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20 de março de 2009




Entre os meus "impulsos" consumistas e alfarrabísticos estão os retratos fotográficos e as cartas. Por razões que ultrapassam em muito a análise do processo heurístico. Seduzem-me os rostos e os fragmentos de um discurso interrompido. Em ambos os casos, quer no das fotografias, quer no da correspondência pessoal, esvaziaram-se os elos físicos que ligavam emissores e receptores, ouvintes e falantes. Eu, por muito que tente, nunca saberei o "porquê", ainda que prescrute sinais do "onde" e do "como". Não é como reconstruir um vaso partido cuja quebra foi fixada por camadas e camadas de terra - o "vaso" a que me refiro era constituído por indivíduos e cada um deles, na sua morte, ocultou o invólucro, deixando apenas vaga ideia da sua forma, do seu uso e dos seus significados. E, no entanto, ali está o morgado, face serena mas inquieta, acompanhado pelos seus quatros filhos, encaminhados, talvez, para uma carreira nas letras representada pelos livros colocados de forma tão aleatória como simbólica. A mãos nos ombros, a posição ordenada do filho mais novo para o mais velho, peças organizadas num cenário montado sobre um cartão (no fundo, a sociedade do seu tempo) e cada um deles a olhar para nós numa iminência de diálogo que, tão tristemente, acaba num monólogo interior. "Família do Douro, Armamar (?)"; positivo sobre papel, séc. XIX (finais), col. particular (adquirido num alfarrabista do Porto, a 17-3-2009.

13 de fevereiro de 2009

11 de fevereiro de 2009

Vista da acrópole de Viseu com a
igreja do seminário em primeiro plano
(c) N.R.
Gradeamento de corrimão de inspiração Arte Nova
numa vivenda de 1907. Rua Alexandre Herculano,
Viseu (c) N.R.

27 de novembro de 2008

Nos tempos que correm...

"O Rei surge como a única força que no País ainda vive e opera."
Eça de Queirós, referindo-se a Dom Carlos I, um vencido da vida. Quem vive e opera, hoje?



...sabe bem recolhermo-nos na leitura dos pensamentos dos Vencidos da Vida. A razão estava e está do lado deles.


Combater apenas o analfabetismo do povo por meio de escolas primárias e de escolas infantis sem religião e sem Deus, não é salvar uma civilização, é derruí-la pela base por meio do pedantismo da incompetência, da materialização dos sentimentos e do envenenamento das ideias. Quem ignora hoje que foi a perseguição religiosa e o domínio mental da escola laica o que retalhou e fraccionou em França a alma da nação? Quem é que nesse tão amado, tão generoso e tão atribulado país não está vendo hoje objectivar-se praticamente o profético aforismo de Le Bon: «É sobretudo depois de destruídos os deuses que se reconhece a utilidade deles»!

10 de novembro de 2008

A última Mãe de Portugal.


Exposição a abrir no próximo dia 20 de Novembro,
na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa.

Mais informações, aqui.

15 de junho de 2008

2 de junho de 2008

Camilo Castelo Branco (1825-1890)

N.R. (c) Seide, 1998




“Sou o cadáver representante dum nome que teve alguma reputação gloriosa neste país, durante quarenta anos de trabalho… Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego”.


Passaram ontem cento e dezoito ano sobre o suicídio de Camilo. Na foto, a casa de São Miguel de Seide, onde fui pela primeira vez em 1998, quando estudava em Braga. É um dos locais mais belos, mais calmos e mais especiais que conheço em todo o Minho. Escrevinha lá o espírito de Camilo e o único som que se ouve é o do atrito da sua pena sobre o papel. A morte do escritor sucede pouco tempo depois do Ultimatum Inglês - vejo-a como uma morte ritual, simbólica, depois de um lento agonizar de um lento fechar de olhos. Camilo Castelo Branco acabou com a sua vida a 1 de Junho de 1890. Esse ano foi também o início do fim de uma ideia de Portugal.

1 de junho de 2008

Havemos de ir a Viana.

N.R. (c) 2008, Viana do Castelo


Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.


Pedro Homem de Melo

12 de maio de 2008

Uma foto e um café.


No café [Lusitano] (2005), N.R.

Sim, não posso deixar de estar um bocadinho orgulhoso. A foto acima  - intitulada "No café" - foi incluída no livro Olhares, com outras 94. O livro vai ser apresentado no próximo dia 31 de Maio em Viana do Castelo. Enfim, para um amador é uma honra. Lá estarei.

5 de fevereiro de 2008

«Peregrinações»


«Beijo difuso», Madrid, 2007 (c) Nuno R.



A convite da Editora Arauto e da Culturminho, levei algumas das minhas fotografias a Braga, para uma exposição que intitulei «Peregrinações». Abriu dia 1 de Fevereiro e estará patente até final deste mês. Na rua de Santa Margarida, 225, horário de expediente. Apareçam por lá.

4 de janeiro de 2008

Constatação segunda sobre Roma.

Todos os caminhos vão lá dar. Mas todos os caminhos em Roma confluem em nós com os outros.

P.S. Obrigado ao «Viajante», pela fotografia.

12 de dezembro de 2007

Ela vai para Lamego?

Rossio, Lamego (2005) (c) N.R.

“-Ela vai para Lamego?
-Sim, vai para o Convento das Chagas.”

Camilo Castelo Branco, O retrato de Ricardina

Eu também vou, estarei por lá até sexta-feira.

Na foto o «velho» Rossio: “A românica torre da Sé projectava uma sombra torva sobre o Rossio, que era o coração da cidade. Ali desembocavam as diligências das longas estradas reais, em número que permitia às malvas e à relva crescer e atapetar o largo. O Seminário, o Paço, a Sé com pórticos de arquivoltas múltiplas, de fina lavra, um solar, destituído, soberbo de cantaria, e os muros vão de um palácio delimitavam-no como a um claustro” escreveu Aquilino Ribeiro em Via sinuosa.

10 de dezembro de 2007

Poe e os Remédios.



Por falar em Edgar Allan Poe.
«Li-o», pela primeira vez, em 1994. Tinha 15 anos e estava na idade e no local ideal para o fazer: Lamego. A adolescência é o período gótico da alma, por excelência, em que os nossos pensamentos se arrastam entre as inevitáveis desilusões do amor (e do sentido do amor) e a incapacidade imaterial de tragarmos o mundo de uma vez só. Lamego, então como hoje, exacerbava o romantismo, acentuado pelas pedras gastas, a mata do santuário, onde me sentava a devorar os livros requisitados na biblioteca local, uma extensão patrocinada pela Gulbenkian, que ainda hoje existe tal qual a conheci há mais de 10 anos.
Comecei pelos contos, mas foi o poema «O Corvo» que me puxou para o universo demencial e terrivelmente atraente de Poe.

Relei-o hoje com a nostalgia de então:

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Copiado de Wikipédia. Em português, existe a edição que possuo, da colecção Mínima (2), da Ulmeiro (3.ª edição, 1995) ISBN: 972-706-247-4