Os Brilhantes do Brasileiro, novela de costumes passada entre o Porto, Viana do Castelo e terras de Vera Cruz é um dos exercícios de crítica social mais violentos de Camilo Castelo Branco. A história de amores corrompidos, ligações subitamente cortadas e coincidências providenciais, eleva ao expoente a mordacidade do escritor ante a conveniência, o estatuto, e a obrigação moral. Ângela, filha ilegítima de dois fidalgos unidos por dores sentimentais e deveres familiares, conhece desde pequena o estigma da união ilícita dos pais e como remediá-la aos olhos sempre abertos da sociedade: casar para nivelar o estatuto e corrigir a infâmia da sua criação. Incorre, porém, no pecado paterno: ama por amor e, como o pai, que a renega como renegara a sua mãe (mulher que nunca amara), cai num turbilhão de maldições. Conhece a pobreza, a impercação da tia honesta e íntegra e a fuga, que a desgraçará para sempre, por cortar com a ordem estabelecida. Sem o amor mecânico, entretanto enlaçado da triste sina de ser pobre e, portanto, presa fácil dos arremedos dos grandes, Ângela, algo tontinha (sendo isto por vezes confundido com a inocência) entrega-se nas mãos papudas e sabujas de um brasileiro, Hermenegildo, que regressado de além do Atlântico procurava criar na sua rotunda personagem, o que odiava nos outros: o prestígio e a respeitabilidade do sangue, agora já não conquistados pela espada, mas pelo dinheiro. Tudo metal, enfim. Esta figura é, aliás, de todas no romance a mais interessante. Hermenegildo e os seus três amigos da praça do Porto representam aquela trupe imbecil, hipócrita, mesquinha e fútil que o dinheiro ajuda a polir e a lavar, mas que mantém o mesmo goto sujo e vil de onde surgiram, seres unicelular a formarem-se na sopa primordial. No Brasil fizera-se rico e estúpido, vagamente republicano e totalmente avesso à Igreja, que usa, porém, como lhe aprouva. Este gordo retornado, consciente da sua má figura, sabe que Ângela o despreza e quando esta vende as jóias do dote para pagar a sobrevivência e a formação da irmã e do homem que ama, dói-lhe mais a bolsa do que a consciência. Regressa ao Brasil com uma das suas amantes e move mundos e fundos para arruinar economicamente a bela mulher que, de bom grado, o troca por umas águas-furtadas no largo do Moinho de Vento. Volta o oficial mecânico, já cirurgião, morre Hermenegildo, cura-se o pai de Ângela e faz-se luz para todos. Sobretudo porque este romance é um abrir de olhos para todos aqueles que apontam o dedo. Camilo apontou-o várias vezes e foi apontado outras tantas. Sabia do que falava, portanto.
Mostrar mensagens com a etiqueta crítica literária. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crítica literária. Mostrar todas as mensagens
21 de fevereiro de 2011
20 de fevereiro de 2011
Palavras ditas.
Desconheço a amplitude do espanto que estas cartas provocaram em 1905, mas a avaliar pelo seu conteúdo corresponderam, com certeza, a uma revolta mental. Tal revolta, num país em que, mais do que a iliteracia geral, causa(va) dó a pequenez e a estreiteza literária das suas elites, esta edição deve ter correspondido a um terremoto de pequena escala. Em mim, hoje, passados mais de 100 anos sobre a primeira publicação, o impacto desta leitura foi o de uma implosão interior. Palavras cínicas, de Albino Forjaz de Sampaio, obscuro publicista e bibliófilo de que apenas conhecia de umas modestas crónicas de viagem e um tratado de biblioteconomia, é o mais duro golpe na essência humana que alguém ousou proferir em Portugal, ao nível dos primeiros filósofos existencialistas e dos pensadores mais honestos. Para quem, como eu, não acredita na Humanidade, Palavras cínicas é um pequeno manual, uma espécie de perfume concentrado da cupidez humana, destilado em fel. A. Forjaz de Sampaio fez justiça. Esqueceu o que diferencia todos os homens e mulheres e concentrou-se, apenas, no que os torna tão iguais: a maldade. "Que me importa que a imagem desta libra seja a duma rainha ou a de uma prostituta se com ela eu posso comprá-las ambas?" Para Forjaz Sampaio, a fórmula de Lavoisier adapta-se à condição humana: todos se vendem, todos se compram, ninguém se perde neste câmbio. E pior, aqueles que foram bafejados pela ajuda de outrem, não passam de ingratos: "acredita que todos aqueles a quem fazemos bem, nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé." O egoísmo da dor, a inevitabilidade do ódio, o lenitivo da morte podem parecer chavões, e chavões demasiado cruéis para quem acredita na bondade e na esperança. Mas, como refere o autor e bem, convinha que todos lessem estas cartas quando o mundo nos fizer chorar. Parece-me bem por isso que, nos dias correntes, as tenhamos por perto...
20 de dezembro de 2010
Como amar a República em 10 passos.
Quase no final deste ano de frenesi comemorativo, que resultou em centenas de laudatórios livros de luxo (repare-se que a diferença entre luxo e lixo é apenas de uma vogal), julgamos ser já possível atribuir o prémio da pior edição pró-republicana. Trata-se, segundo a nossa opinião, de Tudo o que sempre quis saber sobre a Primeira República em 37 mil palavras, do sociólogo Luís Salgado de Matos. A obra foi editada pelo Instituto de Ciências Sociais, com o patrocínio da Comissão do Centenário. É um pequeno manual sobre como amar a I República em 10 passos. Lidas as 37 mil palavras, concluímos que a Primeira República foi um dos piores períodos pelo qual já passaram Portugal e os Portugueses, mas é isso que torna aqueles dezasseis anos tão especiais e tão importantes. A um determinado momento, o autor presenteia-nos com esta pérola justificativa: segundo ele havia violência entre 1910 e 1926 porque toda a gente era violenta, porque os pais batiam nos filhos e isso era normal. Para Luís Salgado de Matos, a bandalheira é um estado de espírito republicano, portanto. Bem haja às cátedras em que se sentam autores como este. Desconfio que depois do Estado do Estado, do Estado da Justiça, e do Estado da Democracia, a Sociologia deve ser um dos caminhos mais rápidos para a ruína deste país.
Também publicado aqui.
Também publicado aqui.
9 de setembro de 2009
Valha-nos Deus que (ainda) alguém escreve e pensa assim!
Acreditar na existência de Deus é tão natural como sentir fome, não se trata de uma invenção propositada de algum homem, pronto vamos lá agora inventar Deus para sermos escravizados por ele e para por meio dele escravizar outros, nada disso. Sempre houve e sempre haverá pessoas que acreditam na existência de Deus, e engana-se Saramago quando pensa que a Igreja Católica se aproxima de uma morte “mais do que previsível” (mais depressa morrerá ele do que cairá um só braço do corpo sagrado da Igreja). A aberração está em se ter a certeza de que Deus não existe, essa é a aberração, não obstante os dados inteligíveis que, através da lógica e da dedução, deitam por terra qualquer tentativa de se negar o inegável. A prova está em que basta dizer que o mero facto de os saramagos não conseguirem enxergar provas da existência de Deus não prova que ele não existe, e que é uma estupidez apropriar-se de meia-dúzia de ideias antagónicas mitológicas ou alegóricas encontradas nos compêndios considerados sagrados para tentar provar com elas que Deus não existe. O absurdo é exactamente esse e não as ideias ou as teorias ou as filosofias ou as teologias ou as parábolas ou as lendas em si; o absurdo é recorrer ao trabalho intelectual sincero de homens do passado e parodiar esse trabalho com o intuito de escarnecer de Deus e de todos os que depositam nele a sua fé e que entendem e reconhecem que ele/ela existe. Grandes são os paroleiros na mediocridade dos seus pensamentos.
De O Caderno de Anti-Saramago
5 de janeiro de 2009
E, no entanto, esboroa-se!

Anos e anos de comparações "estilísticas", - sempre o estilo, o ângulo, a forma mais ou menos enviesada - dão hoje em teorias que se esboroam ante novos métodos de análise, documentos e técnicas ultra-modernas. § Ao que parece o Aleijadinho, sim o mítico António Francisco Lisboa, o Miguel Ângelo (ressalvadas as devidas distâncias temporais) do Brasil "não existiu", isto é, as obras que lhe são atribuídas são de outras, muitas, mãos. § Quem o diz é a historiadora Guiomar de Grammont, que desmontou o mito urdido pela historiografia da arte brasileira e internacional, ávida por ícones. A história pode ser lida aqui, e o livro «O Aleijadinho e o Aeroplano» adquirido aqui. § Também a historiografia portuguesa está cheia de mitos e é a principal culpada de iconificar as histórias local e nacional...
1 de janeiro de 2009
Sugestão de leitura para o início do novo Ano

Se, em monarquia, o rei se pode intitular rei de todos os portugueses, pois o é dum povo, em regime republicano o Presidente deve ser apenas o representante da República, como se afirma no art.° 123.° da Constituição, não ignorando nem perdendo de vista os que o elegeram.
Francisco Sá Carneiro, 1979
Ler a obra de Francisco Sá Carneiro, disponível em Instituto Francisco Sá Carneiro. E fazer com que que, em 2009, este jardim à beira mar plantado possa valer, pelo menos, uma missa cantada.
23 de novembro de 2008
LibraryThing
Já estou no LibraryThing! De que se trata o LT? Bom, para começar é um poderoso interface de recolha de dados bibliográficos, onde se pode aceder a um conteúdo crescente de edições em formato digital, do tipo google books. Por outro lado reúne bibliófilos de todo o mundo e convida-os a colocarem online as suas bibliotecas (não literalmente, claro) através do ISBN dos livros contribuindo assim para a formação de redes sociais ao nível de temas, assuntos e gostos literários. É certo que as editoras ou as distribuidoras ganham dinheiro com a publicidade, os contributos ao nível de resumo, crítica, etc, mas o leitor e o investigador não deixa de ser contemplado com ferramentas utilíssimas para pesquisa e edição. A partir de agora, juntamente com o acesso aos títulos bibliográficos da minha biblioteca pessoal que estão online aqui, juntam-se outros que introduzi na base de dados do LibraryThing e vão sendo mostrados aleatoriamente na barra lateral deste blogue. Se houver interesse em cópia ou empréstimo a algum leitor, podemos inclusive tratar disso. Basta contactarem-me!
29 de outubro de 2008
"Dicionário do cidadão sem medo"
SAVATER, FERNANDO - DICCIONARIO DEL CIUDADANO SIN MIEDO A SABER.
EDITORIAL ARIEL, S.A.: Barcelona, 2007. ISBN: 9788434453395
Comprei este pequeno livro (lê-se numa viagem de autocarro) em Madrid, há quase 2 anos. Ainda não foi traduzido para português, nem o tenho visto, sequer, nos escaparates das livrarias mais abrangentes. Com grave prejuízo para os leitores portugueses, quanto a mim. Fernando Savater (para quem desconhece, trata-se de um filósofo espanhol com vasta obra publicada que toca o social e o político contemporâneos) sistematiza o pensamento e a organização social actuais e todas as implicações que advêm de uma democracia ocidental em crise. Se não, vejamos: os verbetes que desenvolve no seu dicionário, são em torno da participação política e de um homem político (moribundo?): Cidadania, Constituição, Direita/Esquerda, Diálogo, Estado, Identidade, Imigração, Laicismo, Nacionalismo, Opinião pública/opinião pessoal, Parlamento, Paternalismo, Paz, Políticos, Progressista/Reaccionário, Povo, Sectarismo, Separação de poderes, Terrorismo, Tolerância. Savater oferece-se para discutir connosco problemas preementes, como o terrorismo ou a cidadania, tendo sempre presente a necessidade primeira da discussão (que dá o mote para quebrar um silêncio cada vez maior dos cidadãos com medo). «Em democracia políticos somos todos», diz. Talvez seja esta a razão fulcral do livro, penso eu, se não por que é que Savater abordaria questões como os sectarismos, a inevitável imparcialidade dos media e a formação de uma classe de «especialistas em mandar», como designa os políticos actuais? A democracia anestesiou a participação cívica. Não se trata de uma forma de censura, mas sim de uma espécie de cura pela doença que deixa no organismo vivo que é a sociedade um total desinteresse pela participação e pela cidadania (dando azo ao oportunismo de alguns que vêm no amorfo o terreno fértil para instalar o seu consulado).
P.S. Agrada-me especialmente a entrada "paternalismo". Savater define e resume bem a hipocrisia dos Estados, face aos seus cidadãos: El vicio de los goviernos y de las autoridades públicas de empeñarses en salvar a los ciudadanos del peligro que representan para sí mismos (...). los Estados suelen ofrecerse solícitamente para dispensar a los ciudadanos de la pesada carga de su autonomía. Su lema es «Yo te guiaré: confía en mi y te diré lo que debes comer comer y beber, lo que debes leer, los programas de televisión o las películas que debes ver, cuánto debes gasta en el juego, qué debes hacer com tu cuerpo, etc.» Por supuesto, semejante solicitud no es de todo inocente.
8 de janeiro de 2008
O último grande amor a Portugal.
Sim, quem leu já o livro "O último minuto na vida de S." reconhecerá que o tópico que acompanha o título deste blogue, foi «transcrito» para papel da boca de Snu Abecassis, num dos seus derradeiros segundos ficcionados por Miguel Real. Esta obra foi lançada em finais do ano passado e retrata uma parte da vida de Ebbe Merete Seidenfaden, que ficou conhecida na História de Portugal como a amante de Francisco Lumbrales de Sá Carneiro, primeiro ministro de Portugal (entre Jan. de 1979 e Dez. de 1980). Isso mesmo, amante, amásia, concubina, quase meretriz, se antentarmos bem nas hipócritas palavras de Mário Soares, datadas de 1980: se Sá Carneiro não consegue governar a sua família, não pode governar o País. No fim, que país havia para governar? «(...) o teu país não vale a minha vida, tu vales, pot ti morrerei, mas pelo teu país não, há quinhentos anos que este país não vale uma missa, quanto mais uma vida, e logo a minha e a tua, um amor feliz em terra de elites masoquista, queixam-se e recriminam-se atirando as culpas para o povo, mas quem faz as leis e as regras não é povo, é essa miserável elite donde vieste, amor, donde te destacaste, ah querido, porque tinhas que te destacar, não deixam, em Portugal, não deixam, sempre que alguém se distingue tem de adoecer ou morrer, só humilhado pode continuar, o Damião de Góis assassinado, o Vasco da Gama esquecido, o Sá de Miranda banido, o Camões agasalhado em miséria, fugido, o Francisco Manuel de Melo expatriado para a Bahia, o padre António Vieira lugado por inquisidores inferiores a gafalhotos, o Cavaleiro de Oliveira queimado em efígie, o Pombal desterrado, o Eça exilado por conta própria, o Anterio suicidado, o Mário de Sá-Carneiro envenenado, o Pessoa silenciado, o Sena arredado, o Pascoais isolado, o Torga abafado, o Régio ameaçado, o Vergílio intimidado, o Lourenço banido, o Agostinho da Silva perseguido, o França imcompreendido, o Mário Soares preso, o Cunhal clandestino, quantos mais, tu és apenas mais um, amor, dear, é a cáfila a retorquir, a récua a abafar, a caterva a asfixiar, a corja a vomitar, a matilha a destruir, a turba a invejar, a chusma a maldizer, a horda a barbarizar, os funcionários a desfuncionarem, como dizia O'Neil, os empregados a invejarem, os caixeiros a intrigarem, as domésticas a mexericarem, os directores a priveligiarem, os patrões a explorarem, os políticos a mediocrizarem, os secretários a caluniarem, os subordinados a difamarem, os chefes a abocanharem (...). Cá em casa cresci a ouvir falar numa mulher esbelta e inteligente que amara Sá Carneiro, um salvador desta pátria a quem a pátria tratou como sempre trata os seus salvadores, com servilismo e inveja. Apaixonei-me por ela e venerei-a num lugar longínquo da minha memória. Hoje, ao terminar a leitura do livro de Miguel Real, que há muito me habituou a uma prosa riquíssima e excruciantemente viva, derramei lágrimas como nunca havia derramado sobre letras. Mais do que homens e mulheres que não deviam nascer em Portugal, há amores perfeitos de mais para caberem num rectângulo tão obtuso, como o que compõe este país.
REAL, Miguel - O último minuto na vida de S. Lisboa: Ed. Quidnovi, 2007. ISBN 978-972-8998-80-6.
REAL, Miguel - O último minuto na vida de S. Lisboa: Ed. Quidnovi, 2007. ISBN 978-972-8998-80-6.
6 de janeiro de 2008
Portugal. Now and then.
Há coisas que nunca mudam. O anoitecer e o amanhecer, o dia e a noite, a neve nos pólos e a incondicional e abnegada boçalidade portuguesa. É mítica, todos a conhecem, todos a sabem reconhecer e não houve escritor, pintor ou outro artista que não a reproduzisse ou a ela se referisse depois de uma passagem por Portugal. Ralph Fox, um homossexual comunista em certa altura encantado com os bigodes loiros dos marinheiros que o acompanhavam na penosa viagem a este país encantado, aportou em Lisboa em 1936 para traçar um retrato nada glorioso da nação entregue ao regenerador «Salazar» ( expressão é do Fox). Até aqui nada de novo. Mais um inglês, com poucos conhecimentos de História de Portugal (mas com vantajosos conhecimentos financeiros) traçou o retrato de uma república aniquilada por uma monarquia impopular: «o último rei, o devoto e gordinho Manuel, era famoso por uma única razão: a sua dedicação apaixonada e dispendiosa a uma conhecida bailarina francesa». Não era D. Manuel, era D. Carlos, não era bailarina, era cantora - a história está mal contada o que não espanta, vindo de alguém que de bailarinas ou cantoras pouco entenderia. Mas Ralph Fox não se insurge, apenas, contra o que de chama de «obscurantismo, a sujidade, a ignorância e a pestilência generalizada», obra, segundo ele, da Casa de Bragança - vai mais longe, dizendo que os palácios reais de portugal são «monumentos à ignorância, à estupidez e a uma quase inacreditável falta de gosto dos seus proprietários». Claro que os palácios reais portugueses não são os palácios reais ingleses, muito menos a nossa monarquia se podia comparar «à sua». Há uma coisa interessante nos ideólogos britânicos, sejam os da direita, sejam os da esquerda: o que nos outros países é péssimo, embora no Reino Unido também o seja, é sempre um ponto a favor ter-se e ser-se uma nulidade em Inglaterra. Não me espanta, nem me dói na consciência patriótica ou ideológica que D. Miguel andasse aos tiros a carneiros ingleses, como se conta por aí... Honra seja feita a D. Miguel por acertar em carneiros ingleses. Dos proteccionismos britânicos vieram sempre maus ventos e nada bons casamentos - e não de Espanha. Nós ficamos sempre sem lã, sem vinho e sem honra: enregelados, sóbrios e pasmados. Regressando a Fox e ao seu vol d'oiseau por Portugal, o que importa reter da leitura deste pequeno livro - que o autor nunca viu impresso, pois morreria nas trincheiras republicanas espanholas - é o registo paternalista, comum a tantos outros autores que cá passaram. É evidente que há coisas que nunca mudam, e a boçalidade, os vícios veniais, a sociedade apática e os políticos corruptos continuam cá - o que não impedia que metade da Europa civilizada gostasse de banhar os pés nas praias do Estoril, ou explorar os camponeses - tão pobres e tão sujos - que pulavam de Norte a Sul do país. Afinal de contas Salazar, de tão inteligente que queria parecer, acabou por ser o ditador menos respeitado e mais usado de uma Europa devoradora. E os ingleses, «nossos maiores aliados», sempre abriram a boca para dar a maior dentada. Há coisas que nunca mudam.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


