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14 de março de 2017

“TUDO INDICA QUE…” a história de um desenho


Um dos desenhos adquiridos na «Feira da Vandoma» a 1-10-2016. Desenho a tinta-da-china sobre papel: assinado e datado de 1935 com um poema de Álvaro de Campos, assinado. Dimensões (papel): 32x20,9.


No dia 1 de Outubro de 2016 adquiri, na Feira da Vandoma do Porto, por 15 euros, o desenho acima reproduzido. O indivíduo que mo vendeu informou-me que estava a substituir, naquele momento, o proprietário do espólio, «um espanhol» que se tinha ausentado do local poucos minutos antes. Sobre a origem dos desenhos, expostos e dispersos pelo chão numa lona de plástico, nada sabia.

Embora não sendo especialista na obra de Almada Negreiros, o traço e a circunstância de a um dos desenhos se associar um poema de Álvaro de Campos, deixou-me curioso. O vendedor tinha outros trabalhos semelhantes, todos colados sobre cartolina ou sobre cartão. Adquiri o que exibia o poema de Álvaro de Campos e um outro, de menores dimensões, intitulado Sherazade - aquele datado e assinado de 1935 e este de 1917, compra que resultou num total de 25 euros.

Como disse, embora sendo desconhecedor do processo de criação de Almada, verifiquei imediatamente que o traço dos desenhos (executado a tinta da china, técnica reconhecida dos trabalhos preparatórios e finais de Almada) e as próprias assinaturas (cada uma associada a um período da vida do autor) aproximavam-no aos exemplares que conheço, quer por consulta em livro quer por observação directa em contexto de exposição. E ambos, através das temáticas representadas, enquadram-se no tempo e na forma de produção de Almada, que elaborava, como se sabe, vários estudos antes do trabalho final.

O mais estranho eram, contudo, os lacres, os carimbos e as colagens apostas na frente e verso da cartolina e no verso do cartão: um carimbo dos Serviços Aduaneiros da Província de Angola e no verso de ambas as «molduras» colagens com etiquetas de papel indicativas da Presidência do Conselho de Ministros e da Fundação Calouste Gulbenkian, e ainda um lacre com monograma. Estes elementos pareciam claramente apostos aos desenhos para acentuar a sua autenticidade. Mas o estado do papel, amarelecido e com deterioração pela luz e acidez da tinta, parecia evidenciar trabalho antigo. 

Frente e verso da cartolina onde está montado (colado) o desenho.


Através de um amigo, contactei a Fundação Calouste Gulbenkian, que por canais informais me indicou o desconhecimento sobre tais desenhos ou a sua relação com a instituição.

Desenho [original] de Fernando Pessoa, executado por Almada Negreiros e vendido em 2008 pela PCV. Dimensões: 49x34 cm. Disponível aqui.


Contactei a leiloeira Palácio do Correio Velho para obter informação sobre o avaliador ou perito encarregue pela análise do desenho. Não obtive, até hoje, qualquer resposta.

Não sendo conhecedor, nem da obra nem do tempo artístico de Almada, propus-me contactar quem de direito ocupava esse lugar na produção historiográfica portuguesa. Numa busca em-linha surgiu um nome e o contacto de uma reputada investigadora, responsável pela inventariação do espólio do artista e a quem enviei a reprodução digital do desenho maior, explicando o percurso do mesmo.

A 10 de Outubro recebi a seguinte resposta: «estou cheia de trabalho. Infelizmente, pelo que pude ver, o seu desenho não será um estudo do Almada». Sem mais.

Naturalmente que uma observação directa ao desenho não basta para proferir uma asserção destas, quanto mais uma análise através de reprodução digital.

As perguntas que a investigadora não me colocou, coloquei-as eu aos técnicos do Museu do Papel, em Santa Maria da Feira. Efectivamente, sem possibilidade de fazer peritagens técnicas que impliquem análises internas ao suporte uma observação mais atenta permite identificar a marca d’água do papel que constituiu, neste tipo de obras, um elemento essencial quanto à sua datação. 

Recorte e trabalho de contraste realizado em photoshop para leitura da marca d'água do papel.


O profissionalismo da directora, Dr.ª Maria José Santos (a quem muito agradeço) contrastou com a atitude dos «peritos» antes contactados. A sua resposta foi célere:

«Na minha opinião, é impossível, no caso deste papel, afirmar com rigor uma data rigorosa para a sua produção, dado que o motivo principal desta marca de água (escudo representando uma cruz latina, encimado por uma coroa) deverá ter sido usado, na Fábrica de Porto de Cavaleiros, desde o início do século XX até finais da década de setenta, com algumas pequenas variantes: uma marca de água muito semelhante aparece em papéis desta fábrica da década de 1910: o mesmo motivo principal, tendo por baixo a palavra "THOMAR".§ Ou seja, a sua hipótese de que este belíssimo desenho possa ter sido realizado na década de 30 é perfeitamente ajustada. Bem gostaria de ser mais precisa relativamente à data de produção do papel que o suporta, mas, com rigor, não é possível fazê-lo dada a longevidade desta marca de água [sublinhado meu]»


Embora inconclusiva, esta análise permitiu-me aferir sobre a autenticidade do suporte. Colocando-se a hipótese de ser uma falsificação, estava perante uma boa falsificação, pois o falsificador preocupara-se em utilizar papel produzido durante a vida de Almada Negreiros (1893-1970).

Tendo como base esta hipótese fiz um primeiro contacto com a Polícia Judiciária, no sentido de averiguar sobre casos semelhantes. Tinha previamente sido informado por uma amiga sobre casos de falsificações da obra de Almada em Lisboa e, como tal, procurei aferir do estado e alcance dos mesmos.

Da conversa telefónica com o sr. Inspector Chefe resultaram mais dúvidas. Não se conhece qualquer caso recente de falsificação de desenhos nem a polícia dispõe de peritos específicos para a avaliação da autenticidade deste género de obras, recorrendo a técnicos de museu portugueses ou a antiquários. Em último caso, cabe ao Ministério Público conferir o «carimbo» de autêntico ou falso à obra em questão.

Naturalmente que me propus entregar os desenhos nas mãos da Polícia Judiciária, no sentido de esclarecer, pelo menos, se a venda dos mesmos resultará de actividade criminosa.

Mas a questão aqui parece ser mais séria. Este mundo da peritagem é um mundo de aparências, como de resto confirma o recente caso das pinturas expostas no Museu Nacional de Arte Antiga. O modo como se usa e abusa da comparação ou de análises formais mais ou menos supérfluas deixa o universo da História da Arte entregue a uma espécie de adivinhos ou xamãs da datação e das atribuições.

(Este sistema de «data-atribucionismo», lembra-me aquele sacerdote que conheci numa paróquia da Beira Alta que datava as imagens religiosas pondo a mão sobre elas e, fechando os olhos, proferia uma data profética).

Mais, o mundo académico da História da Arte encontra-se ainda profundamente refém do anatiquarismo que a bel-prazer de alguns e com naturais razões económicas, dribla datas e atribuições no sentido de obter proveitos com obras falsas ou claramente inflacionadas.

Para terminar não posso deixar de narrar o contacto com uma jornalista a propósito deste caso.

No sentido de esclarecer ou adiantar pistas para o percurso dos desenhos (que é afinal o que me interessa no meio de toda a questão e não o seu valor autêntico) contactei uma jovem jornalista de um grande jornal electrónico de cuja autoria fora reportagem sobre recém inaugurada exposição na Fundação Calouste Gulbenkian. Aliás, desde Fevereiro que têm saído vários artigos e entrevistas (nomeadamente às netas de Almada) que aportam alguns dados interessentes sobre o modus faciendi do artista, nomeadamente a sua generosidade na distribuição de desenhos e trabalhos seus por amigos e conhecidos.

Contactei-a a 30 de Janeiro e até ontem, 13 de Março, desenrolou-se um diálogo composto por várias trocas de emeiles, onde lhe expus os dados e as minhas dúvidas. A jornalista mostrou-se interessada e disse que ia procurar informações que pudessem explicar ou desmontar esta história de desenhos de Almada Negreiros à venda na feira da Vandoma.

No último emeile que me remeteu, escreveu. «Tudo indica que o desenho que tem em sua posse é fácil [sic]. Lamento.» Naturalmente que a jornalista foi traída ou pelo corrector ortográfico ou pela distracção, querendo dizer que o meu desenho era falso. Não explicou, contudo, o que é quis dizer aquele tudo, nem como chegou a ele.

É esta veleidade que no meio da história me deixa, enquanto investigador, particularmente preocupado. Sobretudo porque, como docente responsável de disciplinas de metodologia de investigação e análise em História da Arte, acho inadmissível que não se procure associar a qualquer trabalho de investigação, a devida explanação e crítica dos métodos utilizados no percurso de averiguação, datação e atestado da autenticidade de qualquer obra de arte ou fonte histórica.

Ao que parece em Portugal há alguns peritos, mas poucos cientistas. Talvez isso explique, em parte, alguma da nossa pobreza e incultura académicas nas áreas da História e da História da Arte.


1 de março de 2017

A polémica das pinturas: a autenticidade ou a falsidade do discurso?

Pintura da «Society of Antiquaries of London». Via Expresso


Espero ter o tempo e o discernimento suficientes para abordar a questão das pinturas por esta altura expostas no MNAA intituladas «O chafariz d'El Rei» e a «Rua Nova dos Mercadores». Não a questão da sua autenticidade, sobre a qual não disponho de informações e conhecimentos necessários que mo permitam fazê-lo, mas sobre o caso em si, a discussão pública que se originou entre vários investigadores da História e da História da Arte.
É, aliás, o teor desta discussão que interessa  analisar e que se resume cronologicamente nos seguintes documentos:
- 18 de Fevereiro de 2017: Diogo Ramada Curto e João José Alves Dias, em artigo e entrevista ao Expresso, afirmam a possível não autenticidade dos quadros com base numa comparação entre os elementos da composição e a documentação / conhecimento social da época.
- 22 de Fevereiro (nas vésperas da inauguração da Exposição A Cidade Global: Lisboa no Renascimento) a direcção do MNAA - Museu Nacional de Arte Antiga reage à posição dos historiador lançando um comunicado escrito em que reitera a confiança nos estudos de  Annemarie Jordan e K. J. P. Lowe sobre a origem, percurso e autenticidade das pinturas, sublinhando os contributos de outros investigadores, como Henrique Leitão («Prémio Pessoa»), Fernando Baptista Pereira e Vítor Serrão.
-22 de Fevereiro: Diogo Ramada Curto escreve um novo texto para o Expresso,  debruçando-se agora mais sobre a questão da temática da exposição do que o conteúdo iconográfico e iconológico dos quadros, assinalando que «Há um Estado Cultural que quer por o MNAA a render no circuito turístico» (título do artigo, DRC, Expresso, 22-2-2017).
- 23 de Fevereiro: Fernando Baptista Pereira faz publicar nas páginas do Expresso um texto com o título «Os quadros não são falsos». Nos dias anteriores, Vitor Serrão, na rede social Facebook, afirma o mesmo. Ambos se escudam na leitura iconográfica, propondo, contudo, «novos exames materiais e técnicos« (F.B.P., Expresso, 23-2-2017) que não haviam sido pedidos, nem executados aos quadros em análise.
À parte o enquadramento político e institucional que poderá emoldurar esta polémica (e que apenas podemos entrever em algumas das linhas escritas de parte a parte), algumas questões se levantam, entre as quais esta:
- Dada a força imagética, histórica e até mediática de ambas as pinturas (uma dela, de resto já conhecida publicamente desde finais da década de 1990) não teria sido mais proveitoso investir em análises técnicas que permitissem corroborar a sua datação, antes de avançar para as conclusões que hoje se apresentam?
É óbvio pelas várias reproduções que circulam que, iconograficamente ambas as constituem um manancial de informações que os métodos à disposição da disciplina da História da Arte exploram avidamente. Mas estes não são garantes de verdade absolutas como a polémica/discussão veio demonstrar.
Para já, e mais do que assacar culpas, interessa analisar esta questão à luz do diálogo inter e multidisciplinar que o novo tempo das ciências sociais tem propugnado, mas que não acontece. Apesar de grande parte da polémica se desenrolar nas redes sociais, não há consciência de rede no trabalho científico e a oposição historiadores-historiadores de arte que se construiu ao longo desta questão veio revelar o desfasamento entre as disciplinas e os seus actores. O teor da polémica não deixa de ser, em parte semelhante ao das grandes polémicas do século XX, em que se discutiam coutadas temáticas e menos a importância do conhecimento enquanto bem público e material educativo.

P.S. Obviamente, não discuto aqui as frases soltas (e francamente dispensáveis) do Ministro da Cultura ou as posições alinhadas dos seguidores de facebook do director do MNAA. Não é útil que se ceda a unanimismos, nem servilismo, quando se trata de discutir ciência.

27 de maio de 2012

Morte em efígie.



Em Castro Daire, uma criança deu livre expressão à sua imaginação rebelde: enforcou o primeiro-ministro numa árvore na praça principal da vila. Como o "espantalho" era feito em materiais reciclados e porque resultava da fértil imaginação do petiz, chamou-se àquilo arte. Os tiranetes do costume mandaram (ou, segundo alguns, aconselharam) retirar a efígie que magoava os sentimentos dos camaradas e, talvez, de um ou outro transeunte. Foi notícia nos telejornais. Até parece que os senhores jornalistas não vivem em Portugal. E talvez não vivam mesmo: com certeza a maioria deles nunca viu uma queima do Judas, resquício de anti-semitismos e satirismo político onde o coitado do Judas e ás vezes uma comadre e um compadre - personificando sempre um paladino do poder local ou nacional - é queimado ou arrebentado sob o olhar atento e risonho do Zé Povinho. É óbvio que a criancinha, na sua prematura tendência para a crítica política abusou do tema que lhe era proposto: o de expressar-se com materiais reciclados. Podia tê-lo feito retratando as abelhinhas, as alegres vacas que pastam nos viçosos campos das margens do rio Paiva. Enforcou o primeiro-ministro e leva, por um lado com a palmadinha nas costas de um professor ressabiado e, por outro, com o lápis azul destes autarcas nascidos sob a égide estado-novista. A criancinha, além de precoce, deve ser sobredotada: inspirou-se com certeza no lixo reciclado e a reciclar chamado Imprensa que todos os dias enforca políticos e cidadãos sem o mínimo senso daquilo de diz e faz. Com pais, professores e autarcas assim pode assacar-se-lhe culpa? Com certeza que não.

8 de novembro de 2011

A inveja é uma coisa feia.

Jacob de Backer (c. 1555 – c. 1585)
Alegoria à inveja


Vale a pena ler este trabalho sobre a inveja pictórica, representada geralmente como uma mulher descarnada, feia e velha, cujo olhar gasto e cansado da cobiça não pára de querer mais e mais. Pode um povo gastar-se assim?

16 de maio de 2010

«Do Bem, da Verdade e da Beleza»

Visita apostólica de Sua Santidade Bento XVI a Portugal
12 de Maio de 2010
Encontro /Cultura – Centro Cultural de Belém
N.R. (c)


Estive em Lisboa, na missa do Terreiro do Paço e tive a honra de ser um dos participantes no Encontro / Cultura, que acolheu SS. Bento XVI com uma ovação em pé, num impressionante testemunho da consideração de homens e mulheres da artes e da de Portugal pelo Sumo Pontífice e pela sua carreira intelectual.

Mas a minha maior satisfação foi, como Católico, poder receber no meu país a figura tutelar e parental do Bispo de Roma, sucessor de Pedro, representante da comunidade apostólica que, na Solidariedade e na Verdade sustentou a Palavra de Cristo e a levou aos quatro cantos do Mundo.
Todavia, não posso deixar de destacar duas intervenções do Encontro da Cultura. Naturalmente a do Santo Padre, mas também a de Manoel de Oliveira que tão sagazmente referiu: «As Artes desde os primórdios sempre estiveram estreitamente ligadas às religiões e o cristianismo foi pródigo em expressões artísticas depois da passagem de Cristo pela terra e até aos dias de hoje.» Como o podemos negar, se a maioria das criações do Homem foram voltadas para a busca do divino? Os caminhos para a Criação passaram sempre pela espiritualidade, mesmo quando a dúvida e o cepticismo assolaram o Homem em tempos de fraqueza. O que fazer com este património, hoje, que o ódio dos corações recresce em relação ao divino?

Parece-me que a resposta do Santo Padre é irrefutável: «Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza». É preciso continuar a criar mas é, acima de tudo, absolutamente necessário que desejemos ser melhores e que as nossas vidas, ao invés de serem paúis lamacentos, se tornem campos viçosos de vida.

Ambas as intervenções podem ser lindas aqui (Santo Padre) e aqui (Manoel de Oliveira).

1 de abril de 2010

Notas

«Fundação de Serralves dispensa 18 colaboradores»

Devem pensar que Serralves tem fama e faz dinheiro por ser instituição de solidariedade social. Não. Faz dinheiro porque é uma empresa. Gerida por gestores, puros e duros. Agora se isso se coaduna, ou não, com o sentido social e «público» da Arte, é outra história.

16 de abril de 2009

Olhares da fé


N.R. (2005)
Muito antes de descobrir que Miguel Torga se interessara por este extraordinário Cristo crucificado, tive a oportunidade de lhe dedicar um breve estudo histórico e iconográfico. À sua memória acrescenta-se hoje a impressão da memória de outrem. Os objectos, e as pessoas, também se constroem com as memórias das memórias. E estas são, muitas vezes, tudo o que resta.
"Um Cristo rústico, gótico, quase em tamanho natural, de saiote e cabeleira postiça, tão humano que esteve para ser enterrado um dia destes. O povo, cansado de não encontrar sentido na presença passiva e física de uma divindade mal amanhada, resolveu liquidar o caso numa cova. Queimá-lo, era sacrílego; dá-lo para o museu, não solucionava o problema; metê-lo debaixo da terra é que tinha todas as vantagens morais e materiais. § Um homem morto, sepulta-se. Infelizmente, entrou a casuística em acção, e a escultura foi apodrecer para um canto discreto. § O bom povo, embora às cegas e aos repelões, acaba sempre por encontrar a expressão exacta dos seus sentimentos e a soma dos sete palmos de lama no final de cada conta. Mas aparece-lhe um teólogo e dá com tudo em pantanas. Por cada arrazoado que faz um desses sofistas, é mais um paradoxo do mundo. § O daqui, é este deus com pernas e braços de cavador, mas que não cava, acolhido á sombra de telhas sagradas, mas discretamente escondido no fundo de uma sacristia." Miguel Torga, Diário IV (4.ª edição), p. 93 [Arneirós, Lamego, 1 de Abril]

20 de março de 2009

S. Paulo c. 1470-80 [Nuno Gonçalves]
óleo sobre madeira 135 x 83 cm
Museu Nacional de Arte Antiga
Lisboa, Portugal
retirado daqui

Si Dios ha hecho este mundo, yo no quisiera ser Dios. La miseria del mundo me desgarraría el corazón.
A. Shopenhauer
Todos os dias peço a Deus para que me não me deixe abrasar pelo fogo do ateísmo e das heresias, tão avassaladora é, cada vez mais, a malvadez humana. Não falo do dia-a-dia e das pequenas estratégias que marcam a pequena cupidez aflita de quem nos rodeia. Refiro-me do veneno com que a comunicação social nos inocula, todos os dias. Quantos Joseph Fritzl haverá neste mundo doentio? Não é com moralismo que o digo. É com náusea. Quero um deus justiceiro, como o Cristo medieval, que castigue com pragas severas esta humanidade patologicamente má. Quem sonha ou executa sevícias das que cruelmente nos descrevem esses agourentos arautos é a prova mais do que provada que somos intrinsecamente maus e não buscamos ser melhores. Já saldamos as dívidas entre nós. Atingimos a o grau máximo da escória. Deus, Cristo Pantocrator, São Miguel ou esse São Paulo misógino e moralista que agora se comemora: brandam a espada sobre as nossas cabeças, deixem-na cair e antecipem o juízo final. Dêem-nos paz.

13 de fevereiro de 2009

11 de fevereiro de 2009

Gradeamento de corrimão de inspiração Arte Nova
numa vivenda de 1907. Rua Alexandre Herculano,
Viseu (c) N.R.

5 de janeiro de 2009

E, no entanto, esboroa-se!




Anos e anos de comparações "estilísticas", - sempre o estilo, o ângulo, a forma mais ou menos enviesada - dão hoje em teorias que se esboroam ante novos métodos de análise, documentos e técnicas ultra-modernas. § Ao que parece o Aleijadinho, sim o mítico António Francisco Lisboa, o Miguel Ângelo (ressalvadas as devidas distâncias temporais) do Brasil "não existiu", isto é, as obras que lhe são atribuídas são de outras, muitas, mãos. § Quem o diz é a historiadora Guiomar de Grammont, que desmontou o mito urdido pela historiografia da arte brasileira e internacional, ávida por ícones. A história pode ser lida aqui, e o livro «O Aleijadinho e o Aeroplano» adquirido aqui. § Também a historiografia portuguesa está cheia de mitos e é a principal culpada de iconificar as histórias local e nacional...

21 de dezembro de 2008

But...is it Art?

Cada vez que vou a Serralves ou a outro qualquer museu de arte contemporânea, venho de lá tão confuso como a Patsy do duo Ab Fab. Bom, pelo momento hilariante já podemos ter uma ideia: a arte custa dinheiro. Muito dinheiro. Que o digam os Bancos cujas reservas estão cheias de objectos hiper-valorizados, para negócio de muitos e educação de poucos.

11 de junho de 2008

Mensagem de Eça a alguns clérigos incautos, devotos néscios e ateus ignorantes.

A arte é tudo porque só ela tem a duração - e tudo o resto é nada! As sociedades, os impérios são varridos da terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas: e se não passam da memória fugitiva dos homens, se ainda para eles se voltam piedosamente as curiosidades, é porque deles ficou algum vestígio de Arte, a coluna tombada dum palácio, ou quatro versos num pergaminho. As Religiões só sobrevivem pela arte, só ela torna os deuses verdadeiramente imortais - dando-lhes forma. A divindade só fica absolutamente divina - quando um cinzel de génio a fixa em mármore; inspira então o grande culto intelectual, que é o único desinteressado e o único consciente; já nada tem a sofrer do livre exame: entra na serena região dos Incontestáveis e só então deixa de ter ateus. O mais austero católico é ainda pagão, como se era em Cítera, diante da Vénus de Milo. E a Nossa Senhora do Céu só tem adorações unânimes e louvores sem contestação, quando é o pincel de Murillo que a ergue sobre o Orbe, loura e toucada de estrelas.
Eça de Queirós, em Notas contemporâneas.

27 de janeiro de 2008

Uma exposição de «Arte Sacra» em Cinfães




Aspectos da exposição de «arte sacra» no Museu Serpa Pinto, em Cinfães.


Um dos primeiros municípios a manifestar interesse pela continuação do programa de inventário do património religioso na diocese de Lamego foi Cinfães. Em Outubro tomámos a iniciativa de ofertar ao senhor Presidente da Câmara um exemplar dos catálogos produzidos para Lamego e Tarouca e aquela edilidade não perdeu tempo: em pouco menos de 2 meses levou a cabo uma iniciativa que convencionou chamar: «arte sacra do arciprestado de Cinfães». São, aliás, expressivas as palavras do senhor Prof. José Manuel Pereira Pinto no prefácio que redigiu para o roteiro da referida mostra: «[esta exposição] é como que um ponto de partida para uma reflexão acerca das potencialidades do concelho e do arciprestado no que se reporta à eventual inventariação e estudo deste património religioso». Aproveitando a época e porque se trata de uma região e de um tema que me são especialmente caros, fui até ao Museu Serpa Pinto visitar a referida exposição. O que vi deixou-me francamente desiludido. Sem qualquer linha de orientação temática, estilística ou histórica amontoam-se ao longo de um corredor, - ora sobre plintos cobertos por um pano de flanela vermelha (!), ora no chão (!) -,19 peças que de maneira alguma caracterizam o «riquíssimo património religioso» de Cinfães, se não o «pior» que se exibe nas nossas igrejas. Falo de imagens sujas, não intervencionadas a nível conservativo, sem qualquer qualidade de execução, profundamente repintadas, cheias de cores garridas e visivelmente retocadas por mãos pouco conscientes - objectos que que exibem pregos, ferros de andor, coroas e outros componentes desajustados ou ao valor ou à integridade visual e artística das peças. Não irei, sequer, alongar-me ao referir o pobre conteúdo do catálogo, cuja leitura nos remete para as análises pouco cuidadas dos «Santos padroeiros do concelho de Cinfães», obra que a C.M. de Cinfães editou em 2000… Para além da imagem representando a Virgem amamentando (dita de Santa Maria Maior de Tarouquela) e de uma Santa Marinha, calcária, proveniente de Ferreiros de Tendais, todos os demais objectos foram recolhidos, dir-se-ia aleatoriamente, sem qualquer preocupação de apresentar uma mostra criteriosa, apelativa e pedagógica (as fotos, acima, falam por si). Aliás, a imagem que referi, a de Santa Maria Maior, - que representou Cinfães na exposição do Jubileu «Cristo fonte de esperança» (em 2000) - avaliada como uma das mais expressivas peças de imaginária sacra de importação, em Portugal, foi simplesmente «encostada» a um degrau de uma «tribuna» improvisada, retirando-lhe toda a aura de valor sagrado e artístico. Depois dos louvores manifestados junto da Diocese a propósito da intervenção na defesa, conservação, estudo e promoção do património em Lamego e Tarouca, esta exposição de «arte sacra» cinfanense constitui um inquietante revés na política de administração do património diocesano - que é, canonicamente, o património do Sumo Pontífice, pela sua condição de administrador e distribuidor de todos os bens eclesiásticos (Can. 1273). Preocupa-me, pois, que tais iniciativas possam ser realizadas de forma tão leviana, como o foram em Cinfães, sem o conhecimento da Cúria Diocesana, apenas com a coordenação e organização da Câmara Municipal (Pelouros da Acção Social, Cultura, Educação e Turismo). Os organismos civis, governamentais, regionais e locais, são os primeiros a terem interesse na conservação, estudo e divulgação do património religioso mas não podem, nem devem, sobrepor-se ao primado da Igreja que deve implementar esforços no sentido de, continuadamente, manter conservado e íntegro o histórico pecúlio que recebeu das gerações precedentes. A exposição «arte sacra» no arciprestado de Cinfães não é, pois, um ponto de partida se não um lamentável retrocesso no trabalho iniciado em Foz Côa, em 1997, e recentemente continuado em Lamego-Tarouca. Consciencializar os senhores párocos, que são os primeiros responsáveis pela administração do património dos nossos templos, e os paroquianos para a preservação do património local não passa por apresentar exposições deste teor. Conhecer (inventariar) e preservar deverão constituir os primeiros passos. Só depois se seguem as iniciativas de promoção e educação, com a consequente publicação de catálogos e a realização de exposições. A Câmara Municipal de Cinfães, a cuja instituição se deve louvar o súbito interesse demonstrado no património religioso, começou pelo fim. Esperemos que, para louvor a Deus, a Cristo, à Virgem e aos Santos, bem como à fidelidade história e artística do arciprestado de Cinfães, possa, a seu tempo, corrigir esta inusitada e infeliz acção.

23 de dezembro de 2007

Constatação primeira sobre Roma

Ponte de S. Angelo, N.R, (c) 2007


"Eppur si muove"


Roma é feita de cúpulas. E, no entanto, o céu romano é belíssimo.