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1 de junho de 2012

A merendola.

http://www.flickr.com/photos/mpjcoelho/5846367241/


A apetência de uma certa faixa etária de portugueses pela merendola é bem conhecida. A prova desse hábito, colhido ainda no tempo dos passeios de domingo do estado-novismo, é a quantidade de parques de merendas que juntas de freguesia e câmaras municipais distribuem generosamente pelas estradas nacionais. Aquele grande português que alguns novos e velhos ainda apreciam chamado Salazar costumava parar nas bermas para merendar com os seus ministros os produtos das hortinhas de Santa Comba, gentilmente amanhados pela D. Maria. Talvez por isso a Sonae-Continente tenha visto neste segmento um excelente nicho de mercado. Organizou uma piquenicada na Avenida da Liberdade o ano passado e agora, achando que a avenida era pouco gloriosa para o evento, desceu até ao Terreiro do Paço, a praça mais nobre da cidade. O Jonh Wolf do Ouriço acha bem e aplaude a iniciativa, sugerindo que na praça já se fez de tudo, desde autos de fé a negócios javardos e que um concerto do Tony Carreira não está longe de uns e outros. Bom, não contestando, sugiro que prossigamos então o uso lúdico do espaço com actividades semelhantes. Os autos de fé eram, ao que parece tão concorridos como um concerto de música pimba. 
Agora a sério. A culpa desta falta de sensibilidade e evidente mau gosto (sem conotações elitistas) não é dos marketeers da Sonae os quais, se soubessem que o "povo" apreciava carne humana, venderiam hambúrgueres da dita em promoções diárias. Não. Mais uma vez a culpa também não é do tal "povo" de que toda a gente fala, mas ninguém sabe muito bem onde começa e onde acaba. A culpa é, como não poderia deixar de ser dos políticos que vendem ou alugam o metro quadrado de qualquer espaço público sem que isso lhes pese na consciência ou suscite dúvidas cívicas. De resto, quem frequenta as cantinas da Assembleia ou o Tavares dificilmente será apanhado a comer uma sande coiratos regada por uma zurrapa do Dão. Os mais inocentes falam em defender os produtos nacionais, nomeadamente o toucinho cantador chamado Tony. Acho muito bem. Mas o país tem tantas colinas, chaparros e sombras. Não era melhor levar o tachinho com arroz e a chanfana de vitela até lá?

27 de maio de 2012

Morte em efígie.



Em Castro Daire, uma criança deu livre expressão à sua imaginação rebelde: enforcou o primeiro-ministro numa árvore na praça principal da vila. Como o "espantalho" era feito em materiais reciclados e porque resultava da fértil imaginação do petiz, chamou-se àquilo arte. Os tiranetes do costume mandaram (ou, segundo alguns, aconselharam) retirar a efígie que magoava os sentimentos dos camaradas e, talvez, de um ou outro transeunte. Foi notícia nos telejornais. Até parece que os senhores jornalistas não vivem em Portugal. E talvez não vivam mesmo: com certeza a maioria deles nunca viu uma queima do Judas, resquício de anti-semitismos e satirismo político onde o coitado do Judas e ás vezes uma comadre e um compadre - personificando sempre um paladino do poder local ou nacional - é queimado ou arrebentado sob o olhar atento e risonho do Zé Povinho. É óbvio que a criancinha, na sua prematura tendência para a crítica política abusou do tema que lhe era proposto: o de expressar-se com materiais reciclados. Podia tê-lo feito retratando as abelhinhas, as alegres vacas que pastam nos viçosos campos das margens do rio Paiva. Enforcou o primeiro-ministro e leva, por um lado com a palmadinha nas costas de um professor ressabiado e, por outro, com o lápis azul destes autarcas nascidos sob a égide estado-novista. A criancinha, além de precoce, deve ser sobredotada: inspirou-se com certeza no lixo reciclado e a reciclar chamado Imprensa que todos os dias enforca políticos e cidadãos sem o mínimo senso daquilo de diz e faz. Com pais, professores e autarcas assim pode assacar-se-lhe culpa? Com certeza que não.