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3 de março de 2010

Noites.


A espera...
Estação de Medina del Campo 2009 (c) NR

O mítico Sud Express foi anteontem substituído por um comboio moderno, espanhol (ao que parece, para a CP, ambas as palavras são sinónimos) que assegurará a ligação Lisboa-Hendaia. O velho percurso que vinha de 1886 já havia sido barrado na fronteira espanhola, ficando a ligação em território francês assegurada pelos comboios deste país. Morre o símbolo do século da Civilização, da Bélle Époque, dos grandes tours mas, sobretudo, da sangria que significou a Emigração Portuguesa para a Europa durante as décadas de 1960 e 70.
Tive a oportunidade fazer uma parte da viagem, no sentido Medina del Campo - Pampilhosa, no princípio do verão passado. Foi uma experiência extraordinária a de «navegar» pela meseta espanhola dentro de uma cabine escura, tendo como companheiros de viagem uma turista acidental, velhas cortinas serpenteantes e uma pequena fresta na janela de onde observava o caminho das estrelas nos seguiam. Depois de um sono pouco repousante fui alertado para o crepúsculo em Vilar Formoso, onde movimentos mais lentos faziam a substituição das automotoras.
Em Pampilhosa, à chegada, éramos um punhado de estremunhados. Falava-se uma mistura de francês e português.
Saí de Medina del Campo com uma temperatura de 25 graus por volta das 2h da manhã e cheguei a um Porto que despertava com 12 graus.
Lembrei-me da minha infância, quando todos os comboios viajavam de noite (ou seriam túneis?) e todas as cidades eram manhãs...

Outros olhares sobre o Sud Express:

24 de outubro de 2009

#Sugestões (2)

I. Adeus à Era dos Jornais? Um velho tema, reciclado no The New Republic.
II. O regresso à Linha do Tua: o fim estará mesmo próximo?
III.O anúncio do nascimento do senhor D. Duarte Pio João de Bragança, herdeiro da Coroa de Portugal (1945).
IV. A tripla estrela de Saturno num quadro de Rubens.
V. Câmaras Municipais Portuguesas obrigadas a ter um plano contra a corrupção? Contra qual corrupção? [Ainda há dias um funcionário público me dizia que existem vários níveis de corrupção dentro das Câmaras Municipais, a «cunha» do Presidente da Câmara anula a «cunha» do Vereador que, por sua vez, anula a cunha do técnico administrativo, etc, etc. Faz lembrar aquela arenga revisteira: tudo rouba minha gente. É difícil acabar com isto...digo eu.]
VI. O debate Padre Carreira das Neves versus Saramago. Não foi uma luta épica, antes confrangedora, entre dois velhinhos em cavaqueira amena. Saramago sai a ganhar. A Igreja Portuguesa é muito branda e relaxada. E tem um problema que é o seu pecado capital maior: quer estar de bem com Deus e com o diabo. Quando perceber que isso não é possível será, talvez, tarde de mais. [Post scriptum: o Caderno Anti-Saramago tem, como é seu apanágio, uma magistral resposta à polémica. Uma resposta à altura, aliás, daquelas que o Prof. Carreira das Neves não conseguiu aplicar].

1 de agosto de 2009

Fim de linha para Portugal.

Não sei se os jornalistas da sic leram as minhas crónicas de 15-6-2009 e 25-3-2009, mas a peça transmitida vem reiterar e repetir muito do que aqui escrevi. É mais uma história da vergonha portuguesa, de um país que quer investir em barragens, eólicas, TGV's e mais autoestradas (para agradar a conselhos de administração e cartéis) e encerra 500 quilómetros de linha férrea. Mesmo apesar do Protocolo de Quioto pedir a redução de CO2 e o uso de transportes públicos não poluentes! A estupidez colectiva é mais gritante quando comparamos Portugal e Espanha, onde a via férrea serve efectivamente a maioria da população. Desculpem-me o desabafo, mas é o que sinto: este é país governado por gente imbecil e por cidadãos nulos.

15 de junho de 2009

Crónicas de uma viagem II

Estação ferroviária de Toledo Comboio Madrid-Toledo

El Berrón - entroncamento ferroviário de linha estreita Tren del Cantábrico

Fotografias (de cima para baixo, da esquerda para a direita): 1 Estação ferroviária de Toledo (em estilo neo-árabe); 2 aspecto do interior do comboio interregional entre Madrid (Atocha) e Toledo; 3 Entroncamento ferroviário de El Bérron, onde se cruzam as linhas estreitas que servem Oviedo, Santander e Gijón, todas electrificadas; 4 O Tren del Cantábrico. É possível, desde Bilbau ou Santander apreciar os montes Cantábricos e as Astúrias num comboio-hotel que circula em via estreita. Seria o equivalente a ir do Porto a Bragança em comboio, algo que já foi possível e hoje é mera utopia.

Não é preciso ir à China, ou melhor, não é preciso ir a Espanha para ver que, tal como está projecto, o TGV não tem sentido absolutamente nenhum em Portugal. Espanha construiu e continua a construir as suas linhas de alta velocidade em tempo oportuno, seguindo as demandas do mercado. Unir Barcelona a Madrid faz sentido. Madrid-Sevilha, também. E, seguindo a tendencial força tentacular da capital da Península Ibérica, chegar a Lisboa pode, talvez, ser um bom negócio para os castelhanos (embora chegar a Sines ou a Leixões seja bastante mais vantajoso para a economia de nuestros hermanos). § Andar a brincar aos comboios num país que encerra linhas turísticas porque são uma ameaça para os seus passageiros, ou que não investe em ligações ferroviárias regionais e interregionais claramente viáveis (e refiro-me às ligações a Bragança e Viseu, por exemplo), é um perfeito dislate. Mais um, aliás, com que nos brindam os governos e os governantes da III República. Sim, por que no que concerne a politiquismo, despesismo e má governação, Sócrates não só não dá cartas, e não foi o inventor dessa fórmula que dirige este país há 30 anos. Devemos recordar o glorioso Cavaco Silva que inundou o país de cimento e asfalto, distribuiu uns quantos Range Rovers a meia dúzia de patos bravos e hoje empoleira-se na cadeira do poder como uma virgem vestal, púdica e recatada. Afinal, tudo começou durante o seu consulado: os dinheiros europeus enebriaram todos, desde o presidente da junta até ao Ministro dos Transportes e foi um corrupio. O que se vê hoje? "Prédios Coutinho", o lixo visual da cidade de Braga, o Centro Cultural de Belém e umas quantas ic's esburacadas que ligam meia dúzia de vilórias do interior. Os caminhos-de-ferro não progrediram, as estradas só servem para fugir e o ambiente aguentou com as consequências de anos e anos de más políticas (passamos das etar's para as eólicas como se nada fosse...). Bom, isto tudo para dizer que se em Espanha o TGV funciona, um comboio a circular em via estreita também. E está electrificado, coisa estranha e nunca vista em Portugal. É possível atraversar-se as Astúrias e os montes Cantábricos (Santander-Oviedo e Bilbau-Léón) em carris de ferro de bitola estreita. Em Portugal a ligação Porto-Salamanca (que mais rapidamente nos aproximava à Europa) foi fechada porque o seu rendimento não conseguia assegurar os benefícios do conselho de administração da CP. Ganharam os lobies das empresas de autocarros que, não só contribuiram para o desgaste das estradas portuguesas, promoveram o trânsito e a poluição em escala nunca antes vista e (porque ninguém pensa nisso) tornaram as estradas menos seguras. Eu nem quero alongar-me a falar da linha que liga Oviedo a Leão. A foto abaixo é apenas um vislumbre do tipo de locais por onde ela passa (ou melhor, serpenteia) - está electrificada e equivale a uma das nossas linhas suburbanas, embora no percurso sirva apenas meia dúzia de aldeolas. Parece que é rentável. § Ou os administradores da RENFE ganham menos que os da REFER/CP, ou alguém em Espanha leva o curso de engenharia até ao fim.

Vista do comboio entre Oviedo e Leão

29 de abril de 2009

Pouca-terra, pouco-juízo.

IMGP1075

Douro, 2009 (c) N.R.

Depois de um périplo pelos restaurantes do Douro, chego mais balofo à invicta para constatar (após cinco dias sem notícias) que tudo na mesma, mais do mesmo neste país de homens de abril. Ainda agora lia uma citação de José Gil: "Em Portugal não há drama, tudo é intriga e trama!". É verdade. Desde a triste urdidura em redor da (nenhuma) representação oficial da república portuguesa ante a canonização de Nuno de Santa Maria, até à campanha pidesca da Ministra da Educação que tem já por hábito montar tribunais inquisitórios pelas escolas do país, pouca coisa espanta. Aliás, espanta tudo tão pouco, desde que de soubemos de porcos a espirrarem no México e, quem sabe, ocasionarem tremores de terra no outro lado do mundo. O efeito borboleta foi inventado em Portugal como fait-divers. Haja alegria no meio de tudo isto: as farmacêuticas já esfregam as mãos de contentes e sempre se poupa algum dinheiro por cá, em férias adiadas ou canceladas a Cancun - por todos os que contrairam empréstimos para as pagar. Tenham juízo! § Voltando ao Douro: a montanha pariu um rato. Fui ao Museu, o das parangonas da Pires de Lima e do Sócrates himself. Muito dinheiro para tão pouca uva. Salva-se a loja de recuerdos que sustém em consolo de vista o que a saleta de exposições não enche. Mas está bem, foi bem visto, começar pelo inglês basófias a quem o Camilo aplicou um daqueles insultos que mereciam o prémio nobel como defesa pela honra de uma cidade e região que o dito britânico chamava de mixórdia. Sempre se dá aos ingleses a contínua sensação de que ainda são nossos donos. E não serão? § Entretanto, ao lado do "Museu de um milhão de contos", está a linha do Douro, reduzida agora a uma espinha entre o Porto e Pocinho - mas, por quanto tempo? Valha-nos São Nuno que apesar de nos ter salvo dos espanhóis, tem menos importância e significado nacional do que um cão de água. Mas talvez seja isso que mereçamos: sermos conhecidos mundialmente por um quadrúpede, do que por um santo.
P.S. Não obstante a farta comilaina da qual me penitencio ainda para mais por ser perpetrada em época de tanta carestia, foi um agradável fim de semana na companhia de um grupo de pessoas com extraordinárias virtudes. A todos, um abraço. Contem comigo para outras andanças - menos fartas em vinhos e pitanças mas (ainda) mais ricas em cultura!

25 de março de 2009

Quem pára esta gente?

(c) N.R.

Acabo de saber que as empresas CP/REFER decidiram fechar o serviço ferroviário entre Livração e Amarante (Linha do Tâmega) e Régua a Vila Real (Linha do Corgo), alegadamente por razões de segurança. Não posso deixar de ficar indignado. Que país é este que vai investir de milhões de euros no TGV para servir meia dúzia de tecnocratas e esquece as populações do interior? Que enche as serras e as planícies com inestéticas e caríssimas torres para produção de energia eólica mas cede ao lobby automóvel? Rio-me quando ouço o senhor Sócrates Pinto Sousa dizer para os portugueses comprarem painéis solares e uma das empresas públicas do país não investe na electrificação da rede e fecha linhas férreas porque não são rentáveis ou não são seguras (e no entanto os seus administradores são pagos a peso de ouro). Que espécie de políticos e gestores são estes que não compreendem ou não querem compreender que as linhas férreas só são rentáveis quando nelas se investe? O que a Cp/Refer tem vindo a fazer é crime. Há anos que as empresas Cp/Refer prestam um mau serviço, não obstante os recentes esforços de modernização: o material circulante é, na sua maioria, antigo, desconfortável e obsoleto e as infraestruturas de apoio estão degradadas e inoperacionais. As vias férreas fecham a um ritmo alucinante desde os anos 80. Cidades capitais de distrito como Bragança, Vila Real, Viseu, pólos universitários e com um grau de desenvolvimento que o exigia, não têm serviço ferroviário. Aqui ao lado, em Espanha, até uma via férrea de bitola reduzida (como as transversais ao Douro) está electrificada. É óbvio que ninguém fará nada quanto a estes encerramentos. Ninguem levantará a voz. Somos um povo de indolentes amorfos. Conquanto não nos venha a casa prejudicar, nada faremos. Tendo carro e gasolina, este é apenas um problema de meia dúzia de parolos do Douro, na sua maioria velhos, crianças sujas, homens e mulheres sem formação. E de facto é verdade. Se não são dignos nem capazes de usar o TGV, não contam para os números do desenvolvimento económico.