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14 de fevereiro de 2011

O papel actual do movimento associativo.

As questões levantadas com as recentes descobertas de idosos falecidos na solidão (que vieram a público  graças à capacidade inata da comunicação social de transformar o óbvio em tendências abruptas) recordaram-me as noções de vicinidade e laços sociais. Quando a humanidade passou por fases eminentemente rurais (e hoje caminhamos aceleradamente para uma situação de urbanismo global) a sobrevivência estava assegurada por recursos e espaços devidamente controlados, mas sobretudo, por uma coesão sanguínea e afinitiva que as cidades não permitem por várias razões: entre elas a composição dos novos agregados familiares. E, no caso de Portugal, um país eminentemente litoralizado, em que as relações já não se baseiam no sangue, nem na afinidade ou na vicinidade, como resolver esta solidão, estes casos de alienação social forçada?

É muito curioso o que referiu recentemente o geógrafo portuense José Rio Fernandes, “as freguesias em contexto urbano deviam ter um papel reforçado: resolução de problemas de âmbito local, questões ligadas ao estacionamento, a recolha do lixo, os jardins. Aumentava muito a eficiência se as juntas tivessem capacidade de resposta. Acontece que as juntas de freguesia são apenas o altifalante do cidadão – vão junto do presidente de câmara reivindicar”. Concordo; o problema é que todos os serviços públicos têm vindo a tornar-se um canal de queixas - queixas que, ou não são resolúveis/resolvidas devido a questões burocráticas (e afinal podiam ser resolvidas pelo próprio cidadão) ou servem apenas par gastar papel em desculpa polidas.
É evidente que em termos de assistência social, tanto o Estado, através da SS, como a Igreja, através das IPSS têm assegurado algum apoio necessário à minoração do problema dos idosos e dos carenciados sós.
Por outro lado as associações não governamentais, culturais e recreativas, de utilidade pública, etc., podiam aqui ter um papel que não têm. Por definição, uma associação é uma "reunião de pessoas com um fim comum". Contudo, depressa percebemos, que na maioria dos casos, o fim ou fins são afinal meramente individuais e a associação não passa de uma plataforma de promoção pessoal ou corporativa.
Eu, que participo no movimento associativo desde os 16 anos, constatei que a maioria das associações surgidas nos últimos 20 anos se torna um fardo ao fim de 2 mandatos. A ideia inicial, por muito louvável ou atractiva, não consegue dinamizar os corpos para a sua prossecução.
Tanto quanto percebo, não existem estatísticas concretas sobre o número de associações culturais, ambientais, recreativas, desportivas, etc., em Portugal, mas só numa pequena freguesia do concelho de Cinfães que conheço bem - Tendais, com cerca de 890 habitantes - existem 12 daquelas associações. O que implica que, se toda a população de distribuísse pelas ditas colectividades, cada uma teria em média 74 sócios. Variando a quotização, sabemos da impossibilidade de que todas estas colectividades prossigam com os seus fins apenas com base na regularidade do dinheiro que recebe dos seus associados (e este deveria ser o pensamento principal antes da sua concretização, o de viver pelo trabalho e pela contribuição exclusiva dos seus elementos). Contudo, o que tais associações fazem assim que são constituídas é colocar-se sob a autoridade da Câmara Municipal, "exigindo-lhe" uma dotação anual que colmata a não contribuição dos associados! Isto é um contra-senso só explicado pela necessidade de manter na ribalta um ou outro indivíduo que encontrou num lugar de presidente da direcção a notabilidade que não encontrava fora dele... Muitas associações culturais e ambientais que se arrogam o direito de questionar atitudes de serviços públicos, também se arrogam na hora de ir procurar nos mesmos serviços os apoios monetários à continuação dos seus objectivos...
Contudo, uma parte substancial destas associações poderia ter um papel fundamental na re-ligação dos laços perdidos, quer pela desertificação no interior, quer na urbanização compulsiva e fria das cidades e dos seus subúrbios. E nem precisava alterar os seus fins. Simplesmente bastaria alertar e educar os seus associados e as comunidades que representa que, apesar do dinheiro público, ou do dinheiro das quotas ser importante e não obstante a sua insuficiência, os gestos e as actividades (o tempo de cada um) podem ser tão ou mais importantes do que a soma daqueles capitais. Estamos a viver uma época em que o folclore, as causas animais e ambientais, e até o património não se comparam ao sofrimento das pessoas... pensem bem nisto.

26 de outubro de 2008

O espírito associativo? (I)

Diz a máxima clássica que o sol quando nasce, é para todos (embora saibamos que, na prática, não é bem assim). E as associações, quando se constituem, para quem se constituem? Bom, cada vez menos uma associação parece ser sinónimo de união, ou porque é fruto de orientações menos cuidadas, em que o objecto social não é pensado e pesado convenientemente para acudir a problemas emergentes ou prementes, ou porque se revela tantas vezes uma simples desculpa para a ascensão social, política e académica deste ou aquele indivíduo. Não obstante, participo e sempre participei no movimento associativo, convicto da sua utilidade social. Com 16 anos apenas fundei uma associação para a defesa do património numa freguesia de Cinfães, numa época em que este concelho despertava (alguma vez despertou?) para a importância da cultura, do ambiente e do património no desenvolvimento local. Depois, já durante a universidade pugnei por estar sempre envolvido, quer individual, quer conjuntamente, na «luta» (não confundir a expressão com clichés do movimento marxista, pf.) pela preservação de ideias, valores, etc. Quem sabe do que falo, sabe que falo de chatices. Sim, verdadeiros aborrecimentos porque passamos demasiado tempo a ocuparmo-nos com questões a que todos dizem respeito, mas das quais ninguém quer saber ou porque mesmo estes, - os que não querem saber -, fazem tudo para que quem faz, enfrente todo o tipo de barreiras - a tradicional postura do cidadão português face à iniciativa do «outro». Em suma, nestes anos todo de participação no movimento associativo só me trouxe dissabores. Se valeu a pena? Valeu. Em todos os aspectos: pela aprendizagem no relacionamento interpessoal, pelo fortalecimento de percepções e dinâmicas, pelo ganho obtido no conhecimento de técnicas e estratégias. E falo em estratégias propositadamente pois tenho uma amiga (a quem daqui envio o meu abraço) que abomina "estratégias", com tudo o que de pior envolve esta palavra: maquinações, conjuras, tramas. Mas, cara amiga, o que me aborrece verdadeiramente não é a estratégia em si, sinónimo de percursos que conduziram o organismos unicelular da sopa primordial até à criatura complexa que somos; o que me encanita verdadeiramente é uso da estratégia para a prossecução de determinados fins que impliquem a destruição de segundos e terceiros.