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23 de maio de 2017

A Tirania das Redes Sociais

Só quem nunca teve o hábito de ler jornais pode pensar que nas suas páginas se não mente, se não deturpa, se não manipula. A História da Imprensa é uma história de guerrilha, de polémica, de política, de escândalo. Só quem nunca leu Camilo Castelo Branco não sabe que uma das suas primeiras obras foi a reinterpretação da notícia de um crime: «Maria, não me mates que sou tua mãe», ideal para promover a literatura entre aqueles que  só liam as parangonas.
Mas, desde que as redes sociais permitem que o que antigamente era escolhido para ser publicado nas «Cartas ao Director» seja hoje amplamente difundido, passamos de um 4.º poder, para uma tirania de muitos poderes ou, se quisermos, a ascensão de uma 5ª coluna de comentadores, para quem tudo deve ser discutido.
Vem isto a propósito da recente polémica sobre o teor das notícia do Correio da Manhã, jornal e televisão reconhecidos pelo uso de uma violenta estratégia de comunicação em que o importa é espicaçar o voyeurismo dos leitores ante notícias de crimes, boatos ou escândalos morais e sociais. A estratégia funciona, porque se baseia na manipulação de desejos básicos da humanidade, como o sexo. Mas o mesmo canal usado para estimular a observação e a escrutinação do Outro - patologia largamente acalentada pelo Facebook - tornou-se veículo de moralização da Imprensa.
Moralizar a Imprensa é como acreditar em unicórnios. Basta colar um chifre no focinho de um cavalo. Mais tarde ou mais cedo o chifre cai.
O recente caso da publicação de um vídeo de suposta agressão sexual, resultou num coro de crítica da massa facebookiana, acicatada pelos autores da página Truques da Imprensa Portuguesa, coletivo de anónimos justiceiros que pretendem desinfectar o universo mediático português.
A  campanha aumentou de som e perante isso eu, que nem jornalista, sou, resolvi tomar as dores da classe e contactar o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas:

Exm.ºs Senhores
Tenho assistido à evolução dos conteúdos veiculados numa página de Facebook intitulada Truques da Imprensa Portuguesa.
A página, gerida anonimamente, vem constantemente apresentando aquilo que considera ser casos de violação do código deontológico e da ética jornalística, fazendo, assertivamente, acusações e críticas, não poucas vezes sem qualquer respeito pelos intervenientes (sejam os jornalistas directamente visados ou indivíduos de alguma forma associados aos casos «denunciados»).
O anónimo ou colectivo de anónimos que gere a página ufana-se de se substituir às entidades competentes, nomeadamente a ERC e o Conselho deontológico, a que agora me dirijo.
Numa última postagem e vídeo , o autor ou autores, fazendo valer-se do apoio massivo que têm estimulado, sugerem um boicote ao grupo CMTV e CM invocando a ideia de «decência». O tom do vídeo e da mensagem sugere uma espécie de incitamento à violência contra os próprios jornalista ou, pelo menos, um claro apoio à obstrução pública ao seu trabalho.
Como cidadão interessado, sempre crítico com o meu direito à informação e até à não-informação, não posso deixar de deixar aqui o meu protesto.
Se é certo que o jornal, o canal de televisão e os jornalistas em causa têm prestado, quanto a mim, um mau serviço profissional e ético, menos compreendo que um anónimo ou um punhado deles, use de forma cobarde, a incognicidade para alimentar ódio contra-corporativos. E se estes ódios se fundamentam em razões que vão além da informação de qualidade, como parece ser o caso dada a frequência de ataques ciúrgicos a determinados órgãos, temas e jornalistas, mais ainda devo manifestar o meu repúdio.

A resposta não podia ser mais clara:

"A questão que coloca não é assunto que caiba nas competências do CDSJ."

Com jornalistas assim, não se pode pedir muito.

27 de maio de 2012

Morte em efígie.



Em Castro Daire, uma criança deu livre expressão à sua imaginação rebelde: enforcou o primeiro-ministro numa árvore na praça principal da vila. Como o "espantalho" era feito em materiais reciclados e porque resultava da fértil imaginação do petiz, chamou-se àquilo arte. Os tiranetes do costume mandaram (ou, segundo alguns, aconselharam) retirar a efígie que magoava os sentimentos dos camaradas e, talvez, de um ou outro transeunte. Foi notícia nos telejornais. Até parece que os senhores jornalistas não vivem em Portugal. E talvez não vivam mesmo: com certeza a maioria deles nunca viu uma queima do Judas, resquício de anti-semitismos e satirismo político onde o coitado do Judas e ás vezes uma comadre e um compadre - personificando sempre um paladino do poder local ou nacional - é queimado ou arrebentado sob o olhar atento e risonho do Zé Povinho. É óbvio que a criancinha, na sua prematura tendência para a crítica política abusou do tema que lhe era proposto: o de expressar-se com materiais reciclados. Podia tê-lo feito retratando as abelhinhas, as alegres vacas que pastam nos viçosos campos das margens do rio Paiva. Enforcou o primeiro-ministro e leva, por um lado com a palmadinha nas costas de um professor ressabiado e, por outro, com o lápis azul destes autarcas nascidos sob a égide estado-novista. A criancinha, além de precoce, deve ser sobredotada: inspirou-se com certeza no lixo reciclado e a reciclar chamado Imprensa que todos os dias enforca políticos e cidadãos sem o mínimo senso daquilo de diz e faz. Com pais, professores e autarcas assim pode assacar-se-lhe culpa? Com certeza que não.

19 de outubro de 2011

O feminismo fora de moda.

Um tal Paula Cosme Pinto, jornalista do Expresso e, pelos vistos, formada na Escola da Vida, vem com uma azougada crónica gritar contra o pretenso impedimento da ordenação de mulheres no seio da Igreja Católica. O título pergunta "porque raio não podem as mulheres ser padres". Bem, esta incisiva questão merecia uma resposta à altura. Afinal de contas, as mulheres não podem ser padres, porque para tal precisavam de ser homens. Assim sendo só poderão ser madres. Mas deixamos de lado o óbvio e passamos à filosofia desta senhora jornalista. Segundo ela o facto de não se ordenarem mulheres é um sério atentado à dignidade feminina. Chamando à colação inquisidores e outras quejandas parvoíces que se invocam quando se não tem conhecimento de causa sobre as coisas que se criticam, Paula diz que não a apanham na missa. É natural. Se soubesse de liturgia, de História Eclesiástica e de teologia, saberia que o papel da mulher na Igreja e na Religião Católica não é despiciente, nem menor. Saberia, por exemplo, que a vida religiosa feminina nos legou uma das maiores heranças culturais que há memória (v.g. Santa Teresa de Ávila) que apesar de potencialmente um mundo masculino, dentro da basílica de São Pedro repousa uma mulher, ao lado de papas, reis e príncipes e que, só porque não podem celebrar missa as mulheres, leigas ou eclesiásticas, não deixam de poder participar activamente na construção da Igreja. Mas isto, claro, passa ao lado de quem não participa da comunhão religiosa. É por isso que num mundo não ateu, mas indiferente e medíocre, qualquer chavão ou boato infundado assume as proporções de uma certeza. Alguém com a idade da Paula Cosme Pinto que tem no seu C.V. Escola da Vida, devia saber, pelo menos, que a ignorância pode ser um analgésico, mas não é uma bênção.