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12 de outubro de 2010

Circula pela internet uma petição a favor da restituição do nome "Salazar" à Ponte 25 de Abril. Já conta com um número considerável de assinantes. É claro que em democracia todos (todos, mesmo, os anti-democráticos) têm direito à livre expressão, mas... para quando um pouco de "juízo"? A sério, tenham juízo. Meditem, questionem muito bem sobre o que aceitam subscrever. Bem sei que nos dias que correm se não estamos do lado do Partido da Verdade*, somos considerados cidadãos de segunda, mas o espírito crítico é muito importante para conferir a qualquer indivíduo o estatuto de livre.

*O Partido da Verdade, de que falarei oportunamente, é constituído por todos os que pensam pela cabeça da maioria (que, em regra geral, se trata apenas de uma minoria com força suficiente para parecer mais daquilo que é).

20 de janeiro de 2010


Estátua a Afonso Costa no Campo 24 de Agosto, Porto.
Obra de Laureano Guedes.
É tradicionalmente um local de romagem
onde alguns saudosistas vão no dia 31 de Janeiro,
confundindo fascismo com monarquia
e república com liberdade, mas sobretudo
esquecendo o governo de terror
e perseguição que Afonso Costa
imprimiu durante a
I República

Escreve Raúl Brandão, nas suas Memórias:

«Os ódios aumentam. Os republicanos torturam os presos. Mas o que fariam os monárquicos se vencessem? A monarquia, nesta altura, seria de fugir… E a república? A república – diz Junqueiro – não se atura nem se pode aturar!
Foram os do governo provisório que lhe imprimiram o feitio intolerante e jacobino – foram o Afonso Costa, O Bernardino, o Camacho e o António José. Foi principalmente o Afonso que lhe colou a máscara que ela nunca mais pôde arrancar. Fê-la à sua imagem e semelhança: materialista e orgíaca, acolhendo de braços abertos a pior escória dos partidos monárquicos – os que não tinham convicções e queriam continuam no gozo dos seus interesses».
É o tipo do bicho de escritório que julga tudo segundo a papelada e mete a vida dentro de articulados. Advogado cábula, foi para o governo, com os seus amigos, depois de uma orgia à luz da manhã e com a gola do casaco levantada. Ora o país não é apenas sério: é trombudo. Remexeu nas cousas e nos homens resolvendo dar cabo do cristianismo no Palácio de Cristal no porto – daquele Porto de granito espesso – em duas ou três gerações. Resultado: quem reformou os padres foi ele – não foram os arcebispos. Quando acabou de pegar fogo ao país fez de largo a vê-lo arder… Chegou, assim, a ser um símbolo – o tipo das gerações de Coimbra, que criaram, com código e frases, uma alma ao lado da vida. Tudo o que fez cheira ao saguão onde o fez – às conversas do empregado da Boa Hora, do jornalista azedo e do Alexandre Braga, que fez da existência uma orgia – com esplêndidos discursos… (…)
Dizem que é um homem inteligente. A sua inteligência, até hoje não tem passado de esperteza. Só lhe reconheço uma superioridade incontestável: é um parlamentar e não se prende com escrúpulos. – O Afonso – dizem – é um homem com quem todos se pode entender para os seus negócios.
Não é só o medo que o tem afastado de Lisboa. Às repetidas instâncias dos seus amigos para regressar à política recusou sempre, recomendando uma certa moralidade (!) – o que fazia dizer a António José de Almeida: - Eu, se me chamassem para o meu país, voltava logo, ainda que fosse para ser capitão de ladrões!
Mas não é só o medo que o tem afastado. – Porque não vais para Lisboa? – perguntou-lhe o Montalvão, que o encontrou em Paris. – Não, que lá até os rapazes de catorze anos andam com bombas nas algibeiras. – Andam, mas foi ele o culpado – foi ele que as forjou. Não é, porém, só o medo; os que fingem que o querem a governar, detestam-no. Armam-lhe logo dificuldades. Sabem perfeitamente que ele viria ocupar o primeiro lugar… A hora é dos medíocres.»

BRANDÃO, Raúl – Memórias (tomo III). Obras completas, vol. I. Lisboa: Relógio D’Agua, 2000, pp. 62-63

Publicado aqui.

19 de junho de 2008

¡Mira Mario!

Era confrangedor. Mário Soares afundado numa cadeira entre as pregas dos seu 83 anos e em frente o bem falante Hugo Chávez a debitar oratória pseudo-franciscana acerca da desigualdade dos povos, a aconselhar a Europa e a ameaçar o Bushismo. A conversa de Mário Soares ontem, em horário nobre da RTp1 tornou-se afinal um monólogo, a que o entrevistador anuia e sorria, num sinal ora de beatitude laica ("- sou um agnóstico, mas espiritual", ficamos a saber de Mário, depois de Chávez lhe ter atirado à cara com um "presidente cristão-social") ora de pré-demência a que os últimos anos do Soarismo nos habitou. Quando pensávamos que a intervenção de Mário Soares se limitava a meia dúzia de declarações infelizes nos jornais e, ocasionalmente, na televisão, eis que o senhor atravessa o Atlântico para dar tempo de antena ao nada demagógico Hugo Chávez e começar uma série de entrevistas com os Grandes do Mundo. Quem se seguirá? Fidel numa cadeira de rodas? Soares e uma médium a entrevistarem Che? O que mais me aborrece é que as romagens do sr. Dr. Mário Soares - que outrora se resumiam a visitar lugares onde pudesse montar tartarugas e elefantes - continuem a ser pagas pelo contribuinte, ou seja por nós. Viva o socialismo. Hurray.