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27 de abril de 2011

Sorry, old republican chaps!



Pode ser um exagero, pode ser uma lamechice, pode ser excessivo em tempos de crise. Mas a euforia não se esconde, só os mais tristes não gostam de uma história de amor e dinheiro gera dinheiro. Lamento muito pelos republicanos que nos dias que correm espumam mais raiva do que o habitual mas, caros amigos, a cerimónia vais ser transmitida a biliões de pessoas, milhões vão estar presentes e, provavelmente a maior parte do mundo (que é feminina) queria estar no lugar da Kate. É certo que segundo as últimas sondagens 10 por cento dos britânicos queria ter uma república, mas acho melhor não passarem pelo vexame republicano da Austrália que viu negado os seus "democráticos" intentos pelo referendo de 2005. E certo é também que nestes dias aumentam os clamores moralistas sobre os gastos daquela gente que vive o conto de fadas. Porém, no país de Oscar Wilde, toda a publicidade, mesmo a má, é boa. Sugiro aos que nunca sonharam que no próximo dia 29 desliguem a televisão, a rádio e que nos dias a seguir não leiam jornais. Vai ser doloroso.

26 de setembro de 2010

Série Retratos Régios #2



Pio XII envergando a Tiara Papal.

14 de junho de 2010

Imperat ut serviat

COVARRUBIAS, Centuria I, Emblema 84

[Gobierna para servir]

Que pensays que es reynar? servir muriendo,
Los días, y las noches trabajando,
Y quando vos cómeis, o estáys durmiendo,
No comer, ni dormir, y estar velando:
El Rey parte es Léon, feroz y horrendo,
De quien el mundo todo está temblando,
Y manso buey, del medio cuerpo abajo,
Nacido para el yugo, e el trabajo.


COVARRUBIAS, Sebastián - Tesoro de la lengua castellana o española [imp. 1611]. [Ed. de Martim de Riquer de la Real Academia Española]. Barcelona: editorial Alta Fulla, 2003

* Que pensais que é reinar? servir morrendo,
os dias e as noites trabalhando
e quando vós comeis, ou estais dormindo,
não comer, nem dormir e estar velando:
O Rei parte é leão, feroz e horrendo,
De quem o mundo todo vai temendo
E manso touro, de meio corpo abaixo,
nascido para o jugo e o trabalho.

19 de março de 2010

Qualquer semelhança é mera coincidência.

«Havia na Arábia um pequeno povo chamado Troglodita, que descendia daqueles antigos trogloditas que, se acreditarmos em historiadores, se pareciam mais com animais que com homens. Estes não eram assim não eram assim tão disformes: não eram peludos como ursos; não silvavam; tinham dois olhos; porém, eram maus e tão ferozes, que não existia entre eles um princípio algum de equidade e de justiça.

Tinham um rei de origem estrangeira, que, querendo corrigir a maldade da sua natureza, os tratava severamente. Porém, eles conjuraram contra ele, mataram-no e exterminaram toda a família real.

Tendo sido dado o golpe, reuniram-se para escolher um governo, e, depois de muitas dissensões, criaram magistrados. Porém, mal eles foram eleitos, logo se lhes tornaram insuportáveis e mais uma vez os massacraram.

Este povo, liberto deste novo jugo, já só consultou o seu natural selvagem; todos os particulares concordaram que não obedeceriam a mais ninguém; que cada um olharia apenas pelos seus interesses, sem consultar os outros.

Esta resolução unânime seduzia extremamente todos os particulares. Diziam "Para que vou eu matar-me a trabalhar para gente que não me interessa Só pensarei em mim; viverei feliz.
O que me importa que os outros o sejam? Satisfarei todas as minhas necessidades e, uma vez que as satisfaça, não me preocupa que todos os trogloditas sejam miseráveis."

Estava-se no mês em que se semeiam as terras. Todos disseram: "Só lavrarei o meu campo para que ele me forneça o trigo de que preciso para me alimentar; uma maior quantidade seria inútil para mim; não vou ter trabalho sem motivo."

As terras deste pequeno reino não eram da mesma natureza: havia terras áridas e montanhosas e outras que, num terreno baixo, eram banhadas por vários regatos. Nesse ano, a seca foi muito grande, de maneira que as terras que estavam nos locais elevados não produziam absolutamente nada, enquanto que as que puderam ser regadas foram muito férteis. Assim, os povos das montanhas pereceram quase todos de fome pela dureza dos outros, que recusaram partilhar com eles a colheita.

O ano seguinte foi muito pluvioso; os lugares elevados foram de uma fertilidade extraordinária, e as terras baixas ficaram submersas. Metade do povo passou um segunda vez fome; porém, estes miseráveis encontraram pessoas tão duras quanto eles próprios o tinham sido.»

Montesquieu, Cartas Persas

1 de março de 2010

Citações #2

«People who believe in the great benefits to having a non -political monarch as our Head of State do not have a certain look or certain political affiliations, they are a diverse bunch.

For the media, however, everyone can, and must, be stereotyped. Monarchists are, to the media, folks who see themselves as part of the aristocracy, drive a Bentley and talk with a plum in their mouths, yet the main vote against a republic in 1999 came from the blue collar Labor electorates! With such a diverse bunch of people supporting the Constitutional Monarchy, a few might fit the media stereotype but that is a very long way from the reality.»*

* As pessoas que acreditam no enorme benefício de ter um monarca não-político como Chefe de Estado não tem visões iguais, ou filiações políticas semelhantes - eles são um grupo diverso.

Para a comunicação social, no entanto, todos podem, e devem, ser estereotipados. Monárquicos são, para a comunicação social, pessoas que se vêem como parte da aristocracia, que conduzem um Bentley e conversam com uma ameixa na boca, mas a votação principal contra a república em 1999 [na Austrália] veio do eleitorado Trabalhista de colarinho azul! Com um grupo tão diverso de pessoas que apoiam a Monarquia Constitucional, algumas podem encaixar-se no estereótipo dos media, mas que está muito longe da realidade.
»

A ler aqui.

20 de janeiro de 2010

A Monarquia, por Alexandre Soares Silva


Um dos mais interessantes textos sobre o que é a monarquia, que não resisto a transcrever:

"Que espécie de pessoa se sente repelida pela monarquia? Escute: começamos todos monárquicos. Toda criança começa monárquica, se lhe explicarem o que é monarquia. Afogue num tanque a criança que for republicana. Seu filho de cinco anos é republicaninho? Mata.
Compreendemos a monarquia instintivamente. É por isso que contos de fadas têm reis e rainhas e não presidentes. Os irmãos Grimm teriam ataques de horror ante a visão de um único presidente sul-americano saindo de uma floresta. Uma coroa, um cetro: um bebê é capaz de perceber a glória disso. Acredito que até alguns animais são monárquicos, e que ursos e tigres têm alguma compreensão que devorar um rei é diferente de devorar um presidente, e melhor.
Há na história da humanidade uma lenta propensão à chatificação de todas as coisas. O que move a história é isso, e não o desejo de conforto, riqueza, poder. O chato quer deixar as coisas mais chatas. Ele não vai dizer isso, e ele nem sabe disso, mas é isso. E os que não são chatos não têm a paciência necessária de se oporem aos chatos – de enfrentarem sua minunciosa e incansável marcha rumo à chatice organizada e mundial. Todo chato é um milagre de perseverança. Não há chato tão cansado que não possa continuar atuando. O chato vence sempre.
E o que os chatos mais odeiam são os contos de fadas: a visão da vida que tinham aos cinco anos lhes parece a mais desprezível do mundo, e seus dias passam a ser dedicados à destruição disso. Ao longo dos séculos, conseguiram muitas vitórias, os chatos. A história da humanidade é a história da lenta substituição dos contos de fadas pelo romance sociológico moderno: Rubem Fonseca contra os irmãos Grimm.
Começamos vivendo em contos de fadas, em um mundo violento e terrível e algo miraculoso. Mas os chatos do mundo foram odiando um a um os elementos de contos de fada, e acabando com eles um a um. Nos contos de fada há monstros: eles se esforçaram para acabar com a crença em monstros. Nos contos de fadas há reis e rainhas: eles acabaram com a monarquia. Nos contos de fadas há condes, condessas, marqueses: acabaram com a aristocracia. Nos contos de fadas há pobres, vendendo fósforos na neve ou trocando vacas por feijões mágicos: e até com os pobres querem acabar, bando de republicaninhos socialistazinhos pro-quotas anti-globalização paspalhos.
Acabada a monarquia, a aristocracia e a crença no sobrenatural, olhem os chatos continuando sua luta contra tudo o que é way cool: contra a pornografia, contra videogames, contra a televisão (semana-sem-TV my ass, antes um milênio sem vocês), contra a violência no cinema, contra o cinema americano, contra quadrinhos, contra a Inglaterra primeiro quando ela era the coolest place, e contra os Estados Unidos depois, quando eles se tornaram the coolest place; contra o enredo no romance, contra a melodia na música, contra a rima na poesia, contra a figuração na pintura, contra a beleza nas artes, contra lutas de vale-tudo, contra boxe, contra drogas, contra expressões em outras línguas, contra o consumismo, contra o elitismo, contra John Wayne, contra a riqueza, contra a pobreza, contra viagens dispendiosas e desnecessárias à lua, e contra, sim, o Vaticano.
Olham a beleza do Vaticano e pensam no dinheiro que custou e custa, e tudo que conseguem pensar é que é preciso pôr aquilo abaixo para construir um templo positivista – baldaquinos sendo substituidos por pilotis – onde se cultue uma nova religião horizontal e humanista, e mais um adjetivo qualquer que era tão chato que eu nem ouvi. Ah, sim, igualitária. Sure. Uhuh.
O Vaticano é uma das últimas manifestações na terra da glória dos contos de fada. Os inimigos do Vaticano sabem disso, eles concordam: vivem de comparar a religião a “contos da carochinha”, para eles o termo mais desprezível que concebem. Há uma única guerra contra os contos de fada, que é uma guerra contra Deus; começada no jardim de infância pelas crianças mais chatas do mundo.
Não vão sossegar enquanto houver uma única coisa interessante sobre a terra. Irão dentro das casas apreender o último autorama, o último nunchaku. Escrevem manuais de economia nos quais apresentam o dilema da escolha entre fabricar canhão e fabricar manteiga. Por favor, para quem isso é um dilema? Quer maior prova da sua infalível propensão à chatice? Quem não daria, alegremente, todos os seus potes de manteiga para ter um canhão em casa?"
Copiado daqui.

3 de janeiro de 2010

A História segundo o Bloco de Esquerda: terroristas ou galinhas?

[...] Jornal I - Para todos os efeitos, a Carbonária era uma organização terrorista...
Fernando Rosas: Não lhe chamaria assim... A expressão terrorista tem hoje conotações que não se adaptam exactamente à Carbonária. Punha bombas, realment
e. [...]

Fernando Rosas consegue dar um novo significado à expressão «pôr bombas». Ora se quem põe bombas não é terrorista, ou quem é terrorista não põe bombas, há anos que andamos enganados. Não eram terroristas, afinal. Eram galinhas que punham granadas e explosivos, em vez de ovos.

18 de dezembro de 2009

Citações #1

Numa Monarquia ainda temos a possibilidade de beijar um sapos e sair-nos uma princesa ou um príncipe. Em República apenas os engolimos.

In a monarchy still have a chance to kiss a frog and marry a princess or a prince. In a Republic we only
bite one's lips.

Dans une monarchie ont a encore une chance d'embrasser une grenouille et d'épouser une princesse ou un prince. Dans une Republique nous avale la grenouille.

14 de agosto de 2009

Avante, Camaradas!

Esta história da mudança da bandeira do município de Lisboa pela de Portugal pré-1910, içada no mesmo balcão onde a cinco de outubro daquele ano foi proclamada a República veio esclarecer duas coisas muito importantes. A primeira delas é que no one gives a damn for the portuguese republic. É o mesmo que dizer que os portugueses estão-se nas tintas para a República Portuguesa. Salvo meia dúzia de pseudo-patriotas que apareceram nas várias peças jornalísticas, daqueles para quem o patriotismo máximo é pôr a mão sobre o peito quando toca o Hino nos jogos de futebol, para esses, a República é a Nação e, como tal, deve ser respeitada. Esquecem-se, contudo, que a nação não se esgota em 100 anos. Compreendo, porém, a exaltação desses pobres cidadãos que de História apenas conhecem o primeiro rei de Portugal, a cronologia da carreira do Cristiano Ronaldo e um ou dois acontecimentos maiores dos últimos 20 anos, talvez a Expo, em 1998, e o Europeu, em 2004. De resto, o acto - quanto a mim genial - de remoção temporária da bandeira do município que alguns consideraram uma ofensa (no twitter havia dois ou três repúblico-onanistas que batiam contra o teclado como se estivesse em causa a honra da mãe deles) foi uma demonstração de como os símbolos nacionais andam pelas ruas da amargura e de como o fervor republicano morreu pouco depois de 1910. Nos blogues havia gente insuspeitadíssima, de todas as idades, a comentar o quão bela era a bandeira de Portugal antes de 1910 (detalhes, claro, quando em causa está o futuro de um país, mas...), outros, dado o inusitado da situação, foram "comparar" regimes e, claro, chegavam à conclusão de que uma Europa essencialmente "monárquica" não pode estar errada (muito embora alguns fanáticos continuem a dizer que monarquia não é democracia. Porque no se callan?). Em suma, toda a publicidade é boa publicidade. Aliás, o Bloco de Esquerda sabe-lo bem, é uma das suas estratégias, entrar aos pontapés e urros em celebrações ditas "patrióticas" ou "nacionalistas" com lenços na cara e palavras de ordem (ou antes palavrões de ordem). O mais engraçado é que ninguém espera que eles sejam presos. É normal. São rebeldes. Em segundo lugar, ficamos a saber que, com este acto, e outros com que a ala monárquica do 31 da Armada nos tem já presenteado, inaugura-se um novo período na luta pela discussão da República. É bom que todos percebam que nós, monárquicos, não somos elitistas nem queremos chás dançantes, nem garden partys com tiques aristocratas e restauração de privilégios que nem fazem sentido hoje em dia, nem são a essência de uma monarquia parlamentar, plural e moderna. Aliás, a restauração dos privilégios de uma certa monarquia nunca poderia ombrear com os desta República Portuguesa, tal o número de benesses, cargos políticos e honoríficos que as instituições republicanas distribuem anualmente segundo interesses individuais e corporativos (ordens, comendas, tachos, etc etc). Por isso, pode o movimento 31 da Armada, e todos os que lutem por um Portugal melhor e mais justo, contar sempre com o meu apoio e, neste momento, com a minha solidariedade.

29 de março de 2009

D. Luís Filipe (1887-1908)

Um excelente vídeo a que já nos habituou o amigo Zé (Blog de leste) sobre o Príncipe Real D. Luís Filipe que, com apenas 21 anos, foi abatido a tiro, como um animal, no terreiro do Paço. Não gosto de fazer história contrafactual, mas não posso de deixar de conjecturar como teria sido se D. Carlos e D. Luís Filipe não fossem assassinados em nome da República que agora se comemora. Luís Filipe de Orleães e Bragança tinha sido criado para reinar. Fora educado pelos melhores, viajara, instruíra-se politicamente e era já um garboso chefe de estado (assumira já a regência na ausência do pai) de quem se esperava o melhor. De facto, ele era a sublimação da monarquia constiticional representativa, de um país que caminhava a passos largos para um notável crescimento em termos económicos, sociais e culturais. Como refere Rui Ramos, após a morte natural de D. Carlos (diabético em grau avançado) a subida ao trono de D. Luís Filipe teria significado uma acalmação natural, talvez até um entendimento com os republicanos - o que poderia ter evitado a ruinosa 1.ª república e a longa ditadura salazarista. Podia o príncipe ter-se deixado seduzir pelo clima autocrático? É possível. Mas enquanto que entre 1910 e 1926 (apenas 16 anos) sucederam, numa autêntica bandalheira, 11 presidentes, com a sua presença à frente do reino de Portugal teríamos usufruído da vantagem de uma estabilidade governativa e talvez a anulação de uma ditadura pessoal como a de Salazar, debaixo de uma figura coroada - que sempre obscura, como sabemos pela experiência franquista, a imagem de regimes constituídos sobre um a propaganda a um homem só. D. Luís Filipe podia até ter sido arrastado pela onda de ódio que varreu a Europa entre 1914 e 1945, mas não podemos deixar de conjecturar que pudesse ter sido um opositor a ela, sendo ele filho e descendente de democratas (não esqueçamos que foi o seu trisavô D. Pedro IV quem abriu o país à liberdade). Por isso, não só lamento a morte de D. Carlos, que foi um bom homem e um excelente chefe de estado, ao contrário do que propaganda republicana sempre nos fez crer sobre ele, mas mais ainda de um jovem esperançoso - num país que nunca acreditou nos seus jovens e sempre se entregou nas mãos de velhos medíocres, bur(r)cratas e pretensamente sábios, como esse grande português chamado António de Oliveira Salazar, que soube honrar a república portuguesa e o seu país, durante uma chefatura de meio século.

23 de março de 2009

Da devassidão dos tronos e da moralidade republicana.

(Centenário da República)

Um dos argumentos de muitos republicanos que conheço é o de que as monarquias foram, ou são, antros de devassidão. Não usam esta expressão mas a ideia soa ao mesmo, ou seja, pela sua ordem de ideias, a uma devassidão monárquica equivale a uma certa "moralidade republicana", uma espécie de heterossexualidade monogâmica. Logo aqui há uma incongruência, pois é à monarquia que se reputam valores tradicionalistas de família e não à república que tanto pode ser entregue nas mãos de um solteiro ou de um casado. E a devassidão, como nós sabemos, não é apanágio da realeza, se não dos homens e das mulheres, comuns mortais. Depois, vem a questão da representatividade. Segundo os republicanos (ou não-monárquicos) um rei não representa o conjunto total dos cidadãos. É verdade. Haverá sempre uma franja de insatisfeitos. Num estado presidencialista a coisa piora. Além dos sempre insatisfeitos, há os não votantes e os que não votaram num dos candidatos propostos, cada um deles representando ou um partido político, ou uma facção ideológica ou um grupo económico. Cinco ou seis candidatos servem os interesses da maioria de uma nação? É óbvio que não. O ideal seria que um comum cidadão pudesse ser eleito apenas pelas suas ideias e não pelos lobbies ou por fundos monetários conseguidos de forma pouco clara. Depois segue-se a questão histórica. A História, segundo os republicanos, é uma sucessão de erros monárquicos: batalhas, amantes, guerras fraticidas. Só em Portugal, dizem, tivemos um rei que bateu na mãe, um que levou o país à ruína e à perda da independência e outros dois que puseram os seus súbditos uns contra os outros. Os mitos são perigosos, sobretudo quando usados por ideologias e políticas. Embora não goste de julgar a História, é verdade que, em todos os tempos, em todos os regimes e estados houve necessidade para tomar o poder - e só ao poder se deve apontar a causa de todos os males dos bons e maus governos, dos bons e maus governantes. As estratégias são comuns a monarquias e repúblicas. Devo lembrar, aliás, que o período republicano de Roma, em que se lançavam as bases para os regimes presidencialistas actuais os golpes sucediam-se vertiginosamente. Portugal do século XX é a prova de que uma república não foi, de modo algum, a solução para o país. A instabilidade que se conhece entre 1910-1926 deu origem à mais longa ditadura de todos os tempos: quarenta e oito anos de uma odiosa e perniciosa noite de governação que teve à frente dois homens: um "moralmente devasso", beato e atávico que incutiu na já melancólica personalidade dos portugueses, a máxima do pobre e alegre, do incapaz mas honesto, do frugal e atreito às coisas simples; e outro, mais culto e aberto, mas nem por isso capaz de democracia. É possível comemorar uma república de 100 anos, em 2010, quando metade deles foram debaixo de uma ditadura? Tenho a certeza que não. Há efemérides que não se devem comemorar. A república portuguesa que continue, discretamente o seu papel para o qual se talhou, e não faça grandes ondas - que a vergonha e o saber reconhecer os erros são apanágio dos sábios, não dos tolos. E não devemos continuar a julgar a História. Devemos pesar na balança da contemporaneidade as vantagens entre monarquia e república. E para isso basta olhar à nossa volta. Afinal que desvantagens encontram os outros nas suas monarquias? Não me parece que a Espanha, a Noruega, a Suécia, a Dinamarca, e mesmo o Reino Unido (Canadá e Austrália incluídos) estejam insatisfeitos com o regime que têm. Mil vezes uma monarquia excessiva como a Inglesa, a uma república de paz podre como a portuguesa.

1 de fevereiro de 2009

O dia em que os reis morrem.

A veleidade de uns certos justos que dizem que o sangue nada significa têm pouco em conta o seu derramamento. Abater um rei, um chefe de estado é um processo meramente factual num universo de actos burocráticos. A morte de um rei, aliás, é, para esses "homens de estado", um acto de suprema libertação pois segundo eles liberta o povo das grilhetas da tradição, do costume, da desonrosa qualidade de súbditos, para ascenderem à livre condição de cidadãos. § A 1 de Fevereiro de 1908 foram assassinados o Rei e o Príncipe-real e com esta morte odiosa hipotecado o futuro de Portugal. Não é o julgamento da História que consertará o crime horrendo determinado pelos arautos da República que assim inauguraram o novo regime sobre uma poça de sangue e iniquidade. Mas quando, no presente, se preparam comemorações sobre este regime ensanguentado cujos obreiros, por puro ódio, se recusam homenagear os mortos para glorificar os homicidas, nós, monárquicos ou não monárquicos, - todos os que pedem razoabilidade, justiça e humanidade - devemos contribuir para que não caia no esquecimento tão fatídico momento da nossa história. Porque a monarquia é sentimento e é este sentimento que distingue os regimes monárquicos das Repúblicas. Estas procuram o consenso nos números, as monarquias nos laços, nas memórias. Por isso que a arma, para além do punhal ou da carabina, que a República usa para derrubar a monarquia é apontar-lhe os costumes, asseptiza-se para mostrar-se imaculada, quando todos nós sabemos - a República Portuguesa no-lo mostra diariamente - há podridão e aroma fétido neste regime.
Espero que descansem em paz as almas atormentadas de D. Carlos de Bragança e do seu filho Dom Luís Filipe e gostaria de lembrar o apelo de uma mãe que a propaganda facciosa urdiu como a mais devassa das devassas: Maria Antonieta, mulher de Luís XVI, executada sumariamente depois de vilipendiada e acusada dos mais infames crimes.
É a carta de uma mulher e de uma mãe. Como D. Amélia, que viu morrer o filho à sua frente pela única e monstruosa razão: a razão de um estado, um estado de poucos imposto a muitos.

"Ce 16 octobre, à quatre heures et demie du matin.
C’est à vous, ma soeur, que j’écris pour la dernière fois. Je viens d’être condamnée, non pas à une mort honteuse – elle ne l’est que pour les criminels, mais à aller rejoindre votre frère. Comme lui innocente j’espère montrer la même fermeté que lui dans ses derniers moments. Je suis calme comme on l’est quand la conscience ne reproche rien. J’ai un profond regret d’abandonner mes pauvres enfants. Vous savez que je n’existais que pour eux et vous, ma bonne et tendre soeur, vous qui avez par votre amitié tout sacrifié pour être avec nous, dans quelle position je vous laisse ! J’ai appris par le plaidoyer même du procès que ma fille était séparée de vous. Hélas ! la pauvre enfant, je n’ose pas lui écrire, elle ne recevrait pas ma lettre, je ne sais pas même si celle-ci vous parviendra. Recevez pour eux deux ici ma bénédiction ; j’espère qu’un jour, lorsqu’ils seront plus grands, ils pourront se réunir avec vous et jouir en entier de vos tendres soins. Qu’ils pensent tous deux à ce que je n’ai cessé de leur inspirer : que les principes et l’exécution exacte de ses devoirs sont la première base de la vie, que leur amitié et leur confiance mutuelle en fera le bonheur. Que ma fille sente qu’à l’âge qu’elle a, elle doit toujours aider son frère par les conseils que l’expérience qu’elle aura de plus que lui et son amitié pourront lui inspirer ; que mon fils, à son tour, rende à sa soeur tous les soins, les services que l'amitié peuvent inspirer ; qu’ils sentent enfin tous deux que dans quelque position où ils pourront se trouver ils ne seront vraiment heureux que par leur union ; qu’ils prennent exemple de nous. Combien, dans nos malheurs, notre amitié nous a donné de consolation ! Et dans le bonheur on jouit doublement quand on peut le partager avec un ami, et où en trouver de plus tendre, de plus uni que dans sa propre famille ? Que mon fils n’oublie jamais les derniers mots de son père que je lui répète expressément : qu’il ne cherche jamais à venger notre mort.
J’ai à vous parler d’une chose bien pénible à mon coeur. Je sais combien cet enfant doit vous avoir fait de la peine. Pardonnez-lui, ma chère soeur, pensez à l’âge qu’il a et combien il est facile de faire dire à un enfant ce qu’on veut et même ce qu’il ne comprend pas. Un jour viendra, j’espère, où il ne sentira que mieux le prix de vos bontés et de votre tendresse pour tous deux. Il me reste à vous confier encore mes dernières pensées. J’aurais voulu les écrire dès le commencement du procès, mais, outre qu’on ne me laissait pas écrire, la marche a été si rapide que je n’en aurais réellement pas eu le temps.
Je meurs dans la religion catholique, apostolique et romaine, dans celle de mes pères, dans celle où j’ai été élevée et que j’ai toujours professée, n’ayant aucune consolation spirituelle à attendre, ne sachant pas s’il existe encore ici des prêtres de cette religion, et même le lieu où je suis les exposerait trop s’ils y entraient une fois. Je demande sincèrement pardon à Dieu de toutes les fautes que j’ai pu commettre depuis que j’existe ; j’espère que, dans sa bonté, il voudra bien recevoir mes derniers voeux, ainsi que ceux que je fais depuis longtemps pour qu’il veuille bien recevoir mon âme dans sa miséricorde et sa bonté. Je demande pardon à tous ceux que je connais et à vous, ma soeur, en particulier, de toutes les peines que, sans le vouloir, j’aurais pu leur causer. Je pardonne à tous mes ennemis le mal qu’ils m’ont fait. Je dis ici adieu à mes tantes et à tous mes frères et soeurs. J’avais des amis, l’idée d’en être séparée pour jamais et leurs peines sont un des plus grands regrets que j’emporte en mourant ; qu’ils sachent du moins que, jusqu’à mon dernier moment, j’ai pensé à eux.
Adieu, ma bonne et tendre soeur ; puisse cette lettre vous arriver. Pensez toujours à moi ; je vous embrasse de tout mon coeur ainsi que ces pauvres et chers enfants. Mon Dieu, qu’il est déchirant de les quitter pour toujours ! Adieu, adieu ! je ne vais plus m’occuper que de mes devoirs spirituels. Comme je ne suis pas libre dans mes actions, on m’amènera peut-être un prêtre ; mais je proteste ici que je ne lui dirai pas un mot et que je le traiterai comme un être absolument étranger."
§
No dia em que os reis e as rainhas morrem, morre com eles uma complexidade de afectos. E os afectos não se plebiscitam, nem se contabilizam. São a soma das relações Humanas.

2 de dezembro de 2008

Depois de vós, nós


Depois de vós, nós, a divisa de D. Manuel II, rei culto, pacificador, altruísta que sintetiza bem o que ontem se comemorou: não uma independência por motivos de opressão - razões que levam muitos povos, em todos os tempos, a lutar contra tiranos - mas uma necessidade de assumir uma consciência de unidade, conseguida em poucas ocasiões da nossa história, apenas quando o rei encarnou o espírito colectivo que caracteriza o progresso (enquanto acção, desejo, motor) das nações. O 1.º de Dezembro de 1640 não é um acto fortuito, nem menor - e embora tenha sido a mão das elites a empunhar o estandarte, fê-lo consciente da vontade de todos os estados que depuseram na mão do Duque de Bragança, o símbolo do bom governo. Não foi pois um cinco de outubro em que já não os oligárquicos, mas os politicocráticos, vieram à rua com foros de liberdade como se a monarquia subjugasse os corpos e as mentes. Mas a divisa destes burocratas de Bruxelas não é, nem nunca foi, "depois de vós, nós". É arenga mais pragmática que lembra aos cidadãos que as liberdades se pagam - eles são só colectores de impostos. A seguir a um virá outro, e outro, e mais outro. Perdemos a independência da boa memória, para ganharmos a ilusão da igualdade.

25 de novembro de 2008

Quem ler até acredita que é verdade.

Ver em APH.


No site da Associação de Professores de História há um link que nos remete para um sumário da História de Portugal, em inglês. A ideia, tanto quanto percebo, é permitir a um estrangeiro que visite o espaço da APH conhecer a História do nosso país em 10 minutos. Uma espécie de tudo-o-que-você-quis-saber-sobre-Portugal ou Portugal-for-dummies. Interessante é quando chegamos à parte em que cabe explicar o significado das lindas cores da bandeira republicana.


The green is the colour for hope in the future.

The red is the symbol of the courage and blood spilled by Portuguese soldiers on the battle field.

(O verde é cor da esperança no futuro. O vermelho o símbolo da coragem e do sangue derramado pelos portugueses no campo de batalha).


Eu já não acredito neste relambório Estado novista desde os bancos da primária. E pergunto: é isto que a maioria dos professores de História ensina aos seus alunos? Se é, não há dúvida que as comemoração do centenário da república levam já um grande avanço. É que as cores absolutamente díspares e aberrantes que constituem a bandeira pós-1910 têm a sua origem nas correntes socialista (vermelho) e positivista (verde) que maravilhavam a trupe republicana implicada no golpe de estado de 5 de Outubro. Não há cá esperança alguma, nem sangue dos heróis portugueses. Ou melhor, talvez o vermelho da bandeira seja a parcela branca da bandeira nacional tingida de rubro com o sangue derramado pelo D. Carlos e pelo Princípe D. Luís Filipe, quando estes foram assassinados à queima-roupa, pelas costas por dois carbonários republicanos. Nesse caso sim, poderíamos dizer que a bandeira vermelha e verde tem alguma nobreza na sua existência.