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13 de janeiro de 2011

Viva a república, abaixo a república!

Nunca, em Portugal, se falou tanto em república. Pelo menos desde Outubro de 1910. Fala-se no regime, porque o regime paga. É justo. A propaganda ideológica refinou-se ao longo do século XIX, definiu a ascensão dos grandes e mortíferos regimes do século XX e é usada no século XXI para distrair dos problemas económicos e sociais. Enquanto se alimenta o mito do regime igualitário e fraterno, mina-se a liberdade amordaçada entre acrisia e conformismo. Salazar e António Ferro sabiam-no bem e, nesse aspecto, as comemorações do Centenário da República são herdeiras directas dos grandes festejos de 1940 sobre a Nação e o novo regime.

Muito antes de Cromwell e da Revolução Francesa, muito antes do marxismo modelar a ideia de república como o melhor de todos os regimes, já república constituía a designação para a coisa pública. Não a coisa do povo, - essa entidade abstracta onde todos se incluem e onde ninguém deseja incluir-se-, mas a gestão do lugar público. Nas praças e nos caminhos, onde sempre se decidiram os desígnios comunais, fazia-se um tipo de política. Com a Revolução e o Liberalismo a política passou a fazer-se em casas parlamentares e as eleições que dantes se realizavam inter pares, hoje fazem-se intra grupos. A política deixou de ser para todos. Estava porém aberto o caminho para que a ideia de república se transformasse no ideal que é hoje: o de um suposto absoluto nivelamento e igualdade entre cidadãos (mas apenas entre os que fazem política).

O republicanismo português, que se aproveitou da ignorância e do analfabetismo grassante em 1910, construiu-se sobre a noção de que qualquer pessoa podia tornar-se chefe de estado, contrariando a ideia de que aquele lugar pertencia a uma família de privilegiados. Nunca conseguiu explicar, contudo, que  mudavam os privilegiados e não os privilégios.

30 de janeiro de 2010

Notícias da Mui nobre e sempre leal


Palácio do Conde de Vizela

O que Serralves tem a ver com o 31 de Janeiro?
Nada. Ligada à figura de dois aristocratas - Carlos Alberto Cabral e Delfim Ferreira, respectivamente Conde de Vizela e Conde de Riba d'Ave - o espaço de Serralves associa-se ex nihilo às Comemorações do Centenário da República. Lucra com isso, é óbvio e já percebemos que em Serralves o que interessa é fazer dinheiro, a qualquer custo.
Entretanto, 4 artistas querem comer da mesma malga: Rui Veloso, Pedro Abrunhosa, Rui Reininho e Sérgio Godinho. Vão cantar os gloriosos feitos republicanos. O primeiro vem dizer que «É o povo quem exerce a soberania». Se assim fosse não era o Rui a ser contratado, mas o Quim Barreiros.


O banqueiro portuense Artur Santos Silva é mais monárquico do que pensávamos, afinal. Filho e netos de republicanos, tem orgulho nas suas raízes burguesas e revolucionárias. Do avô chapeleiro, ao pai político até à banca de A. Santos Silva, vemos como a hereditariedade conta. Mas isso já o sabíamos por Mário Soares a quem sucederá no reino de influências e prestígio o filho João Soares, ou no casos das filha quer de Almeida Santos, quer do do acérrimo do historiador republicano Carvalho Homem, etc etc. Quem sai aos seus não degenera, e é verdade. Esta é a nossa república de pais e filhos, de pequenos reinos de influência e poder. Hoje, em vez de uma família para sustentarmos, temos muitas. E são bocas que se alimentam bem.


E os Tripeiros o que terão a dizer acerca disto?
Provavelmente nada. Não é com festejos e recriações históricas que esta república doutrinará. Na segunda-feira, ninguém se lembra do 31 de Janeiro de 1891, porque para quem tem que se levantar ás 6hs da manhã, e tem prestações para pagar ao fim do mês, o relambório propagandista, mesmo à custa de 10 milhões de euros, não conta para nada. Vão ser necessário muitos anos de celebrações, de lavagem cerebral dos nosso alunos para criar republicanos em Portugal.

17 de janeiro de 2010

O valor do sangue republicano.

«A República é a concretização política da cidadania plena.»

«Mesmo com a perda de conteúdo democrático da ditadura de Salazar não houve o atrevimento de eliminar essa quase que só aparência republicana (Presidente, bandeira, hino e papel timbrado)».
«Há quem tenha naturalmente boas razões para isso, quem prefira ser súbdito a ser cidadão, quem entenda que se deve preferir a desigualdade à igualdade. [...] Há quem goste disso: quer os que são vistos, quer os que vêem. Uma sociedade tem que englobar tudo: para que haja exibicionistas tem que haver quem goste de assistir a exibições. O importante é que em Portugal não haja uma questão de regime e que a República satisfaça plenamente a realização dos direitos do homem e do cidadão.


O Prof. Romero Magalhães que, pelo menos não comete o erro de dizer que o Estado Novo suspendeu a República, vive num pequeno mundo de faz-de-conta, onde que a democracia se pauta por uma aparência: a da igualdade. Para o historiador coimbrão, a cidadania cumpre-se no republicanismo, tentando, com justificações de ocasionais reinados meritórios, reduzir a monarquia a adereço folclórico. Irrita-se com o entrevistador, quando ele ousa apresentar uma europa monárquica. Apressa-se a qualificar os pretendentes portugueses a odiosos reaccionários, esquecendo que foi um rei - D. Pedro IV - a introduzir. a democracia em Portugal Obviamente, segundo ele, falta fazer a justiça à I República, com o que concordamos. Esse período que que o Prof. Romero se orgulha, o mesmo que preparou a chegada de uma confortável e longa ditadura (para a qual contribuíram os republicanos, pois se afinal monárquicos os não havia) ainda deve muitas explicações à História.
O medo do exercício da contra-factualidade é também revelador: o regícidio foi um mal necessário e nada mais há a acrescentar. Afinal de contas, a igualdade deve vergar-nos todos ao mesmo nível, nem que para isso partamos as pernas aos súbditos, ou seja, obriguemo-los a tornarem-se cidadãos.
O que me espanta é que dentro deste ódio à monarquia e desta obediência maçónica o Prof. Romero aceite esta república de clientelismos, em que a cidadania é título meramente hipotético. Entre doutores, comendas e ordens, continuamos a premiar a mediocridade, não a igualdade. E os filhos continuam a suceder aos pais, em cargos e honrarias, mesmo que aqueles os não mereçam. O Prof. Romero sabe-o melhor do que ninguém. É uma hipocrisia.
A mim, esta República não me satisfaz.

9 de maio de 2009

Viva a República Portuguesa! ...- Viva o quê?

Nesta imagem, a República, já maternal e composta, pede por um Estado Forte.


A Comissão para as Comemorações para o Centenário da República Portuguesa vai gastar milhões de euros (leram bem, milhões) para levar a cabo um programa de relançamento da imagem do regime. O mesmo é dizer, vai branquear a História. Soube agora, pelo Estado Sentido, que o Terreiro do Paço onde D. Carlos e o Princípe D. Luís Filipe foram assassinados por dois fervorosos republicanos será o epítome deste maravilhoso mundo novo que eclodirá do 5 de Outubro de 2010. Embora considere as comemorações, acima de tudo um roubo (mais um a que nos habitou o regime e os seus governos), não me deixam particularmente aborrecido. Porquê? Simplesmente porque tudo ficará na mesma. Ou talvez não e sirva mais ao movimento monárquico esta onda de súbito republicanismo patriótico pois afinal de contas o momento não é o melhor para comemorar o que quer que seja. Entre despedimentos, a recessão e todo o aparato económico tecido à sua volta quem é que vai querer saber da República? De mais a mais já ninguém comemora o 5 de Outubro - é só sair à rua nesse dia e ver quem é que anda com bandeiras na mão, a celebrar o heróico feito de meia dúzia de oportunistas. A D. Maria que mora num apartamento nos subúrbios de Lisboa com 4 filhos para criar e com um marido doente, que sai de casa todos os dias às seis horas da manhã para apanhar 3 autocarros e o metro - isto tudo para ganhar menos de 500 euros - quer lá saber do centenário da República. Neste país sem rei nem roque aquela senhora meia despida há quase cem anos depois está quase pútrida e não vale um tusto furado. É preciso cobri-la de ouro - ouro que os seus contribuintes e cidadãos nem podem pagar - para exibi-la ante uma plateia de desinteressados.

29 de março de 2009

D. Luís Filipe (1887-1908)

Um excelente vídeo a que já nos habituou o amigo Zé (Blog de leste) sobre o Príncipe Real D. Luís Filipe que, com apenas 21 anos, foi abatido a tiro, como um animal, no terreiro do Paço. Não gosto de fazer história contrafactual, mas não posso de deixar de conjecturar como teria sido se D. Carlos e D. Luís Filipe não fossem assassinados em nome da República que agora se comemora. Luís Filipe de Orleães e Bragança tinha sido criado para reinar. Fora educado pelos melhores, viajara, instruíra-se politicamente e era já um garboso chefe de estado (assumira já a regência na ausência do pai) de quem se esperava o melhor. De facto, ele era a sublimação da monarquia constiticional representativa, de um país que caminhava a passos largos para um notável crescimento em termos económicos, sociais e culturais. Como refere Rui Ramos, após a morte natural de D. Carlos (diabético em grau avançado) a subida ao trono de D. Luís Filipe teria significado uma acalmação natural, talvez até um entendimento com os republicanos - o que poderia ter evitado a ruinosa 1.ª república e a longa ditadura salazarista. Podia o príncipe ter-se deixado seduzir pelo clima autocrático? É possível. Mas enquanto que entre 1910 e 1926 (apenas 16 anos) sucederam, numa autêntica bandalheira, 11 presidentes, com a sua presença à frente do reino de Portugal teríamos usufruído da vantagem de uma estabilidade governativa e talvez a anulação de uma ditadura pessoal como a de Salazar, debaixo de uma figura coroada - que sempre obscura, como sabemos pela experiência franquista, a imagem de regimes constituídos sobre um a propaganda a um homem só. D. Luís Filipe podia até ter sido arrastado pela onda de ódio que varreu a Europa entre 1914 e 1945, mas não podemos deixar de conjecturar que pudesse ter sido um opositor a ela, sendo ele filho e descendente de democratas (não esqueçamos que foi o seu trisavô D. Pedro IV quem abriu o país à liberdade). Por isso, não só lamento a morte de D. Carlos, que foi um bom homem e um excelente chefe de estado, ao contrário do que propaganda republicana sempre nos fez crer sobre ele, mas mais ainda de um jovem esperançoso - num país que nunca acreditou nos seus jovens e sempre se entregou nas mãos de velhos medíocres, bur(r)cratas e pretensamente sábios, como esse grande português chamado António de Oliveira Salazar, que soube honrar a república portuguesa e o seu país, durante uma chefatura de meio século.

23 de março de 2009

Da devassidão dos tronos e da moralidade republicana.

(Centenário da República)

Um dos argumentos de muitos republicanos que conheço é o de que as monarquias foram, ou são, antros de devassidão. Não usam esta expressão mas a ideia soa ao mesmo, ou seja, pela sua ordem de ideias, a uma devassidão monárquica equivale a uma certa "moralidade republicana", uma espécie de heterossexualidade monogâmica. Logo aqui há uma incongruência, pois é à monarquia que se reputam valores tradicionalistas de família e não à república que tanto pode ser entregue nas mãos de um solteiro ou de um casado. E a devassidão, como nós sabemos, não é apanágio da realeza, se não dos homens e das mulheres, comuns mortais. Depois, vem a questão da representatividade. Segundo os republicanos (ou não-monárquicos) um rei não representa o conjunto total dos cidadãos. É verdade. Haverá sempre uma franja de insatisfeitos. Num estado presidencialista a coisa piora. Além dos sempre insatisfeitos, há os não votantes e os que não votaram num dos candidatos propostos, cada um deles representando ou um partido político, ou uma facção ideológica ou um grupo económico. Cinco ou seis candidatos servem os interesses da maioria de uma nação? É óbvio que não. O ideal seria que um comum cidadão pudesse ser eleito apenas pelas suas ideias e não pelos lobbies ou por fundos monetários conseguidos de forma pouco clara. Depois segue-se a questão histórica. A História, segundo os republicanos, é uma sucessão de erros monárquicos: batalhas, amantes, guerras fraticidas. Só em Portugal, dizem, tivemos um rei que bateu na mãe, um que levou o país à ruína e à perda da independência e outros dois que puseram os seus súbditos uns contra os outros. Os mitos são perigosos, sobretudo quando usados por ideologias e políticas. Embora não goste de julgar a História, é verdade que, em todos os tempos, em todos os regimes e estados houve necessidade para tomar o poder - e só ao poder se deve apontar a causa de todos os males dos bons e maus governos, dos bons e maus governantes. As estratégias são comuns a monarquias e repúblicas. Devo lembrar, aliás, que o período republicano de Roma, em que se lançavam as bases para os regimes presidencialistas actuais os golpes sucediam-se vertiginosamente. Portugal do século XX é a prova de que uma república não foi, de modo algum, a solução para o país. A instabilidade que se conhece entre 1910-1926 deu origem à mais longa ditadura de todos os tempos: quarenta e oito anos de uma odiosa e perniciosa noite de governação que teve à frente dois homens: um "moralmente devasso", beato e atávico que incutiu na já melancólica personalidade dos portugueses, a máxima do pobre e alegre, do incapaz mas honesto, do frugal e atreito às coisas simples; e outro, mais culto e aberto, mas nem por isso capaz de democracia. É possível comemorar uma república de 100 anos, em 2010, quando metade deles foram debaixo de uma ditadura? Tenho a certeza que não. Há efemérides que não se devem comemorar. A república portuguesa que continue, discretamente o seu papel para o qual se talhou, e não faça grandes ondas - que a vergonha e o saber reconhecer os erros são apanágio dos sábios, não dos tolos. E não devemos continuar a julgar a História. Devemos pesar na balança da contemporaneidade as vantagens entre monarquia e república. E para isso basta olhar à nossa volta. Afinal que desvantagens encontram os outros nas suas monarquias? Não me parece que a Espanha, a Noruega, a Suécia, a Dinamarca, e mesmo o Reino Unido (Canadá e Austrália incluídos) estejam insatisfeitos com o regime que têm. Mil vezes uma monarquia excessiva como a Inglesa, a uma república de paz podre como a portuguesa.

30 de janeiro de 2009

Sim, senhor presidente do conselho.


A sic prepara-se para colocar num ar um daqueles tele-fast-food-filmes a que já nos habituou, desta feita sobre a vida amorosa de Salazar. Bem sei que há, neste país, uma atracção mórbida sobre o senhor presidente do conselho que governou a 2ª república com mão férrea, amado por uns odiado por outros. Os documentários têm sucedido em catadupa, numa correlação directa entre poder e fascínio - ou seja, quão maior é perversidade do político, ditador ou monarca, maior é o desejo da populaça em escalpelizar cada retalho sórdido da sua vida. O que não lembra ao diabo é por Salazar a correr atrás de moças roliças ou a beberricar beijos (só a ideia enoja) da boca de jornalistas francesas em enlevos e requebros que fariam adormecer as mais afoitas leitoras da Sabrina. § De todos os ditadores que eclodiram na Europa da primeira metade do século XX, Salazar, nascido num modesta casinhota da beira, é provavelmente o mais chato, o mais incrivelmente enfadonho e o mais provinciano de todos. Por isso, e ao contrário do que o amigo Viajante diz, - que «este país é a choldra que é muito se deve à hipocrisia, ao beatismo e ao falso moralismo desse velho despota e mal resolvido», - eu não acho que se lhe deva imputar tão hercúlea tarefa. Ele é um dos nossos. Nasceu e foi amado como salvador da pátria por muitos (até por Humberto Delgado, antes da roda da fortuna mudar). Se ele fosse a causa da nossa hipocrisia, hoje, 30 anos após o 25 de Abril, já não se toleraria a "cunha" e as delações anónimas, a inveja no seu grau maior, o clientelismo e a incapacidade para assinarmos com o nosso nome em todos os nossos actos. Se se pode impor algum feito a Salazar foi de ter sabido tirar do povo que governou e tão bem o aceitou, os instrumentos e os métodos para o manter amorfo, pobrete e alegrete.
P.S. Façam o favor de me não considerar fascista. Já me basta o estigma por ser monárquico que tantos dissabores me traz. Não tenho simpatia nenhuma pelo senhor António. Felizmente nascemos em pontos opostos do distrito de Viseu - distrito e cidade que, infelizmente têm trazido a este pais maus exemplos de ausência de liberdade e de pouco humanismo.

27 de novembro de 2008

Nos tempos que correm...

"O Rei surge como a única força que no País ainda vive e opera."
Eça de Queirós, referindo-se a Dom Carlos I, um vencido da vida. Quem vive e opera, hoje?



...sabe bem recolhermo-nos na leitura dos pensamentos dos Vencidos da Vida. A razão estava e está do lado deles.


Combater apenas o analfabetismo do povo por meio de escolas primárias e de escolas infantis sem religião e sem Deus, não é salvar uma civilização, é derruí-la pela base por meio do pedantismo da incompetência, da materialização dos sentimentos e do envenenamento das ideias. Quem ignora hoje que foi a perseguição religiosa e o domínio mental da escola laica o que retalhou e fraccionou em França a alma da nação? Quem é que nesse tão amado, tão generoso e tão atribulado país não está vendo hoje objectivar-se praticamente o profético aforismo de Le Bon: «É sobretudo depois de destruídos os deuses que se reconhece a utilidade deles»!

25 de novembro de 2008

Quem ler até acredita que é verdade.

Ver em APH.


No site da Associação de Professores de História há um link que nos remete para um sumário da História de Portugal, em inglês. A ideia, tanto quanto percebo, é permitir a um estrangeiro que visite o espaço da APH conhecer a História do nosso país em 10 minutos. Uma espécie de tudo-o-que-você-quis-saber-sobre-Portugal ou Portugal-for-dummies. Interessante é quando chegamos à parte em que cabe explicar o significado das lindas cores da bandeira republicana.


The green is the colour for hope in the future.

The red is the symbol of the courage and blood spilled by Portuguese soldiers on the battle field.

(O verde é cor da esperança no futuro. O vermelho o símbolo da coragem e do sangue derramado pelos portugueses no campo de batalha).


Eu já não acredito neste relambório Estado novista desde os bancos da primária. E pergunto: é isto que a maioria dos professores de História ensina aos seus alunos? Se é, não há dúvida que as comemoração do centenário da república levam já um grande avanço. É que as cores absolutamente díspares e aberrantes que constituem a bandeira pós-1910 têm a sua origem nas correntes socialista (vermelho) e positivista (verde) que maravilhavam a trupe republicana implicada no golpe de estado de 5 de Outubro. Não há cá esperança alguma, nem sangue dos heróis portugueses. Ou melhor, talvez o vermelho da bandeira seja a parcela branca da bandeira nacional tingida de rubro com o sangue derramado pelo D. Carlos e pelo Princípe D. Luís Filipe, quando estes foram assassinados à queima-roupa, pelas costas por dois carbonários republicanos. Nesse caso sim, poderíamos dizer que a bandeira vermelha e verde tem alguma nobreza na sua existência.

15 de novembro de 2008

O declínio de Portugal

(para ler clique sobre a imagem)

The decline of Portugal: a retrospective é o título de uma reportagem feita por um correspondente do Jornal The Times, sobre a mudança de regime. O artigo, datado do dia 6 de Outubro de 1910, faz uma análise breve do período entre a Restauração e a queda da Monarquia. Embora o autor olhe de forma paternalista a sociedade e como esta foi gerida ao longo de pouco menos de 4 séculos (por governos instáveis), o certo é que a leitura do artigo nos deixa impressa a imagem de um país corrupto e de oportunistas. Como o próprio título indica a voragem do declínio só podia resultar no aproveitamento da corrupção (rotativismo e as suas consequências) pelos oportunistas (partido republicano). O final do artigo é, aliás, bem expressivo do estado a que o país chegara em 1910: Qual seja o futuro, tanto para a Casa de Bragança como para Portugal, é impossível de adivinhar dada o momento crítico. Ele pode ser de esperança - esperamos, no entanto que qualquer que seja a última forma de governo, o povo em geral tenha aprendido a lição: que nenhum sistema de governo pode escapar ao desastre quando os instrumentos através dos quais ele funciona estão podres com a corrupção *. Bom, o regime mudou e, em quase 100 anos o povo nada aprendeu.
*What the future may hold in store, alike for the House of Braganza and Por Portugal, it is impossible even to guess at such a juncture. It may at least be hope that, however the ultimate form of government, the nation at large wil have learned its lesson - that no system of government can escape disaster when the instruments through which it works are rotten with corruption.

5 de novembro de 2008

We can be heroes, just for one day (um post sobre as eleições americanas)





David Bowie, Heroes, 1977

Não sou dado a manifestações esquizofrénicas de teor eleitoralista, muito menos as de carácter institucionalmente republicano. As eleições nos E.U.A. são deles, não são nossas, por muito que a eleição do presidente norte-americano influa nos gráficos bolsistas do resto do universo. Contudo, assim que liguei a t.v., ainda há pouco, fui bombardeado com festejos efusivos de vitória, como se hoje tivesse nascido um mundo novo. A única grande e verdadeira conclusão que se podia tirar dos tais festejos televisivos era a de que, pelo facto de ter sido eleito um presidente de cor, tudo ia mudar,  inclusivé o próprio sentido de liberdade. Acredito que, para a América seja um grande passo, dada a sua História conturbada, mas chega a ser de uma inocência tola pensar que podemos antecipar os actos ou julgar as pessoas pela cor da pele (não é o que as campanhas anti-racistas nos dizem?). Eu, quando muito posso dividir o mundo segundo o carácter das pessoas. A cor da pele, dos olhos, as diferenças físicas, a orientação sexual, política, ideológica, a religião nada disso me interessa. Se não houver humanidade, no sentido de sermos capaz de amar o seu semelhante, qualquer Homem é potencialmente mau - e eu acredito, cada vez mais, que o Homem é biológica e culturalmente mau, infelizmente. Por isso, apenas posso esperar que o sr. Obama, independentemente de ser o primeiro presidente negro da História americana seja mais um pai, do que um estratega. É de um pai que as nações precisam. E é por isso que eu sou monárquico.

9 de setembro de 2008

O serviço público de um Historiador. Relembrar quem nos enfiou o "barrete"

Via Historiadores republicanos


"... não creio que valha a pena preparar, oficialmente, ou mesmo em meios académicos, a celebração dum mau defunto que foi esse regime de década e meia de vigência atarantada, e que, bem feitas as contas, teve nada menos do que 47 governos que a desgovernaram por trancos e barrancos (...) de atribuladíssima e caótica duração, com muitas bernardas castrenses de permeio, sedições várias, tumultos constantes e quase sempre mais ou menos sangrentos, de atropelos à legalidade e ditaduras disfarçadas ou às escancaras, sem falar da Ditadura das Urnas, com o 'partido democrático' do dr. Afonso Costa (aquele homem de Direito que foi uma vez ao Porto, em 1902, com uma soqueira, para agredir à traição o Sampaio Bruno), mais uma participação em tudo funesta e catastrófica nos conflitos europeu e africano, e, por fim, uma degola que nos privou da Liberdade, com certa lógica fatal depois de tanta bagunça, desassossego, insensatez política e falta de implementação mínima dum regime sério de Cidadania, Educação generalizada ou Progresso material, porquanto nem se educou o povo, nem se fez de cada português um cidadão livre, nem se melhorou a vida dos portugueses"


João Medina, 2006, via "Centenário da República"



Porque a um historiador não cabe o exclusivo papel de arrumar o Passado, os Homens e as suas relações em gavetas que nunca se abrirão, se não para deleite de intelectuais. E o comum dos mortais? E a educação? E a intervenção cívica e política? Ao Historiador cabe preparar as fundações para um futuro mais culto, mais tolerante, mais justo e mais íntegro. N.R.

12 de junho de 2008

Raça & república ou de como Pascoaes seria apedrejado.

«Neste momento genesíaco e caótico da nossa Pátria, é necessário que todas as forças reconstrutivas se organizem e trabalhem, para que ela atinja rapidamente a sonhada e desejada harmonia.
«O fim desta Revista [Águia], como orgão da "Renascença Portuguesa", será portanto, dar um sentido às energias intelectuais que a nossa Raça possui; isto é, colocá-las em condições de se tornarem fecundas, de poderem realizar o ideal que, neste momento histórico, abrasa todas as almas sinceramente portuguesas: - Criar um novo Portugal, ou melhor ressuscitar a Pátria Portuguesa, arrancá-la do túmulo onde a sepultaram alguns séculos de escuridade física e moral, em que os corpos definharam e as almas amorteceram. (...)
«É preciso, portanto, chamar a nossa Raça desperta à sua própria realidade essencial, ao sentido da sua própria vida, para que ela saiba quem é e o que deseja. (...)
«Ora, esta obra sagrada compete ao espírito português, a todos os portugueses que encerrem no seu ser uma parcela viva da alma da nossa Pátria. (...)
«Se não existisse uma alma portuguesa, teríamos de evolucionar conforme as almas estranhas, teríamos que nos fundir nessa massa amorfa da Europa; mas a alma portuguesa existe, vem desde a origem da Nacionalidade: de mais longe, da confusão de povos heterógeneos que, em tempos remotos, disputaram a posse da Ibéria. Houve um momento em que, no meio dessa confusão rumurosa e guerreira, se destacou uma voz proclamando um Povo, gritando a Alma de uma Raça: foi a Voz de Viriato; foi o verbo criador que encarnou em Afonso Henriques e se tornou acção e vitória.

Teixeira de Pascoaes, Revista A Águia, n.º 1, 1912.

15 de maio de 2008

Da monarquia, da esquerda, da direita & da ganza.


Poderá haver quem não saiba que o México já teve um imperador europeu ou que os Estados Unidos tenham uma das maiores associações pró-monárquicas do Mundo. Poderá haver quem não queira saber que 12 dos 20 primeiros países com o mais elevado Índice de Desenvolvimento Humano são monarquias (depois de verem a lista e dizerem que não podemos incluir a Austrália e o Canáda, gostaria de frisar que a chefe de Estado de ambos é a rainha de Inglaterra), e que os Países Baixos (incluídos na lista) têm a sociedade mais liberal, vanguardista e mais socialmente à esquerda que se conhece para um país democrático. Pode haver quem não recorde, sequer, de Hailé Salassié (1892-1975), último imperador da Etiópia. Mas o que talvez não saibam é que foi este senhor e a sua casa imperial, herdeiros do cristianismo copta em África, que deram origem ao movimento rastafari e que ajudaram à promoção do movimento reggae e rasta que teve em Bob Marley o seu maior profeta. Ao que parece, «o movimento surgiu na Jamaica entre a classe trabalhadora e camponeses negros em meados dos anos 30, iniciado por uma interpretação da profecia bíblica em parte baseada pelo status de Selassiê como o único monarca africano de um país totalmente independente e seus títulos de Rei dos Reis, Senhor dos Senhores e Conquistador do Leão de Judá, que foram dados pela Igreja Ortodoxa Etíope» (extraído da wikipédia, logo, fonte não segura). De facto o imperador apresentava-se como Ras Tafari Makonnen (sendo Ras o equivalente ao título de «príncípe»). E a bandeira imperial que aqui damos à estampa, tem as cores bem conhecidas do movimento reggae: o verde, o amarelo e o vermelho. Como saberão, os apoiantes do movimento rastafari usam a erva como elemento de um ritual; seguem um estilo de vida muito naturalista e vêm de vários quadrantes ideológicos, acreditando que Hailé Selassié foi o messias descendente de Cristo que vinha libertar os povos africanos. § Portanto, da próxima vez que associarem Monarquia com valores ou concepções de Direita pensem bem. Não vá ter sido um rei ou uma rainha que tenha abolido a escravatura, ou seja a favor das uniões homossexuais, ou fume uns charritos de vez em quando! Se o presidente Lula da Silva é alcoólico, se o Miterrand tinha amantes ou se o nosso presidente Manuel Teixeira Gomes gostava dos rapazitos do norte de África, porque é que os monarcas e príncipes não podem ser party people?

9 de fevereiro de 2008

Recordemos.

«Nesse final de século [XIX] a própria ideologia republicana se alimentou do ultranacionalismo da impotência gerada pelo Ultimatum. A república, conjunto de proposições políticas de subersivo teor ideológico mas de reduzidíssimo âmbito social, aparece então como a forma de apropriação de um destino colectivo confiscado, como então se escrevia, pela casa de Bragança, a monarquia liberal onde se enxertara bem a pouco burguesia nacional (e internacional). Poucos períodos da nossa História foram tão "patrióticos" como aquele que a República Portuguesa inagurou (...) Escusado será dizer que uma vez mais este patriotismo mascarava, com muita intensidade, a consciência sempre viva de uma "desvalia" nacional que o espectáculo político do parlamentarismo demagógico só podia confirmar».

Eduardo Lourenço
- O labirinto da saudade. Lisboa: D. Quixote, 1992, p. 25.