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5 de agosto de 2009

O Desnorte.

(...)
Uma primeira característica da retórica de José Sócrates: quando inaugura uma escola, um tribunal, quando celebra as virtudes de uma iniciativa do Governo ou premeia os resultados de tal grupo da sociedade civil, uma ideia surge sempre, reiterada até à exaustão - a ideia de que aquela "é a obra necessária, que vem na hora certa para a modernização do país"; era daquilo "que nós precisávamos, e de que vamos precisar"; e que toda a acção do Governo "vai naquele sentido, porque é o sentido certo, e devemos insistir cada vez mais em acções e iniciativas daquela natureza". E assim por diante batendo sempre na mesma tecla, de tal maneira que ali, a propósito daquele pequeno acontecimento (ou grande, como a inauguração de uma barragem, por exemplo) se concentra todo o sentido da governação socialista.
(...)
Talvez seja esta uma das grandes originalidades de um discurso que, por outro lado, repete sempre as mesma ideias, quase com as mesmas frases, literalmente medíocre, lexicamente pobre, sem rasgos nem surpresas: é o que está constantemente no presente mítico, transformando a obra mais banal num acontecimento de relevância mítica, exemplar, modelar.
(...)
Rejeitando o passado degrado, integrando nele o futuro, o discurso socrático do presente dirige-se a um auditor que suspendeu as suas ideias políticas, as suas escolhas partidárias, os seus conflitos sociais, que neutralizou o seu ser ideológico para se ligar directamente ao chefe, enquanto simples cidadão abstracto.


José Gil - Em busca da identidade - o desnorte.

É realmente uma pena que poucos leiam e entendam José Gil.

14 de abril de 2009

Ridendo castigat mores.

Imagem picada daqui

"O que antigamente chamavaõ em Roma Aedicula Ridiculi, era a Ermida, ou Capella do Riso, dous mil passos de Roma pela porta Capena; foy edificada em memoria da fugida de Annibal, quando pelas grandes chuvas, e borrascas se vio obrigado a levantar o sitio, e os Romanos zombáraõ delle com grandes risadas. Naõ foraõ os Romanos os primeiros, que do Riso fizeraõ hum Deos. Na vida de Lycurgo escreve Plutarco, que este Legislador lhe levantára em Lacedemonia huma estatua, e os Hypaheos de Thessalia, todos os annos lhe offereciaõ sacrificios, como tambem os Romanos, na Primavera com grandes gargalhadas. Faz Pausanias mençaõ de hum Deos do Riso, a que os Gregos chamavaõ Theos Gelotos. " Exarado do Vocabulário, de R. Bluteau (1712-1728).

19 de março de 2009

"Creio que a vida não tem sombra de interesse, concebida e vivida em termos de mentira e de conveniência. As sociedades que já só assentam em tais fundamentos, estão por pouco."
Miguel Torga, Diário IV, [Porto, 10 de Outubro].

4 de março de 2009

Todas as "Mónicas" que conhecemos.




(...)
"De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
(...)


Sophia de Mello Breyner Andresen
Contos Exemplares
Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª ed.). Ler ou ouvir integralmente: aqui.

23 de novembro de 2008

LibraryThing

Já estou no LibraryThing! De que se trata o LT? Bom, para começar é um poderoso interface de recolha de dados bibliográficos, onde se pode aceder a um conteúdo crescente de edições em formato digital, do tipo google books. Por outro lado reúne bibliófilos de todo o mundo e convida-os a colocarem online as suas bibliotecas (não literalmente, claro) através do ISBN dos livros contribuindo assim para a formação de redes sociais ao nível de temas, assuntos e gostos literários. É certo que as editoras ou as distribuidoras ganham dinheiro com a publicidade, os contributos ao nível de resumo, crítica, etc, mas o leitor e o investigador não deixa de ser contemplado com ferramentas utilíssimas para pesquisa e edição. A partir de agora, juntamente com o acesso aos títulos bibliográficos da minha biblioteca pessoal que estão online aqui, juntam-se outros que introduzi na base de dados do LibraryThing e vão sendo mostrados aleatoriamente na barra lateral deste blogue. Se houver interesse em cópia ou empréstimo a algum leitor, podemos inclusive tratar disso. Basta contactarem-me!

17 de novembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira ideológica.


Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso
que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
"Ensaio sobre a cegueira", José Saramago.

Saramago é um iconoclasta cínico, pedante, ideologicamente cego e cada vez mais velho. Felizmente que a idade vai vergando cada um daqueles defeitos do senhor e, confiamos nós, chegará ao túmulo já completamente redimido de todos os seus pecados que incluem, como bem sabemos, perseguições à boa maneira estalinista, mediocridade q.b. e conversa-ditatorial-em-potência/hipocrisia que esta gente, como Saramago, tem e cultiva com boa vontade para dar e vender. No entanto, mentiria se dissesse que detesto totalmente o que Saramago escreve. Comecei a ler Evangelho segundo Jesus Cristo e parei à décima página. Li Memorial sobre o Convento, mas irrito-me quando fazem propaganda com romances históricos (já ninguém lê Marguerite Yourcenar... ao menos a elogiarmos ou deturparmos, que se faça como ela, deturpe-se em nome de sentimentos e não de bandeiras). Parei aí. Retomei Saramago em Intermitências da Morte. Gostei. Gostei sinceramente. Mas digo-o e repito-o: não merecia o Nobel pelo que escreve, nem pelo que sabe. § Saramago tem boas ideias, quer dar lições de moral à humanidade; confrontá-la com o seu próprio cinismo (o dele e o da humanidade) e consegue-o em Ensaio sobre a Cegueira, mas é demasiado óbvio (não chega aos pés, em talento, mensagem e erudição a um Jorge Luís Borges). Além disso odeia demasiado a Igreja Católica; tanto que passa o tempo a prostrar-se-lhe aos pés. Ensaio sobre a cegueira (filme) é uma obra de arte, um esforço incomparável para retirar das simbolicamente medíocres frases de Saramago um mundo de temores (e se cegássemos todos? por infecção - uma metáfora? o caos! o mundo em ruína - já se vê, cegar não é o mesmo que emudecermos ou ensurdecermos... a imagem resulta francamente bem), mas no meio daquilo tudo (morte, desespero, imagens escatológicas de uma quarentena forçada em que impera a desordem, o nojo, a auto-destruição) sobressai a imagem de uma Julianne Moore, belíssima, alva e nobre. Depois, à força (como Saramago fizera com as palavras), Fernando Meirelles enfia-nos pelos olhos adentro (bonita imagem em contexto próprio) a violência que o texto não deixa sentir tão fortemente: violações em massa, mortes ocasionais e perfeitamente dispensáveis, fezes, gangrena, sangue, fome, etc - como se a própria epidemia de cegueira branca (branco = sufoco) não bastasse. De resto a filmagem com grão, os pretos e brancos contrastantes - cenários de sombra e penumbra - em alguns casos o ecrã quase quase negro (a nossa cegueira) conferem uma certa beleza invulgar ao filme. Se aconselharia a ver? Sim. Não obstante a imagem vendável de destruição de que alimenta a curiosidade mórbida humana vale sempre por deixar algumas consciências ocas a pensar. Não é nem um romance nem filme sobre a cegueira comum, logo nada apologético a quem não vê por patologia (como se pode ver por uma das personagens, cego «de verdade»). É um filme sobre quem não quer ver. Por isso resulta muito bem a imagem medieval associada ao romance "Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara", extraída do Livro de Conselhos de D. Duarte.

31 de outubro de 2008

"Neófito, não há morte" (Iniciação, F. Pessoa)


De todos os itens do legado de Fernando Pessoa que vão ser leiloados no próximo dia 13 de Novembro (no Centro Cultural de Belém) - e, infelizmente, embora não possa licitar nenhum deles - o que escolheria em primeiro lugar seria o livro que aparece aqui em parte reproduzido. Trata-se do De Secretis Libri XVII, de Johann Jacob Wecker [1528-1586], um pensador, alquímico, suíço, de quem sabe muito pouco. A única marca de F. Pessoa neste livro não é apenas a sua assinatura, é muito mais do que isso. É a busca por um conhecimento. Como tal dispensaria ser dono de qualquer um dos manuscritos do escritor - os quais devem estar sob a custódia de uma Biblioteca pública ou um museu e que, com certeza, um dia serão publicados, como é justo e devido. Mas possuir um livro lido e estudado por um dos grandes génios da Humanidade, seria o maior dos prazeres e a maior das riquezas. Como se bebêssemos directamente na nascente do Saber.

29 de outubro de 2008

"Dicionário do cidadão sem medo"

Diccionari del ciudadano

SAVATER, FERNANDO - DICCIONARIO DEL CIUDADANO SIN MIEDO A SABER.
EDITORIAL ARIEL, S.A.: Barcelona, 2007. ISBN: 9788434453395


Comprei este pequeno livro (lê-se numa viagem de autocarro) em Madrid, há quase 2 anos. Ainda não foi traduzido para português, nem o tenho visto, sequer, nos escaparates das livrarias mais abrangentes. Com grave prejuízo para os leitores portugueses, quanto a mim. Fernando Savater (para quem desconhece, trata-se de um filósofo espanhol com vasta obra publicada que toca o social e o político contemporâneos) sistematiza o pensamento e a organização social actuais e todas as implicações que advêm de uma democracia ocidental em crise. Se não, vejamos: os verbetes que desenvolve no seu dicionário, são em torno da participação política e de um homem político (moribundo?): Cidadania, Constituição, Direita/Esquerda, Diálogo, Estado, Identidade, Imigração, Laicismo, Nacionalismo, Opinião pública/opinião pessoal, Parlamento, Paternalismo, Paz, Políticos, Progressista/Reaccionário, Povo, Sectarismo, Separação de poderes, Terrorismo, Tolerância. Savater oferece-se para discutir connosco problemas preementes, como o terrorismo ou a cidadania, tendo sempre presente a necessidade primeira da discussão (que dá o mote para quebrar um silêncio cada vez maior dos cidadãos com medo). «Em democracia políticos somos todos», diz. Talvez seja esta a razão fulcral do livro, penso eu, se não por que é que Savater abordaria questões como os sectarismos, a inevitável imparcialidade dos media e a formação de uma classe de «especialistas em mandar», como designa os políticos actuais? A democracia anestesiou a participação cívica. Não se trata de uma forma de censura, mas sim de uma espécie de cura pela doença que deixa no organismo vivo que é a sociedade um total desinteresse pela participação e pela cidadania (dando azo ao oportunismo de alguns que vêm no amorfo o terreno fértil para instalar o seu consulado).


P.S. Agrada-me especialmente a entrada "paternalismo". Savater define e resume bem a hipocrisia dos Estados, face aos seus cidadãos: El vicio de los goviernos y de las autoridades públicas de empeñarses en salvar a los ciudadanos del peligro que representan para sí mismos (...). los Estados suelen ofrecerse solícitamente para dispensar a los ciudadanos de la pesada carga de su autonomía. Su lema es «Yo te guiaré: confía en mi y te diré lo que debes comer comer y beber, lo que debes leer, los programas de televisión o las películas que debes ver, cuánto debes gasta en el juego, qué debes hacer com tu cuerpo, etc.» Por supuesto, semejante solicitud no es de todo inocente.

12 de junho de 2008

Raça & república ou de como Pascoaes seria apedrejado.

«Neste momento genesíaco e caótico da nossa Pátria, é necessário que todas as forças reconstrutivas se organizem e trabalhem, para que ela atinja rapidamente a sonhada e desejada harmonia.
«O fim desta Revista [Águia], como orgão da "Renascença Portuguesa", será portanto, dar um sentido às energias intelectuais que a nossa Raça possui; isto é, colocá-las em condições de se tornarem fecundas, de poderem realizar o ideal que, neste momento histórico, abrasa todas as almas sinceramente portuguesas: - Criar um novo Portugal, ou melhor ressuscitar a Pátria Portuguesa, arrancá-la do túmulo onde a sepultaram alguns séculos de escuridade física e moral, em que os corpos definharam e as almas amorteceram. (...)
«É preciso, portanto, chamar a nossa Raça desperta à sua própria realidade essencial, ao sentido da sua própria vida, para que ela saiba quem é e o que deseja. (...)
«Ora, esta obra sagrada compete ao espírito português, a todos os portugueses que encerrem no seu ser uma parcela viva da alma da nossa Pátria. (...)
«Se não existisse uma alma portuguesa, teríamos de evolucionar conforme as almas estranhas, teríamos que nos fundir nessa massa amorfa da Europa; mas a alma portuguesa existe, vem desde a origem da Nacionalidade: de mais longe, da confusão de povos heterógeneos que, em tempos remotos, disputaram a posse da Ibéria. Houve um momento em que, no meio dessa confusão rumurosa e guerreira, se destacou uma voz proclamando um Povo, gritando a Alma de uma Raça: foi a Voz de Viriato; foi o verbo criador que encarnou em Afonso Henriques e se tornou acção e vitória.

Teixeira de Pascoaes, Revista A Águia, n.º 1, 1912.

11 de junho de 2008

Mensagem de Eça a alguns clérigos incautos, devotos néscios e ateus ignorantes.

A arte é tudo porque só ela tem a duração - e tudo o resto é nada! As sociedades, os impérios são varridos da terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas: e se não passam da memória fugitiva dos homens, se ainda para eles se voltam piedosamente as curiosidades, é porque deles ficou algum vestígio de Arte, a coluna tombada dum palácio, ou quatro versos num pergaminho. As Religiões só sobrevivem pela arte, só ela torna os deuses verdadeiramente imortais - dando-lhes forma. A divindade só fica absolutamente divina - quando um cinzel de génio a fixa em mármore; inspira então o grande culto intelectual, que é o único desinteressado e o único consciente; já nada tem a sofrer do livre exame: entra na serena região dos Incontestáveis e só então deixa de ter ateus. O mais austero católico é ainda pagão, como se era em Cítera, diante da Vénus de Milo. E a Nossa Senhora do Céu só tem adorações unânimes e louvores sem contestação, quando é o pincel de Murillo que a ergue sobre o Orbe, loura e toucada de estrelas.
Eça de Queirós, em Notas contemporâneas.

10 de junho de 2008

Language for dummies.

Há muito que o inglês destronou as línguas universais - clássicas e modernamente criadas - para tornar-se, ele próprio, governante do mundo falante e escrito, qual senhor absoluto de todos os anéis. As mitologias gregas e romanas liquefizeram-se em imagens cinematográficas passadas, já não no Olimpo, mas em Hollywood. Não me espanta, pois, que o latim esteja a morrer. Moribundo ficou logo quando quem o podia ressuscitar o apunhalou durante as sessões do Vaticano II e hoje, a «pérfida Albion», ri-se às bandeiras despregadas uma vez que se sabe que há quem melhor fale esta língua de bárbaros do que a sua própria. § Eu, que não gosto particularmente da cultura britânica nem das suas filhas e enteadas, gostava de ressuscitar a obra intitulada «Vinho do Porto», onde o autor, Camilo Castelo Branco, pôs a nú as indecências dos nossos velhos aliados - os mesmos que, emborcando tanto quanto podiam o nosso vinho fino duriense iam de fininho a Inglaterra cuspir no copo onde bebiam, chamando-nos mimosos nomes de javardos para baixo. «A morte desastrosa do barão de Forrester, em 12 de Maio de 1861, é uma das mais notáveis vinganças que o rio Douro tem exercido sobre os detractores dos seus vinhos», anotou o notável escritor. Anotou e bem que do rio tenha partido semelhante atitude, que não tivesse (compreensivelmente) partido dos seus humanos vizinhos, habituados ao servilismo e aos desmandos estrangeiros. Ainda agora os descendentes desses anglófilos e estrangeirófilos se puseram a jeito para que o Brasil nos substitua o recto pelo reto.