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14 de maio de 2012

O riso.

É preciso ter chorado para imortalizar o riso no livro, na estrofe, na sentença, na palavra:
O riso que escava, mina e alui teogonias;
O riso que desfaz religiões, cujo berço boiou embalado sobre as ondas de sangue;
O riso que abate a abóbada do templo sobre as ossadas dos mártires;
O riso que revoluteia as tormentas dos impérios, e abisma tronos, e espuma espadanas de lama - lama com que as gerações erigem os seus marcos milenários, as suas cronologias gloriosas.

Camilo Castelo Branco, A Mulher fatal, c. 1870.

29 de março de 2012

"Quem faz casa na praça..."

A huns, e outros perdoara eu, se delles viramos obras, e que se meta a pintor quem nunca poz a mão em pincel; que brazone de Escultor quem nunca abrio com buril, nem metal, nem pedra, finalmente, que se queira inculcar perito em officio que não aprendeu, he manifestar a impericia; obras são a pedra de toque do saber; campo esteril, e dezerto não tem voto em novidades, e frutos da terra; não obrar nada, e querer criticar em tudo o que se obra, he entrar na batalha, e escapar a seu salvo. Appareção as obras dos Criticos, também para elles haverá Zoykos, e Aristarcos. Quem faz casa na praça, huns dizem que he alta, outros que he baixa. 

Padre Rafael Bluteau, 1728

23 de novembro de 2011

A doutrina da má-lingua, segundo Eça.

"A pobre realeza, que a Carta tanto honra, não é mais bem sucedida. É a perpétua escarnecida. É escarnecida pelos jornais de oposição, e pelos governos demitidos. É escarnecida nos teatros, onde o tipo do Rei Bobeche teve o triunfo de um panfleto. É escarnecida nas conversações dos cafés, e na maledicência do Grémio.
Segundo a Carta, a realeza é irresponsável. Mas não há partido que não lance a sua inépcia à conta da realeza. – Se não fosse o Rei! – é a desculpa invariável dos ministros que não governam, dos oradores que não falam, dos jornalistas que não escrevem, dos intrigantes que não alcançam.
A realeza é acusada por tudo: pelas despesas que faz e pela pobreza em que vive; pela sua acção e pela sua inacção; por dar bailes e por não dar bailes. O público está para com ela num estado enervado, como com um importuno a quem não lhe convém dizer: vai-te embora!
No entanto a opinião liberal continua a declarar que existe um trono. Existe para ela como um efeito de Quintiliano – como um movimento de eloquência para os discursos de grande gala!
Apesar disso, a esta política infiel aos seus princípios, vivendo num perpétuo desmentido de si mesma, desautorizada, apupada, pede ainda, a uma multidão inumerável de simples, a salvação da coisa pública. É trágico, como se se pedisse, a um palhaço de pernas quebradas, mais uma cambalhota ou mais um chiste.
O orgulho da política nacional é ser doutrinária. Ser doutrinário é ser um tanto ou quanto de todos os partidos; é ter deles por consequência o mínimo; é não ser de partido nenhum – ou ser cada um apenas do partido do seu egoísmo.
De modo que todos estes monárquicos, bem no íntimo, votariam por uma república. Todos estes republicanos terminam por concordar que é indispensável a monarquia!
Quer-se geralmente o prestígio da realeza e a majestade do poder; mas deseja-se que el-Rei se exiba numa sege de aluguel e que Sua Majestade a Rainha não tenha mais que dois pares de botinas.
Chega-se a admirar Luís Blanc, mas prefere-se a tudo isso uma terra de semeadura obrigada à côngrua para o pároco e aos tantos por cento para a viação. A burguesia invejosa e desempregada fala na federação, na república federativa, na extinção do funcionalismo, na emancipação das classes operárias; mas entende que o País pode esperar por estes benefícios todos, se no entanto lhe derem a ela lugares de governadores civis ou de chefes de secretaria. Uma plebe ardente fala em beber o sangue da nobreza; mas ficaria satisfeita se a nobreza, em vez de oferecer a veia, mandasse abrir Cartaxo.
Tanto se conciliam todos! E assim que o egoísmo domina. Cada um se abaixa avidamente sobre o seu prato.
– Mas tudo se equilibra, diz a opinião constitucional, não há comoções, não há lutas!
Sim, tudo se equilibra – no desprezo, por desprezo.
Nas sociedades corrompidas a ordem chega assim às vezes a reinar.
E a ordem pelo desdém. Outros diriam pela imbecilidade!"

Eça de Queirós, Uma campanha alegre I (1890-1891).

25 de dezembro de 2010

O céu de Portugal.

"Tinha ele vindo de Castela a Portugal, sob pretexto honesto, a tratar cousas suspeitas e indignas do seu hábito e profissão. Como era sagaz e astuto, soube encobrir-se com arte e fingir-se com ardil, por feição que se fez lugar entre os portugueses. O que não admira. Pois é costume desta nação venerar o de fora, e desprezar o de casa. Parece que como Deus criou esta nação para descobrir terras, lhe influiu inclinar-se para estrangeiros. Pelo que, se lhes pega o que vem de fora como se fosse natural, e tratam o natural como se fosse estranho. Um perpétuo milagre se vê no céu de Portugal: e é que têm nele melhor estrela os estrangeiros que os naturais. Estima-se em Portugal como raro e amável, o que é estranho e peregrino.[...]

Diogo César de Meneses, falando de frei Nicolau de Velasco, pela pena de Camilo Castelo Branco em "Luta de gigantes", 6.ª edição, de 1976, da Parceria A. M. Pereira, p. 80-81

22 de maio de 2010

«Rir de quem nos quer matar»

«Há tempos num jantar perguntaram-me o que é que eu achava duma senhora fascista (e desavergonhadíssima) que me odeia a mim e ao Francisco [de Sousa Tavares] e que nos persegue com malcriações incríveis e calúnias. Eu respondi que a achava boa, inteligente, séria, culta e bem educada. Até os amigos da dita senhora tiveram de dar uma gargalhada. É o único sistema: rir de quem nos quer matar.»

Sophia de Mello Breyner a Jorge de Sena, 1961.

11 de agosto de 2009

Lembrança aos navegantes.

"As pessoas mais rotineiras, para quem a vida é uma especulação perspicaz dependente de grande cuidado no cálculo dos caminhos e meios, sabem sempre para onde se dirigem e vão lá ter. Partem com o desejo de ser o sacristão da paróquia: conseguem-no, mas nada mais.. Um homem cujo destino é ser qualquer coisa diferente daquilo que é, um membro do Parlamento, um merceeiro próspero, um advogado proeminente, um juiz, uma qualquer outra coisa igualmente fastidiosa, invariavelmente conseguem ser aquilo que queriam ser. Esse é o seu castigo. Todos os que querem uma máscara têm de usá-la." 

"Carta a Bosie", Oscar Wilde