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23 de maio de 2010

Derivações.

Não aprecio ser subestimado. Creio que ninguém apreciará. Não se trata de uma questão de sobranceria. O respeito pelo saber individual está devidamente consagrado na Declaração dos Direitos Humanos e nas Constituições. O marceneiro não gosta que lhe corrijam o aplainar ou teçam considerações teóricas sobre o ensamblamento, o cientista, com provas dadas em determinada pesquisa, não gosta de ser posto em causa na sua área, por quem é alheio à questão. Já utilizei e volto a utilizar esta expressão: "quem manda ao sapateiro tocar rabecão?"

Vivemos um tempo de certezas absolutas. Uns têm certeza de tudo, são os tudólogos, o país está cheio deles. Outros cheios de certezas de nada, que são os políticos. Entre uns e outros, temos uma sociedade marimbista e de cegos, onde quem tem um olho reina.

O facebook é o exemplo deste maniqueísmo. Neste espaço imaterial, onde se peca sempre por excesso, a razão não tem sentido, a ética não vale um chavo furado e a reciprocidade não existe. Voyeurs, predadores, personalidades nulas na vida real lançam sobre o facebook a personalização de desejos e traumas. Em público não diriam metade das coisas que expressam por ali, nem agiram segundo aquela conduta, ou melhor, o facebook é a ausência de conduta. Em suma, o FB é um jogo que se joga sem regras. Numa partida "regular", o jogador A espera algo do B e vice-versa. Para se avançar em direcção a um ponto (meta, objectivos finais ou intermédios), espera-se uma reciprocidade. No facebook desconhecem-se as regras elementares; é , na maior parte das vezes, um diálogo de cegos e surdos.

Ao ler a troca de correspondência entre Jorge de Sena e Sophia, entrei por alguns minutos num mundo totalmente diferente do actual. Para saber, deseja-se a correcção: Sena corrige e é corrigido, numa cordialidade difícil de ponderar actualmente. Naquele tempo de suaves cartas que demoravam, esperava-se, ponderava-se, analisava-se. O tempo é um bálsamo para o ódio. Hoje, com as sms, os emeiles, os chats, as redes sociais e os blogues, sabemos tudo de tudo, tudo de todos e o anseio por saber mais é como um excesso de líbido. Basta percorrer os "posts" para compreender este estado de situação: uns escrevem por absoluta necessidade de exibição, outros pelo desejo de confissão, outros pelo ataque. E depois os comentários, anónimos, destrutivos, despidos de qualquer fundamentação são a epítome deste percurso caótico.

É preciso mais honestidade intelectual. Mais humildade.

Nascemos e vivemos cheios de certezas. A arrogância é tal que sabemos onde está, ou não está, Deus, se é feito da matéria dos crentes ou dos cépticos. Perdão, onde se lê cépticos, deve ler-se crentes, onde se lê crentes, deve ler-se cépticos. Já não há, sequer, lugar para o chavão "só sei que nada sei". Só certezas absolutas.

11 de abril de 2010

Intolerante com a intolerância.





Desde que comecei a participar nessa rede social chamada facebook que adquiri uma perspectiva muito diferente das relações de um conjunto algo homogéneo de duas ou três gerações. Há pulsões latentes de desprezo, de descontentamento, de amargura em relação a grupos, instituições e indivíduos em particular que destilam ataques e campanhas muito concisas de ódio reprimido na vida real. Dirão: mas o facebook não é um campo de estudo que permita uma análise coerente que possa ser transporta para a sociedade. É verdade. Mas é assustador pensar que aquelas pessoas, com o seu discurso, conseguem mobilizar mais 7, segundo as leis do mercado da publicidade.
É claro que grande parte daqueles indivíduos, que mesmo com perfil são anónimos, ou tantas vezes duplicados (maravilhas da internet) coordenam um discurso muito lógico e muito politizado. E bastante padronizado, acrescentaria. Têm por trás grupos de pressão formal ou informal que utilizam as redes sociais para espalhar uma mensagem, como é o caso do BE e do PNR.
Eu, devo sublinhá-lo, tenho tanto respeito pelo PNR - Partido Nacional Renovador, de filiação fascista e neo-nazi, como pelo BE - Bloco de Esquerda, cadinho ideológico que apoia a ETA e o HAMAS e cita Trotsky. Serei absolutamente trucidado por dizer isto, dado que às tribos que preenchem os meios urbanos, que ocupam serviços e os lugares de uma certa classe média, média-baixa, os filhos-família da burguesia e outros indivíduos-satélite destes - aqueles que votam BE - são a elite do momento. Ocupam tempo de antena de telejornais, dominam as cátedras, entretêm os moderno-literatos .
Mas, para mim, qualquer extremismo é um extremismo, mesmo que um lado dos seus interlocutores ande da cabeça rapada e doc martin e o outro vista calças largas, shirt e use rastas. Não tenho qualquer respeito por eles e é por causa deles que sou cada vez mais intolerante com a intolerância.

5 de março de 2010

O Livro das Caras

O facebook é um lugar extraordinário. Um dos mais populosos países do mundo, segundo as estatísticas. Há gente para tudo, como em todos os países. Mas a coberto de um domínio do seu mundo, algumas pessoas soltam o seu mais pérfido desejo de ofender, de dominar pela acusação. Porque aqui não há polícia, nem prisão efectiva. Quando muito uma expulsão, logo substituída por um regresso anónimo ou heterónimo. Por isso o facebook é um dos melhores locais para se ser o alter ego, para se dizer o que se não diz em público, geralmente por forças das convenções e...por falta de coragem. Não me refiro apenas a ateus, anarquistas ou associais para quem os inimigos são todos os outros menos a sua consciência. Para esses autistas que apregoam a libertação da Razão com o aprisionamento do Homem, a verdade é apenas solidária enquanto rede de raiva e ódio - o cimento que cola provisoriamente uma rede de consciências solitárias. Refiro-me, acima de tudo, a pessoas que canalizam a sua angústia contra ideias, pessoas, causas que, ou conhecem mal, ou não conhecem de todo. Os fóruns do facebook estão repletos de momentos pouco edificantes da sinceridade humana. O mais preocupante nem são as mensagens vazias de desprezo sobre A ou B. São as invectivas repletas de sadismo e ódio que a ignorância destila em forma de intolerância. Há gente que grita contra a homofobia mas é profundamente heterofóbica, numa altura em que a orientação sexual e a sexualidade são, cada vez mais, um empastelado de emoções. Também há homofóbicos que gritam contra um ideal que não conseguem cumprir. Os não religiosos não coexistem em paz. Querem a destruição dos símbolos e a morte dos líderes. Talvez querendo a paz para eles à custa da violência para todos os outros, esquecendo-se que a culpa do que os homens fazem, ainda que sob a desculpa de um deus, não é de deus, mas dos homens. Os activistas pró-animais, pró-ambiente, não vivem, ao contrário do que dizem, num equilíbrio harmónico, mas numa luta constante para que o homem ceda em detrimento de um éden que nunca existiu nem nunca existirá. Pelo menos enquanto a humanidade existir. Em suma: quanto mais se apregoa a mensagem "todos diferentes, todos iguais", mais se acentuam as diferenças e a desigualdade. O facebook é um microcosmos onde se antevê o desejo final de destruição, o silêncio, a desolação. Não é um cenário apocalíptico, é apenas a biologia humana a funcionar. Melhor seria se o FB fosse o espelho de Alice, ou mesmo o da bruxa-má, onde cada um se entretivesse, só e apenas, a procurar-se a si mesmo e não a procurar o Outro...