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17 de fevereiro de 2012

Modelos políticos de ontem, para políticos de hoje.


Por sessenta euros está aqui um belo presente para oferecer ao Almanaque Republicano. Depois dos Lusíadas a melhor epopeia lusitana.

Já corre na cidade a infausta nova
Que o nosso Redemptor está moribundo...
Tem a fronte p’ra o céu e os pés p’ra a cóva;
Diz com pallidas mãos o adeus ao mundo...
Mas eis que uma esperança se renova:
– “Está salvo!” – diz o povo e, em tom jocundo
Pergunta: – “Qual é coisa, qual é ella,
Que entra p’la porta e fóge p’la janella?”
– [...]»

Octavio de Medeiros, Affonseida

9 de fevereiro de 2012

O riso das hienas.

Não sei se já repararam que, geralmente os mais imbecis têm tendência a evidenciar-se entre os prudentes. Geralmente um imbecil faz tudo para sobressair, porque a mediocridade inibe a imaginação e, por conseguinte, a inteligência. O Bruno Nogueira e o Manuel Jorge Marmelo fizeram esta semana duas crónicas, uma lida, outra escrita, sobre a monarquia que é bem o reflexo dos seus apelidos: a noz é apetitosa, mas é preciso partir-lhe a casca e o Marmelo...bem para além do uso culinário, muito mais haveria a dizer sobre este fruto. Eu, se tivesse algum destes dois apelidos, habituar-me-ia a ser discreto e menos jocoso. 
P.S. pela primeira neste blogue vez não faço ligação para nenhuma das crónicas. Não quero fazer publicidade a nenhuma das intervenções. Para além de revelar o ódio primário dos invejosos e dos fracos, demonstra bem o que esta gente tem feito por Portugal e pelos portugueses: distrai-os com graças para serem a fraca gente que agora são.

24 de janeiro de 2012

O masoquismo republicano.

Gerou-se um grande ruído à volta das declarações do professor Aníbal Cavaco Silva a propósito da difícil vida de um aposentado que decidiu ser presidente da república. Um fardo e uma obrigação cívica, depois de uma tentativa falhada, um mandato presidencial e 10 anos como primeiro-ministro. Até parece que este caminho para o calvário de Belém deixou o senhor depauperado, como se o serviço à pátria, em Portugal, tenha alguma vez levado alguém à pobreza. Como dizem os ingleses: lets cut the crap*. Que o senhor em causa é um lobo, apesar do seu beiço descaído, discurso apagado e ar de cordeiro, não tenhamos dúvida: entre raposas é preciso alguém que morda mais e melhor para escalar a pirâmide dos predadores que constitui a política nacional.

Mas sendo a 5.ª vez que o elegem vêm agora fazer petições para lhe comprarem umas pantufas?
Chega a ser mais grave a reacção dos comentadores do que a tola resposta do senhor Aníbal, o tal, filho do gasolineiro de Boliqueime, prova provada de que república funciona. O Rui Rocha, do Delito de Opinião, acha que o republicanismo funciona tão bem, que "é sempre melhor incorrer no risco de escolher mal sabendo que mais tarde poderemos tentar corrigir uma má decisão". É pena que cidadãos republicanos tão honrados e probos escolham duas vezes o mesmo erro e só não escolham uma terceira por limitação da lei. Estes comentadores, como o João Gonçalves que para defender a honra de Cavaco cita Salazar (apropriado, mas de mau gosto), são a prova de que um significativo grupo de cidadãos deste país não tem capacidade nenhuma para eleger ou ser eleito. Porquê? Porque eleger implica responsabilidade e se há coisa que, desde 1910, a república nos demonstrou é que a estabilidade institucional ou respeito de quem ocupa os cargos não vale tanto como a repartição do poder pelos caciques.

E se como diz o João Gonçalves os nossos monárquicos são pobres ou se, segundo Vasco Pulido Valente, não existem, então deixem-me dizer-vos uma coisa: mais têm feito os poucos republicanos portugueses pela monarquia. E não incluo o pobre reformado, velho tecnocrata formado na escola do Estado Novo chamado Cavaco Silva. Este sim faz lembrar o velho Botas: "que, muito adequadamente, nunca quis saber da "polémica" República/Monarquia para nada". Apenas das finanças.
Ao que parece em república a História não é apenas assustadoramente cíclica. É chata. E repleta de masoquistas.
*Deixemo-nos de dizer coisas que não são importantes

12 de janeiro de 2012

Deixem-me falar-lhes sobre o clientelismo.

Clientelismo é, segundo os dicionários: maneira de agir que consiste numa troca de favores, benefícios ou serviços políticos ou relacionados com a vida política. Ora todas as discussões, em Portugal, sobre a vida política, deviam começar por esta definição. É claro que generalizaríamos se enfiássemos o Carmo na Betesga, ou seja, Portugal no clube exclusivo de países onde o clientelismo impera. Não é assim, mas é certo que o nosso país integra o pelotão dos países onde a corrupção é maior, sendo o clientelismo uma expressão da corrupção.
Quando há meses se formaram movimentos de cidadãos indignados, precários e acampados, todos eles se esqueceram deste pequeno pormenor: não é o voto que manda, é o clientelismo que tem última palavra. Percebê-lo é o primeiro passo para mudar as coisas que alguns queriam mudar, embora muitos quisessem apenas... mudar. O quê, era irrelevante.
Durante os últimos séculos os portugueses viram com bons olhos o clientelismo, cultivaram-no com gosto. Desde o jeitinho à cunha, passando pela manutenção de vínculos familiares como força de manter certos feudos (mesmo apesar do republicanismo primário), o português, qual feitor analfabeto, sempre se sujeitou a ir de chapéu na mão à caso do doutor, pedir emprego para a filha ou filho. O facto de os colocar na universidade não mudou nada esta mentalidade. Se não era, agora, o pai a pedir emprego, era o filho que conhece bem o valor do factor C [vulgo para cunha].

5 de dezembro de 2011

Sim, senhor comendador.

Quando, a propósito das desvantagens da monarquia, me atiram com os títulos e a nobreza, lembro-me sempre dos comendadores republicanos. Podia começar pelas elites clientelistas da república, pelas dinastias republicanas e laicas como os Soares, os Sampaios, os Almeida Santos, etc, mas lembro-me sempre das ordens e das comendas que os Presidentes distribuem generosamente entre jogadores de futebol e amigos do regime, como a que foi entregue a "Joe" Berardo. Este senhor comendador vem agora cuspir no prato onde comeu (e come, avidamente). Ao menos aquela nobreza liberal de oitocentos ganhava um título por construir fábricas de transformação de lanifícios e por trazer dinheiro do Brasil, ou escrever, como o fizeram Almeida Garrett ou Camilo. Hoje a principal condição para receber uma comenda é ter-se notabilizado pelo roubo na alta finança. Ou ter chutado uma bola. Não se admirem se daqui a uns dias o senhor Sócrates ou o senhor Vara levem com uma medalhinha no peito. Pelos altos e valorosos serviços prestados à República.

1 de dezembro de 2011

Agradeçam ao senhor Cunha.

Parece que um organismo internacional descobriu o que o governo da República Portuguesa anda a tentar ocultar há anos: a "corrupção no sector público" como causa da crise da dívida em Portugal. Não era preciso gastar milhões em estudos, como aqueles que foram gastos na OTA e no TGV para perceber uma coisa simples, que a corrupção, seja ela do tipo clientelista (como a cunha) ou da alta finança produz efeitos bombásticos no desenvolvimento de um país.
A cunha, por exemplo, tem semeado a incompetência na administração pública que pretere o mérito pela admissão de indivíduos ligados a famílias e partidos. Não ignoremos que a maioria dos concursos públicos estão viciados: ou são feitos à medida de um certo candidato ou o próprio júri justifica com intrincáveis preciosismos a sua escolha, frequentemente um medíocre tirado das fileiras de inúteis que alimentam as Queimas universitárias. Da administração central ao governo, do cantoneiro ao primeiro ministro, faz tudo parte de uma imensa cadeia de favores mútuos que vem do passado: uns ajudam outros e todos se ajudam.
A verdadeira ética que alguns chamam republicana era acabar com a partidocracia e devolver ao cidadão o controle da política. Mas isso, claro, não convém a ninguém. Mesmo os que agora criticam o que antes aplaudiam. Quando havia dinheiro para distribuir e cunhas para agradar a todos, toda gente era pró-europeísta, votava a torto e a direito em PS e PSD. Agora, tirada a gamela, morra o Euro, morra PSD, morra o PS, abaixo os políticos e acabe-se com a corrupção.
É a cair que se aprende a andar, meus amigos.

12 de março de 2011

O "baptismo" da presidência?



Eu já me envergonho mais do que me espanto com algumas pessoas deste país. Como é possível que os comentadeiros de serviço e demais politógos, tudólogos e opiniosos venham elogiar, ou sequer dar crédito às palavras do discurso inaugural do novo, e felizmente último, mandato de Cavaco Silva? A memória não é assim tão curta que ninguém se lembre das manigâncias daquele senhor enquanto Primeiro-Ministro? Basta ir buscar as capas do Independente para resgatar dum passado bem presente as estratégias de poder do cavaquismo. Mérito em vez de apartidarismo? Diz muito bem o senhor presidente, mas quando esteve à frente do governo, encheu ministérios e serviços públicos com boys e simpatizantes do PSD. Durante a sua governação parte do país, bem agarrada à fina camada de "ouropeu", distribuiu benesses a torto e direito, beneficiou determinadas classes, criando polvos com tentáculos bem extensos e cujas ramificações, lá se vão desgrilhoando, aos poucos, mas para dar lugar a ventosas de outra cor política. Esta coisa do Presidente da República emergir do passado das trevas ou do lamaçal político, novo e puro, é uma figura muito bonita, mas pouco credível. O ar sinistro do senhor Cavaco Silva, misto de Salazar e de Américo Tomás, lembra tudo menos a juventude e a mudança. Lembra-me uma década de desperdício, de destruição e de progresso insustentável. Infelizmente, o cargo de presidente da república, não confere o perdão dos pecados, nem a entrada no reino dos justos. O senhor Cavaco Silva NÃO TEM moral suficiente para tecer as considerações que teceu. É só mais um dos políticos que ajudou ao enterro económico e social deste país. Qualquer bênção ou lição que este senhor dê não deve ser tomada a sério.

20 de dezembro de 2010

Como amar a República em 10 passos.



Quase no final deste ano de frenesi comemorativo, que resultou em centenas de laudatórios livros de luxo (repare-se que a diferença entre luxo e lixo é apenas de uma vogal), julgamos ser já possível atribuir o prémio da pior edição pró-republicana. Trata-se, segundo a nossa opinião, de Tudo o que sempre quis saber sobre a Primeira República em 37 mil palavras, do sociólogo Luís Salgado de Matos. A obra foi editada pelo Instituto de Ciências Sociais, com o patrocínio da Comissão do Centenário. É um pequeno manual sobre como amar a I República em 10 passos. Lidas as 37 mil palavras, concluímos que a Primeira República foi um dos piores períodos pelo qual já passaram Portugal e os Portugueses, mas é isso que torna aqueles dezasseis anos tão especiais e tão importantes. A um determinado momento, o autor presenteia-nos com esta pérola justificativa: segundo ele havia violência entre 1910 e 1926 porque toda a gente era violenta, porque os pais batiam nos filhos e isso era normal. Para Luís Salgado de Matos, a bandalheira é um estado de espírito republicano, portanto. Bem haja às cátedras em que se sentam autores como este. Desconfio que depois do Estado do Estado, do Estado da Justiça, e do Estado da Democracia, a Sociologia deve ser um dos caminhos mais rápidos para a ruína deste país.

Também publicado aqui.

23 de novembro de 2010

O que fez a República portuguesa pelo Caminho-de-ferro?

 Estação do Pocinho, linha do Douro (2004)

Nada.
Ou melhor, delapidou-o. No entanto, a CP celebra os 100 anos do regime dando a impressão que foi o centénio mais empreendedor da história das comunicações em Portugal. A Imprensa, essa foi fertilizada pelo regime, segundo umas exposições mixurucas que andam aqui e ali em edifícios públicos. É um nojo insuportável. Tudo é obra da República. Tudo o que é bom, pelo menos. E no entanto o país está de tanga, de rastos, nauseabundo. A única coisa que este regime fez pelo património ferroviário foi vendê-lo a sucateiros e destruí-lo para alimentar a boca de ávidas construtoras civis.O fecho da linha do Tua é o exemplo maior. Mas são muitos mais.

A ler, tambem, o texto de NCB no Centenário da república, a propósito deste tema.

1 de novembro de 2010

Dilma ganhou. E daí?


A maioria dos comentadores fala em continuidade e sucessão. O discurso republicano não deveria pautar-se por expressões como renovação e apartidarismo? De resto, Dilma não traz nada de novo. Não é primeira mulher a governar os destinos do Brasil, nem sequer o primeiro chefe de estado a prometer a erradicação da pobreza no Brasil. De prometer a cumprir, vai um passo enorme.

26 de outubro de 2010

Hipocrisia do dia.

Cavaco Silva: "Sinto tristeza com a situação que vivemos" 

Em 36 anos de república democrática, 12 foram construídos sob a influência do Prof. Aníbal Cavaco Silva. Está triste, porquê, senhor professor? Esta também é a sua obra. Alegre-se! que a reforma dourada está quase a chegar para si!

25 de outubro de 2010

Salazar em pó.



Graças à visão empresarial de Catarina Portas, hoje em dia é possível encerar de novo o chão de madeira com Encerite, lavar a roupa com sabão Clarim ou escovar os dentes com pasta medicinal Couto. Estes e centenas de outros produtos vendem-se nas lojas d'A Vida Portuguesa, a preços exorbitantes, longe do valor de alguns tostões tão seriamente despendidos pelas nossas avós. Isto só é possivel porque o saudosismo é uma das melhores imagens de marca e a nossa infância é um produto tão ou mais vendável do que qualquer saco de pães acabados de sair do forno. Ora, o mais perverso nisto nem é o facto de grande parte daqueles "saudosos" produtos, cheio de cores apelativas e imagens sugestivas, terem sido em tempos bens de primeira necessidade, usados para manter um nível de decência que a economia nem sempre permitia e hoje sejam prendas para ricos. Não, o mais irónico disto é que tudo aquilo transpire a "pobrete e alegrete", a "uma casa portuguesa" e a "não é desgraça ser pobre". As imagens publicitárias das ceras, dos sabonetes, etc estão repletos de alusões ao "lugar" da Mulher na sociedade, seja a esfregar o chão ou a enfeitar-se para agradar ao marido. Já para não mencionar as desagradáveis reimpressões dos velhos livros da primária, repletos de alusões autoritárias e e ao corporativismo. De resto, toda a publicidade associada a tais produtos transporta para o Portugal actual chavões de gosto duvidoso, da lavra do período do Estado Novo. Depois espantam-se que nos autocarros, nas ruas e nas repartições públicas as pessoas clamem pelo regresso de Salazar. Naquele tempo é que era bom, porque hoje é muito mau? Não sei. Mas, se as lojas d'A Vida Portuguesa vendessem latas com o "senhor presidente do Conselho" em pó, estou em crer que se venderiam bem.

25 de setembro de 2010

Um país de doutores republicanos (e alguns engenheiros...).


 (o cartaz, furtado ao 31 da Sarrafada, vem mesmo a calhar)

"Os monárquicos, abarrotavam as cadeias. Destituíam-se em massa funcionários, que eram considerados adversários da república, e nomeavam-se, aos milhares, aqueles que o compadrio apadrinhava. Eram as represálias. Caído, em 30 de Março, o ministério presidido por José Relvas, foi encarregado pelo presidente da república de organizar governo o sr. Domingo Pereira, contador no tribunal da Boa Hora. O regabofe tocou então o cúmulo! O numero do Diário do Governo de sábado, 10 de Maio de 1919, teve 30 suplementos!! O 17.° suplemento, findou a páginas 1345, começando o 18.° a paginas 1346. Daí por diante, até ao 30.° suplemento, a pagina 1346 repetiu-se, continuamente, seguida das letras do alfabeto: A, B, C, etc.. Quando acabou o alfabeto, em página 1346 — Z, essa página seguiu sempre a sua marcha triunfante, acompanhada pelas letras do alfabeto em dobrado, assim: 1346 — A. A, 1346 — B, B, até aos dois ZZ. Depois, foram postas a seguir á mesma pagina, 1346, três letras do alfabeto: 1346 - A, A, A, 1346 - B, B, B, Chegados os três ZZZ, voltou ao seu princípio, com as quatro letras do alfabeto, e depois com cinco. Por fim, como já era enorme a bicha das letras, passou a indicar-se a interminável pagina 1346 desta maneira: 1346 — 6 A, 1346 — 6 B, até 1346—6 Z. E  assim se  foi  reproduzindo aquela eterna pagina, até 1346 — 10 A, 1346 — 10 B,   1346 — 10 C. Foi só então que a pagina 1346 expirou, de cansada e exausta, seguindo-se a pagina 1347!!
Previno o leitor, espantado com toda esta trapalhada, de que nos caixotins da tipografia em que este meu livro de Memórias é composto e impresso, não há o número de pontos de admiração necessários para se colocarem no fim dos últimos períodos que deixo escritos.
Trinta suplementos do Diário do Governo, tendo a pagina 1346 repetida, até chegar a ter dez letras do alfabeto diante dela ! ! Não sei de país algum do mundo onde sucedesse um caso destes. Disseram-me — e, se bem me recordo, a imprensa deu essa noticia — que andaram por 17:000 os empregados então nomeados. Dezassete mil!
Nunca houve, de lembrança homens, um bodo igual a este.
Não ficou parente pobre, nem doutor que não apanhasse prebenda.
Sim, porque a república fez, em Portugal, toda a gente doutora. Dantes, doutores, a valer, eram só os que tomavam capelo na Universidade de Coimbra. Depois, passaram a ser também doutores os magistrados; em seguida, os médicos; por fim, com a república, tudo são doutores, desde os lentes aos veterinários. Tal qual como no Brasil, segundo refere Eça de Queiroz na Ultima carta de Fradique Mendes, dirigida a Eduardo Prado e publicada nas Ultimas páginas."

CABRAL, António – As minhas memórias políticas: Em plena República. Lisboa: edição do autor, 1932, 431-432.

20 de junho de 2010

Qual é coisa, qual é ela...?




«Vem o sr. Afonso Costa… Aquilo é que é uma besta!»
(Fernando Pessoa)



Afonso Costa não é, como escreveu A.H. de Oliveira Marques, o mais querido e o mais odiado dos Portugueses. É, com certeza, uma das figuras mais ridículas e abjectas da História de Portugal, epítome do que constituiu a I República, ou seja, um regime de vale-tudo, de ameaças, de extorsões, de perseguições e ódios. Afonso Costa jamais foi querido. Foi sempre temido, odiado, repudiado e no fim respeitado, pois ser amado significava perder a força necessária à consolidação da sua obra. A República Portuguesa, sobretudo nos seus defeitos (sim, porque não podemos esconder-lhe algumas virtudes) foi da sua lavra. Desde a tentativa de erradicação da Igreja Católica, às sovas que deu ou mandou dar aos seus opositores, passando pelos pequenos furtos ou os grandes roubos em que esteve envolvido, sem qualquer pejo, embaraço ou vergonha. Como escreveu Fernando Pessoa: «Não podendo Afonso Costa fazer mais nada, é homem para mandar assassinar. Tudo depende do seu grau de indignação.». Ora, a indignação de Afonso Costa teve vários graus, tantos ou mais do que aqueles que subiu na hierarquia da Maçonaria que o acolhia com fraternidade. Aliás, a raiva deste paladino da República nunca foi elitista, faça-se-lhe justiça: tanto se dirigia a monárquicos como a republicanos, dependendo de quem se atrevia a fazer-lhe frente.

Político experimentado dos últimos anos do Rotativismo e da experiência do Franquismo, A. Costa sabia uma coisa: para governar um país como Portugal, a Democracia só podia vir depois. Mais, o primeiro passo para mandar nos portugueses, não é suspender o Parlamento, ou calar a Imprensa, é alimentar o mais possível o caciquismo e os clientelismos. Por isso, com uma mestria nem sequer igualada pelo seu sucessor das Finanças a partir de 1926, rodeou-se da família, criando uma Dinastia de Costas (a expressão aparece na sua correspondência), leal, forte, incorruptível (na qual a sua mulher teve um papel fundamental, mesmo apesar de às mulheres a República ter negado o direito ao voto), distribuiu benesses aos mais próximos, amigos ou inimigos, mantendo-os no bolso como qualquer bom gangster o faria.

Contudo, Costa tinha um lado medroso que faz dele esse político tão extraordinário e vivo da nossa História. Rodeava-se da púrria (adolescentes vadios e marginais a quem oferecia bombas e armas para assustar a população) e ele próprio manejava a pólvora como ninguém; por outro lado era incapaz de enfrentar um opositor num frente a frente. E tinha medo, muito medo, do próprio terror que lançara. Quando, em 1917, Sidónio o mandou ir prender ao Porto andou escondido em guarda-fatos e dali saiu apupado por uma fila de mulheres. Passou vexames inacreditáveis: viu a sua casa ser esbulhada de alguns dos objectos que ele tinha furtado nos Palácios Reais e um dia de Julho de 1915, seguindo num eléctrico atirou-se pela janela fora ao som e à vista de um clarão que pensava vir de uma bomba. Não fora um atentado, apenas um curto-circuito…estatelou-se no chão de onde foi levantado pelos transeuntes em estado grave e, durante meses e anos a fio, Lisboa transformou esta cena patética numa adivinha popular: Qual é coisa, qual é ela, que entra pela porta e sai pela janela?

Afonso Costa participou em negociatas e estranhos casos de favorecimento. Desapareceram processos durante o seu ministério na Justiça e não poucas vezes viu o Parlamento envolvê-lo na "roubalheira" de que fala Raul Brandão e na qual políticos e militares participavam. Em França um banqueiro virou-se para António Cabral, ex-ministro da Monarquia perguntando-lhe: - “Conhece um tal de Afonso Costa, em Portugal”. António Cabral disse que sim, que o conhecia bem… ao que o capitalista respondeu – “Pois deve ser um dos homens mais ricos do seu país, dada a quantia que possui na conta que por cá abriu…”

Nada o detia. Para além de manipular a legislação a seu favor (algo que facilmente podia fazer dado que controlava, a partir da proeminência do seu Partido Democrático, veja-se o Caso das Binubas, de que hoje ninguém fala…) executava malabarismos financeiros, como o que envolveu a sua mulher para quem fez desviar, sob a desculpa da caridade, meio milhão de francos, destinados à Comissão de Hospitalização da Cruzada das Mulheres Portuguezas, de que a D. Alzira Costa era presidente.

Claro está que no meio de governos maioritários, ditatoriais e não fiscalizados, no meio do clima de terror que Afonso Costa ajudara a criar e mantinha para sua segurança e a da própria República, os roubos não só eram frequentes, como absolutamente seguros (prova-o a “habilidade” de Alves dos Reis, em 1925). Nenhuma investigação sendo efectivamente aberta levaria a alguma condenação. Não deixa de ser curioso que às despesas e aos roubos que os republicanos faziam questão de apontar antes de 1910 tornaram-se frequentíssimos durante a os loucos anos da I República: armamento, fardas militares, promiscuidades várias com empresas estrangeiras, etc, etc.

Através da figura de Afonso Costa é fácil entender as actuais comemorações do Centenário e como, a meio deste ano de 2010, os seus mandatários resolveram assumir a celebração dos primeiros anos da República, evitando assim o Estado Novo e, na 3.ª República, fugir à inevitável glorificação de uma certa “oposição” não socialista. É que a Primeira República, intolerante e exclusiva como hoje alguns dos seus admiradores é a melhor e talvez a única maneira de regressar às raízes e à autenticidade da República Portuguesa tal qual ela foi gizada.

Publicado aqui.

22 de abril de 2010

Laços de família.



Uma das mais frequentes críticas à ideia de Monarquia é a questão da hereditariedade. «Se ele pode ser rei, porque é que eu também não posso sê-lo?», como se qualquer um de nós, anónimo cidadão pudesse, efectivamente, alcançar o lugar de presidente da república. É esta ilusão de igualdade, de acesso democrático e igual, que conserva a ideologia republicana naquele pedestal de superioridade onde se acolhe uma parte dos políticos. Mas quando se trata de consolidar o poder abaixo dessa alta ideia republicana, a hereditariedade dá muito jeito.
A República Portuguesa está cheia de exemplos de dinastias empresariais, políticas e profissionais. Desde os Santos Silva, e os Soares, republicanos, laicos e socialistas, até aos Azevedo ou Champalimaud, sem esquecer as pequenas clientelas familiares que preenchem as vagas das Câmaras Municipais, Secretarias de Estado, Empresas Públicas, etc, onde filhos e filhas sucedem a pais, sobrinhos a tios, etc, num nepotismo facílimo de aclarar pela leitura, ainda que fastidiosa, do Diário da República. É que a ética republicana - esse hipotético estado mental em construção - sabe que o voto é apenas uma das fases do processo de obtenção do poder. Segue-se-lhe o sangue e o dinheiro, dois factores que os políticos republicanos portugueses souberam manobrar muito bem desde o século XIX.

7 de janeiro de 2010

Quem conhece o estado da Cultura em Portugal, as dotações orçamentais para os Museus e para a salvaguarda do Património, as necessidades de milhares de licenciados desempregados ou com empregos precários, - mais ainda no tempo de crise em que nos encontramos -, a atribuição de dez milhões de euros para comemorar o regime chega a roçar os limites de um insulto atroz. Não digo que não se proporcionassem as devidas manifestações de júbilo pelo centenário da república - que muito aguentou, dados os tropeções que tem dado - mas a esta escala é coisa infame e pouco gloriosa. Basta olhar à nossa volta para perceber que há pouquíssimos motivos para justificar tamanhas festividades.