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8 de outubro de 2009

E a Memória, meus senhores, a Memória?




Estas «celebrações» que recentemente se levaram a cabo em Viseu foram, na sua essência, não muito diferentes das várias que, durante o Estado Novo, se repetiram colocando a Historiografia ao serviço da ideologia do regime. Contudo, não posso deixar de questionar: numa República que despreza hoje e cada vez mais a sua História, prestes a fazer 100 anos de uma soma de ignominiosos actos, qual o interesse de saber onde nasceu o primeiro rei da nação? A pertinência de tal necessidade parecer diluir-se neste tempo estranho, em que os valores da nacionalidade apenas fazem sentido para alguns e servem para enfeitar roteiros turísticos. Eu, que sou dos que acha que não se deve meter foice em seara alheia, não sendo medievalista, nem particularmente interessado em saber onde os príncípes e os reis usaram cueiros pela primeira vez, contento-me em saber onde estão os ossos de Afonso Henriques. Nesse aspecto sou pragmático como os arqueólogos: quais documentos, quais cabaças. Há cacos, há osso? Estamos conversados. Mas conhecendo relativamente a obra de Almeida Fernandes estou à vontade para manter uma conversa sobre o assunto. Este senhor, que ganhou o lugar de historiador a pulso, nasceu em Britiande, concelho de Lamego, distrito de Viseu. Viveu o Estado Novo como cultor dos Homens e dos seus Feitos, sobretudo daqueles que lhe eram mais próximos em pensamento e em espaço. Dedicou-se à toponímia mas, tanto quanto sei e posso aquilatar da leituras dos seus trabalhos de minuciosa analítica, pouco saía de casa para perscrutar o espírito dos topónimos que dissecava no seu gabinete. A sua obra, incomensurável e de indiscutível importância para a historiografia portuguesa, é, porém, uma sucessão de críticas. E quando que refiro a críticas, não falo do processo de análise histórica e heurística. Críticas pessoais, frequentes e virulentas, a historiadores que, de alguma forma, ousaram por em causa as suas palavras. O seu tempo era o da Idade Média de tal forma que todas as suas análises redundam numa medievalização do espaço: basta consultar os verbetes que redigiu para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileiras para perceber os hiatos a nível de História da Idade Moderna e do Antigo Regime que as suas interpretações deixaram nos estudos da História Local e Regional, sobretudo nas regiões do Douro, Lamego e Viseu, para onde Almeida Fernandes dirigia o seu interesse. Ele, que se queixava da Nova História (que associava ao arqui-inimigo José Mattoso), confiava demasiado nos documentos. É na documentação que ele firma a sua interessante teoria do nascimento de Afonso Henriques. Mas toda a conjectura assenta em comparação de datas e presenças nunca verdadeiramente comprováveis. Tanto quanto sabemos dos seus trabalhos, D. Afonso Henriques até pode ter nascido na beira de uma estrada, algo que não seria estranho a uma «corte» itinerante. Podia ser entre Coimbra e Viseu, entre Viseu e Lamego, nos arredores desta cidade, no meio de uma serra ou mesmo numa aldeia da Beira Alta. Vir Almeida Fernandes, e hoje o seu genro, anunciar ao mundo um novo bezerro de ouro (que muitos foram venerar a Viseu), reivindicando mudanças nos manuais de história e na mitografia nacional é tão absurdo como inexequível. Os manuais de história já quase não existem e a Memória dos homens não se muda de um dia para o outro. Aliás, a Memória implica que eu faça esta pergunta: como é que em 900 anos, não restou um único documento que atestasse ou pudesse sugerir esta nova teoria? Como é que em vida do primeiro rei ou nas gerações imediatamente seguintes ninguém registou este dado de semelhante importância: o local do nascimento de um monarca que governou durante quase meio século, sendo a sua presença marcante na europa do século XII? Dado que Viseu não era uma aldeia nessa época, talvez o verdadeiro local onde Afonso veio ao mundo não fosse propriamente digno de um princípe e rei, de tal forma que a tradição o fez nascer em Guimarães (por todas as ligações da vila à vida do conde D. Henrique). Em qualquer dos casos nunca se pode ignorar a Memória, por muito nebulosa ou anistórica que ela seja - sempre nos conta algo que fica por contar...

13 de fevereiro de 2009

11 de fevereiro de 2009

Vista da acrópole de Viseu com a
igreja do seminário em primeiro plano
(c) N.R.
Chalé perdido na urbanização dos arredores da cidade
Rua Alexandre Herculano, Viseu
(c) N.R.
Gradeamento de corrimão de inspiração Arte Nova
numa vivenda de 1907. Rua Alexandre Herculano,
Viseu (c) N.R.

17 de novembro de 2008

Monumentos de Escrita: uma exposição a recordar.



Lembrou um amigo, e bem, que passou hoje um ano sobre a inauguração desta excelente exposição resultante de um não menos excelente projecto cujos resultados pude apreciar no Museu Grão Vasco, em Viseu. É claro que coisas como esta, no nosso país, são raras e precisam quem as acalente. Vivemos uma era de pobreza cultural motivada uma crise de criatividade - em Portugal agravada por anos e anos de uma pobre cultura de sacristia e de gabinete onde, quem singra são os lisonjeadores, os bem falantes, os pobretes e alegretes, os provincianos. Porque província, em Portugal, não é sinónimo de geografia física, mas mental e quem julga que cria com a mão estendida ou esfregando os toquinhos em sinal de servilismo, lembre-se que a vida é uma roda da fortuna. Travá-la é impossível, mas abrandar ou apressar a sua rotação, só depende da criatividade humana e não da subserviência. Os meus parabéns, pois, ao autor, fazendo votos para que soma e siga em mais e melhores concretizações.