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3 de setembro de 2009

Carta aberta a um amigo leitor.

«A verdade é que já foram mais os que creram e muitos mais os que cumprindo mandamentos e doutrinas não ousavam pôr em causa uma ordem estabelecida pelas Instituições, que servindo-se de um deus qualquer amordaçava as consciências, tornando-as deprimidas, confusas e submissas».
«Tendais como muitas outras localidades plácidas de brandos costumes, embora de forma mais lenta, todas elas sofrerão as marcas de uma evolução que tem como epicentro a "Teoria do Conhecimento"».

Meu caro amigo prof. José Oliveira, muito obrigado pelas palavras que dirigiu ao post "apontamentos sobre uma aldeia da serra". Comecemos pelo princípio, passe a redundância.§ As doutrinas que não ousavam pôr em causa uma ordem estabelecida não morreram, estão aí, com ou sem Igreja Católica. Têm vários nomes: dinheiro, corruptibilidade, ausência de valores, em suma, a biologia humana. Ainda agora mesmo uma televisão nacional sofreu o embate da livre expressão com os ditames de um regime habituado a estratégias censórias. Sem que o Papa ou qualquer padre atirasse com indulgências ou a ameaça de anátemas. Anátema maior, nos dias de hoje, é a ignorância pois através dela se guia o Homem como marioneta presa pelos fios do medo. O caro amigo olhe à sua volta, acha que não há deprimidos, confusos e submissos, não obstante a evidente secularização dos Homens? De quem é a culpa? Da Religião que resta? Não há ateus submissos? Agnósticos deprimidos? A falta de um caminho de transcendência, de espiritualidade tem levado, pelo tal «percurso pesado, incompreendido, inquietante, mas também desafiador», à morte precoce. Lembro Antero de Quental. § Vou-lhe citar Chesterton, que leio presentemente, e cuja obra recomendo (em especial a «Ortodoxia», de onde vou transcrevendo os excertos): «O cristão admite que o universo é variado, admite mesmo que é uma miscelânea; e qualquer homem são sabe que ele próprio é um ser complexo. Eu diria mesmo que um qualquer homem sabe que tem uma parte de animal, uma parte de demónio, uma parte de santo, uma parte de cidadão; mais ainda, um homem que seja de facto são sabe que também tem uma parte de louco. Já o mundo do materialista é totalmente simples e sólido, tal como o louco tem a certeza absoluta de que está são. O materialista tem a certeza de que a história foi, pura e simplesmente, uma cadeia de causas e efeitos (...)». Ora eu nem iria tão longe. Para mim o tal determinismo de que me fala não é discutível, porque é absurdo. Se me disser que a ideia de um Deus é absurda, eu digo-lhe que a ideia de um Determinismo factual é absurda. Mas desejo-me na companhia do deus absurdo. Entre um mundo asséptico, racional - esquizofrénico - modelar, sem riscos nem dimensões ulteriores, quero-me cego e confuso pela imaginação divina. Ao menos morrerei com esperança. «Os materialistas e os loucos nunca têm dúvidas», diz Chesterton e com razão. Mas a pequena história que narrei sobre uma aldeia de Tendais, nada tem a ver com o Determinismo. Os indivíduos que rodopiaram aqui durante três dias seguidos, ouvindo e olhando embasbacados o estouro e o estrajelar do foguetório, têm tanto respeito, conhecimento ou entendimento sobre um Deus (seja ele bom ou autoritário), como sobre ou um certo Determinismo teórico. A sua teoria é a do vinho e da carne enquanto estimulantes físicos dos sentidos apurados pela música retumbante, repetitiva e lúbrica. Mais nada. E nem é esta ausência de cultura, evangelização ou conhecimento que é desoladora. O quadro maior, e triste, que eu constato, é que é uma vantagem, uma honra do hoje, o querer ser ignorante, estímulo dos novos pedagogos, frente a um quadro desvalorativo do empenho, do sacrifício e da recompensa - tudo coisas que o Determinismo dispensa pois está de mãos e pés atados pela corrente do Facto, que tudo inunda, não deixando espaço para a bóia salvífica. Antes existisse nesta aldeia uma seita de deterministas! Seria mais interessante debater com eles a ausência do divino, do que ser obrigado a fugir das suas sonoras teorias báquicas que se bebem aqui a sôfregos goles. § Sem querer cansar, vou terminar citando novamente G. Chesterton: «Ora, a acusação que fazemos contra as principais deduções do materialista - [e ao "nós", junto a minha convicção] - é a de que, bem ou mal, elas lhe destroem gradualmente a humanidade; não me refiro apenas à simpatia, refiro-me à esperança, à coragem, à poesia, ao espírito de iniciativa, a tudo aquilo que é humano. Por exemplo, se pensarmos que o materialismo arrasta os homens para um fatalismo absoluto (como geralmente acontece), é perfeitamente ocioso fingirmos que esta doutrina é, seja em que sentido for, uma força libertadora. É absurdo afirmar que se está a promover imensamente a liberdade, quando a liberdade de pensamento apenas serve para destruir a liberdade de acção (...) Assim, pois, considerado como personagem, o materialista tem os fantásticos contornos da figura do louco. Ambos assumem uma posição que é, simultaneamente, irresponsável e intolerável.»
P.S. A referência ao Prof. José Hermano Saraiva é, creio, uma jovial brincadeira do meu caro amigo, que me fez sorrir. Apesar de reconhecer que o gosto "popular" pelo "antigo" tenha sido espicaçado pelas referências, às vezes ingénuas mas na maioria tolas, daquele senhor Prof., nem a pouca simpatia que nutro pelo senhor (e toda a aura de "determinismo" que dele emana), nem a pouca qualidade científica do seu discurso me levariam a querer tentar um modelo semelhante ao que conduz na televisão. Os meus fracos dotes de oratória matariam de enfado qualquer pobre espectador. E a minúcia que uso como lema conduziria o programa ao fracasso. O dito "provincianismo do interior" só em existe em situações como a que narrei no post anterior. De resto - e tenho podido constatá-lo nas minhas recentes deambulações pela serra de Montemuro - não pode ser qualificado em relação a um cosmopolitismo (que nem sequer existe em Portugal), nem pesado segundo cânones de desenvolvimento que ultrapassem os limites da aldeia. Cada comunidade tem o seu grau de desenvolvimento. Ele não é bom, nem é mau, não é menor, nem maior. E quanto a mim, no meu espírito anti-determinista, o pior é querer avaliar esse grau, ou formatá-lo, que é o que tem acontecido por aqui, por esta pacata e agora (felizmente) serena aldeia da serra.
Aceite os cumprimentos e os agradecimentos pela leitura (sempre atenta) destes pensamentos possíveis,

Pelo autor d'O Obliviário

P.S2: Para além da sugestão supra referida (CHESTERTON, G.K., - Ortodoxia. Aletheia Editores: [Braga], 2008), sugiro ainda a leitura da Encíclica de SS. Bento XVI, Caritas in veritate, que foi recentemente editada em português pelas edições Paulinas.

8 de abril de 2009

A díficil sustentabilidade da religião e do conhecimento.

(c) Blogillhas


"Vou mostrar-vos o meu Cristo. Não é verdade que é muito belo? Mas, claro, falta-lhe o braço direito, o esquerdo está mal seguro no ombro e a mão partida por ter sido arrancada violentamente do cravo. Também lhe falta a perna direita, cortada por meio da coxa. Conserva a esquerda, mas colada à pressa e sem cuidado. E, além do mais, está sem cara. Partiram-lha totalmente. Cristo sem rosto. Cristo anónimo. Cristo fantasma. É, porém, muito belo, não é? Ainda que muito triste. Não me restaures. Porque não queres que te restaure? Não compreendes, Senhor, que será para mim uma constante dor ver-te partido e mutilado, cada vez que te olhar? Não compreendes que sinto dó? É isso que quero: que vendo-me partido, te lembres de tantos irmãos que convivem contigo, ignorados e distantes, e que estão, como Eu, partidos, esmagados, indigentes, oprimidos, doentes, mutilados… Sem braços, porque não têm possibilidades nem meios de trabalho; sem pés, porque lhes bloquearam os caminhos e não podem dar um passo em frente na vida; sem cara, por que lhes roubaram a honra, o mérito, o prestígio. Todos os esquecem e lhes voltam as costas… Não me restaures! Talvez que, vendo-me assim, te sirva de lição para a dor dos demais (...)", extraído de "O meu Cristo Partido" de Ramón Cué.


O que sabem as crianças de hoje sobre o Natal e a Páscoa que vá além da generosidade de um velho barbudo que vive no Pólo Norte e de uma estranha raça de coelhos poedeiros? Pouco ou nada. Cada época vai perdendo o significado litúrgico e religioso. Laicização, dirão uns, efeito de uma publicidade contundente, segundo outros. Qualquer que seja a explicação nenhuma delas substitui a educação com valores éticos e morais. Entre a Boa Nova de um nascimento que augura salvação, ou um sofrimento redentor, prefere-se o consumismo, as prendas, o ócio, a fantasia etérea de cores garridas e excitantes. Em suma: à dor humana, contrapõe-se com a satisfação fácil e os bens perenes. Explicar às crianças o verdadeiro sentido do Natal, fazê-las ver, com os olhos da alma e do corpo, o significado da Quaresma não é uma conversão à força, nem sequer um abuso maior no percurso da sua descoberta individual. É cultura, é saber. Espanta-me que um jovem não saiba reconhecer no património que está próximo de si (uma igreja, por exemplo), uma importância superior ou leia, na polissemia da diversidade histórica, algo com que possa honrar a sua geração e a das gerações futuras. Por isso me espanta que a Associação Ateísta Portuguesa se preocupe tanto com a participação de membros do Estado Português na canonização do Beato Nuno Álvares Pereira, mas ignore por completo a importância dos panoramas cultural e social decorrentes do património religioso, qualquer que ele seja, de que religião ou credo emane. São as diferenças que nos unem, não a necessidade de encontrar semelhanças, ou forçar a sua existência. Os ateus, enquanto corpo institucional, devem criar para provar a sua grandeza, não exigir, como infelizmente exigem, a destruição dos outros, os não-ateus. O atavismo é tal que um dia chegaremos ao ponto de varrer da face da terra com todos os símbolos religiosos. As novas gerações já quase os desconhecem - substituíram-nos pelos novos símbolos e novos ídolos do mediatismo e da internet. Quando compreendermos que o ser humano tem necessidade de refugiar-se no desconhecido, no mistério que hoje saceia através de teclas e de ecrãs, e que os símbolos e os deuses são imortais e apenas se transmutam - poderá não ser tarde para acalentar a ideia de sagrado e de religiosidade - mas terá com certeza passado a era das grandes criações. É que os instrumentos e os canais de hoje não estimulam a criatividade nem o pensamento. Entre um Pai Natal criado por uma marca publicitária e a história de São Nicolau de Bari, ou entre a morte e ressurreição de Cristo e as histórias fáceis de gnomos, vampiros e fadas - temas glorificados ad nauseam pela indústria cinematográfica de Hollywood, vai um abismo de conhecimento. A religião tornou-se um problema porque obriga a pensar. É demasiado complexa para as mentes light dos nossos dias. § Uma Santa Páscoa a todos e até breve.

4 de abril de 2009

Triste figura.

Não sei se por coincidência, se por provocação, um amigo enviou-me uma crónicas das que já nos habitou o senhor Miguel de Sousa Tavares. A crónica intitula-se "Tristes trópicos, triste papa" e, entre muitas coisas, diz o seguinte:
«Os Papas gostam muito de ir a África. São viagens que asseguram sempre uma grande cobertura mediática, estádios cheios de multidões com bandeirinhas que não entendem nada do que o Papa lhes vai dizer nem estão lá para isso, discursos de efeito fácil e inócuo contra a pobreza e o subdesenvolvimento que ficam sempre bem à imagem de uma Igreja preocupada com questões sociais. De caminho, os Papas não se preocupam nada ou quase nada com a caução que dão às ditaduras que visitam, à corrupção que elas praticam e à miséria que promovem.
(...)
No curto espaço de três semanas, este infausto Papa, imposto por longas manobras da cúpula 'negra' da Igreja Católica, conseguiu mostrar o pior de si mesmo. Primeiro, levantou a excomunhão contra o arcebispo nazi inglês Williamson e a sua seita anti-Vaticano II e apenas duas semanas depois de ele ter repetido que o Holocausto era uma invenção dos judeus; depois, defendeu e confirmou a excomunhão decretada pelo arcebispo de Olinda e Recife contra a mãe e os médicos que procederam ao aborto de uma menina de 9 anos (!), violada repetidamente e engravidada pelo padrasto, e que nem sequer percebeu que estava grávida e tinha deixado de estar; enfim, decretou, ao pisar África, que o preservativo não só não serve para atacar a disseminação da sida como até "a pode agravar". E isto, em nome da "vida". Que saberá o Papa da vida? Como é que algum católico, a começar por ele próprio, pode acreditar que Deus fala por ele?
(...)
Enquanto se ocupa a excomungar médicos que salvam a vida a uma criança violada pelo padrasto, Bento XVI prepara-se fatalmente para dar sequência ao que seria apenas uma anedota portuguesa, não fosse também uma vampirização da nossa História: fazer de D. Nuno Álvares Pereira santo, só porque uma senhora de Vila Franca de Xira se queimou com o óleo da cozinha, rezou ao beato e curou-se... graças aos médicos que a assistiram e às defesas do organismo. E fica em silêncio quando tantos devotos católicos e financeiros, seguidores do também beato Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei, levaram o culto de vendilhões do templo a tal extremo que conduziram o mundo a uma crise global e reduziram milhões de pessoas à moderna escravidão do desemprego e da pobreza. (...)»
Eu devo dizer que gosto tanto de Ratzinger como de Miguel de Sousa Tavares. Mas enquanto me devo preocupar mais com as acções do primeiro, pois da sua importância deriva ainda muito da ordem mundial, o segundo pouco me transmite que não a sombra de uma personalidade imbecil, medíocre e arrogante que em nada, mas nada, honra o nome genial da sua mãe e o carácter vertical do pai. Para além de uma nulidade como escritor, este senhor, com uma língua bífida e viperina, enche as paragonas de jornais com dislates e ocupa tempo televisivo a insultar metade do país sem perceber que não vale absolutamente nada. § Não sei que tipo de mensagem querem fazer passar os seguidores desta mensagem de Miguel de Sousa Tavares. Ódio à Igreja Católica? um ódio dissimulado, talvez, quando provavelmente os mesmos que odeiam são capazes de beijar a mão a bispos e padres apenas para subir no escalão hierárquico da sociedade. Sim, não vou mentir e dizer que faço um balanço positivo do pontificado de Bento XVI. Não me agrada a influência da Opus Dei e já manifestei aqui o meu descontentamento quanto à questão do preservativo e da sexualidade abordada pela IC. Não tenho que fazer de advogado do Diabo ou, neste caso, do Sumo Pontífice da Igreja Católica - mas algo me diz que um dia descobriremos como não adianta colocar as culpas nos deuses e nos seus sacerdotes, quando o mal vem de dentro de nós.

27 de novembro de 2008

Nos tempos que correm...

"O Rei surge como a única força que no País ainda vive e opera."
Eça de Queirós, referindo-se a Dom Carlos I, um vencido da vida. Quem vive e opera, hoje?



...sabe bem recolhermo-nos na leitura dos pensamentos dos Vencidos da Vida. A razão estava e está do lado deles.


Combater apenas o analfabetismo do povo por meio de escolas primárias e de escolas infantis sem religião e sem Deus, não é salvar uma civilização, é derruí-la pela base por meio do pedantismo da incompetência, da materialização dos sentimentos e do envenenamento das ideias. Quem ignora hoje que foi a perseguição religiosa e o domínio mental da escola laica o que retalhou e fraccionou em França a alma da nação? Quem é que nesse tão amado, tão generoso e tão atribulado país não está vendo hoje objectivar-se praticamente o profético aforismo de Le Bon: «É sobretudo depois de destruídos os deuses que se reconhece a utilidade deles»!

11 de junho de 2008

Mensagem de Eça a alguns clérigos incautos, devotos néscios e ateus ignorantes.

A arte é tudo porque só ela tem a duração - e tudo o resto é nada! As sociedades, os impérios são varridos da terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas: e se não passam da memória fugitiva dos homens, se ainda para eles se voltam piedosamente as curiosidades, é porque deles ficou algum vestígio de Arte, a coluna tombada dum palácio, ou quatro versos num pergaminho. As Religiões só sobrevivem pela arte, só ela torna os deuses verdadeiramente imortais - dando-lhes forma. A divindade só fica absolutamente divina - quando um cinzel de génio a fixa em mármore; inspira então o grande culto intelectual, que é o único desinteressado e o único consciente; já nada tem a sofrer do livre exame: entra na serena região dos Incontestáveis e só então deixa de ter ateus. O mais austero católico é ainda pagão, como se era em Cítera, diante da Vénus de Milo. E a Nossa Senhora do Céu só tem adorações unânimes e louvores sem contestação, quando é o pincel de Murillo que a ergue sobre o Orbe, loura e toucada de estrelas.
Eça de Queirós, em Notas contemporâneas.