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30 de março de 2017

Vidago Palace, 1936.

Munique, 1936. Fotografia de APIF | Nuno Resende


O primeiro episódio desta série de época traduziu-se numa boa experiência que há muito se pedia na televisão portuguesa. O cenário ajuda: um hotel de «fin-de-siécle atrasado», hoje numa periferia, mas que em 1936 constituía uma das principais entradas num Portugal em reconstrução, para quem fugia de uma Espanha em ruínas. Vidago, com as suas termas, o seu novo campo de golfe, o seu bucolismo, casa bem com o novo Estado Novo que augura esperança depois de uma república desastrosa.
Assim sendo, a produção conjunta entre entre televisões portuguesa e espanhola parece ter resultado num bom e cuidado investimento fílmico, apenas em parte prejudicado pela ligeireza do enredo e algumas personagens pouco críveis.
De resto, figurinos (e o respectivo elenco)
, cenários e fotografia conjugam-se num especial e deleitoso desfilar de um tempo português que já urgia ser ecrã.
Para ilustrar o tempo, e uma das cenas em volta do rádio, uma imagens cá das «minhas» que documenta a participação portuguesa nos jogos olímpicos de 1936. Na foto, provavelmente João Alberto Andresen (1890-1943), que naquele ano representou Portugal na modalidade de atirador.

22 de julho de 2012

Obituário laudatório.

Alguém como José Hermano Saraiva nunca poderia deixar este mundo sem ser notado. É um caso de amor-ódio. Ninguém lhe retira o mérito de educador ou comunicador. Mas é incontestável a sua ligação a Salazar e ao Estado Novo, que ele defendeu com uma sinceridade notória, na última entrevista perante a jornalista Fátima Campos Ferreira. Ora, quando o escudam, com unhas e dentes, fazendo-lhe desmesuradas vénias à entrada no Hades, como o João Gonçalves ou o Pinho Cardão (aqui e aqui), a coisa toma contornos desmesurados.
Lá pela Academia de História o incluir entre os seus pares, isso não faz (bem pelo contrário) o historiador que querem que ele seja. E isto só prova como aqueles e outros autores, comentadores encartados, sabem pela rama. Porque o não elogiam pelo que realmente era: homem culto e camonista encartado? Talvez porque em Portugal, o país onde Camões morreu de fome todos encham a barriga de Camões, como escreveu Almada Negreiros. A elite nacional é um misto de nada e de coisa nenhuma, como os sociólogos chamados à pressa ao estúdio de televisão para comentar um evento de massas.
De facto tresanda a bajulação servil aquilo que hostes de escrevedores - da direita à esquerda - têm feito ao falecido José Hermano Saraiva. Não partilho da choraminguice laudatória e há anos que movo esforços para explicar aos meus alunos o que é escrever história e o que é contá-la frente a uma câmara. Que Hermano Saraiva fosse um simpático ancião contador de estórias, nada contra. Mas, vamos ser realistas: aquilo que José Hermano Saraiva fazia era algo que dezenas de investigadores fizeram durante o Estado Novo: num imenso país marcado pelo pitoresco, pelo rural e pelo folclore, constituído por um auditório analfabeto ou iletrado, chamar a atenção só podia ser pelo sentimento, que a razão dificilmente assiste a esta gente. Curioso como certas elites se deixaram envolver por aquele discurso inócuo, cheio de clichés, de linguagem fácil e fluente. E afirmam que ele criou o gosto pela história! Bem pelo contrário: a História continua a ser aborrecida, cronologicamente aborrecida e inútil. O que é interessante e apelativo é saber como a padeira de Aljubarrota enfornou espanhóis, ou D. Pedro, "aqui mesmo, neste local", arrancou o coração a um dos algozes de Inês de Castro (e o espectador imagina o sangue em golfadas).
Depois, perdoem-me se pareço intolerante, mas um homem que diz abertamente que o doutor Salazar" era um "santo", ou que a polícia política foi uma ténue ilusão é ir atrás de um negacionista que através do seu carisma contribui para a já massiva adesão à supressão da democracia. E, desculpem-me mais uma vez, mas no que toca a este ponto não abro mau da minha inflexibilidade. Porque há muito tempo compreendi que o carácter de um indivíduo não é só a imagem que ele nos impinge pelo ecrã da televisão. Se aceitarmos esta premissa, então temos a porta aberta para aceitarmos que, mais tarde ou mais cedo, nos calem e amordacem. Se já nos não calaram...

P.S. entretanto, J.H.S. deixa um sucessor.

1 de fevereiro de 2011

Viagem ao maravilhoso (1990)



Esta série fez as delícias da minha adolescência. Tendo crescido numa comunidade rural, onde a cultura, dita popular, era ainda o único veículo da expressão, dos gestos, da linguagem de muitas gerações, via noutros exemplos de narrativas um caminho a seguir. Um caminho sem fim que percorria ávido nas noites em que este programa lançava ecos de um mundo misterioso. Viagem ao Maravilhoso: ficha técnica.

24 de novembro de 2008

Tradição ou ódio de estimação?

Enviaram-me recentemente este vídeo. Segundo a mensagem que o acompanhava, terá sido censurado ou impedida a sua transmissão na televisão. Toda a acção é francamente violenta: um grupo de jovens (na sua maioria) apedreja outra jovem. A lapidação é acompanhada por um texto que compara a situação à das touradas. Ponto 1: que eu saiba nunca foi tradição em Portugal o acto de apedrejar pessoas. Quando muito houve actos espontâneos ou premeditados (mas pontuais) de violência dirigidos a indivíduos ou grupos de indivíduos em contextos específicos de crise (ex. o Pogrom de 1506 contra judeus de Lisboa). Nunca, felizmente, se fez tradição disso. Aliás, frequentemente, da boca de muitos fanáticos se compara a tourada e os touros de morte às sentenças da Inquisição. Novo erro (gravíssimo), novo anacronismo: nunca os actos decorrentes da acção do Tribunal do Santo Ofício resultaram em transmissão geracional de processos e actos miméticos com vista à preservação de conhecimento vital à construção identitária ou ao impedimento da desestruturação do sentido de comunidade. Em alguns casos, bem conhecidos, como no do Porto, no século XVI, nos autos de fé onde se lançaram condenados à fogueira, houve uma reacção de repulsa que testemunha bem a condenação popular deste tipo de actos. O que me leva ao ponto 2 de análise deste vídeo: colocar na mesma linha de análise o sofrimento humano e o sofrimento animal é demagógico e irracional. Abomino a violência prepertada contra qualquer ser vivo: a prova disso é que acolho em minha casa animais que recolhi da rua e não por vaidades ou modas, mas não suporto este tipo de campanhas. Em alguns locais da Europa e dos Estados Unidos da América há mais dinheiro gasto com animais domésticos do que com desalojados ou pobres. É esta a mensagem que queremos fazer passar à humanidade: que escolha entre os animais e o seu semelhante? A questão das tradições dos touros de morte e das touradas é mínima (e, repare-se, não defendo estas práticas, nem sou seguidor das mesmas) quando comparada com a violência dirigida a animais domésticos e outros. Então, porque não salvamos os frangos de aviário, mortos para consumo; os cães horrivelmente mutilados que se encontram nas sarjetas, por todas as estradas deste país; os patos alvejados para gosto de uns e outros; os lobos perseguidos, as serpentes mortas por simples ofiofobia! Não? Fazer uma campanha deste género para passar uma mensagem de ódio é digna de alguém menos carinhoso do que um animal...irracional.