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1 de fevereiro de 2009

O dia em que os reis morrem.

A veleidade de uns certos justos que dizem que o sangue nada significa têm pouco em conta o seu derramamento. Abater um rei, um chefe de estado é um processo meramente factual num universo de actos burocráticos. A morte de um rei, aliás, é, para esses "homens de estado", um acto de suprema libertação pois segundo eles liberta o povo das grilhetas da tradição, do costume, da desonrosa qualidade de súbditos, para ascenderem à livre condição de cidadãos. § A 1 de Fevereiro de 1908 foram assassinados o Rei e o Príncipe-real e com esta morte odiosa hipotecado o futuro de Portugal. Não é o julgamento da História que consertará o crime horrendo determinado pelos arautos da República que assim inauguraram o novo regime sobre uma poça de sangue e iniquidade. Mas quando, no presente, se preparam comemorações sobre este regime ensanguentado cujos obreiros, por puro ódio, se recusam homenagear os mortos para glorificar os homicidas, nós, monárquicos ou não monárquicos, - todos os que pedem razoabilidade, justiça e humanidade - devemos contribuir para que não caia no esquecimento tão fatídico momento da nossa história. Porque a monarquia é sentimento e é este sentimento que distingue os regimes monárquicos das Repúblicas. Estas procuram o consenso nos números, as monarquias nos laços, nas memórias. Por isso que a arma, para além do punhal ou da carabina, que a República usa para derrubar a monarquia é apontar-lhe os costumes, asseptiza-se para mostrar-se imaculada, quando todos nós sabemos - a República Portuguesa no-lo mostra diariamente - há podridão e aroma fétido neste regime.
Espero que descansem em paz as almas atormentadas de D. Carlos de Bragança e do seu filho Dom Luís Filipe e gostaria de lembrar o apelo de uma mãe que a propaganda facciosa urdiu como a mais devassa das devassas: Maria Antonieta, mulher de Luís XVI, executada sumariamente depois de vilipendiada e acusada dos mais infames crimes.
É a carta de uma mulher e de uma mãe. Como D. Amélia, que viu morrer o filho à sua frente pela única e monstruosa razão: a razão de um estado, um estado de poucos imposto a muitos.

"Ce 16 octobre, à quatre heures et demie du matin.
C’est à vous, ma soeur, que j’écris pour la dernière fois. Je viens d’être condamnée, non pas à une mort honteuse – elle ne l’est que pour les criminels, mais à aller rejoindre votre frère. Comme lui innocente j’espère montrer la même fermeté que lui dans ses derniers moments. Je suis calme comme on l’est quand la conscience ne reproche rien. J’ai un profond regret d’abandonner mes pauvres enfants. Vous savez que je n’existais que pour eux et vous, ma bonne et tendre soeur, vous qui avez par votre amitié tout sacrifié pour être avec nous, dans quelle position je vous laisse ! J’ai appris par le plaidoyer même du procès que ma fille était séparée de vous. Hélas ! la pauvre enfant, je n’ose pas lui écrire, elle ne recevrait pas ma lettre, je ne sais pas même si celle-ci vous parviendra. Recevez pour eux deux ici ma bénédiction ; j’espère qu’un jour, lorsqu’ils seront plus grands, ils pourront se réunir avec vous et jouir en entier de vos tendres soins. Qu’ils pensent tous deux à ce que je n’ai cessé de leur inspirer : que les principes et l’exécution exacte de ses devoirs sont la première base de la vie, que leur amitié et leur confiance mutuelle en fera le bonheur. Que ma fille sente qu’à l’âge qu’elle a, elle doit toujours aider son frère par les conseils que l’expérience qu’elle aura de plus que lui et son amitié pourront lui inspirer ; que mon fils, à son tour, rende à sa soeur tous les soins, les services que l'amitié peuvent inspirer ; qu’ils sentent enfin tous deux que dans quelque position où ils pourront se trouver ils ne seront vraiment heureux que par leur union ; qu’ils prennent exemple de nous. Combien, dans nos malheurs, notre amitié nous a donné de consolation ! Et dans le bonheur on jouit doublement quand on peut le partager avec un ami, et où en trouver de plus tendre, de plus uni que dans sa propre famille ? Que mon fils n’oublie jamais les derniers mots de son père que je lui répète expressément : qu’il ne cherche jamais à venger notre mort.
J’ai à vous parler d’une chose bien pénible à mon coeur. Je sais combien cet enfant doit vous avoir fait de la peine. Pardonnez-lui, ma chère soeur, pensez à l’âge qu’il a et combien il est facile de faire dire à un enfant ce qu’on veut et même ce qu’il ne comprend pas. Un jour viendra, j’espère, où il ne sentira que mieux le prix de vos bontés et de votre tendresse pour tous deux. Il me reste à vous confier encore mes dernières pensées. J’aurais voulu les écrire dès le commencement du procès, mais, outre qu’on ne me laissait pas écrire, la marche a été si rapide que je n’en aurais réellement pas eu le temps.
Je meurs dans la religion catholique, apostolique et romaine, dans celle de mes pères, dans celle où j’ai été élevée et que j’ai toujours professée, n’ayant aucune consolation spirituelle à attendre, ne sachant pas s’il existe encore ici des prêtres de cette religion, et même le lieu où je suis les exposerait trop s’ils y entraient une fois. Je demande sincèrement pardon à Dieu de toutes les fautes que j’ai pu commettre depuis que j’existe ; j’espère que, dans sa bonté, il voudra bien recevoir mes derniers voeux, ainsi que ceux que je fais depuis longtemps pour qu’il veuille bien recevoir mon âme dans sa miséricorde et sa bonté. Je demande pardon à tous ceux que je connais et à vous, ma soeur, en particulier, de toutes les peines que, sans le vouloir, j’aurais pu leur causer. Je pardonne à tous mes ennemis le mal qu’ils m’ont fait. Je dis ici adieu à mes tantes et à tous mes frères et soeurs. J’avais des amis, l’idée d’en être séparée pour jamais et leurs peines sont un des plus grands regrets que j’emporte en mourant ; qu’ils sachent du moins que, jusqu’à mon dernier moment, j’ai pensé à eux.
Adieu, ma bonne et tendre soeur ; puisse cette lettre vous arriver. Pensez toujours à moi ; je vous embrasse de tout mon coeur ainsi que ces pauvres et chers enfants. Mon Dieu, qu’il est déchirant de les quitter pour toujours ! Adieu, adieu ! je ne vais plus m’occuper que de mes devoirs spirituels. Comme je ne suis pas libre dans mes actions, on m’amènera peut-être un prêtre ; mais je proteste ici que je ne lui dirai pas un mot et que je le traiterai comme un être absolument étranger."
§
No dia em que os reis e as rainhas morrem, morre com eles uma complexidade de afectos. E os afectos não se plebiscitam, nem se contabilizam. São a soma das relações Humanas.

17 de janeiro de 2009

A ocidente nada de novo.

Caíram, como zangões num ataque eminente, sobre o Cardeal Patriarca de Lisboa a propósito das declarações que proferiu no Casino da Figueira da Foz. Efectivamente, o que ele disse foi claramente descontextualizado pela Comunicação Social que aproveitou para atear o rastilho. Falar no Islão, hoje em dia, como todos sabemos, é provocar reacções desesperadas e esquizofrénicas, de tal forma que a banalidade de toda a intervenção ocasionou um chorrilho de notícias estrangeiras (cf. aqui). O José Adelino Maltez, refugiando-se no seu jacobinismo, aponta mais o rídiculo do que propriamente a gravidade dos ditos, algo que eu gostaria de sublinhar. Há muito que um certo sentido do decoro se perdeu em alguns sectores da Igreja Católica. Padres que esquecem a obediência ao antístite, bispos pouco "iluminados" e, pelo meio, leigos mais ou menos deseperados por ocupar o lugar de destaque da paróquia ou da diocese fazendo tudo para lá chegar. Este é o estado da arte na ICP. Excluídas Lisboa, Porto ou Braga, as outras dioceses são incapazes de catalisar ou congregar elites culturais e de pensamento social. Por isso fiquei chocado com as declarações, por virem de quem vieram. Não fiquei indignado, como os falsos moralistas da praça que vieram pedir a cabeça do Cardeal Patriarca - pretenso arauto de novas Cruzadas -, mas tão-só, e apenas, indignado. § Como é possível que alguém se apresse a criticar as afirmações de D. José Policarpo, mas viva alegremente com a consciência de milhares de mulheres silenciadas, escondidas atrás de panos e paredes apenas por caprichos masculinos que buscam num deus a desculpa para a sua apetência sem limites? É óbvio que embora impulsivas e impensadas, as declarações do Cardeal têm a sua razão e são, na generalidade, verdadeiras. Não estava na conferência e não assisti em que contexto foram proferidas, limito-me a analisar o que a imprensa me deixa analisar. A plateia riu várias vezes com os tais comentários - o riso é uma forma de escape e conivência. Mais graves foram os comentários sobre a homossexualidade (onde se viu um D. José atrapalhado e pouco à vontade) e quanto a isso muito pouco se disse - nisto está a distância e a importância aos, e de conteúdos. A comunicação social não se pauta por cumprir uma função de interesse público, se não a lógica de políticas empresariais e ideológicas. E quando os ventos correm de feição a jacobinismos primários, a Igreja é sempre o primeiro alvo a abater. § P.S. Não me cabe defender a instituição-Igreja. Sabe Deus (fina ironia) a pouca consideração que alguns homens da Igreja terão por mim e pelo meu trabalho. Mas não há dúvida que o grande passo a dar não é modernizar o aparelho, se não cultivar os homens que o regem. Foi assim que se fizeram grandes, doutos e proventura santos, Agostinho de Hipona e Teresa de Ávila. Eles e outros são o exemplo de abnegação, tolerância, interculturidade e todos os palavrões compostos que hoje se usam para justificar uniões precárias entre mundos diversos.

20 de dezembro de 2008

O Simplex cerebral.



Muitos dias a correr para a Loja do Cidadão. Muitas horas a preencher papéis; muitos papéis para outros preencherem, - como o atestado de robustez física que é, provavelmente, o documento menos utilitário e mais irracional que o Simplex ainda mantém. Em suma, o Simplex de Sócrates funciona em pleno: mantém os cidadãos distraídos, os funcionários públicos ocupados e o país lá roda, roda, como o burro na nora. § Entretanto, num país paralelo, não sei se acima, se abaixo deste, se nas profundezas cálidas do Inferno, se nas nuvens fofas e espessas do Céu, roubam-se os bancos e os clientes, os políticos fogem à crise, sobretudo às sextas-feiras e os outros, todos nós comuns mortais (dos quais se excluem alguns futebolistas, juízes e casais McCann) lá vamos rindo e cantando. Grécia? Não, aquilo é lá com eles. Os nossos jovens sabem pouco de política. É mais playstation, Morangos com Açucar e uns copos no Bairro ou na Ribeira. Estes cerebrozinhos obesos embebidos em álcool não vão longe como os seus congéneres gregos, a não ser que, por acidente, se lhes ateie a cabeça encharcada do alcoól como um cocktail molotov Mas nunca será pelas mesmas razões. Ainda não têm fome, nem emprego (nem precisam), nem lhes falta de gasolina para o picanço, a corrida às discotecas. As lojas estão cheias e eles sempre na moda. Já há laca para cabelos de rapazes, as calças abaixo das nádegas, os brincos de prata de lei e isto quanto a eles, pois nem sequer concebo meninas de unhas vidradas a atirar pedregulhos à polícia de choque. Dizem-me: lá chegaremos. Não, não acredito. Este país de brandos costumes gosta de arder em lume brando. Apodrece e regenera. É assim há muitos anos e vais continuar a sê-lo por muitos mais. O nosso cocktail é o das festas e o molotov o do fogo de artifício do Ano Novo que se aproxima. Venha 2009. Tudo está bem quando acaba bem.

12 de junho de 2008

A excessiva partidarização da democracia e o silêncio da verdade: ideias, não ideologias.

Já há algum tempo atrás que, em conversa com amigos, tem surgido a discussão sobre a necessidade de outro partido em Portugal. De todas as vezes tenho insistido no meu ponto de vista: a democracia, tal como está, repleta de clivagens ideológicas e em alguns casos à beira do abismo, pode ser salva pela entrega do poder ao povo. É óbvio que não digo isto numa perspectiva marxista. Digo-o com a necessidade de transferir a dominante cartelização em que se transformou o sistema democrático através dos partidos políticos, para o indivíduo comum. Talvez no caso de Portugal não estejamos suficientemente maduros para aceitar tal conversão. Mas de certeza que, se deixássemos este rotativismo miserável que traz este país no fio da navalha numa pluralidade consensual de opiniões, e de intervenção directa do cidadão - uma meritocracia em vez de uma mediocracia política - talvez o desinteresse da juventude nestas matérias não espantasse o Sr. Silva, filho do gasolineiro que nas horas livres come bolo-rei e diz disparates. Eu queria ver a coragem de um país que na sua assembleia de cidadãos efectivamente os ouvisse e deliberasse, não com base em orientações partidárias, mas em valores individuais e (ou) colectivos que exteriorizassem não ideologias, mas ideias. Deixo aos politólogos e a todos os teóricos da internet (a maioria dos blogues que eu leio todos os dias poderia dar uma ajuda) na concepção de uma sistema que admitisse esta distribuição do poder político unipessoal em detrimento do partidarismo obsoleto e condicionador. Eu, pela minha parte, gostava de poder lançar o desafio a quem pensa em agrupar-se para trabalhar por um país melhor: agrupem-se, sim, para pensarem por si e não pela cartilha de grupos ideológicos ou partidários. Se for para poder reconstruir este sistema de lóbis e cartéis, contem comigo. Caso contrário, um partido a mais ou a menos é só um partido.