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13 de junho de 2012

Um tipo de feudalismo

Hoje, no Combustões, o Miguel CB escreve:

No fundo, as pessoas são, na generalidade, muito pouco interessadas na política. Querem ser reconhecidas, querem que as estimem pelo que valem e estão sempre dispostas a seguir o rumo que os acontecimentos indicam. O estar bem com o tempo tudo permite. Anteontem salazaristas, ontem comunistas ou socialistas, hoje seguidores do governo, amanhã, quem sabe, incondicionais do general que por aí virá mais tarde ou mais cedo.

É engraçado que o faça no dia de Santo António, taumaturgo que primeiro ingressou nos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho e depois os trocou pelos Franciscanos. Esta coisa da adesivagem, tão disseminada entre 4 e o 6 de  Outubro de 1910 deve estar relacionada com o tipo de vínculos que há séculos rege a sociedade portuguesa, vertical e horizontalmente: o clientelismo. No fundo, todos dependem de alguém de tal forma que caindo um os outros o seguem. Ou subindo na escala social o padrinho de muitos, alguns o acompanharão até ao céu. No país onde o feudalismo não teve expressão, criou-se um vínculo mais forte, misto de lealdade hipócrita com temor e servilismo.

14 de maio de 2012

Breve história do clientelismo português.

O problema não está em observar a predominância destas práticas na sociedade portuguesa do século XVIII e XIX, mas sim em perceber por que é que elas mudaram tão pouco, mesmo com o aparecimento de burocracias modernas e com o fim do antigo regime. Antes da existência de uma burocracia moderna, supostamente alicerçada no mérito, na carreira, nos títulos escolares e académicos e na competência profissional, era natural este mecanismo de troca de favores, entre todos os que acediam ao poder, que intercediam por si e pelos debaixo de si. Mas é impossível deixar de encontrar um espelho dos costumes pátrios que continua a existir, agora sem serem postos no papel e de forma mais sofisticada, mais cara e... ilegal.
 José Pacheco Pereira, Abrupto e Público.

12 de janeiro de 2012

Deixem-me falar-lhes sobre o clientelismo.

Clientelismo é, segundo os dicionários: maneira de agir que consiste numa troca de favores, benefícios ou serviços políticos ou relacionados com a vida política. Ora todas as discussões, em Portugal, sobre a vida política, deviam começar por esta definição. É claro que generalizaríamos se enfiássemos o Carmo na Betesga, ou seja, Portugal no clube exclusivo de países onde o clientelismo impera. Não é assim, mas é certo que o nosso país integra o pelotão dos países onde a corrupção é maior, sendo o clientelismo uma expressão da corrupção.
Quando há meses se formaram movimentos de cidadãos indignados, precários e acampados, todos eles se esqueceram deste pequeno pormenor: não é o voto que manda, é o clientelismo que tem última palavra. Percebê-lo é o primeiro passo para mudar as coisas que alguns queriam mudar, embora muitos quisessem apenas... mudar. O quê, era irrelevante.
Durante os últimos séculos os portugueses viram com bons olhos o clientelismo, cultivaram-no com gosto. Desde o jeitinho à cunha, passando pela manutenção de vínculos familiares como força de manter certos feudos (mesmo apesar do republicanismo primário), o português, qual feitor analfabeto, sempre se sujeitou a ir de chapéu na mão à caso do doutor, pedir emprego para a filha ou filho. O facto de os colocar na universidade não mudou nada esta mentalidade. Se não era, agora, o pai a pedir emprego, era o filho que conhece bem o valor do factor C [vulgo para cunha].

19 de dezembro de 2011

O estradismo: uma crónica sobre as últimas três décadas de asfalto.

Com o estradismo veio o lixismo: 
aspecto de uma lixeira ilegal junto a uma estrada municipal em Cinfães.

Nos últimos 30 anos (e mesmo durante a longa noite do Estado Novo) os senhores governantes do concelho de onde sou natural debitaram um extenso relambório eleitoralista cujo tópico principal era a estrada. Segundo eles, eram necessárias estradas. Estradas em todos os sentidos, a ligar todos os pontos: A a B, B a C, BB a CC, etc etc. Com a chegada dos fundos comunitários construiu-se, então, um número ilimitado de estradas, estradinhas e estradões para todo o lado, mesmo antes de existir uma rede de saneamento, da própria electricidade e de água potável para todos. Onde havia uma casa, podia o seu proprietário contar com uma estrada à porta, apesar de não ter esgotos nem água canalizada. Entre asfalto e paralelepípedos de granito, o investimento em vias suplantou o da educação, da cultura e do apoio ao comércio e à indústria locais. A grande justificação era a de que as estradas trariam progresso, aproximavam pessoas, tornavam as distâncias longas em percurso reduzidos e, portanto, geravam progresso. Tempo é dinheiro e, como tal, as estradas iriam supostamente constituir autênticas caixas multibanco do interior. Ao mesmo tempo que as câmaras municipais e os seus feudos distribuíam empreitadas a construtores "da sua confiança", o Estado central gizava auto estradas para transformar Portugal num reticulado de asfalto e cimento. Foi o “estradismo”.
Hoje Portugal está à beira do colapso económico, o município onde nasci entre os três mais pobres a nível nacional e as estradas quase sem carros. É que, entre autarcas corruptíveis, empreiteiros sem escrúpulos e banqueiros ávidos que durante anos alimentaram o consumo desenfreado, o resultado está à vista e é catastrófico: há quem não possa pagar os carros que comprou, a especulação dos preços do combustível inibe as deslocações e, quer o Estado, quer as Câmaras Municipais investiram em demasiadas vias que agora poderão manter nem sequer assegurar a conclusão de alguns projectos. Este investimento criminoso em vias de comunicação sob o pretexto de um progresso fácil (como se as estradas apenas trouxessem as pessoas e não as levassem, também...) transformou um país num cemitério de projectos inacabados e desfasados da realidade. Lembro-me que durante os anos 90 se calcetaram quase todos os caminhos das aldeias da minha freguesia, mesmo que dentro de algumas casas não houvesse condições sanitárias. E muito proprietários, os mais sabidolas – da velha cepa do chico-espertismo português – aproveitaram os dinheiros públicos para calcetar os seus pátios e garagens. Em certas casas o asfalto ou o empedrado chega à soleira da porta. Casas vazias todo o ano, em aldeias desertificadas.
Numa entrevista recente, Gonçalo Ribeiro Telles, o homem que há anos alerta para destruição social, cultural e urbanística do nosso país disse «Temos auto-estradas, mas não temos caminhos locais de relação com a vida local. Vê-se a vida passar na auto-estrada, mas não se sente. Desprezamos as aldeias porque não fazem parte desse modelo. O próprio povoamento do país não faz parte desse modelo e portanto não há que tratar sequer da sua dignidade como pessoas.». E acrescenta: talvez os governantes queiram destruir o país (GRT, ao jornal i, de 17-12-2011).
A descrição pode aplicar-se a qualquer município do interior do país, ao interior em geral onde, durante os últimos 30 anos se gastou dinheiro em estradas, rotundas e chafarizes e hoje, mais do que nunca, se sente o peso da desertificação, da deterioração do ambiente e, pior do que tudo, da fome.
Já não peço a criminalização daqueles autarcas e políticos que nos conduziram a este estado. A esses, se a consciência lhes não pesar, irão com certeza provar do próprio fado que traçaram para os seus munícipes e eleitores. Mas espero que esta crise ajude os portugueses a tornarem-se, de uma vez por todas, cidadãos de pleno direito, intervindo e tomando nas suas mãos o controlo que os políticos de carreira lhes têm vindo a tirar.
Durante muitos anos tenho ouvido pessoas mais velhas dizer com saudosismo saloio que Salazar os salvou da fome. Pois os políticos que lhe sucederam, não só os trouxeram à fome, como parece os lançarão numa guerra económica difícil de travar. A lição devia ter sido aprendida à primeira. Não foi. Esperemos que não seja tarde de mais.

Publicado em Aventar (http://aventar.eu/)

16 de dezembro de 2011

Aprecio

...o corporativismo da BAD (associação portuguesa de bibliotecários, arquivistas e documentalistas)  cujos elementos que a compõem têm constatado existir: 


mas infelizmente já vai tarde. O clientelismo atinge todas as áreas do Estado. Há muito tempo que as pessoas inúteis com habilitações pouco adequadas (ou sem habilitações) preenchem vagas úteis. E, de resto, os lugares são abertos não em função das necessidades, mas das pessoas que os requerem junto dos edis - a quem compete gerir os prémios por bom serviço à causa partidária. Este problema só se resolve com tempo e educação pois até legalmente pode ser contornado. E com certeza que muitos dos associados da BAD - sendo-lhe ofertada uma vaga a medida num qualquer organismo público - infelizmente não denunciariam essa valiosa oportunidade para ingressar numa carreira pública. Vamos ser realistas...

1 de dezembro de 2011

Agradeçam ao senhor Cunha.

Parece que um organismo internacional descobriu o que o governo da República Portuguesa anda a tentar ocultar há anos: a "corrupção no sector público" como causa da crise da dívida em Portugal. Não era preciso gastar milhões em estudos, como aqueles que foram gastos na OTA e no TGV para perceber uma coisa simples, que a corrupção, seja ela do tipo clientelista (como a cunha) ou da alta finança produz efeitos bombásticos no desenvolvimento de um país.
A cunha, por exemplo, tem semeado a incompetência na administração pública que pretere o mérito pela admissão de indivíduos ligados a famílias e partidos. Não ignoremos que a maioria dos concursos públicos estão viciados: ou são feitos à medida de um certo candidato ou o próprio júri justifica com intrincáveis preciosismos a sua escolha, frequentemente um medíocre tirado das fileiras de inúteis que alimentam as Queimas universitárias. Da administração central ao governo, do cantoneiro ao primeiro ministro, faz tudo parte de uma imensa cadeia de favores mútuos que vem do passado: uns ajudam outros e todos se ajudam.
A verdadeira ética que alguns chamam republicana era acabar com a partidocracia e devolver ao cidadão o controle da política. Mas isso, claro, não convém a ninguém. Mesmo os que agora criticam o que antes aplaudiam. Quando havia dinheiro para distribuir e cunhas para agradar a todos, toda gente era pró-europeísta, votava a torto e a direito em PS e PSD. Agora, tirada a gamela, morra o Euro, morra PSD, morra o PS, abaixo os políticos e acabe-se com a corrupção.
É a cair que se aprende a andar, meus amigos.

9 de novembro de 2011

"Enfins"

Só quem não trabalha em História, quem não tem de se deparar com empregos precários, quem não sente o que é ser-se desprezado quando se apresenta a alguém com uma licenciatura que não em gestão, direito, engenharia ou medicina, enfim, só quem não vive no fio da navalha para ser reconhecido ou respeitado é que não fica indignado ou mesmo enjoado com o que foi gasto nos últimos 2 anos em propaganda ideológica a propósito do Centenário da República.
Quando, por um lado, se fecham os centros de investigação das Universidade, se reduzem bolsas de estudos e se cortam nos apoios às edições científicas e por outro se gastam somas incontáveis de dinheiro em sinecuras, edições de luxo, exposições, tudo acrescido de um design de primeira água, apresentações sumptuosas pontuadas por cocktails e brindes, é que percebemos o quanto este país se revolve em interesses de grupelhos que pretendem e atingem o poder, manejando a seu bel prazer o erário público.
Nunca fui contra as comemorações do regime, embora as considere provincianas e bacocas tal como as de 1940, quando Salazar mostrava à Europa um país pobre mas alegre e virtuoso no seu Império de pacotilha. Compreendo que Portugal de 2010 se queira por em bicos dos pés para mostrar mais do que é, pretendendo enganar as agências económicas com a ideia de uma república centenária, cheia de valores e ideais que nunca cumpriu, não cumpre, e dificilmente cumprirá. Mas não aceito que se gaste sem olhar a meios, desviando do absolutamente necessário para outra áreas o dispensável. Que se celebre o regime e que alguns se orgulhem dele, pois empregou mais gente nestes 100 anos do que empregará nos próximos. Mas que se lembre de que a História não começou em 1910 e que os historiadores são pagos para escrevê-la e torná-la inteligível e não para mascará-la. 
Quando pensava que este regabofe acabar, ei-lo em jorro diário de eventos pagos e patrocinados por organismos públicos ou se não por estes, por Fundações como a de Mário Soares, generosamente subsidiada pelo Estado.
Vamos ser sinceros: já chega. Acabou. Não há mais nada para exaltar, comemorar ou louvar. Este "enfim,a república", bem podia ser o suspiro de cansaço de um regime que, para além de falido, está perfeitamente esquecido.

12 de maio de 2011

O clientelismo e a maçonaria.

Clientelismo é, segundo os dicionários: maneira de agir que consiste numa troca de favores, benefícios ou serviços políticos ou relacionados com a vida política. Ora todas as discussões sobre a vida política, em Portugal, deviam começar com esta definição. É claro que generalizaríamos se enfiássemos o Carmo na Betesga, ou seja, Portugal no clube exclusivo de países onde o clientelismo impera. Não é assim, mas é certo que o nosso país integra o pelotão dos países onde a corrupção é maior, sendo o clientelismo uma expressão dessa corrupção.
Quando há meses se formaram movimentos de cidadãos indignados, precários e acampados, todos eles se esqueceram deste pequeno pormenor: não é o voto que manda, é o clientelismo que tem última palavra. Percebê-lo é o primeiro passo para mudar as coisas que alguns queriam mudar, embora muitos quisessem apenas... mudar. O quê, era irrelevante.
Durante os últimos séculos os portugueses viram com bons olhos o clientelismo, cultivaram-no com gosto. Desde o jeitinho à cunha, passando pela manutenção de vínculos familiares como força de manter certos feudos (mesmo apesar do republicanismo primário), o português, qual feitor analfabeto, sempre se sujeitou a ir de chapéu na mão à caso do doutor, pedir emprego para a filha ou filho. O facto de os colocar na universidade não mudou nada esta mentalidade. Se não era, agora, o pai a pedir emprego, era o filho que conhece bem o valor do factor C [vulgo para cunha].

7 de outubro de 2010

E tudo se resume a isto.

É curioso que os republicanos se preocupem tanto com a eleição para chefia de Estado, mas não se importem que o mesmo Estado esteja repleto de indivíduos nomeados, não eleitos e que sucedem nos cargos por mero interesse partidário.

25 de setembro de 2010

Um país de doutores republicanos (e alguns engenheiros...).


 (o cartaz, furtado ao 31 da Sarrafada, vem mesmo a calhar)

"Os monárquicos, abarrotavam as cadeias. Destituíam-se em massa funcionários, que eram considerados adversários da república, e nomeavam-se, aos milhares, aqueles que o compadrio apadrinhava. Eram as represálias. Caído, em 30 de Março, o ministério presidido por José Relvas, foi encarregado pelo presidente da república de organizar governo o sr. Domingo Pereira, contador no tribunal da Boa Hora. O regabofe tocou então o cúmulo! O numero do Diário do Governo de sábado, 10 de Maio de 1919, teve 30 suplementos!! O 17.° suplemento, findou a páginas 1345, começando o 18.° a paginas 1346. Daí por diante, até ao 30.° suplemento, a pagina 1346 repetiu-se, continuamente, seguida das letras do alfabeto: A, B, C, etc.. Quando acabou o alfabeto, em página 1346 — Z, essa página seguiu sempre a sua marcha triunfante, acompanhada pelas letras do alfabeto em dobrado, assim: 1346 — A. A, 1346 — B, B, até aos dois ZZ. Depois, foram postas a seguir á mesma pagina, 1346, três letras do alfabeto: 1346 - A, A, A, 1346 - B, B, B, Chegados os três ZZZ, voltou ao seu princípio, com as quatro letras do alfabeto, e depois com cinco. Por fim, como já era enorme a bicha das letras, passou a indicar-se a interminável pagina 1346 desta maneira: 1346 — 6 A, 1346 — 6 B, até 1346—6 Z. E  assim se  foi  reproduzindo aquela eterna pagina, até 1346 — 10 A, 1346 — 10 B,   1346 — 10 C. Foi só então que a pagina 1346 expirou, de cansada e exausta, seguindo-se a pagina 1347!!
Previno o leitor, espantado com toda esta trapalhada, de que nos caixotins da tipografia em que este meu livro de Memórias é composto e impresso, não há o número de pontos de admiração necessários para se colocarem no fim dos últimos períodos que deixo escritos.
Trinta suplementos do Diário do Governo, tendo a pagina 1346 repetida, até chegar a ter dez letras do alfabeto diante dela ! ! Não sei de país algum do mundo onde sucedesse um caso destes. Disseram-me — e, se bem me recordo, a imprensa deu essa noticia — que andaram por 17:000 os empregados então nomeados. Dezassete mil!
Nunca houve, de lembrança homens, um bodo igual a este.
Não ficou parente pobre, nem doutor que não apanhasse prebenda.
Sim, porque a república fez, em Portugal, toda a gente doutora. Dantes, doutores, a valer, eram só os que tomavam capelo na Universidade de Coimbra. Depois, passaram a ser também doutores os magistrados; em seguida, os médicos; por fim, com a república, tudo são doutores, desde os lentes aos veterinários. Tal qual como no Brasil, segundo refere Eça de Queiroz na Ultima carta de Fradique Mendes, dirigida a Eduardo Prado e publicada nas Ultimas páginas."

CABRAL, António – As minhas memórias políticas: Em plena República. Lisboa: edição do autor, 1932, 431-432.