Nem a crise fez entender que há demasiados professores para cada vez menos alunos, que não há transportes públicos (ou os que existem prestam mau serviço) porque os últimos 20 anos foram de compra desmedida de automóveis, que os serviços públicos fecham e afastam-se dos cidadãos porque os cidadãos fecham-se em casa em frente ao computador, por onde tudo se faz. É impossível fritar um ovo sem parti-lo. E a culpa, insisto, não é apenas dos políticos, artistas camaleónicos, capazes de tirarem proveito das crises. É do cidadão que se deixou anestesiar pela abundância. Agora acabou, a viagem acabou. Continue-se a pé.
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16 de agosto de 2012
15 de maio de 2012
Os excêntricos.
Acabo de ver e ouvir na televisão que Portugal está a uma ou poucas décimas de sair da inflação. O jornalista falava tão optimisticamente como se estivesse em 2 de Setembro de 1945. Mas algumas vez deixamos de estar no fio da navalha? Desde que o eixo político deste planeta se desviou (algures em finais do século XVI) novamente para o norte-centro-sul da Europa, voltamos à nossa condição periférica. Ora as periferias sentem sempre menos as ondas de choque. E quando são pobres, fruto do escolho epicentral, raramente sofrem com os embates. Nós por cá somos remediados, fomos remediados e temo que o continuemos a ser. E ainda bem. O pobre gasta tudo o que tem, dívidas se as tem (na mercearia, claro) só as paga quando pode - ou seja raramente, ou nunca. É um estilo de vida que nem se aproxima dos restantes PIGS, que gastam normalmente à tripa forra sem olhar a quê nem a quem. Em alguns aspectos somos um caso único.
23 de fevereiro de 2012
Tristezas não pagam dívidas.
Não deixa de ser curioso que, em tempo de crise, a principal discussão das últimas semana tenha sido sobre o Carnaval. O país nunca deixou de rir, mesmo quando o mais natural fosse estar a chorar. Portugal é um imenso alfobre de piadas, humoristas e artistas circenses. Os políticos são malabaristas, o cidadão aquele Zé Povinho boçal, anafado, risonho e borracho. De resto, um país que se identifica com tamanha criatura, que ri de tudo, mesmo quando está prestes a perder a casa, a perder o emprego e a ficar sem comer, só pode ser um povo escolhido. Ele não precisa de quem o guie, abomina os políticos e os governantes, mas adora assistir às manigâncias deles, entre uma talhada de melancia e um copo de vinho verde.
Na Grécia está tudo a ferro e fogo, lá onde a comédia foi inventada e vive lado a lado com a tragédia. Cá, os homens vestem-se de mulheres e mangam do primeiro-ministro, que lhes tirou o feriado. Um feriado de e para brincar. É assim este quadro, que de tão ridículo chega a ser grandioso. Às vezes aparece alguém a dizer-se o novo D. Sebastião (Afonso Costa, Salazar, Mário Soares, Cavaco Silva...), mas não é preciso. Em 500 anos a coisa até tem corrido bem, dadas as circunstâncias. É uma gestão curiosa que nunca resultará em tumultos: os políticos e as elites roubam as duas fatias maiores do bolo, o povo – conquanto o político não se roube mais de dois terços anui – e reparte entre si a última fatia. É um roubo absolutamente democrático e consentido: uma mão lava a outra e as duas lavam as dos outros.
A coisa nunca resultará como na Grécia, em incêndios, feridos e ódio. Quando muito, por cá, mataremos um ou outro político à gargalhada, com matrafonas, gigantones e carros alegóricos. As nossas pistolas são bisnagas com água.
Na Grécia está tudo a ferro e fogo, lá onde a comédia foi inventada e vive lado a lado com a tragédia. Cá, os homens vestem-se de mulheres e mangam do primeiro-ministro, que lhes tirou o feriado. Um feriado de e para brincar. É assim este quadro, que de tão ridículo chega a ser grandioso. Às vezes aparece alguém a dizer-se o novo D. Sebastião (Afonso Costa, Salazar, Mário Soares, Cavaco Silva...), mas não é preciso. Em 500 anos a coisa até tem corrido bem, dadas as circunstâncias. É uma gestão curiosa que nunca resultará em tumultos: os políticos e as elites roubam as duas fatias maiores do bolo, o povo – conquanto o político não se roube mais de dois terços anui – e reparte entre si a última fatia. É um roubo absolutamente democrático e consentido: uma mão lava a outra e as duas lavam as dos outros.
A coisa nunca resultará como na Grécia, em incêndios, feridos e ódio. Quando muito, por cá, mataremos um ou outro político à gargalhada, com matrafonas, gigantones e carros alegóricos. As nossas pistolas são bisnagas com água.
13 de abril de 2011
Nacionalidade sem nacionalismos.
Visito Londres durante a preparação para o casamento do século, o do Príncipe Guilherme de Windsor com Katherine Middletton. O acontecimento é um estado febril. Por todo o lado lojas oficiais e não oficiais desdobram-se em merchandising: canecas, pratos, bandeiras, bules, etc, etc, tudo com a efígie do casal. Não há mãos nem braços que cheguem para abarcar a publicidade que se faz à cerimónia, ao cortejo e a toda a preparação para o real enlace. Na rua, a somar às incontáveis Union Jack que edifícios públicos e privados exibem com brio, várias pessoas transportam consigo pequenos estandartes e bandeirinhas. De resto, nas exposições que se multiplicam sobre a Monarquia, ouvia as crianças perfeitamente familiarizadas com o nome de cada um dos seus monarcas e uma ou outra característica sobre a sua vida, por mais desinteressante que seja.
O símbolo da Coroa está por todo o lado, desde as obras dedicadas ao Jubileu da Rainha, à lembrança de Diana de Gales, e aos príncipes Guilherme e Harry. O turismo vive, afinal, destas "futilidades" de castelos, reis, princesas, como se vê pelas filas intermináveis para entrar na Torre de Londres e ver as jóias reais. (Quantos pagariam para ver o guarda roupa da primeira-dama de Portugal?) E quanto mais difíceis estão os tempos, mais estas figuras (que alguns consideram vazias) significam algo para o povo que as exaltam. Que (a maioria) as trata com respeito e reverência, como o capitão do barco que fez a visita guiada e que nunca se dirigiu à monarca pelo nome, mas por Her Majesty The Queen.
Volto a Portugal. Os jornais tratam, desde o presidente ao primeiro-ministro por tu, os políticos tratam-se uns aos outros por ladrões e, nos cafés e na rua, todos se tratam mal. Não é uma questão de respeito, é uma questão de auto-estima. Um país que não gosta da sua História, que não acredita nela nem nos seus intervenientes, que não se agrega em redor dos seus símbolos em tempo de crise, dificilmente conseguirá chegar a ser um país.
Somos como muitas das bandeiras republicanas espalhadas por edifícios públicos: cheias de surro, esfarrapadas e mal representadas.
O símbolo da Coroa está por todo o lado, desde as obras dedicadas ao Jubileu da Rainha, à lembrança de Diana de Gales, e aos príncipes Guilherme e Harry. O turismo vive, afinal, destas "futilidades" de castelos, reis, princesas, como se vê pelas filas intermináveis para entrar na Torre de Londres e ver as jóias reais. (Quantos pagariam para ver o guarda roupa da primeira-dama de Portugal?) E quanto mais difíceis estão os tempos, mais estas figuras (que alguns consideram vazias) significam algo para o povo que as exaltam. Que (a maioria) as trata com respeito e reverência, como o capitão do barco que fez a visita guiada e que nunca se dirigiu à monarca pelo nome, mas por Her Majesty The Queen.
Volto a Portugal. Os jornais tratam, desde o presidente ao primeiro-ministro por tu, os políticos tratam-se uns aos outros por ladrões e, nos cafés e na rua, todos se tratam mal. Não é uma questão de respeito, é uma questão de auto-estima. Um país que não gosta da sua História, que não acredita nela nem nos seus intervenientes, que não se agrega em redor dos seus símbolos em tempo de crise, dificilmente conseguirá chegar a ser um país.
Somos como muitas das bandeiras republicanas espalhadas por edifícios públicos: cheias de surro, esfarrapadas e mal representadas.
7 de abril de 2011
"Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
como cabeça ali da Europa toda,
em cujo senhorio e glória estranha
muitas voltas tem dado a fatal roda;
mas nunca poderá, com força ou manha,
a Fortuna inquieta pôr-lhe noda
que lha não tire o esforço e ousadia
dos belicosos peitos que em si cria."
Camões, Lusíadas.
Primeiro passo para sair desta embrulhada: gostar de Portugal, gostarmos de nós, acreditarmos em nós. Em épocas de crise, o colectivo é importante. Chega de "gerações à rasca", de lamúrias e maledicência. Não basta que agências de especulação e países estrangeiros nos tratem como subalternos, ou lixo, ainda queremos contribuir para denegrir a nossa própria imagem? Não. Se temos maus políticos é porque temos acreditado que não merecemos melhor. Mas merecemos. Temos um capital humano valioso, temos um Passado que nos honra e o necessário para singrar. Mas é importante que comecemos a fazer pelas nossas mãos o que os outros têm tomado por "procuração".
24 de novembro de 2010
O Facebook, às vezes, tolda o discernimento.
Já aqui falei das petições online e do quanto elas valem, mas desde que o facebook começou a tomar força entre os meios de comunicação cibernética, começaram a surgir páginas a favor ou contra tudo e mais alguma coisa. Algumas delas puseram em circulação uma proposta ao que parece surgida na cabeça de um ex jogador de futebol, o Eric Cantona, que incita os cidadãos de todo o mundo a retirarem o seu dinheiro das contas bancárias no dia 7 de Dezembro, como forma de protesto contra a suposta crise que assola o planeta. Ora muito bem, vamos supor que no dia sugerido eu me dirijo a uma sucursal bancária e peço para retirar todo o meu pé de meia, ou dinheiro da conta corrente, requisitando, de seguida, que me fechem a conta. Depois, levo as notinhas e as moedas para casa. Guardo-as debaixo do colchão, ou num daqueles cofres portáteis e aguardo pacientemente pela vingança ao sistema económico. É óbvio que a maioria destas pessoas que age por impulso, sem discorrer um momento que seja no que está a aceitar ou propor fazer em conjunto com milhares de incautos. Não é assim que se remedeia ou resolve o mal feito. Aliás, ao embarcar nesta idiotice virtual, está a dar razão a este sistema que provocou o pré-colapso deste capitalismo sem freio: é que, afinal, tudo isto se deveu à corrida desenfreada por bens imateriais, por produtos não palpáveis ao alcance do crédito fácil. Se os mesmo néscios que andam a gritar naquela bolha chamada facebook contra a crise, deixarem de alimentá-la ao comprar sensações ou férias às prestações, talvez se consiga inverter o rumo desta enxurrada. Caso contrário, clicar em gosto no facebook ou fazer o papel ridículo de guardar o dinheiro numa caixa de papel em casa não resolve nada. Absolutamente nada.
1 de novembro de 2010
Notas à margem.
Armando Marques Guedes foi ministro das Finanças de Dezembro de 1925 a Maio de 1926. Republicano moderado, ligado ao Partido Democrático, deixou um testemunho interessante sobre os cinco meses que passou no Governo de António Maria da Silva, o das vésperas da marcha de Gomes da Costa e da Ditadura que daí adveio. A sua acção foi, como os antecessores e os que lhe sucederam, no sentido de conter a crise económica agravada pela participação de Portugal na I Grande Guerra. As suas descrições do estado das finanças públicas são flagrantemente actuais e creio até que os seus conselhos para estancar a crise em 1926 se aplicariam, em larga medida, à crise actual. Um deles, o da confiança:
Falemos francamente, como convém a quem está prestando ao seu país as contas dos seus actos e até dos seus pensamentos de governo. A crise económica do país, na sua actual fase aguda, não é difícil de conjurar. Basta restabelecer a confiança.A crise financeira do Estado quase automaticamente se elimina. O Estado tem o seu orçamento desequilibrado, é certo. Mas, com uma política de economias, ainda que tímida ; com os rendimentos normais dos impostos, pagos pelas actividades económicas que; restabelecida a calma, pudessem desenvolver com confiança as suas transacções, e com as receitas livres dos tabacos, o orçamento de 1927-28, senão mesmo o do ano económico corrente, equilibrar-se-ia.
E, mesmo republicano, Armando M. Guedes não oculta o trajecto económico do país desde o Ultimatum, lembrando que a recuperação económica começou na Monarquia e foi abalada durante a I República:
Será assim, a crise um facto tão mau? Seria o chumbo do Orçamento de Estado a ruína do país? Ou uma hipótese (como a de 1891) para uma recuperação pensada e sólida? E a reorganização do Estado e da Função Pública, ontem, como hoje, um problema de base, qual o seu papel na ignição do desenvolvimento do país? Curiosa a descrição que Armando Guedes faz deste problemas, aventando, aliás, a necessidade de uma reestruturação dos serviços e dos funcionários públicos, quanto a ele desajustados então para o bom funcionamento da república:
(clique para aumentar)
"Grande parte dele [funcionalismo público] foi recrutado por política." - Há, ou não, actualidade nesta afirmação? E nas soluções apontadas pelo ministro Armando Guedes? Claro que há. O problema de Portugal começa em não conhecer o seu Passado para bem preparar o seu Futuro. Vivemos presos num limbo de imediatismo, em que as soluções de recurso são repetições de erros.
23 de julho de 2010
A avaliar pelo ódio disfarçado e pelo nervosismo que as palavras certeiras de D. Carlos Moreira de Azevedo causaram entre políticos e bloguers, a mensagem foi certa e justa. Muitos engoliram em seco, outros vieram com a proverbial conversa do costume: a Igreja é rica e poderosa, vive rodeada de luxos, etc. Para lhes explicar os tais luxos tínhamos que estar ao mesmo nível de conhecimento - o suficiente pelo menos para discutirmos História de Arte e Teologia. E como me cansa parecer apologético, sem o ser efectivamente, a tentar mudar as consciências, não pelo fanatismo, mas pela razoabilidade, direi apenas que muito me aprouveram as palavras de D. Carlos Moreira de Azevedo que não são uma mensagem "não olhes para o faço, ouve apenas o que eu digo", mas uma mensagem clara à classe política, ostensivamente falsa, ostensivamente hipócrita e ostensivamente esbanjadora em palavras e dinheiro. Esta lógica partidária revolve-se na autofagia do costume: acima dos cidadãos está o partido e abaixo deste pouco interessa. Porque havemos, pois, pagar uma crise provocada pelo topo? Por que razão hão de as bases suster para sempre a incompetência dos maus líderes? Apelar, como fez D. Carlos, à manifestação é pouco. Há demasiado dinheiro a entorpecer as vozes deste povo, infelizmente. Demasiados "subsídio-votos". Enquanto a partidocracia governar em nome da democracia, nada feito.
15 de fevereiro de 2009
Bowling for Columbine

Ontem à noite, na RTP 2, pude rever o documentário do polémico Michael Moore intitulado Bowling for Columbine sobre o massacre perpretrado em 1999 por dois jovens que assassinaram 12 colegas e um professor num liceu do Colorado. O filme é uma viagem pela demência humana - uma demência apatológica derivada da aplicação do medo para controle da liberdade e da sanidade dos indivíduos. A determinada altura M. Moore, na irreverência que se lhe conhece foi entrevistar o cantor Marily Manson - a quem, pela suas atitudes artística e social, imediatamente foi imputada culpa indirecta no massacre - o qual referiu algo de que nos esquecemos: tudo é medo, hoje em dia. Caso para aplicar o ditado que diz antes temer do que amar, eis o lema dos Estados modernos. § Todos os dias somos bombardeados com violência, com agressividade. Lentamente o nosso organismo vai absorvendo este veneno: doenças, insegurança, morte, sangue, crise. Como referia Marily Manson os jovens crescem num mundo em que o medo comanda: SIDA, desemprego, uma educação cada vez menos cativante, etc. Pura e simplesmente não há esperança. Nem futuro. É difícil enquadrar dois jovens armados e homicidas neste cenário? Não. A culpa não é só de Hollywood e dos filmes sanguinários nem dos artistas irreverentes. É nossa, é dos políticos e dos grande empresários que ganham com o medo e o conduzem para prossecução dos seus objectivos. Daquela América fracturada, de loucos armados, vem agora o desespero do desemprego, das dívidas, da incapacidade para assegurar um futuro às gerações futuras. Talvez se adivinhem novos Columbine, mas o mais preocupante é a incapacidade de parar esta torrente de desgraça que nos impede de lutar contra a corrente. Será que algum dia , por uma hora, por um minuto que seja, não podemos ser felizes e corajosos? Ou, pelo menos, querer sê-lo?
21 de outubro de 2008
O silêncio das esferas e os Anjos do flagelo.
Apocalipse do Lorvão, Os Sete Anjos do Flagelo
(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)
Álvaro de Campos
De uma semana na serra, regresso à cidade aflita. Dou conta dos avanços milimétricos da crise mundial que arrasta as linhas dos gráficos em sentidos descendentes. Há dias escrevi aqui que havia algo de dança macabra nisto tudo e é verdade. A crise avança como a peste, com um certo ar festivo que obriga os moribundos e os mortos a caminharem ledos para a sua própria sepultura. Não fosse esta vaga epidémica sacudir o corpo de uns poucos justos que ainda seguram os pilares da terra e, sim, estaria contente. Dançaria. Não há nada como assistir à ruína dos grandes, daqueles que durante anos a fio construiram impérios à conta das muitas miudezas de nós pequenos. Mas ainda que segure uma certa alegria, não posso deixar de sentir um orgulho indescritível em assistir aos tempos que correm. Estamos a viver algo - algo que, como em todas as épocas de viragem da história da Humanidade pode ser bom ou muito mau - mas o que quer que seja efectivamente será, com certeza, uma forma de acordar quem dormia e sonhava com abundância, desperdício e imortalidade. Lá fora há um mundo bem menos farto, e bem mais finito. Quem julgue que pode continuar a participar nesta ceia pantagruélica de excessos pode tirar o cavalinho da chuva. § Mas até na forma como a crise nos afecta se vê o grau de irrealidade em que temos vivido: o quão é diferente a imagem deste monstro apocalíptico para quem vive nas cidades, lê jornais, faz zaping por milhares de canais e cai nas parangonas da internet como o último dos oráculos. Na semana que passei numa aldeia da serra de Montemuro, tendo como vizinhos pouco menos de 50 habitantes, nenhum motivo houve, de há um par de semanas a esta, para mudar os hábitos, moderar consumos, ou chorar bens efémeros e imaterais. Há uma sensação de segurança, de enlevo. No fundo, quem há séculos depende de um pequeno talho de terra, só tem que se preocupar com ela. Chora se há água a mais ou a menos, se há calor excessivo ou se o frio chega cedo. E se é certo que o clima tem demonstrado a sua irregularidade, enquanto a terra não se sumir sob os pés daqueles camponeses, há certeza do sustento que nenhum cartão de crédito, nem nenhuma acção da bolsa pode comprar.
1 de junho de 2008
E se boicotássemos o futebol?
Todo o santo dia os canais portugueses debitaram futilidades sobre futebol. Nem parece que estamos a atravessar uma crise. Um senhor, daqueles afoitos que vieram do interior profundo para ver a selecção nacional, disse que o que mais queria era que Portugal ganhasse o Europeu. Não quer melhores salários, nem que o preço dos combustíveis desça. Quer que a selecção ganhe. Os portugueses não querem, afinal, melhoria de vida - desejam ardentemente que um grupo de privilegiados, na maior parte pseudo-adultos que não passaram a fase da adolescência e a quem, todos os meses, é passado um cheque em branco, ganhem um jogo de futebol. Que metam uma bola numa baliza. Que dêem um chuto numa bola. Um pedaço de pele sintética cosida a rolar na erva. Um jogo. E aqui, perto da realidade, há desemprego, há fome, há angústia, há pobreza, há velhice, há solidão, há famílias desestruturadas, há marginalidade, e há exclusão. § Uma bola...? § Nos últimos dias tenho sido bombardeado com mensagens a apelar ao boicote das empresas petrolíferas - eu, que nem conduzo. Não seria melhor boicotarmos o futebol?
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