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30 de março de 2017

O herói anódino.


Narciso: a imagem do «herói moderno». Pintura de J. William Waterhouse (1903). Walker Art Gallery, Liverpool


Não adianta discutir sobre heróis. Heróis são heróis, uns salvam pessoas, outros salvam-se a eles e outros não salvam ninguém. Mas há uma qualidade nos heróis que é discutível: a sua capacidade para gerar consensos.
Tivemos imensos heróis na História de Portugal. Aliás, deve-se aos heróis a construção efectiva e memorialística do país. O que seria de Portugal sem Afonso Henriques, Nuno Álvares Pereira, Vasco da Gama, Serpa Pinto, ou o soldado Milhões. Cada um deles foi, como o dicionário indica, um indivíduo que se destacou por um ato de extraordinária coragem, valentia, força de carácter, ou outra qualidade considerada notável.
É óbvio que os heróis o são mais ou menos, consoante os homens do seu tempo e consoante o que querem quem depois deles vem. Há heróis grandiosos que caíram em desgraça depois da morte, outros ainda em vida. Mas todos, em algum momento, foram reconhecidos, quer pela tal força de carácter, quer pela obra que deixaram: Afonso Henriques e Nuno Álvares Pereira, um país; Vasco da Gama e Serpa Pinto, conhecimento, o soldado Milhões, exemplo de coragem e valentia.
Os grandes heróis da mitologia e da história destacaram-se sempre pela força física e até pelo confronto, salvaguardando contudo, os interesses dos seus que nele se reviam.
Há, porém, um novo herói que nasce hoje. Não deixa de superar-se fisicamente, não deixa de reunir as condições de um indivíduo combativo, mas veste nova roupagem.
Além de procurar vencer, não tem ideais, é civicamente anódino e os combates que trava são meros exercícios dramatúrgicos, em que participa a troco de bom dinheiro. É narcísico e até misógino.
Heróis assim, o mais parecidos com este tipo, só eventualmente os gladiadores batalhavam por vida e morte. Estes novos heróis, porém, lutam apenas pela boa vida.
Mas o que distancia um herói moderno, dos velhos heróis da História é a falta de força de carácter dos primeiros.
Para ser herói, não basta construir uma imagem de herói. É preciso aceitar o lado humano que quem se supera para se afirmar.

18 de junho de 2012

O futebol e a religião.

Conheço ateus empedernidos que falam da Igreja (como se o catolicismo fosse a única religião) com um ódio que se sente. E depois são fanáticos por futebol. Não entendo, não consigo compreender. Mas e daí sou pouco tolerante com duas coisas: o fumo do tabaco e o futebol. Até alcanço a ideia do entretenimento, mas quando alguém se deixa levar por uma máquina que envolve tudo menos jogo ou diversão (apenas dinheiro concentrado na mão de poucos) não consigo que me façam entender a ideia de gritar por um conjunto de rapazes atrás de uma bola. Mais ainda quando quem grita é um fervoroso adepto da razão e da lógica, de tal forma que a ideia de Deus para ele é absurda. E tomar as dores de miúdos ricos, mimados e estúpidos não é?

19 de agosto de 2010

Este querido mês de Agosto: notas soltas (2)

Ódio, Igreja e Bispos na I República.
Um artigo a ler para que não se pense, como pensam alguns Católicos, leigos e eclesiásticos, que a I República «libertou» a Igreja. A única que coisa que libertou foi o «Inferno» anti-cerical e odioso que hoje regressa em força, mesmo apesar de alguns bispos o consentirem com o seu beneplácito sobre as Comemorações acintosas do Regime. Sic Transit Gloria Ecclesia.

O gosto pela ignorância.

De como nos dias que correm é preferível explicar às crianças que a cena da luta no topo do Monumento às Guerras Peninsulares representa um jogo de futebol entre o Sporting e o Benfica e não a resistência da Ibéria ao invasor francês. De resto, que interessa saber que a Águia é historicamente um símbolo Imperial, se o resultado é o mesmo quando aplicado a um clube desportivo?

A Maçonaria e a Carbonária
A. Balbino Caldeira faz uma incursão pela análise histórica e documental sobre a participação de grupos secretos no derrube da Monarquia e termina com esta conclusão:

Todavia, os regimes não são, nem têm de ser, a sua génese. A República não é um regime iníquo por ter sido o resultado da insurreição maçónica, nem os novos regimes maus, em si, pela origem ou pelo carácter dos grupos ou indivíduos que promovem as revoluções que os criam ou pelos crimes que no seu processo são cometidos. Na mesma perspectiva, os regimes também não são propriedade dos grupos, ou dos homens, que lideram as revoluções que os constituem: devem ser o produto consolidado da vontade popular. A República e a Democracia, tal como o Estado português, não são propriedade da Maçonaria, nem de nenhuma sociedade secreta ou discreta. Portugal é do povo. Todo.

Concordo. Mas se a República nasceu torta, ainda se não endireitou. Primeiro a República Portuguesa não foi consolidada pela vontade popular. A Primeira foi desastrosa e a Segunda uma negação completa da Liberdade Individual e Colectiva. Referendo nunca houve, nem haverá. E quanto ao facto de a República, a Democracia ou o Estado não serem propriedade de grupelhos secretos, não posso concordar. Basta olhar em redor de nós: Justiça, Comunicação Social, etc são geridos por homens e por grupos. Com interesses. Neste caso e cada vez mais o todo é de partes.

A obra gloriosa, bla bla bla da República.

Nesta estória da República, em ano de bambochatas, todos têm algo a dizer e a opinar. Os escaparates estão cheio de novelas, romances, ensaios, reedições, edições vulgares e de luxo. Nunca se escreveu tanto sobre o republicanismo em Portugal. Mas se a maioria vai e vem, existem duas vestais que guardam o fogo sagrado da República Portuguesa no seu coração. São da velha guarda, de pele ressecida, óculo forte e punho cerrado. Não ouso dizer o nome de tais sacerdotisas, mas não posso deixar de louvar-lhes a dedicação. Uma dessas velhas parcas escreve hoje um artigo sobre a qualidade dos chefes suicidas da revolução de Outubro, a outra escreve qualquer coisa amanhã.

A conversa do pobrete e do alegrete
Tristemente hedionda este discurso de Mendes Bota sobre as qualidades popularuchas de Pedro Passos Coelho. Deve ser por isso que o PSD está cada vez mais miserável. Triste sina.

Nota final:
É curioso como os pelos da opinião blogueira se eriçam todos ao mesmo tempo e no mesmo sentido quando surge a grande discussão sobre os escaparates da comunicação social: incêndios, escolas, etc e ninguém pára um bocadinho para pensar que as coisas nem sempre são a preto e branco. Que há incêndios importantes para a renovação de ecossistemas (quando não coloquem a vida de humanos em risco), que há escolas cujo destino é esse, o fecharem por faltam de alunos e por ausência de um planeamento social e urbanístico adequado aos últimos 30 anos. Estou a ser simplista, eu sei. Mas se, em vez de canalizarmos a fúria a quente para os executores, pensarmos um pouco antes, talvez cheguemos a esse estádio que levaria a Humanidade a melhor caminho: o da serenidade.

1 de junho de 2008

E se boicotássemos o futebol?

Todo o santo dia os canais portugueses debitaram futilidades sobre futebol. Nem parece que estamos a atravessar uma crise. Um senhor, daqueles afoitos que vieram do interior profundo para ver a selecção nacional, disse que o que mais queria era que Portugal ganhasse o Europeu. Não quer melhores salários, nem que o preço dos combustíveis desça. Quer que a selecção ganhe. Os portugueses não querem, afinal, melhoria de vida - desejam ardentemente que um grupo de privilegiados, na maior parte pseudo-adultos que não passaram a fase da adolescência e a quem, todos os meses, é passado um cheque em branco, ganhem um jogo de futebol. Que metam uma bola numa baliza. Que dêem um chuto numa bola. Um pedaço de pele sintética cosida a rolar na erva. Um jogo. E aqui, perto da realidade, há desemprego, há fome, há angústia, há pobreza, há velhice, há solidão, há famílias desestruturadas, há marginalidade, e há exclusão. § Uma bola...? § Nos últimos dias tenho sido bombardeado com mensagens a apelar ao boicote das empresas petrolíferas - eu, que nem conduzo. Não seria melhor boicotarmos o futebol?