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12 de outubro de 2011

O bailinho da Madeira.

A conversa habitual, em democracia é, depois de contados os votos, "ganhou A, perdeu B, C ou D". Ninguém se lembra porque é que votou ou quem não votou, as suas razões e as estratégias dos AA e dos BB para arrebanhar os papelinhos para a urna. Talvez por isso, ciclicamente, surjam uns indignados na praça que querem o regresso das ditaduras marxistas, como alternativa à democracia (a este propósito sugiro a leitura do artigo de Pedro Lomba, ontem, no Público). Mas é curioso que, uns e outros, têm sempre a palavra povo na boca. Já aqui referi esta falácia de considerar povo como algo de onde emana a salvação. Povo é, para os políticos, o Outro - prova de que a democracia só funciona à boca da urna e que política não combina com cidadania.
O que me espanta nesta balbúrdia toda é que, da Esquerda à Direita e, sobretudo os indignados da praça, todos, sem excepção, queiram salvar aquele povo que os repudia, que vota Alberto João Jardim, que venera Salazar, que vê e aplaude touradas, que pára em acidentes e que os provoca, que deseja ardentemente substituir cultura por futebol e viver em centros comerciais ao domingo. E que acha que o ponto mais alto do dia é saber o resumo da Casa dos Segredos. Ir para uma praça ou um parlamento falar por este "povo", defendê-lo e invocá-lo deve compensar muito o esforço, realmente. Deve ser muito terapêutico para uns e financeiramente vantajoso para outros. Eu precisaria de um estômago novo todos os dias.

28 de setembro de 2009

O Limbo de Sócrates.

A minha reacção inicial foi de espanto, face aos resultados quer do PS, quer do BE (quando ainda se pensava que este partido iria ser a 3ª força política no Parlamento), mas hoje, passado o rush da noite, o panorama é muito mais sereno. Com Sócrates absolutamente refém dos outros partidos, o Parlamento vai ser muito mais o verdadeiro centro de decisão do país. Menos autismo do Governo, porque obrigado a ouvir e a ceder, talvez (mas sublinho o talvez) Portugal deixe de ter um programa político autocrático. Mas ainda que o CDS seja, efectivamente, o vencedor desta eleições, não posso deixar de ficar preocupado com o alcance do BE. Enquanto toda a Europa vira à Direita, Portugal escolhe a esquerda radical, extremista, mísera e mesquinha que depois de morta (lembrem-se do ex-PSR) é hoje rainha, que diz repugnar o poder e viver, apenas, para a oposição. Só que Portugal não vive de oposição. O país devia regular-se por medidas englobantes e inclusivas e não por temas fracturantes. Não sou sociólogo, nem politólogo, mas julgo que uma estudo sobre o eleito-tipo do BE poderia explicar o cenário actual: do jovem rebelde, passando pelo universitário das causas, até aos intelectuais deslumbrados (e, nestas eleições, a maioria da classe docente), o voto atribuído ao Bloco de Esquerda é um voto inútil. Não serve ninguém em particular e constituiu uma espécie de enfeite da nossa Democracia pobre e diminuída que se encanta com a canção do bandido. O Louçã melífluo é como o arauto de um Evangelho que vem eliminar da face da Terra a pobreza, exclusão e a injustiça (mas Louçã, simples opositor, nada faz). É, porém, como sopa no mel para uma população iliterata, que mergulha num caldo de pobreza material e pobreza de espírito. Foi aliás outra franja desta população que respondeu ao chamamento do subsídio e ao medo de o perder, votando PS. Sócrates não perdeu, mas também não ganhou. Está no limbo. Resta saber se nos levará ao Paraíso ou ao Inferno.

P.S. No seguimento do que referi acima sobre o BE não posso deixar de destacar o facto de o PCP/CDU esvaziar-se em detrimento daquele partido. Reconheço no Partido Comunista (e embora esteja muito distante dos seus apoios ideológicos, do presente e do passado) a coerência, a firmeza e a sinceridade política que falta ao Bloco. O PC sempre se destacou na luta pela Democracia e pelos direitos dos trabalhadores, sem cair nos maniqueísmos fracturantes com que o Bloco acena à juventude rebelde e «bem». Ao erguer-se sobre um certo eleitorado de esquerda, o Bloco ocupa um lugar que não é o do PCP e que se deixar de existir não será certamente compensado pela mistura agri-doce que tem hoje como porta-voz o Dr. Francisco Louçã, projecto de Robespierre português.

6 de junho de 2009

Vamos todos votar. Todos os dias.

Imagem picada daqui.


Ultimamente alguns amigos e conhecidos aproveitam para me lembrar a necessidade de votar no próximo domingo. Não sei a que se deve esta necessidade eleitoralista súbita, se ao mau desempenho no actual governo, se a uma necessidade emergente de tomar consciência dos seus direitos como cidadãos. Bom, se a minha condição de cidadão se reduzir ao direito do voto, então não sou nada. Nunca poderei ser nada, como disse Fernando Pessoa. E mesmo que, eventualmente, tenha em mim todos os sonhos do mundo, o facto de ir votar não mudará o mundo. Não mudará o meu mundo, não mudará o mundo dos outros. Possivelmente mudará o mundo dos candidatos. Uns mudar-se-ão para Bruxelas, outros redecorarão a sua casa e o mundo pula e avança, com votos a menos ou a mais. § Um amigo disse-me: «é preciso é que as pessoas participem, o que me assusta é a passividade». E eu respondi que o voto é a passividade. Ir votar, voltar para casa, sentar-se no sofá e esperar que meia dúzia de políticos faça o trabalho que cada um de nós deve fazer é uma das maiores inutilidades dos tempos modernos. Vejamos o que a História nos diz: quando não havia democracia, ou quando a havia mas esta era limitada, homens e mulheres houve que do meio da massa anónima gritaram. Ousaram. Quiseram. E deixaram a sua marca de liberdade. Esse é o melhor voto, o participar exigindo, querendo, fazendo. Por isso, no próximo domingo muito embora vá votar, o meu voto será nulo. Porque a minha democracia se faz no dia a dia e não segundo um calendário eleitoral.