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24 de julho de 2012

Políticos, penicos e cenouras.



Farto-me de conhecer espertinhos. Como a maioria dos meus amigos anda de carro raramente convive com o vulgo e vive, portanto, numa espécie de bolha ultra-dimensional de inocência. Eu não e, para bem ou para o mal, dou todos os dias com os que furam filas, pedincham com mentiras e me tomam por lorpa. Por motivos profissionais, por outro lado, farto-me dos lugares comuns que saem proficuamente da boca de autarcas os quais, no seu pobre alfobre vocabular, vão repetindo palavras e expressões como "progresso sustentável", "viabilidade", "desenvolvimento integrado", etc etc. A maioria exibe o dr. atrás do nome, mas desconfio que grande parte deles nem sabe desdobrar a abreviatura que lhe acompanha o dito. 
O país move-se há séculos ao sabor do clientelismo e da espertice. Não é Paulo Morais (perdão, dr. Paulo Morais) que nos vem dar a notícia. Mercês, benesses e prebendas são a tal economia paralela que caracteriza a nossa História. O toma-lá-dá-cá, mais ou menos regulamentado, tem definido a nossa política e as nossas finanças. Há 300 anos a coisa ainda funcionava relativamente bem, pois os beneficiados eram, geralmente nobres e clérigos, que a ilustração e a riqueza freavam a cobiça e inibiam a inaptidão. Com o liberalismo, a situação desbancou. A ideia da igualdade, que Camilo Castelo Branco tão bem pintou no romance Agulha num palheiro, possibilitou que medíocres tomassem o poder com base na premissa de que todos têm as mesmas oportunidades e de que, se os melhores e inteligentes também podem, os patetas e os burros devem poder calçar os mesmos sapatos. As cavalgaduras descalçaram, então, as ferraduras e puseram pantufas para desfilar pelos salões dos ministérios e lugares públicos.
Até ao século XX ainda houve quem se pusessem em bicos nos pés, na estrebaria alcatifada, mas vinda a 1.ª e a 2.ª repúblicas, as fornadas de políticos de carreira ou carreiristas tomaram de assalto o país. Primeiro a fidelidade ao regime, para assegurar que não voltasse a acontecer a adesivagem em massa após o 5-X e depois a lealdade ao partido e ao marcaram a governação até aos nossos dias. Entre todos um fio condutor: a qualidade de bacharel ou doutor, que elevou muito pateta à qualidade de respeitável pateta. Ultimamente a classe política partidária tem-se desleixado. À força de fazer omoletes sem ovos, usa logo as galinhas, com penas e patas, de que o caso da licenciatura de Miguel Relvas é exemplo maior.
Relvas é um daqueles respeitáveis zés-ninguém que a política arrebata para fazer dele um estimado respeitável bacharel ou doutor. À semelhança do chefe de partido, Pedro Passos Coelho, a única coisa que sabe é onde deve chegar. E lá chegará. Pelo caminho faz de tudo. Julgando que as ferraduras não mais pisarão estrume, vai caminhando pata ante pata até tropeçar num penico - mais ou menos o que aconteceu com a fast-licenciatura deste esperto. A trupe vem defendê-lo, dizendo que é legal, embora tenha dúvidas quanto à moralidade do acto. A moralidade é como o penico virado, limpa-se o dejecto, passa-se um perfume para disfarçar o mau cheiro e está a carpete salva.
Pergunta e responde (que os tempos não são de dúvidas) um dos colegas de estrebaria: para que servem os partidos políticos: Os partidos políticos exercem uma função estruturante no processo de construção democrático. Esta capacidade de falar sem dizer é uma característica desta espécie, reminiscência da sua anterior condição de pateta. O sr. Pedro Alves (perdão dr. Pedro Alves) sabe tanto como eu, que os partidos políticos servem nos dias de hoje, para lhe pagar o ordenado, manter actualizado o prontuário de lugares comuns e gastar dinheiro a substituir penicos por sanitas, na esperança que as desastradas cavalgaduras não as derribem. Ao contrários dos ratos de biblioteca, que segundo o dr. Duarte Marques não conhecem a realidade do mundo, as cavalgaduras formadas na escola da vida são os arautos da experiência, verdadeiros salvadores da pátria, como o dr. Miguel Relvas, cuja experiência se norteou sempre pela busca do conhecimento.
No fundo Miguel Relvas é um vítima; vítima de uma cabala (expressão notavelmente bem empregue) e vítima da sua inocência - inocência tão declarada e óbvia que nunca o levou a pensar como se safaria com a manigância quando fosse ministro vigiado 24h por dia pelos media e pelos bufos. Coitado. É triste vê-lo sofrer as ferretadas da opinião pública, que adora chafurdar na parvoíce dos parvos. Felizmente que, como tudo o que faz rir, resultará em choro e o dr. Miguel poderá voltar a usar do respeitador título. E no entretanto, dá-se uns murros na mesa, para aplacar os deuses amofinados.
Que se lixem as eleições! profere, rindo, Pedro Passos Coelho. Soa estranho que passados tantos anos alguém, num inusitado momento de alucinação ache importante referir que o que interessa não é a cenoura, mas a terra que a produz e quem nela trabalha. Mas, num país onde a maioria anda de quatro, é difícil observar de longe o que se vê sempre de tão perto.

15 de maio de 2012

Os excêntricos.

Acabo de ver e ouvir na televisão que Portugal está a uma ou poucas décimas de sair da inflação. O jornalista falava tão optimisticamente como se estivesse em 2 de Setembro de 1945. Mas algumas vez deixamos de estar no fio da navalha? Desde que o eixo político deste planeta se desviou (algures em finais do século XVI) novamente para o norte-centro-sul da Europa, voltamos à nossa condição periférica. Ora as periferias sentem sempre menos as ondas de choque. E quando são pobres, fruto do escolho epicentral, raramente sofrem com os embates. Nós por cá somos remediados, fomos remediados e temo que o continuemos a ser. E ainda bem. O pobre gasta tudo o que tem, dívidas se as tem (na mercearia, claro) só as paga quando pode - ou seja raramente, ou nunca. É um estilo de vida que nem se aproxima dos restantes PIGS, que gastam normalmente à tripa forra sem olhar a quê nem a quem. Em alguns aspectos somos um caso único.

14 de maio de 2012

De Quibir a La Lys: na forma do costume.


Comemorou-se há dias (9 de Abril) a pesada derrota dos portugueses contra a feroz germânia, em La Lys. Faltava pouco mais de dois meses para a queda e o jovem soldado J. F. Devezas escrevia à Miquinhas a queixar-se do penoso serviço e das galochas que não continham a água. Pena não termos cartas de Alcácer Quibir. Certamente a afabilidade do discurso - que ajudava a confortar o espírito no meio do sofrimento - nos relataria as pequenas amarguras de um soldado com areias nos borzeguins. É tão bela esta nossa placidez ante o desastre. Só as elites são arrebatadas e facciosas.

15 de março de 2012



A maioria das nossas populações é feita desses tipos intermédios, expectantes, passivos, em que lhes falei no começo destas notas, os os fortes pisam e manietam ao seu carro, e para quem não há lugar na vida agitante nos nossos dias. O resultado é este: em cima, o País gozado por dez ou doze bandidos, o todo fazendo permutações de infâmias e jigas-jogas de negociatas, que lhe permitem aguentarem-se alguns meses mais no tombadilho; em baixo a massa avulsa, morrinhenta, sórdida, sem força, desiludida de tudo, irrespeitosa de tudo, insultando-se como os bêbados, sofrendo o azorrague como os cães, vendo passar as afrontas indiferente, e deixando-se cair assim no próprio vómito, onde a letargia a assovaca, té que uma chicotada nova a faça outra vez estrebuchar.
Fialho de Almeida, Os gatos, 1893 (mas podia ser em 2012).
Citado em O Tempo Contado

13 de janeiro de 2011

Viva a república, abaixo a república!

Nunca, em Portugal, se falou tanto em república. Pelo menos desde Outubro de 1910. Fala-se no regime, porque o regime paga. É justo. A propaganda ideológica refinou-se ao longo do século XIX, definiu a ascensão dos grandes e mortíferos regimes do século XX e é usada no século XXI para distrair dos problemas económicos e sociais. Enquanto se alimenta o mito do regime igualitário e fraterno, mina-se a liberdade amordaçada entre acrisia e conformismo. Salazar e António Ferro sabiam-no bem e, nesse aspecto, as comemorações do Centenário da República são herdeiras directas dos grandes festejos de 1940 sobre a Nação e o novo regime.

Muito antes de Cromwell e da Revolução Francesa, muito antes do marxismo modelar a ideia de república como o melhor de todos os regimes, já república constituía a designação para a coisa pública. Não a coisa do povo, - essa entidade abstracta onde todos se incluem e onde ninguém deseja incluir-se-, mas a gestão do lugar público. Nas praças e nos caminhos, onde sempre se decidiram os desígnios comunais, fazia-se um tipo de política. Com a Revolução e o Liberalismo a política passou a fazer-se em casas parlamentares e as eleições que dantes se realizavam inter pares, hoje fazem-se intra grupos. A política deixou de ser para todos. Estava porém aberto o caminho para que a ideia de república se transformasse no ideal que é hoje: o de um suposto absoluto nivelamento e igualdade entre cidadãos (mas apenas entre os que fazem política).

O republicanismo português, que se aproveitou da ignorância e do analfabetismo grassante em 1910, construiu-se sobre a noção de que qualquer pessoa podia tornar-se chefe de estado, contrariando a ideia de que aquele lugar pertencia a uma família de privilegiados. Nunca conseguiu explicar, contudo, que  mudavam os privilegiados e não os privilégios.

25 de setembro de 2010

Um país de doutores republicanos (e alguns engenheiros...).


 (o cartaz, furtado ao 31 da Sarrafada, vem mesmo a calhar)

"Os monárquicos, abarrotavam as cadeias. Destituíam-se em massa funcionários, que eram considerados adversários da república, e nomeavam-se, aos milhares, aqueles que o compadrio apadrinhava. Eram as represálias. Caído, em 30 de Março, o ministério presidido por José Relvas, foi encarregado pelo presidente da república de organizar governo o sr. Domingo Pereira, contador no tribunal da Boa Hora. O regabofe tocou então o cúmulo! O numero do Diário do Governo de sábado, 10 de Maio de 1919, teve 30 suplementos!! O 17.° suplemento, findou a páginas 1345, começando o 18.° a paginas 1346. Daí por diante, até ao 30.° suplemento, a pagina 1346 repetiu-se, continuamente, seguida das letras do alfabeto: A, B, C, etc.. Quando acabou o alfabeto, em página 1346 — Z, essa página seguiu sempre a sua marcha triunfante, acompanhada pelas letras do alfabeto em dobrado, assim: 1346 — A. A, 1346 — B, B, até aos dois ZZ. Depois, foram postas a seguir á mesma pagina, 1346, três letras do alfabeto: 1346 - A, A, A, 1346 - B, B, B, Chegados os três ZZZ, voltou ao seu princípio, com as quatro letras do alfabeto, e depois com cinco. Por fim, como já era enorme a bicha das letras, passou a indicar-se a interminável pagina 1346 desta maneira: 1346 — 6 A, 1346 — 6 B, até 1346—6 Z. E  assim se  foi  reproduzindo aquela eterna pagina, até 1346 — 10 A, 1346 — 10 B,   1346 — 10 C. Foi só então que a pagina 1346 expirou, de cansada e exausta, seguindo-se a pagina 1347!!
Previno o leitor, espantado com toda esta trapalhada, de que nos caixotins da tipografia em que este meu livro de Memórias é composto e impresso, não há o número de pontos de admiração necessários para se colocarem no fim dos últimos períodos que deixo escritos.
Trinta suplementos do Diário do Governo, tendo a pagina 1346 repetida, até chegar a ter dez letras do alfabeto diante dela ! ! Não sei de país algum do mundo onde sucedesse um caso destes. Disseram-me — e, se bem me recordo, a imprensa deu essa noticia — que andaram por 17:000 os empregados então nomeados. Dezassete mil!
Nunca houve, de lembrança homens, um bodo igual a este.
Não ficou parente pobre, nem doutor que não apanhasse prebenda.
Sim, porque a república fez, em Portugal, toda a gente doutora. Dantes, doutores, a valer, eram só os que tomavam capelo na Universidade de Coimbra. Depois, passaram a ser também doutores os magistrados; em seguida, os médicos; por fim, com a república, tudo são doutores, desde os lentes aos veterinários. Tal qual como no Brasil, segundo refere Eça de Queiroz na Ultima carta de Fradique Mendes, dirigida a Eduardo Prado e publicada nas Ultimas páginas."

CABRAL, António – As minhas memórias políticas: Em plena República. Lisboa: edição do autor, 1932, 431-432.

12 de janeiro de 2010

Sumário da ideia de República em Portugal.




Sejamos francos, todos nós, monárquicos, republicanos ou indiferentes: esta não é a melhor altura para gastar 10 milhões de euros em comemorações. Partindo da serenidade deste pensamento, vamos ao que interessa: Portugal deve, ou não deixar de ser a República que é desde 1910

Talvez não consideremos necessária a imediata alteração do regime, mas tal não pode dever-se a opiniões estapafúrdias do género “as monarquias não são democracias”, ou “a república é o melhor e o mais justo regime”. Basta olhar à nossa volta para perceber que nenhumas destas asserções é verdadeira. Se assim fosse, estaríamos a colocar a Suécia, a Holanda, a Noruega e tantas outras monarquias, ao nível de ditaduras ou regimes pouco honestos. 
Se algum mérito há a atribuir às comemorações do Centenário da República é o de que precisamos de debate. Podemos não precisar de um regime novo, como sustentam alguns, mas precisamos, com certeza, de eliminar preconceitos e estereótipos em relação, respectivamente, às noções de monarquia e república.
Desde logo a República Portuguesa funda-se em ideais muito pouco democráticos. Estafado o lema francês, jacobino e maçon da Liberdade, Igualdade e Fraternidade para qualificar momentos pouco edificantes do republicanismo em Portugal, de que é testemunho maior o período da Primeira República. 

Não interessava a qualquer um dos republicanos, ainda em monarquia, que o regime fosse derrotado com serenidade. Prova-o a forma como D. Carlos e o seu filho D. Luís Filipe foram sumariamente executados em plena praça pública. A República intelectual atacava na imprensa (sobretudo através da caricatura, poderosa arma num país de analfabetos), nos municípios e no Parlamento. E cabia aos sicários, - a ralé armada, braço terrorista dos intelectuais -, por em prática os desejos mais tenebrosos. Um plano de tomada do poder não podia, por isso, ser feito em pezinhos de lã. 
Primeiro, não havia condições para electrizar o eleitorado. Se há culpas a imputar aos políticos da Regeneração é o de que o plano da educação pecou por tardio. Um país de iliteratos, de analfabetos, é muito mais fácil de dominar do que um território de cérebros instruídos. A República sabia-o e aproveitou-se disso ao comunicar ao resto do país a mudança de regime por telégrafo. Por isso, devemos desconfiar da ideia de que república foi uma revolução do povo. Pode não ter tido a oposição dos monárquicos e estes serem, de facto, uma pequena percentagem da população do país, mas é muito difícil acreditarmos que, a 4 de Outubro de 1910, Portugal fosse um país de republicanos. Ontem, como hoje, a realidade não pode ser mascarada: somos um país de abstencionistas, de indiferentes.
Por outro lado, os republicanos sabiam bem que o Reis constitucionais eram amados, se não pela grande massa (a da indiferença), pelo menos por uma grande parte da intelectualidade portuguesa, mesmo a que se encontrava ligada a sectores da Esquerda, nomeadamente ao Socialismo. D. Carlos fazia parte dos Vencidos da Vida, unia-o aos desiludidos a incapacidade de renovar cultural e socialmente Portugal. Só havia um caminho: eliminá-lo. A morte de D. Carlos e do príncipe herdeiro nunca pesou na consciência revolucionária dos teóricos do regime. Para eles, fora algo necessário. Herdeiros legítimos do sangue da Revolução Francesa, pedia-se aos carbonários a cabeça régia, como fez o exacerbado Afonso Costa, aos berros, no Parlamento, e eles -força bruta e sanguinária- davam-lha.
A República é uma obra de minorias, por um lado, de um punhado de literatos inflamados e, por outro, de um conjunto de operários ressabiados e electrizados por uma mistura de ódio às humildes origens, ao cura e ao proprietário abastado (ver o caso de Aquilino Ribeiro). Lisboa fez a revolução, o Porto subscreveu-a e o resto do país, na sua proverbial indiferença, aceitou-a como fizera ao longo de todo o século XIX ao aceitar a dança das cadeiras no parlamento.

E eis-nos na questão essencial: a monarquia não caiu por culpa dos monárquicos. A monarquia vacilou, tremeu e sucumbiu ao golpe duríssimo de 1 de Fevereiro de 1908 (e não à escaramuça de 5 de Outubro de 1910). A monarquia desgastou-se no rotativismo, na voragem para a qual foram atirados D. Luís e D. Carlos, confundindo-se o monarca e o político. De notar que os republicanos eram, na sua maioria, emergentes das fileiras do regime. Cansados de todo o tipo de rejeições, deixaram Progressistas e Regeneradores para tentar uma terceira via, muito mais condicente com a sua própria ideia de mérito próprio, nem sempre concordante com a do serviço à Pátria. O projecto reflecte esta ideia: substituir o rei pelo presidente, alguém que pudessem manietar e que pudesse ser, não a face de uma dinastia, mas de um ideal, que vogou ao sabor dos insultos e das agressões ao longo da Primeira República.
Se há algum mérito a retirar destas comemorações, é o de que podemos lucrar, pelo menos, com a discussão e o debate. Eliminar da nossa mitografia muitos estereótipos como os que ainda se podem ver aqui e ali, onde a nossa juventude mistura república e noções de nação e pátria, fazendo tabula rasa de séculos de História.
A República implantou-se à força, mas sem dificuldades, em 5 de Outubro de 1910. Alterou a legislação, mas foram os símbolos – numa época em que se apelava às identidades nacionais – como a bandeira, que mais contribuíram para consolidar a ideia de uma nova nação, surgida das cinzas monárquicas. Não o escamoteemos, temos sido alvo de lavagem cerebral, ao dizerem-nos, desde as cadeiras da primária, que as cores verde e vermelha são o símbolo da esperança e do sangue. Absurdo. Tais cores são tudo menos esperançosas, são o testemunho da presença das ideologias-base dos mentores positivistas do novo regime. Mas, é claro, para haver um novo regime, com estabilidade e confiança, é preciso reinventar a nação, eliminando ou reinterpretando os velhos símbolos.
Poderá nem haver disponibilidade mental ou económica para mudarmos o regime, mas nada impede que o coloquemos à discussão. Afinal, esse deveria ser o verdadeiro sentido da democracia. Ou a ética republicana, essa expressão que nada diz, está acima de qualquer ética? E a república, que se arroga a guardiã de tantos valores, não aceita o valor maior, o da verdade afinal não contemplada na trilogia francófila?

17 de dezembro de 2009

A impotência do Regime: mastros & aventais.



"Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus (...)
Álvaro de Campos


Começamos já a entrever que as Comemorações Centenárias da República soam a incrível anedota. Pouca gente acredita no sistema político e ninguém leva a sério esta comemoração. Como poderiam, se atravessamos uma das piores crises do último século e um presidente de câmara resolve gastar um milhão de euros para recordar a decrepitude da República Portuguesa? Não sei se este caso deveria seguir para uma consulta de Psiquiatria, se para o domínio da disfunção sexual. Para alguns a República é um estado de espírito e eu diria que é uma patologia que une uma geração de velhos e impotentes homens, desde Afonso Costa, passando por Bernardino Machado, até Mário Soares e Almeida Santos. Se à necessidade de enaltecer mastros com cem metros de altura juntarmos o uso frequente de aventais, temos resolvida a charada. Sócrates está à vontade para estender a carpete vermelha aos senadores republicanos. Mais vale que casem e procriem juntos, ainda que o nascituro seja um cadáver adiado. Entretanto o país borrifa-se para eles e para a ideia de República. O mal é que o dinheiro da res publica continua a ser mal gasto.

5 de outubro de 2009

O idealismo da República Portuguesa!




«Em nome da ascendência branca, os governos republicanos chegaram mesmo a dar cobertura à prática das maiores atrocidades alguma vez cometidas pelos portugueses em África. São elucidativos a esse respeito os relatos recentemente revelados sobre a campanha militar no sul de Angola em 1915, durante a qual o exército português avançou com ordens superiores para exterminar toda a população local, incluindo velhos, mulheres e crianças. Ora, quando esta bárbara política de genocídio foi discutida numa sessão secreta do parlamento, em 1917, o chefe do governo e líder do PRP [Partido Republicano Português], Afonso Costa, teve estômago para a defender, argumentando que «não nos deixamos mover por idealismos nem esqueçamos os conceitos e impressão dos pretos perante respeitos humanitários que ele[s] considera[m] como fraqueza ou pusilinâmidade». [citação extraída de MIRA, Ana (ed.), Actas das sessões secretas da Câmara dos Deputados e do Senado da República sobre a participação de Portugal na I Grane Guerra, Porto: ed. Afrontamento, 2002, pp. 115 e 148-53].

Rui Ramos, «O dia dos equívocos», 2004.

8 de julho de 2009

Não discutimos a Nação!



... - dizia o Senhor Presidente do Conselho da II República Portuguesa, António de Oliveira Salazar. E dizem os organizadores das festividades que comemorarão, em 2010, os 100 anos sobre a instauração do regime republicano. Não discutem a Nação que lhes passou um cheque de 10 milhões de euros em tempo de crise, nem discutem o regime que os amamenta com o saudável leite da ideologia burguesa. Ou não fosse o cabecilha desta organização um banqueiro. Artur Santos Silva preparou, aliás, um programa muito interessante para estas lautas festas que fazem lembrar, em muitos aspectos, as comemorações do Estado Novo: República e Lusofonia, Arte e Espectáculos, Jogos do Centenário, República nos Media, Edições e Exposições do Centenário, Portal Centenário da República e Georeferenciação e Fluxos de Comunicação. Se substituirmos a Lusofonia por Império, o Portal pelas luxuosas publicações editadas pelo Secretariado Nacional de Propaganda, de resto tudo, ou quase, tudo é decalcado de cérebros muito semelhantes aos da Revolução Nacional. Aliás, a formatação ideológica a partir das escolas parece ser um ponto assente no programa desta Comissão: rever, revisitar e reformatar a imagem da República de forma a servir um Estado moderno é o objectivo principal. («As actividades previstas incluem exposições, encontros científicos, roteiros municipais, jogos e concursos e actividades nas escolas», Público, 08-07-09). Num país onde a Escola já quase não tem contacto com a História, onde os estudantes não sabem situar cronologicamente os acontecimentos e as figuras que os antecederam; num país onde os museus não têm orçamento para quase nada, nem para conteúdos educativos, gastar 10 milhões em propaganda republicana é imoral e muito pouco ético. Incorrendo no risco de parecer imparcial, diria que é um crime. Mas tais coisas, que vão sendo hábito numa sociedade pouco transparente e habituada à impunidade, não espantam saindo da boca, mãos e cabeça de banqueiros. Fico realmente admirado que uma pessoa de consciência, saber e intelectualidade como a Dr. Raquel Henriques da Silva (que, mais do que ninguém, conhece o Estado da Cultura em Portugal) assine por baixo desta fantochada.

31 de maio de 2009

Imagem picada daqui


Ocorreu, recentemente, em Lisboa, uma iniciativa que visava reflectir sobre Afonso Costa, o Robespierre português que a Comissão para as Comemorações para o Centénio da República não tardará em converter num santo cívico, modelado ao serviço de um regime puro e casto. § A propósito desta figura cimeira do republicanismo português, não posso deixar de recomendar a leitura de "Psicografia do Dr. Afonso Costa", escrita por Carlos Malheiro Dias na sua imparcialidade de homem livre (foi regenerador, monárquico liberal admirado pelos republicanos e simpatizante do salazarismo). Neste ensaio CMD disseca o temperamento do deputado que gizou a Lei da Separação, plano último para abate "do maior poder espiritual da terra: a Igreja Católica". Prossegue Malheiro Dias: "A grandeza do adversário engrandecia-o. De esta vez não era com pequenos magistrados intrigantes, com débeis e pálidos inimigos, com uma magistratura humilde ou com preconceitos pusilânimes que se batia. Na sua frente erguia-se o vulto branco, coroado pela teara pontifícia, do Papa, rodeado pela sumptuosidade escarlate dos príncipes cardinalícios do sacro Colégio. Era ao próprio sucessor de S. Pedro que ele, o jacobino saído das forças obscuras da plebe, lançava o repto da sua lei fulminatória, como um Anti-Cristo. Diante de essa colisão decorativa, espectaculosa, a sua ambição frenética deliciava-se, naquele lance espantoso, maior do que Pombal maior do que Cavour. Não podendo, como Napoleão, oferecer-se o embriagador triunfo de aprisionar um pontífice, ele dá-se ao luxo supremo de chamar a sua casa um bispo, depois de expô-lo à conspurcação da plebe demagógica, e em sua casa o interroga, o censura e o condena - não como um esbirro colérico e grosseiro, mas com a calculada gentileza, com a sardónica amabilidade dos tiranos inteligentes, no íntimo grato àquele prelado venerável por lhe haver prestado um ensejo com a sua rebeldia à representação teatral de aquela cena histórica, em que tanto se exaltava o seu orgulho e que tão sensacionalmente patenteava a sua omnipotência.". Nestas brilhantes linhas Carlos Malheiro Dias retrata o clima político da república, dos seus paladinos e das suas ambições - longe dos ideais de fraternidade e igualdade. Em primeiro estava a conquista do poder. Ninguém melhor do que um obscuro, mas ambicioso Afonso Costa para liderar este movimento de batalha e ódio. Um leão que não se satisfaz com as migalhas, como o descreve CMD. Vale a pena ler este texto, escrito em 1911. É uma janela para a República que se vai comemorar em 2010 - durante cem anos preparada, gerida e glorificada por notáveis homens sem escrúpulos como Afonso Costa. - DIAS, Carlos Malheiro - «Psicografia do Dr. Afonso Costa», in DIAS, Carlos Malheiro / Introd. de Mário Mesquita, Lisboa: Vega, 1982, pp. 84-88.

20 de abril de 2009



Ontem, num programa sobre a monarquia inglesa, o ex-chefe de governo Tony Blair sublinhava a experiência e o conhecimento político da rainha Isabel II. De facto por ela passaram 11 primeiros ministros, o primeiro deles Winston Churchill. Desde que enverga a coroa britânica, a rainha já assistiu e participou na recuperação de uma Europa devastada pela Segunda Grande Guerra, a períodos de prosperidade e recessão, ao declínio e ao crescimento. Com Margaret Tatcher assumiu o controle de uma maiores potências mundiais, lidando com questões tão graves e sensíveis como a Guerra das Malvinas ou a crise do carvão. § Que valor tem a experiência de meio século contra o oportunismo perene do método republicano? Os presidentes da república, içados, na sua maioria, de grupelhos facciosos, lobbies partidários e económicos, servem o instante, o momento, num jogo perigoso e incerto de contrabalançar o papel de chefe de estado com o do chefe governo. É uma balança que pende perigosamente ora para um lado ora para outro - quando não está, aliás, viciada... § O rei é criado para reinar, acima dos políticos. A sua experiência pode ditar a interferência, mas o seu papel de conselheiro diz-lhe que a sua maior função é a de representante máximo da nação, regulador permanente das instituições e garante da estabilidade governativa da res publica. Em Portugal, há arrepios e pruridos quando se fala em reis pois ainda não ultrapassamos a barreira dos privilégios. Curiosamente a sociedade portuguesa assenta toda ela no desrespeito constante do princípio de igualdade: as cunhas, a corrupção, oligarquias de banqueiros, políticos e famosos desfilam impunemente pela passadeira dos desmandos. Podemos pois dizer que a República Portuguesa é um pouco como aquele governo descrito por Agostinho da Silva: "não passa de uma vaca. Devemos dar-lhe palmadas no rabo e tentar tirar-lhe o leite, é para isso que ela serve".

30 de março de 2009

Nuno Gonçalves (c)
No próximo dia 2 de Abril, em Lisboa, no Hotel Fénix, vai acontecer um leilão de livros, fotografia e manuscritos organizado pela Otium Cum Dignitate. Recebi o catálogo e não resisti a digitalizar esta fotografia. Integra um vasto espólio fotográfico da autoria de Sebastião Cunha sobre o funeral do senhor Doutor António Oliveira Salazar. Esta belíssima fotografia condensa meio século de ditadura e perniciosa modelação do carácter nacional: numa pomposa cama, Salazar, de capelo universitário tendo nas mãos uma enorme cruz e terço jaz em cadáver magérrimo (*) de mãos longíneas. Ao lado, uma Maria enlutada (como as mães de província choram filhos e maridos ausentes) carpe a morte do senhor doutor, velado por uma Nossa Senhora de Fátima em plástico e uma pagela de Santa Teresinha de Jesus. Eis o providencial salvador da pátria, que honrou os tamancos do pai transformando Portugal numa enorme horta regida com mãos calejadas pela enxada e pela pena.
(*) O Prof. J. Oliveira chamou-me a atenção para a forma magérrimo como forma desconhecida ou incorrecta do superlativo sintético de magro, sugerindo, em alternativa, macérrimo ou magríssimo. Contudo, como refere o site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, «o "Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, Michaelis" regista magérrimo como superlativo absoluto sintético de magro, embora considere este termo uma forma anormal, sendo a correcta macérrimo. Ainda regista magríssimo. A "Nova Gramática do Português Contemporâneo" de Celso Cunha e Lindley Cintra só refere macérrimo e magríssimo. O "Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa" de D. P. Cegalla diz, na entrada macérrimo, o seguinte: "(...) A forma magérrimo é anormal. Prefira-se macérrimo (forma erudita) ou magríssimo (forma vulgar)."Contudo, já o conceituado "Dicionário de Questões Vernáculas" de Napoleão Mendes de Almeida só refere, para superlativo sintético de magro, as formas magérrimo e magríssimo». Conferir aqui. Assim, considerando certa as formas apontadas pelo caro amigo, e embora magérrimo não seja comum, não se considera incorrecto utilizá-la.