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24 de março de 2009

Tendais (ao centro a torre sineira da igreja matriz)
(c) N.R.


Nestes dias, por força do meu ofício, têm passado pelos meus olhos centenas, se não mesmo milhares, de nomes de indivíduos que outrora habitaram casas, lugares, quintas e casais de uma extensa região entre o Porto e Lamego. Nesse percurso de folhas que eu já percorri de comboio tantas vezes, de carro em incontáveis idas e voltas e em pensamento sempre que posso, ocorreu lembrar-me do meu quinto avô, Félix Pereira, que foi enjeitado na roda do Porto por volta de 1730. Calculei esta data a partir do seu casamento que ocorreu na paróquia de Santa Cristina de Tendais a 25 de Janeiro de 1762. Teria, portanto, cerca de 30 anos quando desposou Maria da Mouta, do lugarejo de Vila de Muros. Fui à procura do seu nascimento, crente que, sendo o seu nome pouco comum por terras de Cinfães, o encontraria rapidamente. Os livros da Misericórdia que eu corri durante um dia numa cave bafienta de um arquivo do Porto, foram muito claros quanto à identificação do meu longínquo avô: se Félix era nome raro nas serranias de Tendais, era-o menos no burgo portuense de setecentos. Sem uma pista concreta, apontei o nome de todos os Félix enjeitados na primeira metade do século XVIII aguardando o dia em que o acaso me traga uma pista para resgate da memória do seu nascimento. § Dentre todos os meus avós devidamente identificados, ascendentes legítimos e ilegítimos, fidalgos e plebeus, este é um dos que mais me faz pensar. Muito embora não saiba em que circunstâncias nasceu, nem quem foram os seus pais (muito menos porque foi abandonado à sorte de rodeiras e amas), sempre me perguntei por que razão, tendo ele nascido no Porto, foi terminar os seus dias a Tendais. No século XVIII, porém, a relação entre a zona ribeirinha de Cinfães e o Porto, derivada do florescente tráfego comercial, era mais evidente do que nos dias de hoje. Das margens do Douro escoava-se vinho e sumagre, castanha, carqueja e urze ou carvão feito a partir das raízes deste arbusto. A fluidez do intercâmbio comercial ditava a dinâmica das relações sociais. Não admira, pois, que entre negócios, caminhos de foros e rendas, Félix Pereira, enjeitado da roda do Porto, viesse, por vias travessas, casar com uma senhora de Tendais. E não casou mal. Num universo marginal de filhos ilegítimos, espúrios e (ou) bastardos, engeitados e órfãos, onde o estigma de não pertencer a qualquer estatuto poderia prejudicar a ascensão social, é possível encontrar muitos casos destes, de «bons» casamentos ou matrimónios morganáticos. Maria da Mouta (1742-1809) pertencia à elite da governança municipal de Tendais. Era bisneta de um Capitão-mor e descendia, dentre vários avoengos ilustres, de um tal Francisco Maldonado, por alcunha o castelhano, nobre de Salamanca cuja filha casou em Portugal. Teria sido o casamento de Félix e Maria um casamento de amor? É provável. Seja como for, Félix Pereira devia ser homem aplicado na gestão do seu património e do da sua mulher. Em três gerações os « Pereira Félix» tornaram-se maiores proprietários em Tendais, consorciando os seus filhos com «boa gente» do concelho. E «regressaram» ao Porto: um neto, José Pereira Félix, casou com Augusta de Sousa, cuja filha Vitória Augusta de Adelaide e Sousa fundou o Café Brasil, no Passeio de São Lázaro, frequentado, primeiro pela burguesia oriental da cidade e depois por republicanos e resistentes à ditadura de Salazar. O tio materno desta fora um dos Abades de Miragaia. O café passou ao sobrinho Tibúrcio de Resende e Sousa, inflamado republicano que renegara os costados paternos, repleto de miguelistas e morgados conservadores. § Ainda conheci a sua filha, prima direita do meu avô, estimada escritora e poetisa, que muito contribuiu para que pudesse conhecer estas ligações familiares tantas vezes ocultas nos documentos e pelas fotografias. § Onde o meu quinto avô me levou....as nossas memórias nem sempre se perdem por caminhos que conhecemos, mas por outros que desejamos conhecer. É por isto que gosto da genealogia, pelo seu lado humano e dinâmico do conhecimento de nós próprios e de quem nos rodeia.

29 de abril de 2008

Sangue pobre em oxigénio.

Na foto, o senhor Dom Augusto, Conde de Albuquerque,
na sua propriedade dos Açores, retirada daqui.


Apenas cheguei a Portugal pude maravilhar-me com uma reportagem da sic transmitida domingo à noite sob o título «Sangue Azul» (podem vê-la, na íntegra, aqui). Um punhado de aristocratas titulados (eram eles o Conde de Albuquerque, o Marquês de Fronteira, a Duquesa de Cadaval, o Conde de Calheiros e o Marquês de Abrantes) provenientes de vários pontos do país discursava sobre a sua etérea condição de nobres adiados, numa república que os tolera entre a compaixão e o desprezo. Fiquei petrificado com tudo aquilo (que é o mesmo que dizer que se me gelou o pouco sangue azul que tenho nas veias), mas a jornalista, ainda que tenha batido às portas erradas, explicou (mesmo sem o saber) muitas das razões que levaram o nosso movimento monárquico a ter sido mal gerido, durante anos, por gente como esta - alheada e realmente sufocada pelo sangue venoso em excesso que lhes corre nas veias. § O Camilo dizia que a genealogia era «uma ciência em que se distinguem muitos parvos» (Vinho do Porto), e de facto assim é. Ao invés de servir o estudo histórico, social e familiar, a genealogia tem sido usada para compilar listagens de nomes e apelidos, numa profusão de mentiras ou não-verdades que, sem método ou objecto, apenas servem descendentes ou aspirantes a fidalgos. § É um facto que a Casa de Cadaval, ou a de Fronteira desempenham ainda um papel determinante na sociedade portuguesa, proporcionando ao público o acesso às artes e à cultura. Mas os seus representantes são o produto de uma construção idealizada que parece desajustada ao nosso tempo. O ar blasé, o caminhar em bicos dos pés, peito para fora e ar enfadado dá a esta gente uma pincelada demodé e pobremente arrogante que já não cabe na sociedade dos dias de hoje. § Eu sou pela nobreza, acho-a absolutamente necessária - e não em venham com a conversa da igualdade. Perante a lei e o nosso semelhante somos todos iguais, sem prevalência de um sobre o outro e vice-versa. Mas não tentem escamotear a verdade: se fomos todos iguais (algo que nem a biologia ratifica) seria impossível a ideia de progresso, em qualquer uma das suas acepções. Mas a nobreza, mais do que herdada, deve ser merecida. E pela amostra, da qual se destacaram, pela positiva, dois ou três exemplares desta fauna, parece-me que a maioria recebeu mais do que aquilo que dá. 

Grande Reportagem: "Sangue Azul" Jornalista: Susana André Imagem: Fernando Silva, Pedro Góis, Vitor Quental Montagem: Marco Carrasqueira Grafismo: Cláudia Ganhão Produção: Isabel Mendonça e João Nuno Assunção Coordenação: Cândida Pinto Direcção: Alcides Vieira