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16 de dezembro de 2011

O que me choca

 Foto de Massoud Hossaini sobre a matança em Cabul, Afeganistão, no dia 6-12-2011.

é que a nossa sociedade já não se choque com o sangue humano, tão vulgar em filmes, na televisão e nos jornais e se compadeça mais com os animais, as árvores e o seu próprio ego. Eu sou um pessimista inveterado e creio, sinceramente, que a humanidade acabará consigo própria. Mas, caramba, um pouco de arrependimento e de compaixão podiam atrasar esta hecatombe!

14 de dezembro de 2011

O voyeurismo pseudo-histórico.

O voyeurismo parece ser a razão de tantas obras recentemente editadas sobre devassidão, amantes, traições, paixões e devaneios das elites. De repente nasceu uma corrente de investigação em Portugal exclusivamente para historiar o sexo. Felizmente que alguém, além de nós, se deu ao trabalho de constatar o óbvio. A história queer*, da devassidão pública ou privada sob a desculpa do facto histórico para além de cientificamente insustentável é uma perfeita estupidez, consagrada segundo um paradigma de seriedade analítica. Não é séria, bem pelo contrário. É hipócrita e abjecta, como se  interessasse a alguém os pormenores escabrosos da vida sexual e amorosa de "algumas" pessoas. Pior, como se fosse eticamente correcto fazer o coming out* de quem já não pode fazê-lo. Isto é, se realmente o desejava fazer. Não podemos, pois, deixar de assinalar o desmascarar de uma pretensiosa obra historiográfica de alcova que já referimos n'Obliviário: Homossexuais no Estado Novo, de São José Almeida, uma jornalista que se fez historiadora para provar o que já sabíamos: que em todos os tempos existem segredos. E bisbilhoteiros. Um dos autores do blogue Malomil disseca com notável destreza e ironia o discurso balofo daquele trabalho que oscila entre a noção de mau jornalismo e péssimo jornalismo. Sim, porque do foro da História "aquilo" não é com certeza.

5 de maio de 2010

Mudam-se os tempos ... (Camões estava errado)


Portugal sempre apareceu nas primeiras capas pelas piores razões. Não é de hoje. E, suspeito, não será moléstia que desaparecerá tão cedo.

26 de outubro de 2009

Síndrome da Bipolaridade Induzida pela Comunicação Social (SBICS)

Há um clima de histeria contida, quando se fala na vacinação contra a Gripe A. Quem é vacinado e quem não é, quem quer ser e quem não quer. Parecem os dias do fim, descritos pelo Apocalipse. Só que paradoxalmente todos querem ter a marca da Besta e os que a não recebem serão lançados no lago de fogo. A Comunicação Social dá uma ajuda neste vai-e-vem de lucidez e loucura. Como na história daquela senhora violentamente agredida numa Marco de Canaveses que há uns meses os media descreveram como um crime horrendo e odioso e hoje desmentem apresentando a verdade dos factos: a vítima fora o  seu próprio carrasco. Vivemos numa sinistra balança que nos embala os dias e as noites. Ora somos injectados com euforia, ou tratados para a depressão. Vivemos numa constante bipolaridade induzida.

4 de julho de 2009

Um post em dois tempos e meio.

I

Não é por falta de tempo. É por falta de interesse. Este monólogo, umas vezes catártico, outras exercício exorcista, pouco mais alimenta que a necessidade de desenvolver temas que acabam por morrer na praia. Não sou comentador, ou seja, não corro a comentar notícias, nem a alimentar especulações de polémicas frescas. Aliás, se o fosse não teria mãos a medir, tal a torrente, tal a catadupa de casos caricatos ou situações bizarras que este país produz diariamente. Sempre fui um free-lancer, auto-didacta orgulhoso que tem o gosto de mostrar a quem mais gosto aquilo de que gosto. Por isso  o Obliviário não aparece entre os primeiros nas estatísticas, nem nos recortes blogosféricos dos jornais. Mas é bom. É bom conquistar um lugar discreto, quase um cantinho aconchegante neste mundo estranho e às vezes distante que é a internet. 

II

O que é democracia? - pergunto aos meus alunos. Eles dizem-me que é algo teórico e eu tento convencê-los do contrário. Mas contradigo-me e sinto-o ao seguir atentamente a política portuguesa. Os movimentos de bastidor, os negócios, os subterfúgios, as mentiras. Fala-se em qualidade de democracia e imputa-se aos políticos uma melhoria da mesma, mas esquecem-se do essencial: os cidadãos, a base de uma pirâmide que não se sustenta sem cultura e sem educação. Para mim a democracia pode melhorar se melhorar o sentido de ética, que falta aos jornalistas, que falta aos funcionários e a todos que partilham uma responsabilidade colectiva no dia-a-dia. Aliás, a comunicação social atiça o incêndio da discussão, mas talvez seja ela própria o incendiário e a chama inicial. Como Quarto Poder, (em alguns casos, Poder Único) modela a consciência dos menos afortunados pelo interesse e pela crítica. Como a maioria dos universitários, pouco criativos, menos ainda conscientes e cada vez mais dependentes do oportunismo, os jornalistas são, na sua maioria, medíocres e pouco exigentes. Os restantes, politizados, vão segurando o bastão do poder e manejando esta gente amorfa. Sim, foi o gesto de Manuel Pinho que decidiu a sua própria fortuna, mas é a imagem moldada pela comunicação social que torna o facto mais ou menos relevante. A responsabilidade da democracia deve ser repartida por todos. Ela não é dos políticos, nem dos jornalistas. É nossa.

Uma nota: o facebook e o twitter são as ferramentas do momento e permitem criar espaços mais intimistas de troca de ideias. É um dos motivos pelo qual o Obliviário tem estado mais silencioso e vazio. Não obstante o facto de ter já comentado quer num quer noutro a morte de Michael Jackson não posso deixar de acrescentar algumas linhas a este respeito. Li, num tópico da internet, uma frase grosseira, "proferida" num tom irónico por um psicólogo (!) que dizia "gostar muito de Carlos Cruz mas que este não chegava aos calcanhares de Michael Jackson". É óbvio que a afirmação, um tanto ou quanto rude (e irresponsável, se pensarmos que foi proferida por um cientista) apelava para o facto de ambos serem acusados de crimes semelhantes, relacionados com o abuso sexual de menores. Cá está um exemplo de como, em Portugal, tudo passa pelos media: a política, a cidadania, a democracia, a justiça, começa e esgota-se nos jornais e na televisão. O processo Casa Pia ainda não terminou e já há culpados. É-se acusado, julgado e condenado virtualmente; partidos sobem e descem por estatísticas que, se não são manipuladas, são-o com certeza tendenciosas e aplicadas no "momento certo". Enfim, Michael Jackson, que mais do que ninguém beneficiou da imagem e da sua manipulação, viveu sob o pêndulo dos media. Foi glorificado e crucificado e, na morte, reabilitado a ícone maior. A pedofilia (crime pelo qual não chegou a ser condenado) é um delito abominável. Mas as suas supostas vítimas, como as supostas vítimas de Carlos Cruz, ficarão para sempre anónimas. Esta é a hipocrisia  ou a realidade do mundo em que vivemos. Não podemos combater a biologia humana, mas podemos crescer em crítica e valores. E isso é que é importante. As grandes coisas só são grandes se lhes dermos importância.

29 de março de 2009

A propósito da visita papal a África: a Igreja e a Sexualidade.

A Igreja tem um papel fundamental na sociedade moderna. O papel da Igreja, enquanto instituição que zela por fundações de moral e ética, de solidariadade e fé, não pode ser ignorado, nem menorizado. A Igreja deve moralizar, deve contribuir para a construção de um mundo menos anárquico, em que as relações humanas não sejam voláteis, nem estéreis. A Igreja é um esteio indispensável do mundo contemporâneo. No entanto, a Igreja Católica não é dona da verdade, muito embora esteja assente em dogmas inabaláveis ou irrefutáveis. A Igreja deve acolher a divergência, deve debater, deve reconhecer que não tem razão quando efectivamente não tem razão. E eu, como católico, que acredita e se acolhe sobre a Igreja de Roma, tenho o direito a discordar, tenho o dever de discordar e ser ouvido sem que tal anuncie um ataque às suas orientações canónicas e teológicas. Portanto, direi antes de mais que me preocupo com uma Igreja cada vez mais assertiva em relação à sexualidade humana. Não me refiro à recente polémica do uso do preservativo - assunto que, quanto a mim, extravasa de longe os limites da compreensão e do bom senso de ambas as partes. A Igreja, pela boca do seu representante máximo, tem o direito a discordar com o uso do preservativo. Tal, visto pelo senso comum ou uma certa comunidade médica que acha que doenças como a sida ou outras dst's só se evitam pelo uso do preservativo, parece a maior das enormidades, mas não é. O que é facto é que nem o preservativo é seguro, nem constitui a arma máxima contra a propagação da doença. Não são os estados, nem Roma, nem as ONG's com o papel mais importante no combate às doenças. Quem deixa morrer tanta gente em África? É afinal o apelo do Papa "contra" o preservativo? Não. São as farmacêuticas que ganham dinheiro com a morte e com as doenças. Quem o negará? Quem, nos tempos que correm, ousa desvalorizar o papel dos lobbies das grandes empresas? § Ora, não obstante, nem a Igreja tem razão, nem os puristas e moralistas (que só o são por agressão à Igreja) que vêm clamar a favor do preservativo. Se não, vejamos: a Igreja, por razões teológicas (e não bíblicas), não concebe o desperdício do sémen. Este deve ser unica e exclusivamente aproveitado para a procriação. O acto sexual não deve envolver desejo ou concupiscência, apenas uma forma mecânica e biológicamente útil. Ou seja - sei que vou simplificar, mas vou dizê-lo - à luz da teologia o coito apenas serve a função até que seja criada vida. O acto sexual deve repetido até à fecundação. Depois disto torna-se obsoleto, dispensável e mesmo tabu, pois desde S. Paulo que a Igreja tenta refrear o desejo sexual e o matrimónio tornandos-o mero instrumento de criação. Mas a Igreja esquece-se de que matematicamente é impossível considerar uma das hipóteses, ou todo os indivíduos vivem apenas para procriar e em pouco tempo é impossível habitar este planeta, ou se sujeita o crente à abstinência e em pouco tempo extinguem-se comunidades. É bem de ver que a teologia católica não alinha com a Teoria Populacional Matlhusiana. A procriação não pode ser usada como arma de arremesso, tanto mais que exige ser cuidadosamente pensada nos dias que correm. Porque a pobreza se reproduz pelo nascimento, porque a irresponsabilidade é cada vez mais um factor de risco na criação e educação das crianças (vejam-se as recentes notícias de quase-infanticídios). § Por outro lado quem enfatiza o uso do preservativo cai num erro muito grave, que é o de tranquilizar o senso comum para um problema que é ultrapassado por uma metodologia profiláctica pouco fiável. A sida surgiu numa época em que praticamente se erradicara as doenças contagiosas mortais, graças ao desenvolvimento das penincilinas e dos antibióticos. Augurava-se uma era dourada para a vida humana e de lá para cá já se conceberam medicamentos para combater doenças 100 vezes mais perigosas que a sida, como as hepatites e outras. No entanto, ainda existem estranhas discrepâncias sobre esta mediática doença: uma franja da população, quando exposta, não é infectada, o processo de contágio não respeita os postulados de Koch e Evans, enfim, dúvidas a mais e soluções a menos para uma doença que já tem 30 anos. É perigoso reduzir-se o problema da sida ao uso do preservativo quando o que faria sentido era investir numa cura e não num fraco remendo - a não ser claro que a cura não sirva interesses económicos... § O que me deixa absolutamente revoltado é que que os moralistas que abriram a boca para condenar o Papa e a sua opinião sobre o uso do preservativo só se lembrem de África e dos seus habitantes nestas ocasiões - quando, afinal, perante a fome, a guerra e os genocídios, a sida parece ser o "menor" dos seu problemas. E por outro lado, preocupa-me que a Igreja volte a prescrutar o leito dos crentes, repescando na Idade Média e na Contra-Reforma uma certa política de confessionário que procurava saber de "acheganças por detrás", prática da molície, bestialismo e sémen derramado. Não é esse o caminho - o do sexo - para chegar ao coração dos Homens.