Eu vejo, nestes tempos desditosos
Povos empobrecidos, e chorosos ;
Pois quando vem hum mal, outros se seguem,
Que os Mortaes atenuão, e perseguem. '
Mas apezar da falta de dinheiro,
Apparece nos bairros o gaiteiro,
As bandeiras nas cordas penduradas
Por onde as festas sao annunciadas,'
Tudo feito com lustre , e com grandeza
Foi Juíza a Senhora Dona Andreza.
Os festeiros não tem nada de seu;
Mas a festa da rua tudo deu.
Anda o velho engraçado co' os Leilões
Dos cargos, que custarão bons tostões.
Temos fogo de vistas, vistas raras,
N'hum beco, que de Largo tem três varas
Que huma roda, que salta era fogo ardendo;
Vem desordens fazer nos que estão vendo;
E póde muito bem a propriedade
Com fogo reduzir-se em ametade.
Estes p'rigos não são muito pequenos,
E já tem succedido mais, ou menos.
Nunca vi de dinheiro tanta fome,
Nem tantas festas de despeza, e nome.
Eu louvo, e não crimino a devoção;
Haja festa de Igreja, e bom Sermão;
Tenha a festividade do arrayal
Cousas, que facão bera, e nunca mal.
O dinheiro de máscaras, e fogo
Vá gastar-se com outro desafogo
Mais útil, mais vistoso, mais louvável
Em acudir a tanto miserável.
Dem rações á pobreza dessa rua,
E a festa christãmente se conclua.
No lugar, era que o fogo armar se havia,
Haja comprida meza neste dia;
Hum, ou dois caldeirões de mantimento,
Que sirvão aos mendigos de sustento,
Ministrados por esses bons festeiros.
Que se facão da meza dispenseiros,
Sem tumulto, em socego, e com cuidado
No cégo, na criança, no aleijado.
Isto he que dá exemplo, he que edifica;
Deste modo a função completa fica [...]
Portugal Enfermo, José Luís Guerner, 1819
Povos empobrecidos, e chorosos ;
Pois quando vem hum mal, outros se seguem,
Que os Mortaes atenuão, e perseguem. '
Mas apezar da falta de dinheiro,
Apparece nos bairros o gaiteiro,
As bandeiras nas cordas penduradas
Por onde as festas sao annunciadas,'
Tudo feito com lustre , e com grandeza
Foi Juíza a Senhora Dona Andreza.
Os festeiros não tem nada de seu;
Mas a festa da rua tudo deu.
Anda o velho engraçado co' os Leilões
Dos cargos, que custarão bons tostões.
Temos fogo de vistas, vistas raras,
N'hum beco, que de Largo tem três varas
Que huma roda, que salta era fogo ardendo;
Vem desordens fazer nos que estão vendo;
E póde muito bem a propriedade
Com fogo reduzir-se em ametade.
Estes p'rigos não são muito pequenos,
E já tem succedido mais, ou menos.
Nunca vi de dinheiro tanta fome,
Nem tantas festas de despeza, e nome.
Eu louvo, e não crimino a devoção;
Haja festa de Igreja, e bom Sermão;
Tenha a festividade do arrayal
Cousas, que facão bera, e nunca mal.
O dinheiro de máscaras, e fogo
Vá gastar-se com outro desafogo
Mais útil, mais vistoso, mais louvável
Em acudir a tanto miserável.
Dem rações á pobreza dessa rua,
E a festa christãmente se conclua.
No lugar, era que o fogo armar se havia,
Haja comprida meza neste dia;
Hum, ou dois caldeirões de mantimento,
Que sirvão aos mendigos de sustento,
Ministrados por esses bons festeiros.
Que se facão da meza dispenseiros,
Sem tumulto, em socego, e com cuidado
No cégo, na criança, no aleijado.
Isto he que dá exemplo, he que edifica;
Deste modo a função completa fica [...]
Portugal Enfermo, José Luís Guerner, 1819