Mas nós, que a nossa idêa e os nossos peitos novos
Trazemos sempre am ancia, á busca de outros céos,
Deixemos que os condemne a maldição dos povos,
E ergamos, toda livre, a fronte para Deus!
Narciso de Lacerda, Elles, 1878
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13 de agosto de 2012
Prenda de verão.
Ainda faltam alguns dias para o meu aniversário, mas esta prenda não podia esperar. Chegou hoje. E valeu a pena a espera.
14 de setembro de 2011
«Cinto que estou cético»: Camilo e o Acordo Ortográfico.
Era no baile natalício do barão de ***. Festejava ele os anos de sua formosa Etelvina, que se morria de amores de um jovem que tinha diferentes gravatas, várias bengalinhas, e um pé muito pequeno, cujo calcanhar assentava num supedâneo, quatro dedos acima do botão da bota. Chamava-se Porfírio, e era céptico, e rico.
Etelvina queria-lhe da alma, e escrevia-lhe pela posta interna cartas, que eram modelo, afora a ortografia. E ele, o céptico, para dizer que o era, escrevia «cinto que estou cético». Corriam parelhas em ortografia, e com parelha que eram, escouceavam a prosódia.
Camilo Castelo Branco, Noites de Lamego, 5.ª edição, 1958, p. 15.
20 de junho de 2011
Pilar-José-Saramago
Eu gosto dos livros de Saramago. Regra geral: são bem escritos, imaginativos e bem estruturados. Têm, contudo, dois defeitos notáveis: são ideologicamente repetitivos e francamente pobres em imagens (simbólicas). Ou seja, quer os romances quer os ensaios de José Saramago não são eruditos e talvez seja esse um dos componentes principais da fórmula do seu sucesso. De resto a maioria das pessoas que disser que adora Saramago, pode ter lido antes a National Geographic, 2 Paulos Coelho e, eventualmente, António Lobo Antunes. Compará-lo a Jorge Luís Borges, por exemplo, - autor que o supera largamente em estilo, erudição e gramática - é inútil. Não se comparam estrelas de grandezas tão diferentes. Mesmo apesar de cada um ter tido uma fiel guardadora. Mas, e daí, também não se pode comparar a simplicidade de Maria Kodama, com a boçal extravagância de Pilar del Rio...
Um outro aspecto do seu sucesso foi ter ganho o Prémio Nobel, atribuído, não pelo valor da obra em si, como sabemos, mas pela ideologia do autor e das suas palavras. Saramago foi um cínico. Cínico dos cínicos, príncipe dos cínicos. Não acreditava em Deus, nem na virgem, nem nos anjos e santos, não acreditava nas religiões, mas acreditava menos ainda nos Homens, na humanidade em geral. Depois de ter sido nobelitado, tornou-se semi-deus no mundo e deus no seu país que entretanto tinha abandonado (juntamente com o português, que castelhanizou). Acreditava em si e na Pilar, às vezes.
14 de junho de 2011
14 de fevereiro de 2011
27 de setembro de 2010
24 de março de 2010
4 de fevereiro de 2010
Alegrias da aurora.
«Gosto da aurora, das sombras roídas pela claridade.
Os telhados do parque tornam-se a pouco e pouco visíveis.
O odor da noite, do suor e dos prazeres de que nos recordamos aos poucos, à medida que nos vamos despindo deles. Pouco a pouco a aparência retomar aos corpos, enquanto os vamos escondendo e maquilhando.
A água fresca sobre os olhos e na garganta.»
Apronenia Avitia
19 de outubro de 2009
Caim ou a inveja do outro.
Na foto José Saramago recebe o Nobel das mãos do Rei da Suécia, a quem faz uma vénia.O respeitinho é muito bom, mesmo para marxistas e republicanos.
Não é o deus do ou no Antigo Testamento que não é muito simpático. Ao que parece (e a memória recente portuguesa é muito selectiva) no rescaldo revolucionário pós-1974 Saramago também não o era. Mas, vamos por partes. Antes da Bíblia ser compilada não existia violência? Por Zeus, Ishtar ou Ahura Mazda! coisa mais ridícula! claro que existia! Os mitos (muitos deles condensados no AT) são, em geral, violentos, arquetípicos de caos e destruição, vingança e inveja. Em suma: da biologia humana. Saramago aparece tarde de mais para nos ensinar o caminho marítimo para a Índia. Mas apesar de ser um cego ideológico, está longe de ser mais um dos estúpidos e néscios de que se compõe o mundo de que falava o Novo Testamento. Saramago, mesmo senil, cadavérico, tristemente marxista e saudosamente leninista sabe quando se deve vergar ante o Rei da Suécia, beijar a mão ao Capitalismo, ou espicaçar as Religiões. É tudo uma questão de timing. Ainda assim, tenho a impressão de que a Bíblia continuará a ser um best-seller, a adoração a Deus prosseguirá e Saramago, morto ou vivo, apenas a lembrança de um nobelitado português.
13 de setembro de 2009
9 de setembro de 2009
Valha-nos Deus que (ainda) alguém escreve e pensa assim!
Acreditar na existência de Deus é tão natural como sentir fome, não se trata de uma invenção propositada de algum homem, pronto vamos lá agora inventar Deus para sermos escravizados por ele e para por meio dele escravizar outros, nada disso. Sempre houve e sempre haverá pessoas que acreditam na existência de Deus, e engana-se Saramago quando pensa que a Igreja Católica se aproxima de uma morte “mais do que previsível” (mais depressa morrerá ele do que cairá um só braço do corpo sagrado da Igreja). A aberração está em se ter a certeza de que Deus não existe, essa é a aberração, não obstante os dados inteligíveis que, através da lógica e da dedução, deitam por terra qualquer tentativa de se negar o inegável. A prova está em que basta dizer que o mero facto de os saramagos não conseguirem enxergar provas da existência de Deus não prova que ele não existe, e que é uma estupidez apropriar-se de meia-dúzia de ideias antagónicas mitológicas ou alegóricas encontradas nos compêndios considerados sagrados para tentar provar com elas que Deus não existe. O absurdo é exactamente esse e não as ideias ou as teorias ou as filosofias ou as teologias ou as parábolas ou as lendas em si; o absurdo é recorrer ao trabalho intelectual sincero de homens do passado e parodiar esse trabalho com o intuito de escarnecer de Deus e de todos os que depositam nele a sua fé e que entendem e reconhecem que ele/ela existe. Grandes são os paroleiros na mediocridade dos seus pensamentos.
De O Caderno de Anti-Saramago
5 de agosto de 2009
O Desnorte.
(...)
Uma primeira característica da retórica de José Sócrates: quando inaugura uma escola, um tribunal, quando celebra as virtudes de uma iniciativa do Governo ou premeia os resultados de tal grupo da sociedade civil, uma ideia surge sempre, reiterada até à exaustão - a ideia de que aquela "é a obra necessária, que vem na hora certa para a modernização do país"; era daquilo "que nós precisávamos, e de que vamos precisar"; e que toda a acção do Governo "vai naquele sentido, porque é o sentido certo, e devemos insistir cada vez mais em acções e iniciativas daquela natureza". E assim por diante batendo sempre na mesma tecla, de tal maneira que ali, a propósito daquele pequeno acontecimento (ou grande, como a inauguração de uma barragem, por exemplo) se concentra todo o sentido da governação socialista.
(...)
Talvez seja esta uma das grandes originalidades de um discurso que, por outro lado, repete sempre as mesma ideias, quase com as mesmas frases, literalmente medíocre, lexicamente pobre, sem rasgos nem surpresas: é o que está constantemente no presente mítico, transformando a obra mais banal num acontecimento de relevância mítica, exemplar, modelar.
(...)
Rejeitando o passado degrado, integrando nele o futuro, o discurso socrático do presente dirige-se a um auditor que suspendeu as suas ideias políticas, as suas escolhas partidárias, os seus conflitos sociais, que neutralizou o seu ser ideológico para se ligar directamente ao chefe, enquanto simples cidadão abstracto.
José Gil - Em busca da identidade - o desnorte.
É realmente uma pena que poucos leiam e entendam José Gil.
Uma primeira característica da retórica de José Sócrates: quando inaugura uma escola, um tribunal, quando celebra as virtudes de uma iniciativa do Governo ou premeia os resultados de tal grupo da sociedade civil, uma ideia surge sempre, reiterada até à exaustão - a ideia de que aquela "é a obra necessária, que vem na hora certa para a modernização do país"; era daquilo "que nós precisávamos, e de que vamos precisar"; e que toda a acção do Governo "vai naquele sentido, porque é o sentido certo, e devemos insistir cada vez mais em acções e iniciativas daquela natureza". E assim por diante batendo sempre na mesma tecla, de tal maneira que ali, a propósito daquele pequeno acontecimento (ou grande, como a inauguração de uma barragem, por exemplo) se concentra todo o sentido da governação socialista.
(...)
Talvez seja esta uma das grandes originalidades de um discurso que, por outro lado, repete sempre as mesma ideias, quase com as mesmas frases, literalmente medíocre, lexicamente pobre, sem rasgos nem surpresas: é o que está constantemente no presente mítico, transformando a obra mais banal num acontecimento de relevância mítica, exemplar, modelar.
(...)
Rejeitando o passado degrado, integrando nele o futuro, o discurso socrático do presente dirige-se a um auditor que suspendeu as suas ideias políticas, as suas escolhas partidárias, os seus conflitos sociais, que neutralizou o seu ser ideológico para se ligar directamente ao chefe, enquanto simples cidadão abstracto.
José Gil - Em busca da identidade - o desnorte.
É realmente uma pena que poucos leiam e entendam José Gil.
1 de junho de 2009
Camiliana I

Eis a recente aquisição para a minha Camiliana. Bom negócio, como o são todos os livros de Camilo Castelo Branco. De resto, esta segunda edição (que no fundo é a primeira, pois foi aumentada com dois contos que não integravam a publicação de 1857) é um hino à ironia crítica e hilariante de CCB. Sigo para Espanha e deixo-vos com algumas palavras desta obra. Até breve.
«O demonio para a convivencia é muito melhor sugeito que o
homem. Se não crêem, leiam o que o padre Vieira prégou no quarto sabbado da
quaresma de 1652:"Hão de vêr que Deus Nosso Senhor, tentado pelo demonio,
venceu o inimigo sem grande esforço; tentado pelo homem, viu-se em apêrtos de
que o salvou a sua divina coragem." Julgaes que o demonio não tenha uma
consummada litteratura com que vos enriqueça o espirito? "O demonio é mais
letrado, mais theologo, mais phylosofo, mais agudo, e mais subtil que todos os
homens". Isto diz o Bossuet portuguez, só não lhe chama "poeta": mais uma razão
para confiarmos no bom-siso do demonio posto que eu muitas vezes pensei que elle
trazia, pelo menos, a pontinha da cauda em algumas brochuras do meu
conhecimento.»
Nota bene: O Obliviário volta a ter comentários e, não sei se alguém reparou, mas no final da página pode aceder a breves linhas que vou enviando do twitter. Estando em viagem usarei um ou outro (blogue ou twitter) para dar notícias do périplo. Uma boa semana a todos.
31 de maio de 2009
Imagem picada daquiOcorreu, recentemente, em Lisboa, uma iniciativa que visava reflectir sobre Afonso Costa, o Robespierre português que a Comissão para as Comemorações para o Centénio da República não tardará em converter num santo cívico, modelado ao serviço de um regime puro e casto. § A propósito desta figura cimeira do republicanismo português, não posso deixar de recomendar a leitura de "Psicografia do Dr. Afonso Costa", escrita por Carlos Malheiro Dias na sua imparcialidade de homem livre (foi regenerador, monárquico liberal admirado pelos republicanos e simpatizante do salazarismo). Neste ensaio CMD disseca o temperamento do deputado que gizou a Lei da Separação, plano último para abate "do maior poder espiritual da terra: a Igreja Católica". Prossegue Malheiro Dias: "A grandeza do adversário engrandecia-o. De esta vez não era com pequenos magistrados intrigantes, com débeis e pálidos inimigos, com uma magistratura humilde ou com preconceitos pusilânimes que se batia. Na sua frente erguia-se o vulto branco, coroado pela teara pontifícia, do Papa, rodeado pela sumptuosidade escarlate dos príncipes cardinalícios do sacro Colégio. Era ao próprio sucessor de S. Pedro que ele, o jacobino saído das forças obscuras da plebe, lançava o repto da sua lei fulminatória, como um Anti-Cristo. Diante de essa colisão decorativa, espectaculosa, a sua ambição frenética deliciava-se, naquele lance espantoso, maior do que Pombal maior do que Cavour. Não podendo, como Napoleão, oferecer-se o embriagador triunfo de aprisionar um pontífice, ele dá-se ao luxo supremo de chamar a sua casa um bispo, depois de expô-lo à conspurcação da plebe demagógica, e em sua casa o interroga, o censura e o condena - não como um esbirro colérico e grosseiro, mas com a calculada gentileza, com a sardónica amabilidade dos tiranos inteligentes, no íntimo grato àquele prelado venerável por lhe haver prestado um ensejo com a sua rebeldia à representação teatral de aquela cena histórica, em que tanto se exaltava o seu orgulho e que tão sensacionalmente patenteava a sua omnipotência.". Nestas brilhantes linhas Carlos Malheiro Dias retrata o clima político da república, dos seus paladinos e das suas ambições - longe dos ideais de fraternidade e igualdade. Em primeiro estava a conquista do poder. Ninguém melhor do que um obscuro, mas ambicioso Afonso Costa para liderar este movimento de batalha e ódio. Um leão que não se satisfaz com as migalhas, como o descreve CMD. Vale a pena ler este texto, escrito em 1911. É uma janela para a República que se vai comemorar em 2010 - durante cem anos preparada, gerida e glorificada por notáveis homens sem escrúpulos como Afonso Costa. - DIAS, Carlos Malheiro - «Psicografia do Dr. Afonso Costa», in DIAS, Carlos Malheiro / Introd. de Mário Mesquita, Lisboa: Vega, 1982, pp. 84-88.
14 de maio de 2009
16 de abril de 2009
Conselho do dia para todos os dias: o elogio da moderação e do silêncio.
"O pior e mais danoso membro, que há no homem é a língua. Nenhuma coisa há mais branda, nem mais áspera, nenhuma mais aparelhada para danar, nem mais dificultosa de refrear. Muitos bens e muitos males nos veio da língua. Portanto pedia David a Deus, que pusesse guarda na sua boca, que ferrolhasse seus beiços, pera que não soltasse mais palavras. É o homem templo de Deus, cuja porta é a boca, que convém estar trancada para não ser roubado o tesouro da moderação de sua língua. Deve-se esconder, e guardar a língua como tesouro, e por isso acercou Deus de beiços, e dentes, como valos e muros, que a segurassem. O muito falar é lodo, e o pouco é ouro. Fala derradeiro e entende primeiro; fala pouco e bem, e ter-te-ão por alguém. O sábio falando se faz néscio, e o néscio calando se faz sábio." Frei Amador de Arrais, Diálogos, I.
14 de abril de 2009
Ridendo castigat mores.
Imagem picada daqui"O que antigamente chamavaõ em Roma Aedicula Ridiculi, era a Ermida, ou Capella do Riso, dous mil passos de Roma pela porta Capena; foy edificada em memoria da fugida de Annibal, quando pelas grandes chuvas, e borrascas se vio obrigado a levantar o sitio, e os Romanos zombáraõ delle com grandes risadas. Naõ foraõ os Romanos os primeiros, que do Riso fizeraõ hum Deos. Na vida de Lycurgo escreve Plutarco, que este Legislador lhe levantára em Lacedemonia huma estatua, e os Hypaheos de Thessalia, todos os annos lhe offereciaõ sacrificios, como tambem os Romanos, na Primavera com grandes gargalhadas. Faz Pausanias mençaõ de hum Deos do Riso, a que os Gregos chamavaõ Theos Gelotos. " Exarado do Vocabulário, de R. Bluteau (1712-1728).
22 de março de 2009
Alguns dos livros que compro trazem anotações, algumas de várias mãos, transformando os alfarrábios amarelados e gastos numa preciosidade maior. As notas à margem são os olhos de cada leitor e em cada página anotada há reflexões de leitores desconhecidos, estudantes nervosos facilmente reconhecidos pelos sublinhados garridos, profundos e trémulos; investigadores espantados com pequenas descobertas; críticos entediados com romances chatos, etc. A minha marca são os 3 pontos de exclamação. E uso frequentemente o sublinhado (sempre a lápis) para marcar uma passagem que deve ser lembrada. Não gosto de livros imaculados, por abrir, ou sem marca de presença. "Livros cerrados não fazem letrados", é a máxima de um livreiro cá do Porto e a que mais se acerca à minha experiência como "bibliófilo". Quanto mais um livro acumula leituras, mais rico é. Às vezes apetece-me deixá-lo num banco de uma carruagem de comboio e imaginar que percurso fará, a partir dali, como nos versos de Pessoa... Tenho livros assinados, carimbados, com datas e notas pouco ortodoxas. Mas poucas vezes me aparecem mensagens como a que encontrei na página 84 da 3ª edição dos Poemas de Alberto Caeiro (edições Ática, 1958). Do lado esquerdo destas estrofes
"Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser."
alguém anotou, a lápis, "reli e chorei em 24/Ag/67". Que extraordinária súmula de tristeza...que coração amargurado teria escrito esta frase? De um verso de Caeiro saímos a procurar alguém que amou e sofreu. Afinal, das grandes banalidades têm saído as obras maiores.
4 de março de 2009
Todas as "Mónicas" que conhecemos.

(...)
"De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
(...)
Sophia de Mello Breyner Andresen
Contos Exemplares
Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª ed.). Ler ou ouvir integralmente: aqui.
23 de novembro de 2008
LibraryThing
Já estou no LibraryThing! De que se trata o LT? Bom, para começar é um poderoso interface de recolha de dados bibliográficos, onde se pode aceder a um conteúdo crescente de edições em formato digital, do tipo google books. Por outro lado reúne bibliófilos de todo o mundo e convida-os a colocarem online as suas bibliotecas (não literalmente, claro) através do ISBN dos livros contribuindo assim para a formação de redes sociais ao nível de temas, assuntos e gostos literários. É certo que as editoras ou as distribuidoras ganham dinheiro com a publicidade, os contributos ao nível de resumo, crítica, etc, mas o leitor e o investigador não deixa de ser contemplado com ferramentas utilíssimas para pesquisa e edição. A partir de agora, juntamente com o acesso aos títulos bibliográficos da minha biblioteca pessoal que estão online aqui, juntam-se outros que introduzi na base de dados do LibraryThing e vão sendo mostrados aleatoriamente na barra lateral deste blogue. Se houver interesse em cópia ou empréstimo a algum leitor, podemos inclusive tratar disso. Basta contactarem-me!
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