Mostrar mensagens com a etiqueta partidos políticos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta partidos políticos. Mostrar todas as mensagens

24 de julho de 2012

Políticos, penicos e cenouras.



Farto-me de conhecer espertinhos. Como a maioria dos meus amigos anda de carro raramente convive com o vulgo e vive, portanto, numa espécie de bolha ultra-dimensional de inocência. Eu não e, para bem ou para o mal, dou todos os dias com os que furam filas, pedincham com mentiras e me tomam por lorpa. Por motivos profissionais, por outro lado, farto-me dos lugares comuns que saem proficuamente da boca de autarcas os quais, no seu pobre alfobre vocabular, vão repetindo palavras e expressões como "progresso sustentável", "viabilidade", "desenvolvimento integrado", etc etc. A maioria exibe o dr. atrás do nome, mas desconfio que grande parte deles nem sabe desdobrar a abreviatura que lhe acompanha o dito. 
O país move-se há séculos ao sabor do clientelismo e da espertice. Não é Paulo Morais (perdão, dr. Paulo Morais) que nos vem dar a notícia. Mercês, benesses e prebendas são a tal economia paralela que caracteriza a nossa História. O toma-lá-dá-cá, mais ou menos regulamentado, tem definido a nossa política e as nossas finanças. Há 300 anos a coisa ainda funcionava relativamente bem, pois os beneficiados eram, geralmente nobres e clérigos, que a ilustração e a riqueza freavam a cobiça e inibiam a inaptidão. Com o liberalismo, a situação desbancou. A ideia da igualdade, que Camilo Castelo Branco tão bem pintou no romance Agulha num palheiro, possibilitou que medíocres tomassem o poder com base na premissa de que todos têm as mesmas oportunidades e de que, se os melhores e inteligentes também podem, os patetas e os burros devem poder calçar os mesmos sapatos. As cavalgaduras descalçaram, então, as ferraduras e puseram pantufas para desfilar pelos salões dos ministérios e lugares públicos.
Até ao século XX ainda houve quem se pusessem em bicos nos pés, na estrebaria alcatifada, mas vinda a 1.ª e a 2.ª repúblicas, as fornadas de políticos de carreira ou carreiristas tomaram de assalto o país. Primeiro a fidelidade ao regime, para assegurar que não voltasse a acontecer a adesivagem em massa após o 5-X e depois a lealdade ao partido e ao marcaram a governação até aos nossos dias. Entre todos um fio condutor: a qualidade de bacharel ou doutor, que elevou muito pateta à qualidade de respeitável pateta. Ultimamente a classe política partidária tem-se desleixado. À força de fazer omoletes sem ovos, usa logo as galinhas, com penas e patas, de que o caso da licenciatura de Miguel Relvas é exemplo maior.
Relvas é um daqueles respeitáveis zés-ninguém que a política arrebata para fazer dele um estimado respeitável bacharel ou doutor. À semelhança do chefe de partido, Pedro Passos Coelho, a única coisa que sabe é onde deve chegar. E lá chegará. Pelo caminho faz de tudo. Julgando que as ferraduras não mais pisarão estrume, vai caminhando pata ante pata até tropeçar num penico - mais ou menos o que aconteceu com a fast-licenciatura deste esperto. A trupe vem defendê-lo, dizendo que é legal, embora tenha dúvidas quanto à moralidade do acto. A moralidade é como o penico virado, limpa-se o dejecto, passa-se um perfume para disfarçar o mau cheiro e está a carpete salva.
Pergunta e responde (que os tempos não são de dúvidas) um dos colegas de estrebaria: para que servem os partidos políticos: Os partidos políticos exercem uma função estruturante no processo de construção democrático. Esta capacidade de falar sem dizer é uma característica desta espécie, reminiscência da sua anterior condição de pateta. O sr. Pedro Alves (perdão dr. Pedro Alves) sabe tanto como eu, que os partidos políticos servem nos dias de hoje, para lhe pagar o ordenado, manter actualizado o prontuário de lugares comuns e gastar dinheiro a substituir penicos por sanitas, na esperança que as desastradas cavalgaduras não as derribem. Ao contrários dos ratos de biblioteca, que segundo o dr. Duarte Marques não conhecem a realidade do mundo, as cavalgaduras formadas na escola da vida são os arautos da experiência, verdadeiros salvadores da pátria, como o dr. Miguel Relvas, cuja experiência se norteou sempre pela busca do conhecimento.
No fundo Miguel Relvas é um vítima; vítima de uma cabala (expressão notavelmente bem empregue) e vítima da sua inocência - inocência tão declarada e óbvia que nunca o levou a pensar como se safaria com a manigância quando fosse ministro vigiado 24h por dia pelos media e pelos bufos. Coitado. É triste vê-lo sofrer as ferretadas da opinião pública, que adora chafurdar na parvoíce dos parvos. Felizmente que, como tudo o que faz rir, resultará em choro e o dr. Miguel poderá voltar a usar do respeitador título. E no entretanto, dá-se uns murros na mesa, para aplacar os deuses amofinados.
Que se lixem as eleições! profere, rindo, Pedro Passos Coelho. Soa estranho que passados tantos anos alguém, num inusitado momento de alucinação ache importante referir que o que interessa não é a cenoura, mas a terra que a produz e quem nela trabalha. Mas, num país onde a maioria anda de quatro, é difícil observar de longe o que se vê sempre de tão perto.

23 de maio de 2011

O DNA dos principais partidos políticos portugueses.

O "DNA" dos partidos políticos portugueses a partir da análise vocabular dos seus memorandos e programas políticos

Durante a vida política, fora e dentro do Parlamento, antes, durante e depois das eleições, há sempre um discurso muito semelhante entre os partidos: todos se culpam e ninguém tem a culpa. Nesse sentido, a classe política, da Esquerda à Direita, acaba por acoitar-se sob um manto de desresponsabilização que caracteriza a Partidocracia. Numa democracia especificamente controlada por partidos, é natural que os partidos se defendam entre si, depois os seus clientes e eleitores e só depois, no final, os cidadãos, votantes e não votantes.
Para perceber até que ponto o discurso político-partidário não só é inócuo como semelhante, elaborei uma análise vocabular dos programas e compromissos eleitoral para as eleições que se aproximam. Recorrendo a um programa informático muito simples (o Polaris word count), contei os 20 substantivos mais vezes referidos pelos 5 partidos com assento parlamentar: BE / CDU / PS / PSD e CDS-PP. O resultado foi muito interessante e revela, de certa forma, como o discurso partidário se aproxima em forma e estilo de uma ponta à outra do espectro parlamentar nacional. É esquemático, pobre em conteúdo e pouco imaginativo.

16 de março de 2011

Basta! Revolução ou renovação?

Circulam, na internet, vários textos que salientam o exemplo da Islândia como um caso de sucesso no turbilhão da crise económica. Porém, à parte de nos esclarecer sobre a redacção de uma nova Constituição ou, antes, sobre uma reescritura do documento constitucional ad fundamentis (por um grupo de cidadãos extra-partidários), os textos em causa pouco mais nos informam sobre a verdadeira situação social islandesa, rematando, contudo, que aquele país insular saiu da bancarrota pelo seu pé. Ora isto não é verdade: as contas estão por pagar, as ruínas bancárias por reedificar e o futuro não parece brilhante para os cidadãos da pequena república.
Porém, devo assinalar uma coisa que me parece sobremodo importante: a forma como os islandeses sacudiram o jugo partidário da sua governação é a pedra de toque desta renovação. Repare-se, não falo em revolução, pois não a houve, mas de uma transição pacífica de uma partidocracia, até aqui gerida por partidos de Direita e de Esquerda que deixaram a Islândia de rastos. Cansados do jogo e pressionados pela grave situação, os islandeses resolveram deixar de contribuir para o engrandecimento partidário e resolveram tomar nas mãos as rédeas da Democracia e participar no desenvolvimento nacional. Têm a seu favor o facto de serem uma ilha e de nela morarem pouco mais de 300 mil habitantes.
Conter uma crise e resolvê-la com recurso a uma administração directa neste caso, dirão, é mais fácil, e eu concordo. Mas num país como Portugal, em que tanto a Esquerda como a Direita têm, com voracidade, feitos os possíveis e os impossíveis para, sob a desculpa da ética republicana deglutir o Bem Comum sem ouvir os seus habitantes, existem muitas "ilhas" que facilmente poderiam ser geridas directamente pelos cidadãos, sem passar pelos partidos. Apenas um "senão": a nossa Constituição assenta numa perspectiva multipartidária da democracia; favorece o jogo partidocrático e transforma o cidadão num mero peão de xadrez.
É preciso mudá-la e, efectivamente, transformar a democracia num exercício de intervenção pessoal e colectiva directa. Alterar a lei eleitoral para que possam existir candidaturas individuais por círculo, limitar o número de deputados partidários e estimular a participação associativa municipal nas edilidades são alguns dos caminhos a seguir. Creio que Basta! sim, mas de partidos.

13 de março de 2011

Foi bonita a festa, pá!

 

diria Chico Buarque. E foi. Havia berimbaus e liras, touros e forcados, desfolhadas, megafones e homens da luta. O protesto era apartidário mas a propaganda estava por todo o lado. E o laico e pacífico eram expressões menores para um desfile encenado, numa espécie de palco pop-culture-retro, onde só faltaram as calças à boca de sino e a floral chita.

Estas manifestações ritualísticas de contra-poder, encenações de revolução, ainda que anacrónicas, são catárticas e, de certa forma, desinibem franjas da população para a intervenção. Eu sugiro que se aproveite a força anímica para começar a trabalhar, mas a sério. Para começar a revolução de dentro, aproveitando recursos, em vez de pedir mais; recusar superficialidades, em vez de exigir que um Estado impessoal e pesado as alimente.

Por que não reclamar um governo menos interventivo, e iniciar um processo de intervenção individual? Recusar o partidarismo, por exemplo, e dar força aos movimentos cívicos? Compreender que, quer o BE, quer o CDS-PP, quer o PS, o PSD ou a CDU pensam primeiro nos seus eleitores e só depois nos cidadãos; que Democracia não rima com Partidocracia? Ou que tal dar uso às palavras activismo e cidadania? E, finalmente, concluir que "manifestarmo-nos" todos os dias, ainda que isolados, também é uma forma de luta? Porque a grande conquista da democracia, quanto a mim, não é a voz da multidão (que se ouve bem), mas que uma só pessoa consiga fazer a diferença. Perceber isto é importante. E abdicar de certos luxos também.

Estas manifestações estavam repletas de gadgets da última geração: foram fotografadas, filmadas e comentadas em telemóveis, laptops e ipads. A geração à rasca é também a geração dos telemóveis de última geração. Os protestos foram combinados e geridos a partir do facebook, mas "curiosamente", ainda há quem não saiba o que é um teclado, não tenha dinheiro para googlar, ou não possua a distante e cosmopolita e complexa consciência cultural desta juventude burguesa que vai desfilar, em roupa de marca, na avenida da Liberdade em Lisboa.

Dizem que foram cerca de 300 mil pessoas em todo o país. É significativo. Ainda assim o número de desempregados ultrapassa o número dos 500 mil. E pobres, serão 2 milhões. E esta gente, pá? (*)

(*) Esta "gente" vive à rasca há dezenas de anos, no interior, nas cidades, sem ou com pouquíssimos recursos e, se calhar (e felizmente), sem a superficialidade da juventude licenciada que reclama por um emprego - não um emprego qualquer, mas um emprego à altura. § Por outro lado extrapolações e comparações feitas a partir destas manifestações são, no mínimo ridículas. Em 1975 (até em 1985, vá!), fazia sentido o protesto, hoje não faz. E muita gente que o comparou ao 25-4, esquece-se de algo muito importante: a Revolução dos Cravos aconteceu porque uma classe o desejou. Não foi o povo de megafone que derrubou o regime. Foi um militar, politizado, que de megafone em punho exigiu a sua queda. Hoje, não existem militares interessados nessa mudança, e o tal "povo", despolitizado, que durante 30 anos bocejou e engordou quanto passou o poder, de mão beijada, para a mão dos os políticos devia saber que é muito difícil contestar o usucapião...

13 de janeiro de 2011

Viva a república, abaixo a república!

Nunca, em Portugal, se falou tanto em república. Pelo menos desde Outubro de 1910. Fala-se no regime, porque o regime paga. É justo. A propaganda ideológica refinou-se ao longo do século XIX, definiu a ascensão dos grandes e mortíferos regimes do século XX e é usada no século XXI para distrair dos problemas económicos e sociais. Enquanto se alimenta o mito do regime igualitário e fraterno, mina-se a liberdade amordaçada entre acrisia e conformismo. Salazar e António Ferro sabiam-no bem e, nesse aspecto, as comemorações do Centenário da República são herdeiras directas dos grandes festejos de 1940 sobre a Nação e o novo regime.

Muito antes de Cromwell e da Revolução Francesa, muito antes do marxismo modelar a ideia de república como o melhor de todos os regimes, já república constituía a designação para a coisa pública. Não a coisa do povo, - essa entidade abstracta onde todos se incluem e onde ninguém deseja incluir-se-, mas a gestão do lugar público. Nas praças e nos caminhos, onde sempre se decidiram os desígnios comunais, fazia-se um tipo de política. Com a Revolução e o Liberalismo a política passou a fazer-se em casas parlamentares e as eleições que dantes se realizavam inter pares, hoje fazem-se intra grupos. A política deixou de ser para todos. Estava porém aberto o caminho para que a ideia de república se transformasse no ideal que é hoje: o de um suposto absoluto nivelamento e igualdade entre cidadãos (mas apenas entre os que fazem política).

O republicanismo português, que se aproveitou da ignorância e do analfabetismo grassante em 1910, construiu-se sobre a noção de que qualquer pessoa podia tornar-se chefe de estado, contrariando a ideia de que aquele lugar pertencia a uma família de privilegiados. Nunca conseguiu explicar, contudo, que  mudavam os privilegiados e não os privilégios.

6 de setembro de 2010

Nacionalistas ou Oportunistas?




O líder do PNR (Partido Nacional Renovador), José Pinto Coelho, vai candidatar-se ao lugar de Presidente da República, não obstante declarar-se monárquico (segundo o mesmo esta convicção é «um assunto de segundo plano»). Não conheço muito do percurso de vida deste indivíduo, embora me tenha bastado esta entrevista para ficar com uma ideia bastante precisa do que é que o senhor quer e para onde vai. § Qualquer um pode ser monárquico. Deve sê-lo com uma ideia essencial de que o sistema em que acredita não é o melhor de todos, mas uma alternativa séria, fundamentada e, sobretudo inclusiva, em relação a todas as outras. Tenho observado como os Movimentos Nacionalistas se vão colando à ideia de Causa Monárquica, subrepticiamente tomando para si a herança do Integralismo Lusitano e tentando aproveitar a boleia do movimento emergente neo-monarquista que não tinha tanta força desde as incursões Paiva Couceiro. Entendo e aceito porque vivemos em liberdade e contra a expressão e a crença não acredito nem subscrevo amarras e censuras. Mas não concordo. Não posso concordar nem apoiar que se tente passar a imagem de um Partido Nacionalista sem xenofobia, sem teses rácicas e sem desejos opressores. Aliás, vi o chefe da Casa Real numa manifestação pró-família quase ladeado por manifestantes do PNR e não gostei. Acredito numa monarquia constitucional, em que o chefe de estado não está manietado por ideologias, grupos, ou pressões. lobistas É por isso que sou monárquico e não republicano. E como acredito num sistema de cidadania activa não-partidária, tenho todo o direito para invocar esta minha crença para não subscrever os partidos enquanto redes formais e informais de influências individuais e colectivas, seja ele o BE ou o PNR. De resto, já aqui fiz a comparação entre ambos. Houve quem discordasse, mas é difícil rebater uma coisa: os extremos tocam-se. Tocam-se na mesma atitude agressiva ante o Outro, no mesmo discurso inóquo sobre grupelhos e intocáveis e na forma de estar perante a sociedade em geral, seja em defesa das baleias, dos homossexuais ou dos brancos arianos.

23 de julho de 2010

A avaliar pelo ódio disfarçado e pelo nervosismo que as palavras certeiras de D. Carlos Moreira de Azevedo causaram entre políticos e bloguers, a mensagem foi certa e justa. Muitos engoliram em seco, outros vieram com a proverbial conversa do costume: a Igreja é rica e poderosa, vive rodeada de luxos, etc. Para lhes explicar os tais luxos tínhamos que estar ao mesmo nível de conhecimento - o suficiente pelo menos para discutirmos História de Arte e Teologia. E como me cansa parecer apologético, sem o ser efectivamente, a tentar mudar as consciências, não pelo fanatismo, mas pela razoabilidade, direi apenas que muito me aprouveram as palavras de D. Carlos Moreira de Azevedo que não são uma mensagem "não olhes para o faço, ouve apenas o que eu digo", mas uma mensagem clara à classe política, ostensivamente falsa, ostensivamente hipócrita e ostensivamente esbanjadora em palavras e dinheiro. Esta lógica partidária revolve-se na autofagia do costume: acima dos cidadãos está o partido e abaixo deste pouco interessa. Porque havemos, pois, pagar uma crise provocada pelo topo? Por que razão hão de as bases suster para sempre a incompetência dos maus líderes? Apelar, como fez D. Carlos, à manifestação é pouco. Há demasiado dinheiro a entorpecer as vozes deste povo, infelizmente. Demasiados "subsídio-votos". Enquanto a partidocracia governar em nome da democracia, nada feito.

6 de junho de 2009

Vamos todos votar. Todos os dias.

Imagem picada daqui.


Ultimamente alguns amigos e conhecidos aproveitam para me lembrar a necessidade de votar no próximo domingo. Não sei a que se deve esta necessidade eleitoralista súbita, se ao mau desempenho no actual governo, se a uma necessidade emergente de tomar consciência dos seus direitos como cidadãos. Bom, se a minha condição de cidadão se reduzir ao direito do voto, então não sou nada. Nunca poderei ser nada, como disse Fernando Pessoa. E mesmo que, eventualmente, tenha em mim todos os sonhos do mundo, o facto de ir votar não mudará o mundo. Não mudará o meu mundo, não mudará o mundo dos outros. Possivelmente mudará o mundo dos candidatos. Uns mudar-se-ão para Bruxelas, outros redecorarão a sua casa e o mundo pula e avança, com votos a menos ou a mais. § Um amigo disse-me: «é preciso é que as pessoas participem, o que me assusta é a passividade». E eu respondi que o voto é a passividade. Ir votar, voltar para casa, sentar-se no sofá e esperar que meia dúzia de políticos faça o trabalho que cada um de nós deve fazer é uma das maiores inutilidades dos tempos modernos. Vejamos o que a História nos diz: quando não havia democracia, ou quando a havia mas esta era limitada, homens e mulheres houve que do meio da massa anónima gritaram. Ousaram. Quiseram. E deixaram a sua marca de liberdade. Esse é o melhor voto, o participar exigindo, querendo, fazendo. Por isso, no próximo domingo muito embora vá votar, o meu voto será nulo. Porque a minha democracia se faz no dia a dia e não segundo um calendário eleitoral.

6 de abril de 2009

Há lugar para mais partidos políticos em Portugal?



A pergunta é pertinente se pensarmos que o binómio PS/PPD-PSD está esgotado. O sistema não é igual ao rotativismo dos últimos anos da monarquia constitucional, mas tem o mesmo efeito de desgaste. Já me questionei se uma recente multiplicação de partidos ajudará a mudar este panorama. É provável que não. A força tentacular instituída por 30 anos de repartição de poder dificilmente poderá ser esvaziada. Mas pode enfrentar-se. § Por conseguinte também não acredito da extremização ideológica. É perigoso que a balança penda demasiado para cada um dos lados, quer para uma direita tradicionalista e demasiado presa à Igreja, quer para uma esquerda trauliteira e de modas, como a que o BE quer trazer para a sociedade portuguesa. Infelizmente o Centro não me convence, sobretudo porque Tony Blair e a sua ideia de uma via para a frente, me faz lembrar o triste consulado Bush e a sua ideia imperialista para um mundo conflituoso. Não há um único partido, em Portugal, pelo qual pudesse militar, mas não posso deixar de sentir cada vez mais respeito pelo Partido Comunista. Estranho, para um monárquico? Não me parece. A ideia de uma sociedade onde as classes se diluam combina perfeitamente com a ideia de uma monarquia ao serviço da verdadeira res publica - a coisa pública. O problema das sociedade não é o chefe de estado, mas a forma como se organizam na pirâmide sobre a qual ele eleva. Talvez me aproxime, segundo este pensamento, ao Integralismo Lusitano, que procurava uma monarquia orgânica, sem preocupação pela existência de uma aristocracia (que quanto a mim pode bem dispensar-se) ou uma plutocracia. Apenas o rei, pai, titular, símbolo. Bom, mas não obstante julgar que a democracia deve premiar o mérito e não os partidos, que estes constituem, cada vez mais, grupelhos de redes de clientelismo e influência, degraus para a consagração de medíocres ou para a ocultação de crimes (caso Freeport?), não posso deixar de saudar o aparecimento do Movimento Esperança Portugal encabeçado pela Laurinda Alves, jornalista cujo trabalho, escrita e ideais prezo muito. Entre os vários pontos e tópicos do manifesto político do MEP (que pode ser consultado aqui) salientaria este (Ponto V): «a afirmação da subsidiariedade como base da governação da sociedade; das organizações da sociedade civil como actores principais; do reforço do poder e da responsabilidade do cidadão; da transparência dos processos e das decisões políticas; da cultura de participação e discussão política em todas as idades; da dignificação da política.» Este novo «partido» ou movimento, situa-se ideologicamente ao centro, resguardando valores cristãos. Não sei se singrará para cumprir o seu manifesto, mas desejo aos seus promotores e, sobretudo, à Laurinda Alves, o maior sucesso pela simples coragem de, num país de hábitos e «cunhas», lançar-se num projecto tão audacioso.

1 de novembro de 2008

A minha terra é melhor do que a da minha vizinha (I).




As Câmaras Municipais são, como todos nós sabemos, pequenos universos onde astros gravitam em redor de micro-poderes, servindo como placa giratória de todo o tipo de favores e clientelismos. Eu sou já muito complacente com estas coisas de tanto me encherem a cabeça com expressões como "tens que fazer o jogo", "estamos em Portugal", a "cunha é património nacional", "já não há remédio", etc, etc. Contudo, a jogar por jogar, ao menos joguemos a capital e não a feijões. § Está certo que o uso da "cunha" para aceder a um lugar numa Câmara municipal significa menos um desempregado, o que é bom e cumpre o requisito dos 150000 mil novos empregos prometidos pelo nosso Sócrates. Mas cada apaniguado destes devia receber um manual de instruções à entrada do seu novo gabinete que, para além do itinerário mais rápido para o café mais próximo, incluiria esta regra: delegue. Isso mesmo, delegar - devia ser o 1º mandamento do funcionário público. Porque - está visto - quem faz a carreira pela via da "cunha", deve perceber muito pouco do ofício. Muito de relações interpessoais, com certeza - mas pouquíssimo ou praticamente nada de tudo o resto. § Delegar é importante para todos. Primeiro confere ao apaniguado a impressão de pertencer a um estatuto superior, - apenas destinado aos que mandam - e depois porque serve para que os trabalhos sejam distribuídos por indivíduos mais competentes mas que nunca chegaram a lugares de chefia por serem completos falhados nas ditas relações interpessoais ou na aplicação dos pressupostos metodológicos da cunha. E é aqui que entra o tal "capital" a que me referia atrás. Não se trata de dinheiro, mas tão-só de imaginação. O nosso funcionalismo público é cinzentão, mortiço, rabugento e indolente, naturalmente derivado da pouca vontade em empreender, em querer mais do que a rotina do pica-o-ponto. Falta-lhe em imaginação o que lhe sobra em estratégias de promoção pessoal ou política. Mircea Elíade refere que "ter imaginação - tanto para um indivíduo, como para um povo - é gozar de uma riqueza interior, de um fluxo ininterrupto e espontâneo de imagens" (ELIADE, Mircea, Imagens e Símbolos. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 16) - num mundo em que fluxo tende a secar (em Portugal já quase não existe) o capital de pensamento e de acções vai definhando e, consequentemente, arrastando consigo os indivíduos para crises (como a que atravessamos agora). Se os indivíduos medíocres que abundam nos recursos humanos nas nossas câmaras e dos gabinetes de Lisboa ao menos delegassem, talvez se salvasse a honra do convento. Mas andamos a atirar fora a água do banho junto com o bebé. § Dou-vos como exemplo o vídeo acima. É um daqueles panegíricos nos quais os municípios investem, não tanto para promoção turística do concelho, mas para glorificação dos partidos e dos homens, onde o discurso alterna entre as tradições, o folclore e os monumentos. Este monólogo é tão pobre, tão fraco e pouco imaginativo que bem pode ser uma prova da decadência da Civilização tal qual a conhecemos.

12 de junho de 2008

A excessiva partidarização da democracia e o silêncio da verdade: ideias, não ideologias.

Já há algum tempo atrás que, em conversa com amigos, tem surgido a discussão sobre a necessidade de outro partido em Portugal. De todas as vezes tenho insistido no meu ponto de vista: a democracia, tal como está, repleta de clivagens ideológicas e em alguns casos à beira do abismo, pode ser salva pela entrega do poder ao povo. É óbvio que não digo isto numa perspectiva marxista. Digo-o com a necessidade de transferir a dominante cartelização em que se transformou o sistema democrático através dos partidos políticos, para o indivíduo comum. Talvez no caso de Portugal não estejamos suficientemente maduros para aceitar tal conversão. Mas de certeza que, se deixássemos este rotativismo miserável que traz este país no fio da navalha numa pluralidade consensual de opiniões, e de intervenção directa do cidadão - uma meritocracia em vez de uma mediocracia política - talvez o desinteresse da juventude nestas matérias não espantasse o Sr. Silva, filho do gasolineiro que nas horas livres come bolo-rei e diz disparates. Eu queria ver a coragem de um país que na sua assembleia de cidadãos efectivamente os ouvisse e deliberasse, não com base em orientações partidárias, mas em valores individuais e (ou) colectivos que exteriorizassem não ideologias, mas ideias. Deixo aos politólogos e a todos os teóricos da internet (a maioria dos blogues que eu leio todos os dias poderia dar uma ajuda) na concepção de uma sistema que admitisse esta distribuição do poder político unipessoal em detrimento do partidarismo obsoleto e condicionador. Eu, pela minha parte, gostava de poder lançar o desafio a quem pensa em agrupar-se para trabalhar por um país melhor: agrupem-se, sim, para pensarem por si e não pela cartilha de grupos ideológicos ou partidários. Se for para poder reconstruir este sistema de lóbis e cartéis, contem comigo. Caso contrário, um partido a mais ou a menos é só um partido.