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8 de abril de 2017

O sarro salazarista.


O sarro salazarista é muito difícil de tirar. Nem com a pedra pomes democrática se raspa do corpo cansado desta república portuguesa.
Se não veja-se o recente concurso das 7 Maravilhas de Portugal - Aldeias. A filosofia subjacente à escolha é semelhante ao Concurso de 1938, organizado pelo então recém criado SNI - Secretariado Nacional de Informação, obra de António Ferro para dar expressão à política do espírito acalentada por Salazar. Aí se procurava o pitoresco, o etnográfico, o popular. Hoje, os mesmos recortes, só que com mais plástico, alumínio e festas desbragadas.
Até o conceito Aldeias de Portugal promove o típico e o fachadístico e pasme-se (ou não), até o logótipo do projecto lembra a iconografia de 1938, exibida na portada do folheto em cima.
Esta coisa das aldeias bonitas, very tipical, não só é uma forma deprimente de interpretar a ideia fadística da Casa Portuguesa, pobre, humilde e honrada, como escamoteia o facto de que as aldeias são as suas pessoas. Ora, sem pessoas não há vida. Apenas paredes caiadas e de vez em quando nem um cheirinho a alecrim.
Por muitos banhos que esta gente tome, - esta, das Câmaras Municipais, das Comissões de Coordenação e dos próprios governos - dificilmente consegue tirar aquele sarro salazarista.

19 de dezembro de 2011

O estradismo: uma crónica sobre as últimas três décadas de asfalto.

Com o estradismo veio o lixismo: 
aspecto de uma lixeira ilegal junto a uma estrada municipal em Cinfães.

Nos últimos 30 anos (e mesmo durante a longa noite do Estado Novo) os senhores governantes do concelho de onde sou natural debitaram um extenso relambório eleitoralista cujo tópico principal era a estrada. Segundo eles, eram necessárias estradas. Estradas em todos os sentidos, a ligar todos os pontos: A a B, B a C, BB a CC, etc etc. Com a chegada dos fundos comunitários construiu-se, então, um número ilimitado de estradas, estradinhas e estradões para todo o lado, mesmo antes de existir uma rede de saneamento, da própria electricidade e de água potável para todos. Onde havia uma casa, podia o seu proprietário contar com uma estrada à porta, apesar de não ter esgotos nem água canalizada. Entre asfalto e paralelepípedos de granito, o investimento em vias suplantou o da educação, da cultura e do apoio ao comércio e à indústria locais. A grande justificação era a de que as estradas trariam progresso, aproximavam pessoas, tornavam as distâncias longas em percurso reduzidos e, portanto, geravam progresso. Tempo é dinheiro e, como tal, as estradas iriam supostamente constituir autênticas caixas multibanco do interior. Ao mesmo tempo que as câmaras municipais e os seus feudos distribuíam empreitadas a construtores "da sua confiança", o Estado central gizava auto estradas para transformar Portugal num reticulado de asfalto e cimento. Foi o “estradismo”.
Hoje Portugal está à beira do colapso económico, o município onde nasci entre os três mais pobres a nível nacional e as estradas quase sem carros. É que, entre autarcas corruptíveis, empreiteiros sem escrúpulos e banqueiros ávidos que durante anos alimentaram o consumo desenfreado, o resultado está à vista e é catastrófico: há quem não possa pagar os carros que comprou, a especulação dos preços do combustível inibe as deslocações e, quer o Estado, quer as Câmaras Municipais investiram em demasiadas vias que agora poderão manter nem sequer assegurar a conclusão de alguns projectos. Este investimento criminoso em vias de comunicação sob o pretexto de um progresso fácil (como se as estradas apenas trouxessem as pessoas e não as levassem, também...) transformou um país num cemitério de projectos inacabados e desfasados da realidade. Lembro-me que durante os anos 90 se calcetaram quase todos os caminhos das aldeias da minha freguesia, mesmo que dentro de algumas casas não houvesse condições sanitárias. E muito proprietários, os mais sabidolas – da velha cepa do chico-espertismo português – aproveitaram os dinheiros públicos para calcetar os seus pátios e garagens. Em certas casas o asfalto ou o empedrado chega à soleira da porta. Casas vazias todo o ano, em aldeias desertificadas.
Numa entrevista recente, Gonçalo Ribeiro Telles, o homem que há anos alerta para destruição social, cultural e urbanística do nosso país disse «Temos auto-estradas, mas não temos caminhos locais de relação com a vida local. Vê-se a vida passar na auto-estrada, mas não se sente. Desprezamos as aldeias porque não fazem parte desse modelo. O próprio povoamento do país não faz parte desse modelo e portanto não há que tratar sequer da sua dignidade como pessoas.». E acrescenta: talvez os governantes queiram destruir o país (GRT, ao jornal i, de 17-12-2011).
A descrição pode aplicar-se a qualquer município do interior do país, ao interior em geral onde, durante os últimos 30 anos se gastou dinheiro em estradas, rotundas e chafarizes e hoje, mais do que nunca, se sente o peso da desertificação, da deterioração do ambiente e, pior do que tudo, da fome.
Já não peço a criminalização daqueles autarcas e políticos que nos conduziram a este estado. A esses, se a consciência lhes não pesar, irão com certeza provar do próprio fado que traçaram para os seus munícipes e eleitores. Mas espero que esta crise ajude os portugueses a tornarem-se, de uma vez por todas, cidadãos de pleno direito, intervindo e tomando nas suas mãos o controlo que os políticos de carreira lhes têm vindo a tirar.
Durante muitos anos tenho ouvido pessoas mais velhas dizer com saudosismo saloio que Salazar os salvou da fome. Pois os políticos que lhe sucederam, não só os trouxeram à fome, como parece os lançarão numa guerra económica difícil de travar. A lição devia ter sido aprendida à primeira. Não foi. Esperemos que não seja tarde de mais.

Publicado em Aventar (http://aventar.eu/)

4 de março de 2011

A sangria das estradas: a propósito de Entre-os-rios.

Via José Manuel Fernandes/facebook (c) Público


Acabo de ouvir, na rádio, um destes políticos do interior, oficial camarário com mentalidade paroquial, a falar do desenvolvimento da terra, hoje lembrada pela tragédia de há 10 anos em Entre-os-rios. Segundo ele faltam ainda as acessibilidades - sempre as acessibilidades, só as acessibilidades. Que se demora mais de uma hora a chegar ao Porto, a apenas 50 quilómetros de distância. Quem for entrevistar os políticos vizinhos, a Cinfães ou Resende, Marco de Canaveses ou Baião, ouvirá o mesmo, que faltam acessos, estradas, acessibilidade. A conversa é tão monótona como a bagagem cultural desta gente.
O cúmulo desta estupidez plasmou-se no ordenamento pós-Entre-os-rios: onde existia uma ponte que caiu devido à incúria dos organismos públicos, construíram-se 2! como uma espécie de lenitivo pela desgraça...
Falemos a sério: desde os anos 80 que o país se cobre de asfalto. Já temos 3 autoestradas paralelas, de norte a sul do país. Falta axadrezar o interior com vias rápidas, é certo. E depois? quando todo o país estiver coberto de vias? Estaremos melhor? É que, para já, a coisa piora de dia para dia, não obstante o investimento em estruturas viárias.
Estes mandantes com sotaque, pequenos régulos do caciquismo municipal, acham que o desenvolvimento maior do rincão que governam é ter rotundas com chafarizes, estradinhas e caminhos municipais ora asfaltados, ora empedrados e muitos sinais de trânsito. Entretanto, por aqueles caminho e por aquelas estradas, as pessoas continuar a migrar. O país sangra o país através das suas estradas. E ninguém vê isto?

11 de outubro de 2009

Já não há presidentes como Calisto...

Em suma, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de empecer a
roda do progresso, com tanto que ele não lhe entrasse em casa, nem o
quisesse levar consigo.

Prova cabal de sua tolerância foi ele aceitar em 1840 a presidência
municipal de Miranda. Na primeira sessão camarária falou de feitio e
jeito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do século XV
levantado do seu jazigo da catedral. Queria ele que se restaurassem as
leis do foral dado a Miranda pelo monarca fundador. Este requerimento
gelou de espanto os vereadores; destes, os que puderam degelar-se,
riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a
humanidade havia já caminhado sete séculos depois que Miranda tivera
foral.

-Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os
homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as
mesmas.

-Mas... retorquiu a oposição ilustrada, o regime municipal expirou
em 1211, sr. presidente! V. ex.a não ignora que há hoje um código de
leis comuns de todo o território português, e que desde Afonso II se
estatuiram leis gerais. V. ex.a de certo leu isto...

-Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo!

-Pois seria útil e racional que v. ex.a aprovasse.

-Útil a quem? perguntou o presidente.

-Ao município, responderam.

-Aprovem os srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu
despeço-me disto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e
governo, segundo os forais da antiga honra portuguesa.

Disse, saiu, e nunca mais voltou à câmara.

Camilo Castelo Branco, A queda de um anjo, 1866

9 de setembro de 2009

O povo é sereno...




...e pouco ambicioso.
Numa altura em que se fala de caciquismo nas Câmaras Municipais, as quais são efectivamente e cada mais, pólos de concentração de poder ilimitado, esta lápide é o epítome de uma gestão municipal que pouco mudou desde o Estado Novo (embora o modelo seja anterior). Os caminhos rurais, os fontanários e lavadouros, representam o microcosmos das populações dos municípios rurais que aspiram a pouco mais do que um sítio público para lavar e, hoje, um empedrado ou um estradão de terra batida por onde possam levar o seu carro até à porta de casa. Tudo o resto é dispensável. Excepto o folclore, claro.