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18 de abril de 2017

Gordon Parks e Portugal.

Gordon Parks

 
Gordon Parks

Falecido há 11 anos Gordon Roger Alexander Buchanan Parks, mais conhecido por Gordon Parks esteve (como muitos) em Portugal a serviço da revista LIFE e, ao contrário dos que já cá estavam, contribuiu para equilibrar a imagem de um país pictorialista e doce.
As suas fotografias são das mais cruéis captações de uma realidade escondida à vista de todos. 
Fazendo o percurso que todos faziam, por Lisboa e pelo Estoril, conseguiu através das suas fotografias captar tanto a arrogância, como a pobreza, sem menosprezar o retratado.
Com os seus planos picados e contra-picados, transforma homens e mulheres em gigantes aproximando-se das suas expressões  e dos seus sentimentos.
A mulher pedinte está, quanto a mim, ao nível da mãe migrante, da Dorothea Lange. Mas são outros tempos e...outro lugar.

Gordon Parks

31 de março de 2017

A Vida Portuguesa.

Gravura publicada em G., A. P. D. - Sketches of portuguese life, manners, costume and character. Londres: [Printed for Geo. B. Whittaker], 1826.

14 de maio de 2012

De Quibir a La Lys: na forma do costume.


Comemorou-se há dias (9 de Abril) a pesada derrota dos portugueses contra a feroz germânia, em La Lys. Faltava pouco mais de dois meses para a queda e o jovem soldado J. F. Devezas escrevia à Miquinhas a queixar-se do penoso serviço e das galochas que não continham a água. Pena não termos cartas de Alcácer Quibir. Certamente a afabilidade do discurso - que ajudava a confortar o espírito no meio do sofrimento - nos relataria as pequenas amarguras de um soldado com areias nos borzeguins. É tão bela esta nossa placidez ante o desastre. Só as elites são arrebatadas e facciosas.

7 de janeiro de 2012

Faça-se o que Eça disse.

No fim, este diletantismo é absurdo. Clamamos por ai, em botequins e livros, «que o país é uma choldra». Mas que diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas ideias?... V. Exc.ª não conhece este país, minha senhora. É admirável! É uma pouca de cera inerte de primeira qualidade. A questão toda está em quem a trabalha. Até aqui a cera tem estado em mãos brutas, banais, toscas, reles, rotineiras... É necessário pô-la em mãos de artistas, nas nossas. Vamos fazer disto um bijou!...
Eça de Queiroz, Os Maias.

9 de fevereiro de 2011

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[S.a.] - Armazens Grandela. Catálogo Geral das Novidades para Inverno. Porto: [Emprêsa Gráfica "A Universal"], [1913?]; 97 páginas, impressão tipográfica sobre papel; 25,8 x 18,5 cm. Colecção de Nuno Resende.

Como prometido, já está disponível, via flickr, o Catálogo Geral das Novidades para o Inverno dos Armazéns Grandela para o inverno de 1913-1914. Escusado será desenvolver, com pormenor, as vantagens desta fonte histórica. Para os Historiadores da Arte do século XX é um repositório fundamental de termos e imagens, fornecendo dados sobre a moda, mobiliário, fotografia, etc; outrossim, para os linguistas e escritores, a própria denominação dos objectos, a influência dos galicismos e outros estrangeirismos, etc; e para os Historiadores, um manancial de dados económicos, sociais e mentais, na véspera da Grande Guerra. De resto, folhear este catálogo é uma delícia para os olhos. Esta é uma das minhas contribuições para compreender a vivência lisboeta durante a Primeira República, longe dos discursos laudatórios sobre figuras e ideologias. Porque a História também se escreve com imagens.

Para aceder às imagens em conjunto, clique aqui.
Para ver um slideshow das imagens, clique aqui.

14 de outubro de 2010

Tráfico.




Agora que estreia o novo filme de João Botelho (Lamego, 1949), "O Filme do Desassossego", convém recordar aquele que considero ser, juntamente com "Vai e vem", a mais completa descrição cinematográfica dos costumes portugueses: Tráfico. Um Presidente que ouve  constantemente o som de balidos e a sua amante, dois padres alentejanos que vendem as imagens religiosas da igreja e partem de mochila às costas para Lisboa, um casal de um bairro social de Lisboa que encontra droga numa praia e enriquece, a high-society alimentada a sardinhas cocaínadas, a tonta mulher do general envolvido em negócios obscuros, uma vernissage no Centro Cultural de Belém com Bagão Félix, etc etc. Todo o filme é um delírio visual e os diálogos são pérolas deliciosas que se dissolvem na boca de um excelente naipe de actores, como Canto e Castro, Rosa Lobato Faria, Ria Blanco, Alexandra Lencastre, São José Lapa, etc etc.  É certo que enferma de uma arritmia de que, quase endemicamente, caracteriza a realização e a produção cinematográfica portuguesa, mas supera-o a boa fotografia, os planos e o enredo. Foi apresentado em 1998, nas vésperas do último esgar imperialista deste país, mas é hoje tão actual como o será daqui a 20 anos.

Alguns momentos inesquecíveis:


"Antigamente, quando não tinham talento para exercer uma profissão iam para artistas plásticos. Hoje vão para deputados, comentadores políticos e jornalistas; e, segundo parece, ganham bastante bem."

"Tenho a cultura média de um europeu."

"Para mim isto é obra de um desempregado."

"- Pobreza não é crime.
- É incompetência."

20 de agosto de 2010

Para quem é...

Quem me conhece sabe que amo incondicionalmente a minha terra. Que, a todo o lado que vou, encho a boca para dizer que sou natural de Cinfães. Nesse aspecto peco pelo tal bairrismo e por um regionalismo que "acuso" em outros... Outrossim quem me conhece também sabe que nunca recebi um único agradecimento dos meus conterrâneos pelo trabalho que tenho dedicado às gentes do meu concelho. E embora a mágoa de ser bem recebido em tantos lugares que não a terra que me viu nascer seja muito grande, é maior a vontade de abnegadamente dar sem receber. Faço-o com com o gosto poder honrar as minhas raízes, e louvar a terra onde estão os ossos dos meus antepassados. Cada um de nós devia empenhar-se em honrar o pai e a mãe e orgulhar-se do seu local de nascimento, esfroçar-se para contribuir para o seu engrandecimento. Num mundo tão desorientado, onde se cruzam e chocam tantas identidades, o lugar onde nascemos é a nossa âncora e, queiramos ou não, será sempre uma parte de nós... Mas, sempre que vejo algo como este vídeo, vem-me à lembrança que, às vezes, construímos na mente a ideia de uma terra excepcional, imaculada, perfeita e ímpar e, depois, lembramo-nos que os homens que nela moram não descansam que enquanto não a estragam.




Este vídeo é uma triste apologia ao vazio, aos clichés do costume: ao folclore, à comida, à pecuária. Lembram-se os "grandes" da terra: um bispo, um andebolista e um comentador desportivo abertamente ligado à extrema-direita portuguesa que há anos repudiou a sua própria terra ao ocultar publicamente de onde era natural. E, claro, Serpa Pinto, o cidadão do mundo que aqui foi baptizado e nunca mais cá voltou. A sofrível locutora lá respigou umas frases que eu escrevi no artigo da wikipédia sobre o património religioso e a padroeira Santa Cristina. Mistura Idade Média com Barroco e...o resto nem vale a pena falar referir. Aliás todo o "documentário" seria bem pior se não fosse tão mau. Mas isto não é apanágio desta pequena freguesia apelidada de "beleza natural". Repete-se às centenas pelo País. Portugal não quer ser melhor, acomodou-se à mediocridade. E basta.

27 de julho de 2010

Os galegos e Portugal: uma servil amizade.


Imagem picada daqui


Dado que o Obliviário tem sido visita amiúde dos nossos irmãos gémeos (separados à nascença), desse bonito rincão chamado Galiza/Galicia, não podia deixar de presenteá-los com uma das mais curiosas descrições da sua presença em Portugal oitocentista. Trata-se do testemunho de James Murphy, um britânico que de passagem pelo Porto em 1788 deixou o relato sobre a presença dos galegos nesta cidade. O texto é expressivo o suficiente sobre a condição social e profissional destes milhares de homens e mulheres e a sua relação com Portugal (veja-se hoje o caso de trabalhadores de leste e de África) dispensando comentários mais elaborados:

«Os trabalhadores com mais emprego são nativos da Galiza, província de Espanha; por isso são chamados Galegos. O seu número ronda os 8 milhares só na cidade do Porto, enquanto em todo o reino pensa-se existirem não menos de 50 mil galegos destes aventureiros industriosos. Se o meu cálculo está correcto (e não possuo autoridade para o afirmar veementemente) e se cada homem ganha, em média, 18 pence por semana, então o comércio mais lucrativo de Portugal é feito pelos Galegos, pois as suas poupanças, de acordo com estes cálculos, chega a 195 mil libras por ano, que eles mandam para a sua terra. Aqueles que testemunharam o seu modo de vida, admitiram que a soma é inferior ao calculado, pois os Galegos são os indivíduos mais poupados do Mundo. São alimentados gratuitamente à porta dos conventos, alojam-se nas caves de vinho, nos estábulos ou nos claustros, vestem os trapos em que habitualmente dormem. No entanto muitos deles possuem propriedades e casas na sua terra, para onde regressam, partindo pela família o seu salário suado, retirando-se finalmente com o suficiente para viverem independentes do seu trabalho e para passar o ocaso da vida aproveitando a felicidade doméstica. Para honra desta raça industriosa não devemos esquecer que a atracção do ganho raramente levou algum delas a cometer algum tipo de acção desonesta.»

James Murphy [1760-1814] – Travels in Portugal […]. Londres: A. Strahan, and T. Cadell and W. Davies, 1795.

19 de março de 2010

Qualquer semelhança é mera coincidência.

«Havia na Arábia um pequeno povo chamado Troglodita, que descendia daqueles antigos trogloditas que, se acreditarmos em historiadores, se pareciam mais com animais que com homens. Estes não eram assim não eram assim tão disformes: não eram peludos como ursos; não silvavam; tinham dois olhos; porém, eram maus e tão ferozes, que não existia entre eles um princípio algum de equidade e de justiça.

Tinham um rei de origem estrangeira, que, querendo corrigir a maldade da sua natureza, os tratava severamente. Porém, eles conjuraram contra ele, mataram-no e exterminaram toda a família real.

Tendo sido dado o golpe, reuniram-se para escolher um governo, e, depois de muitas dissensões, criaram magistrados. Porém, mal eles foram eleitos, logo se lhes tornaram insuportáveis e mais uma vez os massacraram.

Este povo, liberto deste novo jugo, já só consultou o seu natural selvagem; todos os particulares concordaram que não obedeceriam a mais ninguém; que cada um olharia apenas pelos seus interesses, sem consultar os outros.

Esta resolução unânime seduzia extremamente todos os particulares. Diziam "Para que vou eu matar-me a trabalhar para gente que não me interessa Só pensarei em mim; viverei feliz.
O que me importa que os outros o sejam? Satisfarei todas as minhas necessidades e, uma vez que as satisfaça, não me preocupa que todos os trogloditas sejam miseráveis."

Estava-se no mês em que se semeiam as terras. Todos disseram: "Só lavrarei o meu campo para que ele me forneça o trigo de que preciso para me alimentar; uma maior quantidade seria inútil para mim; não vou ter trabalho sem motivo."

As terras deste pequeno reino não eram da mesma natureza: havia terras áridas e montanhosas e outras que, num terreno baixo, eram banhadas por vários regatos. Nesse ano, a seca foi muito grande, de maneira que as terras que estavam nos locais elevados não produziam absolutamente nada, enquanto que as que puderam ser regadas foram muito férteis. Assim, os povos das montanhas pereceram quase todos de fome pela dureza dos outros, que recusaram partilhar com eles a colheita.

O ano seguinte foi muito pluvioso; os lugares elevados foram de uma fertilidade extraordinária, e as terras baixas ficaram submersas. Metade do povo passou um segunda vez fome; porém, estes miseráveis encontraram pessoas tão duras quanto eles próprios o tinham sido.»

Montesquieu, Cartas Persas

3 de março de 2010

Dos oportunismos #

O oportunismo é a única linha condutora entre todos os sistemas, entre todos os regimes. E os portugueses fazem galhardia da capacidade que possuem de serem oportunos. De resto os políticos são generosos em encher-lhes a gamela, que nunca muda, independentemente de todas as cabeças que rolam. Esperemos que continue a engordar, que coma bem, este portuguesinho sério, tecnocrata e careca, que coma até quase não conseguir apertar o aventalzinho da loja até, das duas uma, ou estourar, ou esvair-se naquilo que sabe melhor produzir diariamente.
Isto também é o que eu penso.

22 de fevereiro de 2010

Eis a república portuguesa.

Ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX fomos sempre vistos com paternalismo, sobretudo pela cultura inglesa. Primeiro pelos britânicos que em troca de lã nos sorviam o vinho, olhando com desprezo quem lhes pisava o néctar divino. Depois, mais tarde, pelos norte-americanos que, num misto de curiosidade e desinteresse, respigavam estes apontamentos de folclorismo criado pela Segunda República de Portugal, ou Estado Novo de cujos resquícios nos não livramos tão cedo. Para eles seremos sempre típicos. Do Zé Povinho à Vianesa, passando pelo Galo de Barcelos fomos nós que nos criámos, que aceitámos que nos modelassem e que nos promovemos desta forma. Podemos julgá-los pelo olhar que têm de nós?

10 de janeiro de 2010

A renovação na continuidade.




António há-de morrer!
A Oliveira há-de secar!
O Sal há-de derreter!
E o azar há-de acabar!


O António já morreu!
A Oliveira já secou!
O Sal já se derreteu!
O azar não acabou!

(popular)

4 de novembro de 2009

Castas Corruptíveis.

Nos grandes ninguém toca, porque os pequenos não deixam, ou não querem, respondo eu a Mário Crespo. Quem não vê com benevolência as pequenas maroscas portuguesas? O desenrasque-se quem puder? o chico-espertismo de que falava Eduardo Prado Coelho e todos os filósofos de ontem e de hoje? Enquanto houver uma cultura de facilitismo, os grandes roubam e ainda dão grandes lições de vida ao vulgar português: roubar compensa e é um modo de vida como qualquer outro. A mudança tem de começar de baixo para cima, porque o topo já está podre. Quando a copa de certa árvore está atacada da moléstia, não há se não esperar que seque para a arrancar e plantar outra. Devemos fazer os possíveis para que a próxima não venha contaminada.

28 de setembro de 2009

O Limbo de Sócrates.

A minha reacção inicial foi de espanto, face aos resultados quer do PS, quer do BE (quando ainda se pensava que este partido iria ser a 3ª força política no Parlamento), mas hoje, passado o rush da noite, o panorama é muito mais sereno. Com Sócrates absolutamente refém dos outros partidos, o Parlamento vai ser muito mais o verdadeiro centro de decisão do país. Menos autismo do Governo, porque obrigado a ouvir e a ceder, talvez (mas sublinho o talvez) Portugal deixe de ter um programa político autocrático. Mas ainda que o CDS seja, efectivamente, o vencedor desta eleições, não posso deixar de ficar preocupado com o alcance do BE. Enquanto toda a Europa vira à Direita, Portugal escolhe a esquerda radical, extremista, mísera e mesquinha que depois de morta (lembrem-se do ex-PSR) é hoje rainha, que diz repugnar o poder e viver, apenas, para a oposição. Só que Portugal não vive de oposição. O país devia regular-se por medidas englobantes e inclusivas e não por temas fracturantes. Não sou sociólogo, nem politólogo, mas julgo que uma estudo sobre o eleito-tipo do BE poderia explicar o cenário actual: do jovem rebelde, passando pelo universitário das causas, até aos intelectuais deslumbrados (e, nestas eleições, a maioria da classe docente), o voto atribuído ao Bloco de Esquerda é um voto inútil. Não serve ninguém em particular e constituiu uma espécie de enfeite da nossa Democracia pobre e diminuída que se encanta com a canção do bandido. O Louçã melífluo é como o arauto de um Evangelho que vem eliminar da face da Terra a pobreza, exclusão e a injustiça (mas Louçã, simples opositor, nada faz). É, porém, como sopa no mel para uma população iliterata, que mergulha num caldo de pobreza material e pobreza de espírito. Foi aliás outra franja desta população que respondeu ao chamamento do subsídio e ao medo de o perder, votando PS. Sócrates não perdeu, mas também não ganhou. Está no limbo. Resta saber se nos levará ao Paraíso ou ao Inferno.

P.S. No seguimento do que referi acima sobre o BE não posso deixar de destacar o facto de o PCP/CDU esvaziar-se em detrimento daquele partido. Reconheço no Partido Comunista (e embora esteja muito distante dos seus apoios ideológicos, do presente e do passado) a coerência, a firmeza e a sinceridade política que falta ao Bloco. O PC sempre se destacou na luta pela Democracia e pelos direitos dos trabalhadores, sem cair nos maniqueísmos fracturantes com que o Bloco acena à juventude rebelde e «bem». Ao erguer-se sobre um certo eleitorado de esquerda, o Bloco ocupa um lugar que não é o do PCP e que se deixar de existir não será certamente compensado pela mistura agri-doce que tem hoje como porta-voz o Dr. Francisco Louçã, projecto de Robespierre português.

30 de março de 2009

Nuno Gonçalves (c)
No próximo dia 2 de Abril, em Lisboa, no Hotel Fénix, vai acontecer um leilão de livros, fotografia e manuscritos organizado pela Otium Cum Dignitate. Recebi o catálogo e não resisti a digitalizar esta fotografia. Integra um vasto espólio fotográfico da autoria de Sebastião Cunha sobre o funeral do senhor Doutor António Oliveira Salazar. Esta belíssima fotografia condensa meio século de ditadura e perniciosa modelação do carácter nacional: numa pomposa cama, Salazar, de capelo universitário tendo nas mãos uma enorme cruz e terço jaz em cadáver magérrimo (*) de mãos longíneas. Ao lado, uma Maria enlutada (como as mães de província choram filhos e maridos ausentes) carpe a morte do senhor doutor, velado por uma Nossa Senhora de Fátima em plástico e uma pagela de Santa Teresinha de Jesus. Eis o providencial salvador da pátria, que honrou os tamancos do pai transformando Portugal numa enorme horta regida com mãos calejadas pela enxada e pela pena.
(*) O Prof. J. Oliveira chamou-me a atenção para a forma magérrimo como forma desconhecida ou incorrecta do superlativo sintético de magro, sugerindo, em alternativa, macérrimo ou magríssimo. Contudo, como refere o site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, «o "Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, Michaelis" regista magérrimo como superlativo absoluto sintético de magro, embora considere este termo uma forma anormal, sendo a correcta macérrimo. Ainda regista magríssimo. A "Nova Gramática do Português Contemporâneo" de Celso Cunha e Lindley Cintra só refere macérrimo e magríssimo. O "Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa" de D. P. Cegalla diz, na entrada macérrimo, o seguinte: "(...) A forma magérrimo é anormal. Prefira-se macérrimo (forma erudita) ou magríssimo (forma vulgar)."Contudo, já o conceituado "Dicionário de Questões Vernáculas" de Napoleão Mendes de Almeida só refere, para superlativo sintético de magro, as formas magérrimo e magríssimo». Conferir aqui. Assim, considerando certa as formas apontadas pelo caro amigo, e embora magérrimo não seja comum, não se considera incorrecto utilizá-la.

23 de março de 2009

Da devassidão dos tronos e da moralidade republicana.

(Centenário da República)

Um dos argumentos de muitos republicanos que conheço é o de que as monarquias foram, ou são, antros de devassidão. Não usam esta expressão mas a ideia soa ao mesmo, ou seja, pela sua ordem de ideias, a uma devassidão monárquica equivale a uma certa "moralidade republicana", uma espécie de heterossexualidade monogâmica. Logo aqui há uma incongruência, pois é à monarquia que se reputam valores tradicionalistas de família e não à república que tanto pode ser entregue nas mãos de um solteiro ou de um casado. E a devassidão, como nós sabemos, não é apanágio da realeza, se não dos homens e das mulheres, comuns mortais. Depois, vem a questão da representatividade. Segundo os republicanos (ou não-monárquicos) um rei não representa o conjunto total dos cidadãos. É verdade. Haverá sempre uma franja de insatisfeitos. Num estado presidencialista a coisa piora. Além dos sempre insatisfeitos, há os não votantes e os que não votaram num dos candidatos propostos, cada um deles representando ou um partido político, ou uma facção ideológica ou um grupo económico. Cinco ou seis candidatos servem os interesses da maioria de uma nação? É óbvio que não. O ideal seria que um comum cidadão pudesse ser eleito apenas pelas suas ideias e não pelos lobbies ou por fundos monetários conseguidos de forma pouco clara. Depois segue-se a questão histórica. A História, segundo os republicanos, é uma sucessão de erros monárquicos: batalhas, amantes, guerras fraticidas. Só em Portugal, dizem, tivemos um rei que bateu na mãe, um que levou o país à ruína e à perda da independência e outros dois que puseram os seus súbditos uns contra os outros. Os mitos são perigosos, sobretudo quando usados por ideologias e políticas. Embora não goste de julgar a História, é verdade que, em todos os tempos, em todos os regimes e estados houve necessidade para tomar o poder - e só ao poder se deve apontar a causa de todos os males dos bons e maus governos, dos bons e maus governantes. As estratégias são comuns a monarquias e repúblicas. Devo lembrar, aliás, que o período republicano de Roma, em que se lançavam as bases para os regimes presidencialistas actuais os golpes sucediam-se vertiginosamente. Portugal do século XX é a prova de que uma república não foi, de modo algum, a solução para o país. A instabilidade que se conhece entre 1910-1926 deu origem à mais longa ditadura de todos os tempos: quarenta e oito anos de uma odiosa e perniciosa noite de governação que teve à frente dois homens: um "moralmente devasso", beato e atávico que incutiu na já melancólica personalidade dos portugueses, a máxima do pobre e alegre, do incapaz mas honesto, do frugal e atreito às coisas simples; e outro, mais culto e aberto, mas nem por isso capaz de democracia. É possível comemorar uma república de 100 anos, em 2010, quando metade deles foram debaixo de uma ditadura? Tenho a certeza que não. Há efemérides que não se devem comemorar. A república portuguesa que continue, discretamente o seu papel para o qual se talhou, e não faça grandes ondas - que a vergonha e o saber reconhecer os erros são apanágio dos sábios, não dos tolos. E não devemos continuar a julgar a História. Devemos pesar na balança da contemporaneidade as vantagens entre monarquia e república. E para isso basta olhar à nossa volta. Afinal que desvantagens encontram os outros nas suas monarquias? Não me parece que a Espanha, a Noruega, a Suécia, a Dinamarca, e mesmo o Reino Unido (Canadá e Austrália incluídos) estejam insatisfeitos com o regime que têm. Mil vezes uma monarquia excessiva como a Inglesa, a uma república de paz podre como a portuguesa.

21 de março de 2009

A tal portugalidade (em verso).

Álbum "Companhia das Índias"
Música "Morremos a rir"
(Rui reininho/Slimmy) (c) 2008
À partida
num quarto escuro sem roupa dorme a miss Velha Europa
acorda na Grande Migalha da China
sonhava ter descoberto a América ao sair da tropa
a escrava africana soprava as velas à pequenina

Venham mais mouras e celtas vândalos poetas
marquises de alumínio romenas, ciganas mas mais indianas
florbelas, cancelas abertas sem condomínio

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá subir sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
morremos a rir

Alguém sabe onde é o Quinto Império
alguém sabe onde mora o terceiro mundo
Venham mais mouras e celtas vândalos poetas
marquises de alumínio romenas, ciganas mas mais indianas
florbelas, cancelas abertas sem condomínio

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá subir sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
vamos adorar o TGV chegar
vamos aterrar sem sair do hangar

Fomos todos parir se o esperma permitir
morremos a rir

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá voar sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
morremos a rir
morremos a rir
(a letra foi retirada daqui, com algumas correcções)

20 de março de 2009




Entre os meus "impulsos" consumistas e alfarrabísticos estão os retratos fotográficos e as cartas. Por razões que ultrapassam em muito a análise do processo heurístico. Seduzem-me os rostos e os fragmentos de um discurso interrompido. Em ambos os casos, quer no das fotografias, quer no da correspondência pessoal, esvaziaram-se os elos físicos que ligavam emissores e receptores, ouvintes e falantes. Eu, por muito que tente, nunca saberei o "porquê", ainda que prescrute sinais do "onde" e do "como". Não é como reconstruir um vaso partido cuja quebra foi fixada por camadas e camadas de terra - o "vaso" a que me refiro era constituído por indivíduos e cada um deles, na sua morte, ocultou o invólucro, deixando apenas vaga ideia da sua forma, do seu uso e dos seus significados. E, no entanto, ali está o morgado, face serena mas inquieta, acompanhado pelos seus quatros filhos, encaminhados, talvez, para uma carreira nas letras representada pelos livros colocados de forma tão aleatória como simbólica. A mãos nos ombros, a posição ordenada do filho mais novo para o mais velho, peças organizadas num cenário montado sobre um cartão (no fundo, a sociedade do seu tempo) e cada um deles a olhar para nós numa iminência de diálogo que, tão tristemente, acaba num monólogo interior. "Família do Douro, Armamar (?)"; positivo sobre papel, séc. XIX (finais), col. particular (adquirido num alfarrabista do Porto, a 17-3-2009.

22 de dezembro de 2008

"PJ detecta fraude de 6 milhões no subsídio de desemprego" (DD)

Tanto cuidado em vigiar o generoso subsídio de desemprego dos cidadãos - generoso é palavra utilizada pelos tecnocratas do Banco de Portugal - uma vigilância apertada que obriga os desempregados a termo de identidade e residência, numa apresentação quinzenal que não serve se não o aumento considerável de burocracia e agora...isto: verdadeiros assaltos perpretados de dentro. O que dirá o Governador do banco de Portugal a estes assaltos? Serão muito ou pouco generosos?

27 de novembro de 2008

Nos tempos que correm...

"O Rei surge como a única força que no País ainda vive e opera."
Eça de Queirós, referindo-se a Dom Carlos I, um vencido da vida. Quem vive e opera, hoje?



...sabe bem recolhermo-nos na leitura dos pensamentos dos Vencidos da Vida. A razão estava e está do lado deles.


Combater apenas o analfabetismo do povo por meio de escolas primárias e de escolas infantis sem religião e sem Deus, não é salvar uma civilização, é derruí-la pela base por meio do pedantismo da incompetência, da materialização dos sentimentos e do envenenamento das ideias. Quem ignora hoje que foi a perseguição religiosa e o domínio mental da escola laica o que retalhou e fraccionou em França a alma da nação? Quem é que nesse tão amado, tão generoso e tão atribulado país não está vendo hoje objectivar-se praticamente o profético aforismo de Le Bon: «É sobretudo depois de destruídos os deuses que se reconhece a utilidade deles»!