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9 de setembro de 2009

Valha-nos Deus que (ainda) alguém escreve e pensa assim!

Acreditar na existência de Deus é tão natural como sentir fome, não se trata de uma invenção propositada de algum homem, pronto vamos lá agora inventar Deus para sermos escravizados por ele e para por meio dele escravizar outros, nada disso. Sempre houve e sempre haverá pessoas que acreditam na existência de Deus, e engana-se Saramago quando pensa que a Igreja Católica se aproxima de uma morte “mais do que previsível” (mais depressa morrerá ele do que cairá um só braço do corpo sagrado da Igreja). A aberração está em se ter a certeza de que Deus não existe, essa é a aberração, não obstante os dados inteligíveis que, através da lógica e da dedução, deitam por terra qualquer tentativa de se negar o inegável. A prova está em que basta dizer que o mero facto de os saramagos não conseguirem enxergar provas da existência de Deus não prova que ele não existe, e que é uma estupidez apropriar-se de meia-dúzia de ideias antagónicas mitológicas ou alegóricas encontradas nos compêndios considerados sagrados para tentar provar com elas que Deus não existe. O absurdo é exactamente esse e não as ideias ou as teorias ou as filosofias ou as teologias ou as parábolas ou as lendas em si; o absurdo é recorrer ao trabalho intelectual sincero de homens do passado e parodiar esse trabalho com o intuito de escarnecer de Deus e de todos os que depositam nele a sua fé e que entendem e reconhecem que ele/ela existe. Grandes são os paroleiros na mediocridade dos seus pensamentos.

De O Caderno de Anti-Saramago

22 de março de 2009

Alguns dos livros que compro trazem anotações, algumas de várias mãos, transformando os alfarrábios amarelados e gastos numa preciosidade maior. As notas à margem são os olhos de cada leitor e em cada página anotada há reflexões de leitores desconhecidos, estudantes nervosos facilmente reconhecidos pelos sublinhados garridos, profundos e trémulos; investigadores espantados com pequenas descobertas; críticos entediados com romances chatos, etc. A minha marca são os 3 pontos de exclamação. E uso frequentemente o sublinhado (sempre a lápis) para marcar uma passagem que deve ser lembrada. Não gosto de livros imaculados, por abrir, ou sem marca de presença. "Livros cerrados não fazem letrados", é a máxima de um livreiro cá do Porto e a que mais se acerca à minha experiência como "bibliófilo". Quanto mais um livro acumula leituras, mais rico é. Às vezes apetece-me deixá-lo num banco de uma carruagem de comboio e imaginar que percurso fará, a partir dali, como nos versos de Pessoa... Tenho livros assinados, carimbados, com datas e notas pouco ortodoxas. Mas poucas vezes me aparecem mensagens como a que encontrei na página 84 da 3ª edição dos Poemas de Alberto Caeiro (edições Ática, 1958). Do lado esquerdo destas estrofes
"Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser."
alguém anotou, a lápis, "reli e chorei em 24/Ag/67". Que extraordinária súmula de tristeza...que coração amargurado teria escrito esta frase? De um verso de Caeiro saímos a procurar alguém que amou e sofreu. Afinal, das grandes banalidades têm saído as obras maiores.