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23 de março de 2012

A poesia dos momentos.


O dia em que apresentei (não gosto palavra defendi) a minha tese de doutoramento, o passado dia 21 de Março, coincidiu com a data que celebra a poesia. Nesse mesmo dia morreu Tonino Guerra, poeta e cineasta.
Numa daquelas coincidências que nos deixam a pensar, abri a minha dissertação e fechei uma etapa da minha minha com um poema seu:

Eu abandono Roma
Os camponeses abandonam a terra
As andorinhas abandonam a minha aldeia
Os fiéis abandonam as igrejas
Os moleiros abandonam os moinhos
Os montanheses abandonam os montes
A graça de Deus abandona os homens
Alguém abandona tudo
Tonino Guerra, O livro das igrejas abandonadas
Tudo quer dizer alguma coisa.

20 de dezembro de 2011

O Esplendor de Portugal.

"Margaritas ante porcos"
S. Mateus VII 6

Como nas suas fábulas compara
Esopo ou Fedro, indiferentemente,
é fraca ideia dar a um demente
uma esmeralda ou qualquer gema rara.

É como quem a porcos ou galinhas,
em lugar de bolotas ou ração,
lhes dá para comer, à refeição,
uma porção de pérolas marinhas.

Mal empregado o tempo e o feitio,
desperdiçada a cera e o pavio,
a burilar poemas a preceito,

quando se verifica que a pessoa
a quem são dedicados, com efeito,
preferiria carapau com broa!

14 de maio de 2011

Poema para os homens modernos.

Vou-me Embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira


    Vou-me embora pra Pasárgada
    Lá sou amigo do rei
    Lá tenho a mulher que eu quero
    Na cama que escolherei

    Vou-me embora pra Pasárgada
    Vou-me embora pra Pasárgada
    Aqui eu não sou feliz
    Lá a existência é uma aventura
    De tal modo inconseqüente
    Que Joana a Louca de Espanha
    Rainha e falsa demente
    Vem a ser contraparente
    Da nora que nunca tive

    

    E como farei ginástica
    Andarei de bicicleta
    Montarei em burro brabo
    Subirei no pau-de-sebo
    Tomarei banhos de mar!
    E quando estiver cansado
    Deito na beira do rio
    Mando chamar a mãe-d'água
    Pra me contar as histórias
    Que no tempo de eu menino
    Rosa vinha me contar

    Vou-me embora pra Pasárgada
    

    Em Pasárgada tem tudo
    É outra civilização
    Tem um processo seguro
    De impedir a concepção
    Tem telefone automático
    Tem alcalóide à vontade
    Tem prostitutas bonitas

    Para a gente namorar

    E quando eu estiver mais triste
    Mas triste de não ter jeito
    Quando de noite me der
    Vontade de me matar
    — Lá sou amigo do rei —
    Terei a mulher que eu quero
    Na cama que escolherei
    Vou-me embora pra Pasárgada.

21 de março de 2011

"As coisas transitórias"

IRMÃO,
nada é eterno, nada sobrevive
Recorda isto, e alegra-te.

A nossa vida
não é só a carga dos anos.
A nossa vereda
não é só o caminho interminável.
Nenhum poeta tem o dever
de cantar a antiga canção;
mas aquele que a leva
não deve chorá-la sempre ...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras doiradas.
O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu em lágrimas...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham os nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.

É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é ritmo das nossas vidas.
Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Rabindranath Tagore
(no dia mundial da Poesia, 21-3-2011)

7 de fevereiro de 2011

Eu lembro...



I remember, I remember
The house where I was born,
The little window where the sun
Came peeping in at morn;
He never came a wink too soon
Nor brought too long a day;
But now, In often wish the night
Had borne my breath away.

I remember, I remember
The roses, red and white,
The violets, and the lily-cups
Those flowers made of light!
The lilacs where the robin built,
And where my brother set
The laburnum on his birthday,
The tree is living yet!

I remember, I remember
Where I was used to swing,
And thought the air must rush as fresh
To swallows on the wing;
My spirit flew in feathers then
That is so heavy now,
And summer pools could hardly cool
The fever on my brow.

I remember, I remember
The fir trees dark and high;
I used to think their slender tops
Were close against the sky;
It was a childdish ignorance,
But now´s tis little joy
To know I´m farther off from Heaven
Than when I was a boy."

Thomas Hood (1799-1845)


27 de setembro de 2010

Quem seria este agitador social e dos corações das mulheres, este romântico tardio que fala sobre Ciúme, Perfídia, Orgias, Pobres e Morte que, em Matosinhos, entre 1903 e 1904, fez publicar um livro de poemas por 200 réis? Veio hoje parar-me às mãos e transpira mistério.

5 de maio de 2010

O caminho...

Para vir a saborear tudo
Não queiras saborear nada.
Para vir a saber tudo
Não queiras saber nada de nada.
Para vir a possuir tudo
Não queiras ter nada de nada.
Para vir a ser tudo
Não queiras ser nada em nada.

Para chegar ao que não saboreias
Tens de ir por onde não saboreias.
Para chegara ao que não sabes
Tens de ir por onde não sabes.
Para chegar a ter o que não possuis
Tens de ir por onde não possuis.
Para chegar ao que não és
Tens de ir por onde não és.

Quando reparas em algo
Deixas de te arrojar ao tudo.
Para chegar de todo ao tudo
Hás-de perder-te de todo em tudo,
E quando o vieres de todo a ter
Hás-de tê-lo sem nada querer.

Nesta desnudez encontra o
espírito o seu descanso,
porque nada cobiçando,
nada o cansa para cima
e nada o oprime para baixo
porque está no centro da sua humildade.

São João da Cruz (1542-1591)

24 de janeiro de 2010

Colaborações literárias

Não posso deixar de salientar e agradecer a habitual presença do amigo e leitor João de Castro Nunes que presenteia o Oblivário com notáveis comentários. Permita-me que, de quando a quando, vá apresentando alguns dessas interessantes observações, como esta:

RAZÃO E SENTIMENTO

Não é questão de mera ideologia
optar pela república electiva
ou pela hereditária monarquia
ou qualquer outra forma alternativa.

Cada sistema tem suas virtudes
e suas pontuais perversidades,
estando em causa mais as atitudes
que a natureza das modalidades.

À falta de argumentos concludentes
em contra ou a favor de alguma delas
deixemos de forçar as nossas mentes,

dando a palavra, acima da razão,
perante estas vertentes paralelas,
à voz sentimental do coração!

JOÃO DE CASTRO NUNES

22 de setembro de 2009

Não poucas vezes a Igreja me fez sentir assim...

Nós, os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana


Nós é que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos


Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana


Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»

Ruy Belo

(«Nós os vencidos do catolicismo» é também o título de um ensaio sobre a participação/desilusão de J. Bénard da Costa como católico opositor ao Estado Novo que vale a pena ler por todas as razões, para compreender como a Igreja é composta, e felizmente, de homens que ou estão muito atrás, ou vão já muito à frente).

9 de setembro de 2009

"Quadrilha"

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade

7 de junho de 2009

Porque há Pessoa(s) para todas as ocasiões.


Nazaré, Portugal, 1951?. Imagem retirada daqui.
(...)


Maravilhosa gente humana que vive como cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,


Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!


(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

(...)


Ode Triunfal, de Álvaro de Campos.

22 de março de 2009

Alguns dos livros que compro trazem anotações, algumas de várias mãos, transformando os alfarrábios amarelados e gastos numa preciosidade maior. As notas à margem são os olhos de cada leitor e em cada página anotada há reflexões de leitores desconhecidos, estudantes nervosos facilmente reconhecidos pelos sublinhados garridos, profundos e trémulos; investigadores espantados com pequenas descobertas; críticos entediados com romances chatos, etc. A minha marca são os 3 pontos de exclamação. E uso frequentemente o sublinhado (sempre a lápis) para marcar uma passagem que deve ser lembrada. Não gosto de livros imaculados, por abrir, ou sem marca de presença. "Livros cerrados não fazem letrados", é a máxima de um livreiro cá do Porto e a que mais se acerca à minha experiência como "bibliófilo". Quanto mais um livro acumula leituras, mais rico é. Às vezes apetece-me deixá-lo num banco de uma carruagem de comboio e imaginar que percurso fará, a partir dali, como nos versos de Pessoa... Tenho livros assinados, carimbados, com datas e notas pouco ortodoxas. Mas poucas vezes me aparecem mensagens como a que encontrei na página 84 da 3ª edição dos Poemas de Alberto Caeiro (edições Ática, 1958). Do lado esquerdo destas estrofes
"Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser."
alguém anotou, a lápis, "reli e chorei em 24/Ag/67". Que extraordinária súmula de tristeza...que coração amargurado teria escrito esta frase? De um verso de Caeiro saímos a procurar alguém que amou e sofreu. Afinal, das grandes banalidades têm saído as obras maiores.

21 de março de 2009

A tal portugalidade (em verso).

Álbum "Companhia das Índias"
Música "Morremos a rir"
(Rui reininho/Slimmy) (c) 2008
À partida
num quarto escuro sem roupa dorme a miss Velha Europa
acorda na Grande Migalha da China
sonhava ter descoberto a América ao sair da tropa
a escrava africana soprava as velas à pequenina

Venham mais mouras e celtas vândalos poetas
marquises de alumínio romenas, ciganas mas mais indianas
florbelas, cancelas abertas sem condomínio

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá subir sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
morremos a rir

Alguém sabe onde é o Quinto Império
alguém sabe onde mora o terceiro mundo
Venham mais mouras e celtas vândalos poetas
marquises de alumínio romenas, ciganas mas mais indianas
florbelas, cancelas abertas sem condomínio

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá subir sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
vamos adorar o TGV chegar
vamos aterrar sem sair do hangar

Fomos todos parir se o esperma permitir
morremos a rir

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá voar sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
morremos a rir
morremos a rir
(a letra foi retirada daqui, com algumas correcções)

1 de junho de 2008

Havemos de ir a Viana.

N.R. (c) 2008, Viana do Castelo


Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.


Pedro Homem de Melo

3 de abril de 2008

Adília, sem mais.

Há coisas
sobre
as quais
me quero
calar
porque
preciosas
de mais
precisas
de mais

Outras
porque
cruas
de mais
como
aventais

Adília Lopes, em «César a César», 2003

16 de dezembro de 2007

Há poesias que caem como mel na sopa.

Caminho do Prado, Bestança, 2007 (C) N.R.

Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Florbela Espanca

10 de dezembro de 2007

Poe e os Remédios.



Por falar em Edgar Allan Poe.
«Li-o», pela primeira vez, em 1994. Tinha 15 anos e estava na idade e no local ideal para o fazer: Lamego. A adolescência é o período gótico da alma, por excelência, em que os nossos pensamentos se arrastam entre as inevitáveis desilusões do amor (e do sentido do amor) e a incapacidade imaterial de tragarmos o mundo de uma vez só. Lamego, então como hoje, exacerbava o romantismo, acentuado pelas pedras gastas, a mata do santuário, onde me sentava a devorar os livros requisitados na biblioteca local, uma extensão patrocinada pela Gulbenkian, que ainda hoje existe tal qual a conheci há mais de 10 anos.
Comecei pelos contos, mas foi o poema «O Corvo» que me puxou para o universo demencial e terrivelmente atraente de Poe.

Relei-o hoje com a nostalgia de então:

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Copiado de Wikipédia. Em português, existe a edição que possuo, da colecção Mínima (2), da Ulmeiro (3.ª edição, 1995) ISBN: 972-706-247-4