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30 de agosto de 2009

Apontamentos sobre uma aldeia da serra.

Aproxima-se o final do período de Estio "civil" e a aldeia já se vai esvaziando. Escuso-me de referir-lhe o nome, sob pena de cansar a pouca magia que o topónimo ainda acarreta e por respeito a um outro justo que cá vive. Também não adianta escondê-lo, nem fazer segredo disso, todos o sabem, pois não é a primeira vez que escrevo notas à margem da vivência desta povoação. É na freguesia de Tendais, e basta. Aliás, podia bem ser aqui o que narro, ou noutro lugar qualquer, onde a iniquidade e a desmoralização vão abrindo caminho, substituindo velhas noções valorativas por vácuo e frivolidade. A que me refiro? É simples e fácil de descrever. Durante o ano a aldeia repousa sob o manto de uma paz podre. Aqui não há emprego, não há progresso, não há esperança. Os mais jovens vão à escola (cada vez menos escola e mais centro recreativo) e voltam para esperarem sair, um dia, talvez sem regresso à vista; a aldeia como muitas da região não tem as infra-estruturas básicas do mundo dito civilizado, ou seja a água canalizada para todos, o saneamento e as condições básicas de salubridade, que tudo soma com o envelhecimento dos habitantes, o abandono dos campos, a dependência total dos produtos que, podendo cultivar-se aqui, são trazidos de fora. § Os verões, no entanto, são animados. Vem gente de Lisboa, do Porto, de outros lados. Trazem os costumes da cidade e, enquanto cá estão, esses já "enteados da terra", querem a aldeia como o espelho das suas cidades, dos seus subúrbios, dos seus hábitos. Há uns anos reinventaram a festa da padroeira, a Virgem da Livração. Mas para eles, para esses estranhos na própria terra, a espiritualidade não conta. Instalam-se altifalantes no campanário da ermida e, durante três dias, mesmo apesar de poucos dias antes ter falecido uma filha da terra o som estridente e poluente de música "popular" quebra o sossego da aldeia. Para quê? Aparentemente para nada. Ninguém liga aos problemas sociais que os rodeiam durante um mês e, no entanto, os três dias de festas parecem querer congregar as pessoas em volta do adro. Mas este adro, outrora espaço de comunhão é apenas palco de dança. Não há caridade, nem solidariedade, nem empatia pelo próximo. Apenas rodopio, música, comida, bebida, foguetes que estralejam. É a expressão máxima do fútil. A Igreja, a quem cabe a função de esteio moral, colabora. Abre as portas do templo, para a festividade, quando devesse, talvez, abrir os olhos da comunidade para a inutilidade do desperdício, para a compassividade que falta e para a solidariedade que não existe. A aldeia, como todas as povoações dos arredores, está cheia de estradas e estradões que não levam a lado nenhum. Nem ao progresso civilizador, nem ao coração dos Homens. Os daqui, por exemplo, são, em regra, pouco tolerantes e muito pouco respeitadores. Todos fecham os olhos à lei, todos cometem ilegalidades, todos as aceitam naturalmente e praticamente todos as acalentam e estimulam. O lixo é atirado para a propriedade vizinha, casas, garagens, barracos e toda a sorte de estruturas crescem sem licenciamento e sem controlo, derrubes e arranque de árvores alheias são actos comuns. Com os animais que, infelizmente têm o azar de nascer aqui, acontecem as maiores atrocidades, cometidas por gente que desconhece o valor da Vida: tratados ao pontapé, andam esfomeados e cheios de chagas pelos muros, caminhos e campos até alguém os envenenar. Ao fazê-lo, quem o faz, não está a cometer qualquer acto de piedade, está antes a por em marcha um cínico plano de desresponsabilização. Quem não ama os animais, as plantas, o colectivo, não ama o seu semelhante. É mau, é um indigno ser humano. § O Inverno lava algumas chagas, mas não as chagas sociais. Até ao próximo verão ninguém mais quer saber da alguém nem dos "velhos", nem dos "novos" da aldeia. § Acabo de ler a encíclica de Bento XVI "Caritas in veritate". Partilho da preocupação de Sua Santidade: «Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de pode, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globalização, que atravessa momentos difíceis como os actuais» (Caritas in Veritate, Introd., 5). § Ao ver acontecer tais coisas numa aldeia tão pequena como esta, é impossível não temer pelo que se passará no resto do Mundo. Onde está a Caridade, onde está a Verdade que, durante séculos, tem sido apanágio das gentes desta serra?