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24 de julho de 2012

Políticos, penicos e cenouras.



Farto-me de conhecer espertinhos. Como a maioria dos meus amigos anda de carro raramente convive com o vulgo e vive, portanto, numa espécie de bolha ultra-dimensional de inocência. Eu não e, para bem ou para o mal, dou todos os dias com os que furam filas, pedincham com mentiras e me tomam por lorpa. Por motivos profissionais, por outro lado, farto-me dos lugares comuns que saem proficuamente da boca de autarcas os quais, no seu pobre alfobre vocabular, vão repetindo palavras e expressões como "progresso sustentável", "viabilidade", "desenvolvimento integrado", etc etc. A maioria exibe o dr. atrás do nome, mas desconfio que grande parte deles nem sabe desdobrar a abreviatura que lhe acompanha o dito. 
O país move-se há séculos ao sabor do clientelismo e da espertice. Não é Paulo Morais (perdão, dr. Paulo Morais) que nos vem dar a notícia. Mercês, benesses e prebendas são a tal economia paralela que caracteriza a nossa História. O toma-lá-dá-cá, mais ou menos regulamentado, tem definido a nossa política e as nossas finanças. Há 300 anos a coisa ainda funcionava relativamente bem, pois os beneficiados eram, geralmente nobres e clérigos, que a ilustração e a riqueza freavam a cobiça e inibiam a inaptidão. Com o liberalismo, a situação desbancou. A ideia da igualdade, que Camilo Castelo Branco tão bem pintou no romance Agulha num palheiro, possibilitou que medíocres tomassem o poder com base na premissa de que todos têm as mesmas oportunidades e de que, se os melhores e inteligentes também podem, os patetas e os burros devem poder calçar os mesmos sapatos. As cavalgaduras descalçaram, então, as ferraduras e puseram pantufas para desfilar pelos salões dos ministérios e lugares públicos.
Até ao século XX ainda houve quem se pusessem em bicos nos pés, na estrebaria alcatifada, mas vinda a 1.ª e a 2.ª repúblicas, as fornadas de políticos de carreira ou carreiristas tomaram de assalto o país. Primeiro a fidelidade ao regime, para assegurar que não voltasse a acontecer a adesivagem em massa após o 5-X e depois a lealdade ao partido e ao marcaram a governação até aos nossos dias. Entre todos um fio condutor: a qualidade de bacharel ou doutor, que elevou muito pateta à qualidade de respeitável pateta. Ultimamente a classe política partidária tem-se desleixado. À força de fazer omoletes sem ovos, usa logo as galinhas, com penas e patas, de que o caso da licenciatura de Miguel Relvas é exemplo maior.
Relvas é um daqueles respeitáveis zés-ninguém que a política arrebata para fazer dele um estimado respeitável bacharel ou doutor. À semelhança do chefe de partido, Pedro Passos Coelho, a única coisa que sabe é onde deve chegar. E lá chegará. Pelo caminho faz de tudo. Julgando que as ferraduras não mais pisarão estrume, vai caminhando pata ante pata até tropeçar num penico - mais ou menos o que aconteceu com a fast-licenciatura deste esperto. A trupe vem defendê-lo, dizendo que é legal, embora tenha dúvidas quanto à moralidade do acto. A moralidade é como o penico virado, limpa-se o dejecto, passa-se um perfume para disfarçar o mau cheiro e está a carpete salva.
Pergunta e responde (que os tempos não são de dúvidas) um dos colegas de estrebaria: para que servem os partidos políticos: Os partidos políticos exercem uma função estruturante no processo de construção democrático. Esta capacidade de falar sem dizer é uma característica desta espécie, reminiscência da sua anterior condição de pateta. O sr. Pedro Alves (perdão dr. Pedro Alves) sabe tanto como eu, que os partidos políticos servem nos dias de hoje, para lhe pagar o ordenado, manter actualizado o prontuário de lugares comuns e gastar dinheiro a substituir penicos por sanitas, na esperança que as desastradas cavalgaduras não as derribem. Ao contrários dos ratos de biblioteca, que segundo o dr. Duarte Marques não conhecem a realidade do mundo, as cavalgaduras formadas na escola da vida são os arautos da experiência, verdadeiros salvadores da pátria, como o dr. Miguel Relvas, cuja experiência se norteou sempre pela busca do conhecimento.
No fundo Miguel Relvas é um vítima; vítima de uma cabala (expressão notavelmente bem empregue) e vítima da sua inocência - inocência tão declarada e óbvia que nunca o levou a pensar como se safaria com a manigância quando fosse ministro vigiado 24h por dia pelos media e pelos bufos. Coitado. É triste vê-lo sofrer as ferretadas da opinião pública, que adora chafurdar na parvoíce dos parvos. Felizmente que, como tudo o que faz rir, resultará em choro e o dr. Miguel poderá voltar a usar do respeitador título. E no entretanto, dá-se uns murros na mesa, para aplacar os deuses amofinados.
Que se lixem as eleições! profere, rindo, Pedro Passos Coelho. Soa estranho que passados tantos anos alguém, num inusitado momento de alucinação ache importante referir que o que interessa não é a cenoura, mas a terra que a produz e quem nela trabalha. Mas, num país onde a maioria anda de quatro, é difícil observar de longe o que se vê sempre de tão perto.

14 de maio de 2012

Breve história do clientelismo português.

O problema não está em observar a predominância destas práticas na sociedade portuguesa do século XVIII e XIX, mas sim em perceber por que é que elas mudaram tão pouco, mesmo com o aparecimento de burocracias modernas e com o fim do antigo regime. Antes da existência de uma burocracia moderna, supostamente alicerçada no mérito, na carreira, nos títulos escolares e académicos e na competência profissional, era natural este mecanismo de troca de favores, entre todos os que acediam ao poder, que intercediam por si e pelos debaixo de si. Mas é impossível deixar de encontrar um espelho dos costumes pátrios que continua a existir, agora sem serem postos no papel e de forma mais sofisticada, mais cara e... ilegal.
 José Pacheco Pereira, Abrupto e Público.

23 de maio de 2011

O DNA dos principais partidos políticos portugueses.

O "DNA" dos partidos políticos portugueses a partir da análise vocabular dos seus memorandos e programas políticos

Durante a vida política, fora e dentro do Parlamento, antes, durante e depois das eleições, há sempre um discurso muito semelhante entre os partidos: todos se culpam e ninguém tem a culpa. Nesse sentido, a classe política, da Esquerda à Direita, acaba por acoitar-se sob um manto de desresponsabilização que caracteriza a Partidocracia. Numa democracia especificamente controlada por partidos, é natural que os partidos se defendam entre si, depois os seus clientes e eleitores e só depois, no final, os cidadãos, votantes e não votantes.
Para perceber até que ponto o discurso político-partidário não só é inócuo como semelhante, elaborei uma análise vocabular dos programas e compromissos eleitoral para as eleições que se aproximam. Recorrendo a um programa informático muito simples (o Polaris word count), contei os 20 substantivos mais vezes referidos pelos 5 partidos com assento parlamentar: BE / CDU / PS / PSD e CDS-PP. O resultado foi muito interessante e revela, de certa forma, como o discurso partidário se aproxima em forma e estilo de uma ponta à outra do espectro parlamentar nacional. É esquemático, pobre em conteúdo e pouco imaginativo.

13 de janeiro de 2011

Viva a república, abaixo a república!

Nunca, em Portugal, se falou tanto em república. Pelo menos desde Outubro de 1910. Fala-se no regime, porque o regime paga. É justo. A propaganda ideológica refinou-se ao longo do século XIX, definiu a ascensão dos grandes e mortíferos regimes do século XX e é usada no século XXI para distrair dos problemas económicos e sociais. Enquanto se alimenta o mito do regime igualitário e fraterno, mina-se a liberdade amordaçada entre acrisia e conformismo. Salazar e António Ferro sabiam-no bem e, nesse aspecto, as comemorações do Centenário da República são herdeiras directas dos grandes festejos de 1940 sobre a Nação e o novo regime.

Muito antes de Cromwell e da Revolução Francesa, muito antes do marxismo modelar a ideia de república como o melhor de todos os regimes, já república constituía a designação para a coisa pública. Não a coisa do povo, - essa entidade abstracta onde todos se incluem e onde ninguém deseja incluir-se-, mas a gestão do lugar público. Nas praças e nos caminhos, onde sempre se decidiram os desígnios comunais, fazia-se um tipo de política. Com a Revolução e o Liberalismo a política passou a fazer-se em casas parlamentares e as eleições que dantes se realizavam inter pares, hoje fazem-se intra grupos. A política deixou de ser para todos. Estava porém aberto o caminho para que a ideia de república se transformasse no ideal que é hoje: o de um suposto absoluto nivelamento e igualdade entre cidadãos (mas apenas entre os que fazem política).

O republicanismo português, que se aproveitou da ignorância e do analfabetismo grassante em 1910, construiu-se sobre a noção de que qualquer pessoa podia tornar-se chefe de estado, contrariando a ideia de que aquele lugar pertencia a uma família de privilegiados. Nunca conseguiu explicar, contudo, que  mudavam os privilegiados e não os privilégios.