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16 de novembro de 2009

A arte de gastar II.



(...)
Chegou enfim o dia da repartição da terça. Eram cerca de oitocentos os pobres dados na lista, e duzentos contos a terça dos três milhões. Orçou por sessenta moedas de ouro a esmola de cada um. (...)
Sumariando os males que imediatamente à distribuição do dinheiro se experimentaram, não houve no decurso do ano seguinte jornaleira nem oficial de alguma arte que aceitasse trabalho. As filhas dos lavradores equipadas de grilhões e arrecadas de ouro, afligiam os pais com rogos de iguais enfeites; e, se lhos negavam, fugiam da labutação dos campos, compelindo os pais a premiarem-lhes a desmoralização da desobediência.
Convergiram àqueles sítios jogadores de longe, sendo a esquineta o jogo mais na voga e livremente exercido em público.(...)
Duas especialidades de luxo, de algum modo ridículas, se manifestaram naquele gentio de oitocentas pessoas, apostadas a dissiparem algumas centenas de contos: uma era que todo o herdeiro comprou seu garrano; a outra era regular cada qual o seu tempo por dois relógios à feição dos «incríveis» do Directório em França. Em dia de romagem, cada freguesia regorgitava uma caravana de romeiros, cavalgados em garranos, gritando à desgarrada: «Viva Londres!» e, à porta de cada taberna, se algum ébrio bastante cínico bebia à saúde do defunto Manuel Vieira, a chusma gargalhava, babujando com a espuma do vinho uns chascos vilanazes como eles esvurmavam desta ralé do Minho, a mais bestial raça que estanceia na Europa

Camilo Castelo Branco, O demónio de ouro, vol. II.

A Arte de Gastar I.

Família que ganhou 600 mil euros no totoloto vive hoje de rendimento mínimo atribuído pelo Estado português.

«(...) três milhões. Esta quantia em 1799 era um colosso de ouro, uma fábula oriental, o sonho de um avarento, o mais que poderiam dar de si as fábricas de moeda que cabiam na imaginação de Lacalprenéde e Redacliffe.
(...)
Agora abramos a lista dos co-herdeiros dos três milhões de herança de Manuel e Eulália Vieira.
Determinaram ambos os testadores que a terça fosse distribuída pelos pobres de Rendufinho, onde Manuel havia nascido, e pelos de Vilar e Geraz, donde eram os pais de Eulália. (...)
Na cobrança dos legados contravieram estorvos e trapaças de toda a espécie, desde a justa precaução da lei até à ladroeira desbragada.
Por parte dos pobres, contemplados com a terça, saíram com procuração uns solicitadores que já se haviam enriquecido, mancomunados com as justiças inglesas, antes que os herdeiros pusessem as vistas nas pilhas nos soberanos. (...)
Na repartição da terça pelos pobres de Vilar e Rendufinho ressaltaram novos impedimentos. As outras freguesias do concelho destacaram moradores provisórios para as duas contempladas. Cada lavrador encheu as suas cortes de criados gratuitos, sob condição de os arrolar na lista dos pobres. (...) Lavradores remediados apresentaram certidão de pobreza com grande escândalo dos verdadeiros pobres que umas vezes espancavam os adventícios, e algumas vezes os seus próprios vizinhos, de quem haviam recebido mercês.
Na expectativa da herança, que em Lanhoso sofrera grossa sangria dos agentes emparceirados com a justiça, os jornaleiros recusavam pegar na enxada, e as mulheres olhavam para as rocas e sarilhos com entojo. Faltaram braços para as ceifas; a colheita de dois anos foi mesquinha; e, primeiro que se emborcasse a cornucópia das peças, houve fome. (...)»

Camilo Castelo Branco, O demónio de ouro, Vol. II.