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23 de março de 2012

Os animais na quinta do fim do Mundo.

Desde o clímax do milenarismo, em 2000, que tem vindo a aumentar a ansiedade quanto a outro possível fim do mundo. Do cinema à publicidade, todos glorificam o momento final como se fosse possível vender souvenires do armagedão. Se repararem não há blockbuster recente que não introduza o tema do fim do mundo. Os espectadores acorrem para assistir de camarote ao take final. Afinal de contas, para os tradicionais voyeurs dos acidentes, aqueles que abrandam ou param para ver os destroços dos carros sinistrados, ou os que aguardam no sofá pela imagem do sangue que os cameramen sempre filmam, o paraíso é ver acontecer a desgraça final, em todo o seu esplendor.
Por outro lado, crescem as associações, campanhas, movimentos e manifestações a favor dos direitos dos animais. No mundo ocidental, o animal começa a tornar-se cada vez mais humano e as suas necessidades ultrapassam mesmo as dos indivíduos. Não se trata só do orçamento gasto em alimentação dos animais domésticos que, nos EUA, supera já a dotação destinada aos sem-abrigo, mas a própria humanização do bicho. O cão (ou o gato) já não é apenas o melhor amigo do homem, mas um novo-Homem.
Não sei se entre ambos os fenómenos existe uma relação directa, nem vou tentar encontrá-la à luz das teorias relacionais e por vezes conspirativo-esotéricas. Mas uma coisa parece-me coerente: existe aqui muita falta de auto-estima (colectiva e individual) e, sobretudo, falta de crença na humanidade. Uma sociedade que deposita nos seus animais toda a sua força anímica, que os diviniza e dirige para eles as suas esperanças, não deseja se não o fim da sua espécie. Conheço pessoas que vivem com dezenas de cães e gatos e são incapazes de se relacionarem socialmente.
Devo dizer que adoro animais e sempre que posso faço o necessário para os acolher e providenciar-lhes conforto. Mas não posso colocar à frente do meu semelhante as necessidades de um animal, se o fizesse estaria a negar o meu ser pensante, o meu lugar num complexo labirinto de vida que me trouxe até onde existo.
Talvez esta negação advenha e exista efectivamente e se espelhe numa sociedade cada vez mais dependente de seres vivos que não desiludam, que não falem nem pensem mas que sejam leais e devotados ao seu criador – estas qualidades são em geral as que os grandes activistas pró-animais alegam na sua luta. Para eles os animais são mais leais que o Homem.
Talvez tenham razão e que, um dia, eles nos governem e se  tornem nós, como no “Animal farm” de Orwel.
Essa seria, com certeza, a maior ironia de todas.

24 de novembro de 2008

Tradição ou ódio de estimação?

Enviaram-me recentemente este vídeo. Segundo a mensagem que o acompanhava, terá sido censurado ou impedida a sua transmissão na televisão. Toda a acção é francamente violenta: um grupo de jovens (na sua maioria) apedreja outra jovem. A lapidação é acompanhada por um texto que compara a situação à das touradas. Ponto 1: que eu saiba nunca foi tradição em Portugal o acto de apedrejar pessoas. Quando muito houve actos espontâneos ou premeditados (mas pontuais) de violência dirigidos a indivíduos ou grupos de indivíduos em contextos específicos de crise (ex. o Pogrom de 1506 contra judeus de Lisboa). Nunca, felizmente, se fez tradição disso. Aliás, frequentemente, da boca de muitos fanáticos se compara a tourada e os touros de morte às sentenças da Inquisição. Novo erro (gravíssimo), novo anacronismo: nunca os actos decorrentes da acção do Tribunal do Santo Ofício resultaram em transmissão geracional de processos e actos miméticos com vista à preservação de conhecimento vital à construção identitária ou ao impedimento da desestruturação do sentido de comunidade. Em alguns casos, bem conhecidos, como no do Porto, no século XVI, nos autos de fé onde se lançaram condenados à fogueira, houve uma reacção de repulsa que testemunha bem a condenação popular deste tipo de actos. O que me leva ao ponto 2 de análise deste vídeo: colocar na mesma linha de análise o sofrimento humano e o sofrimento animal é demagógico e irracional. Abomino a violência prepertada contra qualquer ser vivo: a prova disso é que acolho em minha casa animais que recolhi da rua e não por vaidades ou modas, mas não suporto este tipo de campanhas. Em alguns locais da Europa e dos Estados Unidos da América há mais dinheiro gasto com animais domésticos do que com desalojados ou pobres. É esta a mensagem que queremos fazer passar à humanidade: que escolha entre os animais e o seu semelhante? A questão das tradições dos touros de morte e das touradas é mínima (e, repare-se, não defendo estas práticas, nem sou seguidor das mesmas) quando comparada com a violência dirigida a animais domésticos e outros. Então, porque não salvamos os frangos de aviário, mortos para consumo; os cães horrivelmente mutilados que se encontram nas sarjetas, por todas as estradas deste país; os patos alvejados para gosto de uns e outros; os lobos perseguidos, as serpentes mortas por simples ofiofobia! Não? Fazer uma campanha deste género para passar uma mensagem de ódio é digna de alguém menos carinhoso do que um animal...irracional.