limpo. § Nunca mais haverá guerras, pois não haverá diferenças religiosas nem cultuais; nunca mais haverá fome, pois o novo homem terá sempre comida para dar ao seu semelhante, sem ter que iludi-lo com promessas e libações; nunca mais haverá sofrimento pois não havendo esperança com que sonhar cada dia é uma rígida certeza de vida. O passado passou e o futuro não existe. Este é o mundo perfeito, onde Deus não existe. Culparemos quem, depois?

10 de março de 2008

A política da Igreja.

(...)
Neste caso, o silêncio é pouco edificante. A Igreja não pode ser imparcial. Não deverá, como é óbvio, tomar partido por partidos. Ela tomará sempre partido por pessoas, por ideais, por causas, por valores.
Se ela não o fizesse não seria isenta. Estaria a tomar partido por quem explora, por quem agride. Quem cala consente. Poderá um cristão consentir a exploração, a injustiça?
A clareza é sempre importante. As pessoas têm o direito de saber de que lado estamos. Nós temos o dever de as não defraudar. Cristo foi sempre claro. «Que as vossas palavras sejam sim, sim, não, não» (Mt 5, 37).

«O cristão não pode ser apolítico», de Theosfera.

Não poderia ter dito melhor. Eu apenas acrescentaria «o cristão não deve ser apolítico». Se ao menos toda a Igreja assim pensasse. Se ao menos parte da igreja o executasse. Se, ao menos, alguns homens da Igreja ou soubessem. Se, pelo menos, um deles o quisesse...