Mas nós, que a nossa idêa e os nossos peitos novos
Trazemos sempre am ancia, á busca de outros céos,
Deixemos que os condemne a maldição dos povos,
E ergamos, toda livre, a fronte para Deus!
Narciso de Lacerda, Elles, 1878
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13 de agosto de 2012
Prenda de verão.
Ainda faltam alguns dias para o meu aniversário, mas esta prenda não podia esperar. Chegou hoje. E valeu a pena a espera.
30 de setembro de 2010
Um certo Douro em 1909.
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| MENDES, Adelino - Terras malditas. Porto: Magalhães&Moniz, 1909. |
Adelino Mendes, que J. Paulo Freire definiu, em 1924, como a «mais alta expressão do jornalismo de paysagem» (1) foi um dos repórteres da República. Nos anos conturbados imediatamente antes e depois de 5 de Outubro de 1910, A. Mendes nunca deixou de, quer nas páginas do Século, quer nas páginas d'A Capital, de debitar crónicas de um jornalismo «realista», extremamente tendencioso que pintava a cores fortes os quadros sociais, técnica tão ao agrado da luta política e ideológica daquela época. § Em Janeiro de 1909 Adelino Mendes foi encarregado de deslocar-se ao Douro para fazer uma reportagem sobre as condições de vida das gentes daquela região. O estilo posto nas descrições, pungentes relatos «em directo» de uma certa desgraça que equivaleriam hoje ao sensacionalismo de certas redacções, causou impacto em Lisboa. Entre 18 de Janeiro e 1 de Março de 1909, A. Mendes percorreu praticamente todas as freguesias de Peso da Régua e algumas freguesias de Sabrosa, Alijó, Lamego e São João da Pesqueira traçando, num melodramático e monocórdico tom de desgraça, um certo viver do Douro. O tom das suas crónicas, separadas por dias, viagens e destinos, é sempre o mesmo: dirigindo-se aos casebres mais pobres, lá encontra material para a sua análise. Segue-se uma breve entrevista. O interlocutor, seja uma mulher vestida como uma vagabunda, um petiz descalço e esfomeado ou homem velho ressequido pela indigência confessa-lhe invariavelmente o mesmo: uma vida miserabilíssima de fome e desemprego. De vez em quando um pequeno proprietário dá a voz ao entrevistador. E o discurso é, vocabular e gramaticalmente semelhante, do pobre ao morgado: a pobreza, a desgraça, a miséria. Um certo Aires, fidalgote de Lobrigos, terá mesmo afirmado: «A monarchia [...] já nada póde dar». E acrescenta, falando pelo morgado decaído: «Só tem esperança no triumpho da democracia. E se, para ella vingar, fôr preciso subir aos alcantillados cêrros da sua provincia, ele, apesar dos seus quarenta anos bem puxados, não será dos ultimos a trepar». § Apesar da fraqueza derivada da miséria, A. Mendes não hesita em imaginar o povo duriense, qual fronda armada, a ir a Lisboa para...(as reticências são o autor)e acrescenta: «a revolta que o domina [ao povo] é latente». Para o jornalista, que apenas procura a pobreza, a sociedade nem chega a ser maniqueísta. Não há ricos, apenas pobres e embora seja benevolente com o poder clerical (de salientar longa a exortação à acção do abade de Sedielos) não hesita em criticar a devoção dos pobres, ridiculizarizando os recentes «enfeites» da igreja de Favaios, douramento que custara 3 contos de réis: «Quantas casas rasoaveis se construiriam para os pobres operarios de Favaios com essa avultada somma?», questiona. § Embora farto em acusações, o texto de Adelino Mendes é menos rico em razões para a elevada taxa emigração, para o desemprego e para a fome endémica. Culpa os os caciques locais, os políticos e o governo, mas pouco diz sobre os negócios do vinho, a especulação dos preços e a conjuntura económica nacional e internacional. Em Lamego fala do crédito e das penhoras, porém, o vocabulário económico não faz parte das suas crónicas. Adelino Mendes é um repórter, mas podia ser um romancista, Realista ou Naturalista, como Abel Botelho, o republicano nascido em Tabuaço que na sua colectânea de Contos «Mulheres da Beira», traça imagens muito semelhantes de um certo Douro.
(1) FREIRE, João Paulo - Homens do meu tempo. Porto: Livraria Civilização, 1924, p. 13.
27 de setembro de 2010
22 de março de 2009
Alguns dos livros que compro trazem anotações, algumas de várias mãos, transformando os alfarrábios amarelados e gastos numa preciosidade maior. As notas à margem são os olhos de cada leitor e em cada página anotada há reflexões de leitores desconhecidos, estudantes nervosos facilmente reconhecidos pelos sublinhados garridos, profundos e trémulos; investigadores espantados com pequenas descobertas; críticos entediados com romances chatos, etc. A minha marca são os 3 pontos de exclamação. E uso frequentemente o sublinhado (sempre a lápis) para marcar uma passagem que deve ser lembrada. Não gosto de livros imaculados, por abrir, ou sem marca de presença. "Livros cerrados não fazem letrados", é a máxima de um livreiro cá do Porto e a que mais se acerca à minha experiência como "bibliófilo". Quanto mais um livro acumula leituras, mais rico é. Às vezes apetece-me deixá-lo num banco de uma carruagem de comboio e imaginar que percurso fará, a partir dali, como nos versos de Pessoa... Tenho livros assinados, carimbados, com datas e notas pouco ortodoxas. Mas poucas vezes me aparecem mensagens como a que encontrei na página 84 da 3ª edição dos Poemas de Alberto Caeiro (edições Ática, 1958). Do lado esquerdo destas estrofes
"Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser."
alguém anotou, a lápis, "reli e chorei em 24/Ag/67". Que extraordinária súmula de tristeza...que coração amargurado teria escrito esta frase? De um verso de Caeiro saímos a procurar alguém que amou e sofreu. Afinal, das grandes banalidades têm saído as obras maiores.
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