8 de abril de 2017
O sarro salazarista.
O sarro salazarista é muito difícil de tirar. Nem com a pedra pomes democrática se raspa do corpo cansado desta república portuguesa.
Se não veja-se o recente concurso das 7 Maravilhas de Portugal - Aldeias. A filosofia subjacente à escolha é semelhante ao Concurso de 1938, organizado pelo então recém criado SNI - Secretariado Nacional de Informação, obra de António Ferro para dar expressão à política do espírito acalentada por Salazar. Aí se procurava o pitoresco, o etnográfico, o popular. Hoje, os mesmos recortes, só que com mais plástico, alumínio e festas desbragadas.
Até o conceito Aldeias de Portugal promove o típico e o fachadístico e pasme-se (ou não), até o logótipo do projecto lembra a iconografia de 1938, exibida na portada do folheto em cima.
Esta coisa das aldeias bonitas, very tipical, não só é uma forma deprimente de interpretar a ideia fadística da Casa Portuguesa, pobre, humilde e honrada, como escamoteia o facto de que as aldeias são as suas pessoas. Ora, sem pessoas não há vida. Apenas paredes caiadas e de vez em quando nem um cheirinho a alecrim.
Por muitos banhos que esta gente tome, - esta, das Câmaras Municipais, das Comissões de Coordenação e dos próprios governos - dificilmente consegue tirar aquele sarro salazarista.
21 de julho de 2012
Sal-azar, sal-azarete, sal-azarinhos.
Isto é tolice, como é óbvio. Quem viveu durante o Estado Novo sabe perfeitamente que aquilo não era mau, era péssimo. Até posso compreender a nostalgia de infância, o colorido dos brinquedos de lata, as brincadeiras junto ao lavadouro enquanto a mãe esfregava os lençóis de estopa, a qual, pobre mulher, chegando a casa encontrava provavelmente um marido analfabeto e, tendo sorte, sóbrio. A maioria que clama pelo regresso desta austeridade, queixando-se da de hoje é ainda desta geração que rapidamente esqueceu as limitações (ou então não) de um país de brutos, em que o marido olhava para o chão em frente ao patrão e a mulher pouco mais era do que um saco de batatas atilhado por uma Constituição que não lhe era nada favorável.
Por outro lado para a classe alta (aquela que bajulou Salazar até ao tutano), constituída por labregos bugueses e aristocratas falidos os tempos deviam ter sido de glória e até pode ter razões para querer o regresso daquele regime catolaico, de recato público e deboche privado. Em todo o caso, não deixa de ser uma incongruência que num mundo em que se ganha dinheiro com a exploração do cidadão do mundo, se queira fechar num país orgulhosamente só. Só posso compreendê-lo à luz do estatuto e daquela noção de respeito que faz o tópico da conversa salazarista: antes do 25 de Abril é que era!. Era o quê? Não se roubava? Ninguém morria? Não se mentia? Não havia clientelismo? A política era sã e filantrópica? Poupem-me.
Salazar era um misógino ressabiado, filho de caseiros que viveu entre hortas e quis aplicar o modelo de ordenamento daquele pedaço de terra que lavrava em Santa Comba ao resto país. Criou a ideia do doutor, formado a pulso que degenerou numa coisa sem espinha dorsal nem ossos chamada Miguel Relvas. Provinciano, achava que o país era um imenso potencial de força braçal movido a vinho. E, estupendamente beato, julgava os seus amigos pelas aparências, cumulando-os de prebendas em troca de silêncio e lealdade cínica. Salazar é o pai desta gente que construiu a 3.ª república: medíocre, saída dos bancos de escola estado novistas, do Deus, Pátria e Família, do pobrete mas alegrete. Estes dizem repudiá-lo. Muitos gritam fascismo nunca mais, mas entregue-se-lhe o poder nas mãos e verão o mesmo modus operandi, os mesmo tiques e desejos. E isto não é sequer uma questão de democracia ou ausência dela. Efectivamente não tivemos um estado fascista, mas tivemos com certeza um regime que estimulava a mediania ou a inferioridade, em troca de valores inócuos.
Uns são mais hipócritas e negá-lo-ão três vezes. Ao menos José Hermano Saraiva, nunca até ao final da sua longa existência, deixou de considerar Salazar um santo. Reconverteu-se (é só ir buscar os seus discursos pré e pós 25 de Abril) e tornou-se um simpático contador de estórias. E agora um mártir para a causa salazarista que cresce de dia para dia.
Cada país tem os historiadores que merece, como os ditadores que pede ou escolhe.
Publicado com alterações no Estado Sentido a 16-04-2014
25 de outubro de 2010
Salazar em pó.
12 de outubro de 2010
2 de novembro de 2009
1#notas republicanas
Via Biblarte (Flickr)Fotógrafo: Estúdio Horácio Novais
É Salazar. E a bandeira é a da República Portuguesa. Não, não há engano. Ao contrário do que algumas pessoas, como o sr. Mário Soares, querem fazer crer, não houve suspensão da República entre 1926 e 1974. Vamos mesmo comemorar o Centenário da dita no próximo ano.
6 de abril de 2009

[Outros dados interessantes aqui]
30 de março de 2009
29 de março de 2009
D. Luís Filipe (1887-1908)
Um excelente vídeo a que já nos habituou o amigo Zé (Blog de leste) sobre o Príncipe Real D. Luís Filipe que, com apenas 21 anos, foi abatido a tiro, como um animal, no terreiro do Paço. Não gosto de fazer história contrafactual, mas não posso de deixar de conjecturar como teria sido se D. Carlos e D. Luís Filipe não fossem assassinados em nome da República que agora se comemora. Luís Filipe de Orleães e Bragança tinha sido criado para reinar. Fora educado pelos melhores, viajara, instruíra-se politicamente e era já um garboso chefe de estado (assumira já a regência na ausência do pai) de quem se esperava o melhor. De facto, ele era a sublimação da monarquia constiticional representativa, de um país que caminhava a passos largos para um notável crescimento em termos económicos, sociais e culturais. Como refere Rui Ramos, após a morte natural de D. Carlos (diabético em grau avançado) a subida ao trono de D. Luís Filipe teria significado uma acalmação natural, talvez até um entendimento com os republicanos - o que poderia ter evitado a ruinosa 1.ª república e a longa ditadura salazarista. Podia o príncipe ter-se deixado seduzir pelo clima autocrático? É possível. Mas enquanto que entre 1910 e 1926 (apenas 16 anos) sucederam, numa autêntica bandalheira, 11 presidentes, com a sua presença à frente do reino de Portugal teríamos usufruído da vantagem de uma estabilidade governativa e talvez a anulação de uma ditadura pessoal como a de Salazar, debaixo de uma figura coroada - que sempre obscura, como sabemos pela experiência franquista, a imagem de regimes constituídos sobre um a propaganda a um homem só. D. Luís Filipe podia até ter sido arrastado pela onda de ódio que varreu a Europa entre 1914 e 1945, mas não podemos deixar de conjecturar que pudesse ter sido um opositor a ela, sendo ele filho e descendente de democratas (não esqueçamos que foi o seu trisavô D. Pedro IV quem abriu o país à liberdade). Por isso, não só lamento a morte de D. Carlos, que foi um bom homem e um excelente chefe de estado, ao contrário do que propaganda republicana sempre nos fez crer sobre ele, mas mais ainda de um jovem esperançoso - num país que nunca acreditou nos seus jovens e sempre se entregou nas mãos de velhos medíocres, bur(r)cratas e pretensamente sábios, como esse grande português chamado António de Oliveira Salazar, que soube honrar a república portuguesa e o seu país, durante uma chefatura de meio século.
30 de janeiro de 2009
Sim, senhor presidente do conselho.

5 de julho de 2008
Cortar a cabeça à História?
Maria Antonieta, de Erwin Olaf.


