A dialogar, prefiro fazê-lo com direitistas laicos ou com esquerdistas ecuménicos. A direita religiosa, seja ela católica, muçulmana ou judaica é frequentemente proselitista e fanática. E a esquerda ateísta muito perigosa. Por isso desconfio do servilismo de uns e outros, ao serviço não se sabe muito bem do quê - talvez do desejo doentio de ambas as partes em esfregar na cara dos outros frustrações íntimas. É um pouco como aquele senhor, de cravo ao peito, sempre aguerrido, a citar a encíclíca ateísta contra a ICAR - acrónimo que os mais raivosos incréus fazem questão de chamar à Igreja Católica - que no seu curriculum exibe com um certo brio o ter sido denunciado à PIDE por um padre. Lembra alguns dos mais notáveis anticlericalistas dos séculos XIX e XX português, filhos de clérigos (como Aquilino Ribeiro), que tanto se empenharam em tentar resolver os fantasmas pessoais, obrigando os outros a lutar contra os seus próprios moinhos de vento. Todavia, do lado oposto há indivíduos tão ou mais complexados. Sem querer citar nomes, mas citando-os, lembro-me do João César das Neves (que ajuíza cinicamente sobre almoços pagos), o Carlos Santos (cuja memória vem a ser ressuscitada agora), o Orlando Braga ou o Alexandre Pinheiro Torres. E para que não se diga que este é um mundo de homens, a Isilda Pegado, que de vez em quando lá aparece para ser do contra. Eu até acredito em boas intenções, mas a maioria destes e de outros nomes defende coisas muito pouco cristãs. Desde logo contraria o ideal de Amor ao próximo. Refugia-se numa espécie de conservadorismo a coberto de questões como o Aborto e até mesmo o Divórcio (assunto que a Igreja Católica já resolveu desde o Vaticano II). Arrogam-se a falar em nome de uma certa Igreja (e acredito que alguns o façam na realidade) mas raiam o ultramontanismo e o anacronismo numa instituição tão plural que acolhe Franciscanos e Jesuítas. Eu não quero crer, embora já o tenha aventado, que a Igreja deseje estar de bem com Deus e o diabo, procurando receber as benesses a que julga ter direito da República Portuguesa e depois a ataque no concernente a questões do foro sexual. Se o faz, não devia. Sobretudo usando alguns leigos que fazem dos seus blogues autênticos púlpitos.
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24 de maio de 2012
19 de agosto de 2011
Destruir, não discutir.
O que se passou em Madrid ontem e anteontem não é uma questão de laicidade. É uma contenda ideológica levada ao extremo por quem, apenas, entende a linguagem da destruição.
Se a Igreja já destruiu? Claro que sim. Infelizmente. Tenta agora construir e reconstruir-se.
Mas aqueles que a acusam, ou que acusam a religião de ser destrutiva fazem-no com pedras na mão.
Do alto da sua arrogância recusam-se entender, discutir ou submeter-se, não à fé, mas à razão.
É que o trágico de tudo isto não é a contestação, mas o âmago da contestação: combater só por recusar servir, só pela ideia de que existe um inimigo tradicional (em suma, a autoridade) que é necessário destruir, retira qualquer validade ao acto.
De resto, se perguntássemos a algum daqueles jovens que exibiam símbolos e objectos de ódio contra a Igreja ou o Papa o que estava ali a fazer, talvez tivéssemos a constatação de que muito daquele discurso se fundamenta sobre areia...
Não auguro um futuro brilhante para esta juventude que se empenha em destruir em vez de construir.
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